J. G. De Araújo Jorge (Vozes Femininas)


Para o observador desavisado, a impressão é a de que no Brasil de nossos dias, apenas um nome de mulher se impõe entre os grandes poetas, o de Cecília Meireles. Na verdade, ultimamente, a crítica brasileira tem esquecido injustamente muitos valores expressivos da nossa poesia feminina.

Ainda agora, ao lançar, inteiramente refundida, a terceira edição de “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”, volume I, poesia brasileira, contendo quatrocentos sonetos de todos os tempos e escolas, relendo suas provas comprovei essa realidade, diante de peças líricas da maior beleza e emoção, assinadas por nossas poetisas. E figuram no volume, entre outras, mais antigas, ou mais recentes: Amélia Tomás, Ana Amélia, Beatrix dos Reis Carvalho, Benedita de Melo, Carmem Cinira, Colombina (Ylde Schloembach), Corina Rebuá, Cíntia Castelo Branco, Francisca Júlia, Heli Menegali, Gilka Machado, Henriqueta Lisboa, Ilka Sanches, Itacy de Souza Teles, Lilinha Fernandes, Maria Eugênia Celso, Maria José Giglio, Maria José Aranha de Resende, Maria Sabina, Maria Teresa de Andrade Cunha, Nísia Nóbrega, Seleneh de Medeiros, Vivência Jambo da Costa, Vicentina de Carvalho, e mais algumas, todo um grupo de nomes, no mesmo plano em que se encontram nossos melhores poetas.

Nas exíguas proporções de nossa crônica, gostaríamos de destacar quatro vozes líricas, de diapasões diferentes, inexplicavelmente silenciadas ou desconhecidas do grande público. Uma, já desaparecida; três delas, ainda em nosso convívio, muito embora seus cantos se percam na azoada vida contemporânea, onde música e ruído se confundem, onde poesia e charada se identificam.

Quem se lembra de Carmem Cinira? Carioca, falecida com menos de trinta anos, em 1933, seus versos eram publicados por jornais e revistas na última década de sua vida. De uma poesia simples, comunicativa, encontrou no soneto uma de suas formas preferidas de expressão. Selecionei de Carmem Cinira três sonetos para a antologia, um deles, realmente antológico, copiado nos cadernos de poesia, obrigatoriamente incluído em qualquer seleção no gênero. É o intitulado.

INCANSÁVEL

Velho sonho de amor que me fascina,
causa das mágoas que me têm pungido
e que, entanto, conservo na retina
como a fonte de um bem inatingido…

Flana velada, cântico em surdina
de uma alma triste, um coração ferido,
nem pode haver linguagem que defina
o que eu tenho, em silêncio padecido!

Mas, ainda que mal recompensado
meu amor há de sempre desculpar-te
humilde, carinhoso, devotado…

Bendito seja o dia em que te vi,
pois não há maior glória do que amar-te
nem melhor gozo que sofrer por ti!

Citemos agora o nome de uma das maiores poetisas brasileiras de todos os tempos: Gilka Machado. De uma poesia sensorial, de ritmos quentes, pletórica de imagens, Gilka dá continuidade à melhor tradição de nossa sensibilidade e de nossa etnia. Permanece entretanto em silêncio, um injustificado silêncio que nos priva de seus versos tão cheios de belezas. E aqui fica uma pergunta aos nossos editores: porque não reeditar a obra de Gilka Machado, ou pelo menos um volume de suas poesias escolhidas?

Certos antolhos críticos, estreitas convenções estéticas vêm sufocando o que de melhor existe em nossas letras. Gilka Machado é uma vítima dessa “segregação”. Vou escolher ao acaso, um dos quatro sonetos que incluí na antologia:

SONÊTO

Sob o céu, sobre o mar, dentre um profundo
silêncio de ermo, em meio às rochas nuas,
aninhamos na noite, como duas
aves, ébrios de nós, longe do mundo.

Em teus olhos de treva ardiam luas;
errava um cheiro, não sei onde oriundo;
e minhas mãos, de tuas mãos no fundo,
tinham desejos de morrer nas tuas.

Sangrando luz, pendida a trança flava,
uma estrela do além se despenhava…
- Sorriste olhando-a, entristeci-me ao vê-la…

Com a alma em fogo, pela noite fria,
em vertigens de amor eu me sentia
rolar no abismo como aquela estrela.

Destaquemos em seguida, aquela que poderíamos chamar de a nossa Virginia Vitorino: Benedita de Melo. Exímia sonetista, com um verso musical, tal como a grande poetisa portuguesa, Benedita de Melo possui apenas um livro publicado: “Luz da Minha Vida”. E é realmente a sua luz, pois a poetisa cega encontra na poesia seu iluminado mundo interior. Sua lírica vem valorizada pela capacidade de fixar conflitos psicológicos e situações do cotidiano. Um dos mais belos momentos de inspiração é este

VERGONHA

- “Menina!” Disse alguém, no grande instante
em que era dividido em dois um ser…
E essa palavra, pelo mundo avante,
foi meu santo orgulho de viver…

Ser menina. Ser moça. Ser constante.
Ser caráter. Ser honra. Ser dever.
Por mais tropeços que encontrasse adiante
nunca me entristeci de ser mulher.

Mas veio o Amor. Veio a traição ferina
e todo o orgulho meu de ser menina,
roubou-o a sorte, malfadada e crua;

e veio a dor, e veio a mágoa, o tédio,
e a vergonha escaldante e sem remédio
de ter sido mulher para ser tua.

Finalmente, uma outra poetisa de que poucos terão ouvido falar. E a razão é a mesma: possui também apenas um livro publicado. Uma coleção de poemas e sonetos líricos: “Primavera, Escuta…”

Conhecia-a há anos, muito mocinha, em Friburgo. Sei que se casou, que reside em São Paulo, que é uma dona-de-casa feliz, às voltas com todos os problemas rotineiros de um lar. Telefonou-me faz algum tempo, quando lancei a primeira edição da antologia, para agradecer-me o fato de “tê-la incluído entre tantos poetas consagrados”. Mas não fiz favor. Maria Teresa de Andrade Cunha, este o seu nome de solteira, o seu nome literário, disse-me também que não tem mais tempo para a poesia. Não acredito. Estou certo de que apenas recolhe o canto, até nova surpresa. É uma poetisa como as demais, neo-romântica, de expressão moderna. Se poesia é emoção e simplicidade, Maria Teresa faz poesia, e da mais pura. Vamos ouvi-la, numa homenagem à sua arte e à de Friburgo daquele tempo, com o seu soneto:

QUERIA QUE CHEGASSES

Festiva, em frente, se ergue a serrania
tocada de um dourado cambiante;
queria que chegasses neste instante;
nem sabes como está bonito o dia!

Anda no ar transparente uma alegria
uma alegria imensa, delirante…
Como está perto o azul do céu distante!
Que perfume e que luz, na tarde fria!

Queria que chegasses de surpresa.
É tão maravilhosa a natureza,
juncando esse caminho, há tanta flor!

…Sairíamos juntos, devagar…
Sem destino, sem pressa de voltar
de mãos dadas, felizes, meu amor!

Fonte:
JORGE, J. G. de Araújo. No mundo da poesia. Edição do autor, 1969.

J. G. de Araújo Jorge (Verão, Compromisso com a Felicidade)


Uma vez um amigo meu estranhou que “chovesse tanto” em minha poesia. A chuva -disse-me ele – é uma constante em vários poemas, e em todos os seus livros. Curioso com a observação passei os olhos por minha obra. Mas se constatei, realmente, que escrevi muitos poemas sugeridos pelos dias de chuva, nem por isso, homem que sou dos trópicos, escapei às influencias poderosas do sol, do verão.

Confesso até meu “estranho remorso” num poema de “Eterno Motivo”:

“Às vezes, quando escrevo feliz uma poesia,
me assalta um estranho remorso, incompreensível,
que não sei de onde vem:
Quem sabe? Pode ser que esse meu canto de alegria
faça mal a alguém…
meu irmão triste, meu irmão doente,
perdoem-me a cantiga frívola e contente,
que me fugiu dos lábios na manhã alvissareira
de verão…
Ela brotou sem querer na minha felicidade!
É que eu trago uma cigarra cantadeira
e imprudente/ dentro do coração!”.

Um dos sonetos meus mais difundidos é justamente aquele “Bom dia Amigo Sol!” que está no mesmo livro. Lembram-se?

Bom dia amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara!
Deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entra! Vem surpreende-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara,
na intimidade que a deixei, repara
que a sua carne é branca como a lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho…
Que não repares no seu desalinho
nem no ar, cheio de sombras, de cansaços…

Entra! Só tu possuis esse direito
de surpreende-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito…

Ainda no mesmo livro, além do “Desejos na Manhã de Sol”, há uma verdadeira declaração de amor à manhã, vale dizer ao dia, ao sol: “A manhã é a minha namorada.” “Ela entrou no meu quarto trêfega e contente/ e com seus dedos de sol tocou nos vidros e metais/ mexeu em tudo que viu/ e espiou para os lençóis da minha cama desfeita…/ Depois, fugiu…/ Lá se foi pelo caminho com as mãos cheias de pássaros/ levada pela aragem numa doida correria,/ rasgando seu vestido/ de galho em galho…/ e as contas do seu colar espatifando-se no espaço/ eram gotas de orvalho…”/.

Sim, mas terei de confessar que a noite é a minha companheira, e com ela as madrugadas. Sou um nostálgico do silêncio das sombras. A luz grita, o sol atordoa. O verão é um desafio constante. Parece jogar-nos na cara todos os instantes: “Vê se consegues ser claramente feliz como eu!”

Um dia de verão é um compromisso com a felicidade. E ai dos que não podem sintonizar o coração com a harmonia e a luminosidade do mundo ao redor. São esmagados. Por isso escrevi aquele “Manhã para se Ser Feliz” que está em “Espera”.

Esta é uma manhã para se ser feliz
em algum lugar, de algum modo
- é uma manhã para se ser feliz…

Esta é uma manhã para dois, para dois juntos
abraçados e tontos num remoinho,
não como nós, eu aqui, diante do sol, das árvores, de tudo
envergonhado porque estou sozinho…

Esta é uma manhã que me fala de ti
na transparência do ar,
neste azul do céu, imaculado,
na beleza das coisas tocadas de sonho
e imaterialidade…

Uma manhã de festa
para se ser feliz de verdade!
Esta é uma manhã
para te ter ao meu lado…
Quando Deus fez uma manhã como esta
estava com certeza apaixonado!”

E eis a razão das fugas constantes para os dias de chuva, dias que parecem feitos para a solidão; quando mesmo sozinho, não sabe tão funda a tristeza. Ficou-me na alma e no ouvido, além do mais, aquele rumor da chuva nos telhados de zinco da minha infância, no Acre. Daí, entre tantos, aquele poema em forma de oração, do “Cantiga do Só”:

Irmã chuva, com teu manto cor de cinza
teus olhos embaciados
teus gestos mansos,
solidária com as nossas fadigas
que acaricias nosso tédio com teus dedos molhados
e embalas nosso coração sussurrando baixinho doces cantigas…

Irmã chuva, que sempre vens quando ficamos doentes
de sol
ou de alegrias,
exaustos de verão e de calor,
e que, com teus gestos suaves e compressas frias
acalmas nossa fronte ardente
e adormeces nosso amor…

Irmã chuva… Que bom teres chegado assim, tão calma…
Pareces que adivinhas a aflição da minha alma…
Ainda bem, que mansamente
E inesperadamente,
Vieste me ver…

Irmã chuva, que aconchegas o coração da gente,
para a gente adormecer…

Fonte:
JG de Araujo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969

J. G. de Araújo Jorge ("Vamos Voltar Pra Casa ?")


Uma hora “sagrada” para mim é a hora da volta. A hora de voltar para casa. Acredito que seja uma “hora sagrada” para quase todos os homens.

Ao fim do dia de trabalho, de preocupações, de luta, atirado ao mundo ilimitado de interesses e ambições, aquela expectativa de paz, de aconchego, do seu pequeno mundo entre quatro paredes.

Os ingleses tem uma doce palavra que define esse porto de volta – “home”.

É o nosso lar.

Tenho uma pena infinita daqueles que não podem voltar, ou não tem para onde voltar. São como pássaros que tivessem que permanecer em vôo, sem o embalo de um ramo, ou a quentura de um ninho.

Na pressa do retorno, no fim da jornada, quando procuro os meios de condução, vez por outra surpreendo na ruas, nos bancos das praças, os vultos indigentes dos que não voltam, dos que terão de ficar, dos que vêem chegar a noite, indiferentes ao estranho burburinho humano que lembra o dos pardais, nas árvores da cidade.

Então, não consigo evitar que um pensamento amargo turve o meu apressado egoísmo. E uma tristeza inevitável esvoaça por momentos como uma borboleta negra que entrasse por uma janela aberta.

Todos nós, diariamente, ao entardecer, somos como marinheiros de nós mesmos; navios que se avizinham do porto de origem. ansiamos por avistar a paisagem do coração, por encontrar os que nos são caros, os que justificam as partidas de todo dia, o cotidiano exílio do trabalho.

Em muitos trechos de minha poesia tenho fixado as emoções que essa hora me suscita. Sou um homem que acha que, até mesmo nas viagens de puro prazer, a grande alegria é a volta. Quase se poderia dizer que a gente parte antegozando hora de retornar., transformar as uvas colhidas no vinho doce das lembranças, servido entre amigos.

Tal como se diz dos namorados: que brigam pelo prazer de fazer as pazes. Uma viagem é uma “briga de namorados” com a vida. A gente larga o que gosta, para sentir saudades, e voltar mais apaixonado ainda.

Gostaria de citar para vocês os muitos poemas que escrevi, cantando a alegria de voltar. Sim, bem sei que tenho muitos outros poemas falando do desejo de partir, de perder-me em dionisíacos descaminhos. Mas, no fundo mesmo, o que prevalece é o sentido das raízes que prende o homem ao seu chão, que lhe permite, nos momentos de pausa, crescer e encher-se de flores, frutos e pássaros.

Na exígua moldura desta página, eis duas faces de um mesmo canto.

Tiro primeiro, de “Harpa Submersa” um trecho de :

COLÓQUIO PROSAICO

Porque as coisas que me cercam se impregnam de poesia,
porque lhes transmito minha convivência
é que posso amá-las e senti-las com a perspectiva
da minha emoção.
Oh, felizes são aqueles que encontram os objetos amados
nos seus lugares, ao seu redor,
e possuem o Dom de transubstanciar-se em seu próprio mundo
cercado por uma imensa família
mesmo em solidão.

Seres de nosso mundo
os jarros, os quadros, os livros, as cortinas,
a janela, a cama, a mesa,
são velhos companheiros – formas estáticas de pensamentos-
são velhos confidentes, testemunhas silenciosas
de nossos conflitos,
estátuas de mil figuras e personagens
representando-nos em mil instantes diversos…

Cada um, é um momento múltiplo, onde se agrupam tantas idéias
tantas conjeturas e solilóquios,
fazem parte de nossa vida e se encontram nela, vivos
como a cena no personagem.

Depois, de “a Outra Face” este monólogo lírico que intitulei:

Meu Mundo

Toda tarde digo para mim mesmo:
afinal, eis o meu mundo.

O mesmo beijo, o mesmo quarto claro, com seu assoalho brilhando
refletindo o meu passo;
as mesmas paredes brancas me envolvendo com afáveis gestos de paz;
o mesmo rádio silencioso, entre livros empilhados, a mesma estante fechada
que a um gesto meu descobre tesouros como velha mala de pirata.

Afinal, eis o meu mundo.
A mesma insubstituível companhia, a mesma presença até quando longe dos olhos,
a mesma voz perguntando, a mesma voz respondendo,
o mesmo odor suave da janta, do tempero cozinhando,
a mesma impressão de quem chega de ombros nus e veste ajudado
um macio agasalho.

Afinal, eis o meu mundo.
Como o pescador solitário, diante do primeiro ramo:
- afinal, eis a terra!

E por isso é que acho que defini a felicidade naqueles dois versos de um poemeto de “A Sós”:

Gostaria de poder de repente te dizer:
– vamos voltar pra casa!

Fonte:
JG de Araujo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969

J. G. de Araujo Jorge (Uma Estrela Para Você)


É hora da gente pensar como no poema: “Um dia…”

Um dia… E para nós há sempre um dia
que tudo modifica de repente,
dando outro rumo, inesperadamente,
ao caminho que a gente percorria…

E então, a hora inesperada de alegria
se transforma em tristeza, rudemente,
ou a dor se desfaz, e a alma sente
imprevisto prazer que não sentia.

Ouço falar assim desde menino
e me deixo ficar, sempre esperando,
por esse estranho dia do destino…

E às vezes, esta espera me intimida,
porque não sei o que trará, nem quando
chegará esse dia à minha vida…

Não me lembro. Mas talvez tenha escrito este soneto num fim, ou num começo de ano, quando inexplicavelmente nos deixamos ficar com a alma em suspenso, como se alguma coisa tivesse, ou estivesse para acontecer. Fim de ano é época propícia às velhas superstições. Todos nós, mesmo os mais céticos, os mais materialistas, percebemos que nosso pretensioso racionalismo se turva, que resíduos místicos vêm à tona agitados sabe-se lá por que misteriosos elementos.

Afinal, a Terra completou mais uma volta em torno do Sol, tal qual fazia nos tempos dos faraós egípcios, e dos “patesis” sumérios. O que não impediu que muitos povos, através da história, comemorem o ano solar de formas diversas, como os gregos, os russos, os mulçumanos, os judeus. Mas todos nós, povos cristãos, o festejamos da mesma maneira e na mesma ocasião, desde a reforma gregoriana.

E então, a 31 de dezembro, à meia-noite, atordoados pelo rumor da alegria nos salões e nas ruas, por entre contos fetichistas e marchinhas carnavalescas, ressurgem em nós crenças e temores que julgávamos desaparecidos. Já não discutimos a força dos signos, nem as previsões dos horóscopos.

De súbito, acreditamos no Destino e na Felicidade, que ganham a força de entidades, de uma efêmera religião que nasce e morre ao espocar das garrafas de champanha, ou enquanto se derretem as velas de cera dos rituais pagãos a Iemanjá, à beira do mar.

Há um transe coletivo, em que todos se engolfam, nas festas de passagem de ano.

Vagamente se acredita que alguma coisa está terminando, e que algo de novo se inicia, e com esse algo de novo, novas oportunidades, novas possibilidades diante da vida. Você já experimentou se analisar naquelas horas, naqueles momentos, em que se comemora o Ano Novo?

Subitamente o Destino está presente, como um deus. É o Deus-Destino ao qual festejamos, diante de quem comparecemos, como as almas dos mortos egípcios, no tribunal de Osíris. E se não nos confessamos, e se não estamos em penitência pelos nossos erros e pecados, esperamos que ele nos absolva de tudo, e que nos dê aquela felicidade que ainda não conseguimos conquistar.

Exaltei-o nas quadrinhas:

Deus poderoso, maneja
nosso mundo pequenino…
Quem, por mais forte que seja,
tem mais força que o Destino?

Que somos nós? Indefesos
pobres bonecos, sem pés…
O Destino nos tem presos
aos seus estranhos cordéis…

E isto porque, todos nós, a cada nova manhã

Saímos, pelos caminhos
quais D. Quixotes, bisonhos,
lutando contra os moinhos
de vento, dos nossos sonhos!

A verdade é que, ao fim de cada ano, a cada ano novo, não podemos fugir às sugestões que a oportunidade suscita. Há um fato astronômico ? trezentos e sessenta e cinco dias, cinco horas, quarenta e nove minutos e doze segundos ? o tempo necessário para o nosso velho planeta completar a sua volta em torno do Sol, mas criamos com isso todo um mundo complexo de implicações emotivas e imaginosas, e então, sentimos, como se realmente nós também começássemos uma “volta” nova em nossas vidas. Mas, em torno de quê?

O fato é que realimentamos o coração de desejos. Que poderoso manancial de sonhos e esperanças há nesta simples expressão: Ano Novo! E todos nós nos desejamos, ardentemente, com estranha convicção: um feliz Ano Novo! Levantamos no tempo (o que é o tempo?) uma barreira quase material: o que passou, passou! Sim, há um ano novo, e poderá haver também uma vida nova. Estamos, na realidade, desejando: Feliz Vida Nova para Você!

E nessa hora de festa, é como se todos se sentissem obrigados a ser felizes. Como se temessem a tristeza como uma doença, ou como se receassem aparecer diante dos seus deuses com as máscaras de suas dores e de seus desenganos. As claridades que estão no céu não são apenas as de um novo dia, mas as de uma felicidade entressonhada, nunca tarde demais para chegar.

Estranho. Nessas ocasiões me acovardo. As festas coletivas me intimidam. Receio não ter forças nem condições para sintonizar com as grandes felicidades.

Naquele exato momento, entre o ano que finda e o que nasce, quando uma onda de alegria contagia a todos, quase que indistintamente, fico à margem, numa invisível praia solitária, como um náufrago. À toa, sem saber que fazer da vida. Uma das horas mais pungentes para mim, inexplicavelmente, é sempre aquela em que os ponteiros se casam na meia-noite do dia 31 de dezembro de cada ano. Enquanto sobem foguetes, espocam garrafas de champanha, tinem taças, ouvem-se cantos, bocas se beijam, abraços se estreitam, não consigo evitar meu invencível e súbito estado de levitação interior, entre atordoado a atônito.

Tal como no carnaval, ou no Natal, o último dia do ano me apanha sempre desprevenido. O encontro com essa felicidade barulhenta, exibicionista, que estoura como um petardo, me paralisa. Caio em mim, e sinto-me de repente, fundo, distante de todos, incapaz de segui-los, de entrar em seus “ranchos” e “blocos”. Como já escrevi, certa vez: Me sinto cada vez mais no “bloco do eu sozinho”. Desculpem-me esta cinza com que escrevo. Alguma coisa ainda se queima, e o vento trouxe. Resta o consolo de que alguma coisa ainda há para queimar, para arder. Podia ser pior.

Francamente, sou um homem incapaz de “entrar no Ano Novo”. Não sei que gostaria de fazer, quem gostaria de encontrar. Talvez porque não consiga mesmo distinguir essa “última noite” do ano de todas as outras noites. Não gosto das datas vermelhas dos calendários. Gosto dos feriados que a vida, avaramente, cada vez mais avaramente, decreta para mim. Meu Ano Novo começa qualquer dia e qualquer hora.

Me lembro, por exemplo, de que esse último dia do ano, enquanto a festa atordoante se diluía na noite, e pulsava em todos os segundo, eu me sentia um homem banal, perdido, sem contatos com a Terra. Receio muito que esteja me tornando, cada vez mais, um homem difícil, nesses tempos difíceis.

Mas, de coração, desejo felicidades para todos vocês.

Afinal o Ano Novo é um estado de espírito. Que o tenham, festejando como um Natal – algo novo que nasce, que brilha como uma estrela.

Sim, desejo a todos vocês uma estrela brilhante, neste Ano Novo que se inicia!

Fonte:
JG de Araujo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969

J. G. de Araújo Jorge (Sonetos Imortais)

Todos os sonetos citados nesta crônica encontram-se em minha antologia “Os mais Belos Sonetos Que o Amor Inspirou”. Volume I – Poesia Brasileira.

Na história da literatura brasileira temos o fato curioso de três grandes poetas que se celebrizaram apenas com um livro: Augusto dos Anjos, com “Eu e Outras Poesias”, Raul de Leoni, com “Luz Mediterrânea”, e Moacir de Almeida, com “Gritos Bárbaros”. Eu acrescentaria um nome bem mais recente, cuja obra “Cânticos Bárbaros”, mereceu em 1934 o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras: trata-se de Mário cruz, que vive em Petrópolis, e é técnico do Museu Imperial.

Por acaso, são todos poetas de minha predileção, em que pese à diversidade de estilos e temperamentos, ou justamente por isso. Mas, do mesmo modo que há escritores de um único livro, ou que se consagraram por uma de suas obras, há, entre os poetas, os que se celebrizaram apenas por um poema, um soneto.

O exemplo clássico é o de Felix Arvers, autor de “Mês Heures Perdues”, e que teria mergulhado no mais completo anonimato não fora o seu famoso soneto inspirado por Marie Nodier. Só em língua portuguesa há cerca de 200 traduções conhecidas.

No Brasil há alguns casos mais ou menos semelhantes. Autores de sonetos célebres, ou que se celebrizaram por um soneto, mas com muitas outras produções de valor pelo menos idêntico ao do trabalho consagrado. São por demais citados Bilac com o seu “Ouvir Estrelas”; Raimundo Correia, com “As Pombas” e “Mal Secreto”, e Machado de Assis, com “Carolina”. Carlos Ribeiro, o mercador de livros, me referiu que, às vezes, entram porta adentro de sua livraria e lhe perguntam à queima-roupa:

– O senhor tem aí a “Carolina”, de Machado de Assis?
(hoje há outra “Carolina” concorrendo com a de Machado de Assis: a do Chico Buarque de Holanda, poeta moço, que ainda se dá ao luxo de música nos belos poemas que compõe).

Citemos outros: Raul de Leoni está nos álbuns, nos recitais, na memória do povo, cada vez mais, com aquele soneto que não incluiu em sua obra, e que é apresentado ora com o título de “Perfeição”, ora com o título de “Argila”. Eu prefiro “Perfeição”. Quem não será capaz de dize-lo?

Nascemos um para o outro, desta argila
de que são feitas as criaturas raras,
tens legendas pagãs nas carnes claras
e eu trago a alma dos faunos na pupila…”

Mário Pederneiras, poeta carioca, cantor de sua cidade, hoje quase esquecido, ficou com seu “Suave Caminho”, de um lirismo envolvente:

“Assim, ambos assim, no mesmo passo…”

E o final:

“Placidamente pela vida iremos
calçando mágoas, afastando espinhos,
como se a escarpa desta vida fosse
o mais suave de todos os caminhos…

Nilo Bruzzi, o biógrafo de Casimiro de Abreu e Júlio Salusse, romancista e poeta conquistou seu lugar com um único soneto: “Única”. Pelos primeiros versos vocês se lembrarão logo:

“No turbilhão da vida cotidiana
há sempre oculto um rosto de mulher…”

Há outro poeta que não deixou se quer livro publicado, cearense, falecido em 1941, cujas poesias ficaram esparsas por jornais e revistas de sua terra: o Padre Antônio Tomás. Seu soneto “Contraste” é uma página que traz a marca da perenidade. Canta o poeta: “Quando partimos, no vigor dos anos,/ da vida, pela estrada florescente,/ as esperanças vão conosco à frente/ e vão ficando atrás os desencantos…” Mais tarde, no entanto, conclui: “Nós enxergamos claramente/ quando a existência é rápida e fugaz,/ e vemos que sucede exatamente/ o contrário dos tempos de rapaz:/ os desenganos vão conosco à frente/ e as esperanças vão ficando atrás!”

Julio Salusse, “o último Petrarca brasileiro”, apaixonado pela sua Laura, filha do Conde de Nova Friburgo, criou a imagem do amor eterno com o soneto “Cisnes”. Ainda hoje figura em todos os cadernos de poesia:

“A vida, manso lago azul, algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós, constantemente,
um lago azul sem ondas nem espumas…”

Alceu Wamosy, gaúcho, que morreu pelejando, com apenas 28 anos, imortalizou-se com os quatorze versos de “Duas Almas”. Quem não os sabe de cor?

“Ó tu que vens de longe! Ó tu que vens cansada
entra, e sob o meu teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada…”

Da mesma maneira, Da Costa e Silva, do outro extremo do Brasil, poeta piauiense, está na memória da gente, com o soneto “Saudade”, cujo terceto final ressoa como uma balada de sino:

“Saudade! O Paraíba, velho monge
as barbas brancas alongando… E ao longe
o mugido dos bois da minha terra…”

Quero encerrar, entretanto, esta crônica, com uma surpresa para vocês. Vou apresentar-lhes um soneto inteiramente desconhecido. Recebi-o de um amigo, num velho recorte sem data, já amarelecido, do “Correio da Manhã”, e certamente o incluirei na 3ª edição de minha antologia “Os Mais Belos Sonetos que o Amor inspirou”. O nome do poeta? Otávio Rocha. Não o conheço; nunca encontrei seu nome em qualquer citação. Mas arrisco-me a vaticinar-lhe a celebridade à proporção que se der a divulgação do soneto. Ei-lo na íntegra:

ROMANCE

“Venha me ver sem falta… Estou velhinha.
Iremos recordas nosso passado;
a sua mão quero apertar na minha
quero sonhar ternuras ao seu lado…”

Respondi, pressuroso, numa linha:
“? Perdoe-me não ir… ando ocupado.
Ameia-a tanto quanto foi mocinha
e de tal modo também fui amado.

Passou a mocidade num relance…
Hoje estou velho, velha está… Suponho
que perdeu da beleza os vivos traços.

Não quero ver morrer nosso romance…
- Prefiro tê-la, jovem no meu sonho,
do que, velha, apertá-la, nos meus braços!

Aí está, o mais velho e o mais belo dos temas, renovado sempre na poesia e no sonho de um poeta.

Fonte:
JG de Araujo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969

J. G. de Araújo Jorge (Retrato da Infância)


Felicidade é a gente poder olhar para trás e encontrar esse vago mundo em “sol menor” que se chama infância. Adivinhação da vida. Bem sei que, com muita gente, acontece essa coisa estranha: torna-se adulto sem ter sido criança. Ou, o que é pior: ter sido criança sem ter tido infância.

A infância, para mim, não é apenas e simplesmente uma idade, mas justamente aquele mundo de pequeninas coisas que tornam inconfundível na lembrança um tempo de alegria, um tempo em que conhecemos a felicidade sem ao menos nos apercebermos dela.

Uma vez escrevi:

“Infância mesmo
a gente só pode ter
depois de crescer.
Porque antes
a gente não sabe.”

Não é uma pena que a gente só descubra a infância depois que ela passou? Que ela seja como um sonho de que só temos consciência quando acordamos, já adultos? Ah, se pudéssemos retornar o sonho, tão próximo e tão distante, interrompido pela vida, para revive-lo plenamente, com a consciência, com os sentidos despertos.

Ocorrem-me agora aqueles versos:

“Mamãe – palavra azul, cor da distancia,
quem não pode algum dia pronunciá-la,/
nasceu, cresceu… mas nunca teve infância…”

Mas não quero referir-me somente aos que não conheceram seus pais, os que nasceram órfãos, os que nunca souberam o que significa um lar, mas aos que não tiveram a oportunidade de experimentar tantas e infinitas alegrias colhidas com liberdade e amor.

Os que nunca souberam pronunciar a palavra infância com todas as suas letras; não tiveram companheiros de aventuras; não sabem o sentido de coisas simples e inesquecíveis como bolas de gude, piões, papagaios, balões… Sou um homem feliz porque tive infância. E quantas vezes tenho fugido para ela, tentando reabastecer o coração de esperanças e ilusões. Sim: posso encontra-la viva, intensa, apenas volto o rosto, em cada curva da lembrança.

Por isso tenho escrito sobre suas recordações e sobre a sua eterna presença. Releio outro poema, ainda inédito:

“Ah, a infância, esse país de lenda
sem a ameaça da morte.”

Me lembro da minha infância: trago-a intacta dentro de mim, posso quase toca-la com as mãos. Nela fui rei e moleque. Ficaram em meu corpo suas marcas e cicatrizes e me orgulho delas como um combatente de suas medalhas. Cada uma tem uma história, encerra uma aventura. Vivi todos os seus riscos, junto aos companheiros. Ainda ouço a voz de minha mãe me repreendendo, quando voltava para casa:

– Já não disse que não quero você com aqueles moleques?

E quantas vezes ouvi também outras mães chamando por seus filhos e repreendendo-os com as mesmas palavras.

Me lembro de minha infância. Esbocei dela dois pequenos retratos no livro. A Outra Face. Um, com oito a dez anos, em Rio Branco no Acre, garoto solto, de beira-rio (sem o lirismo casiminiano), tomando banho nos igarapés, tirando alfenim na engenhoca, comendo cacau maduro na floresta; outro dos 11 aos 15 anos, aqui no Rio, em Botafogo, metido em “peladas”, e pescarias nas pedras atrás do morro da Viúva.

Fui rico de infância: tive uma, no interior, livre, em contato com a natureza, aprendendo com os bichos e as coisas; outra, na cidade grande, já sabido apavorando as tias, desencaminhando os primos; capitão de moleques.

O velho rio é a moldura da primeira, sublinha a sua paisagem. Pergunto por ele num poema ainda por publicar:

“Onde estás, rio Acre, de Rio Branco,
rio vermelho que o tempo azulou,
que corres para a distancia
e que foges de mim?
Rio Acre da minha infância
que sempre vais
de onde eu vim…”

No livro Amo! há outras reminiscências, em tantas perguntas:

“Onde estão aqueles olhos cheios de desejos puros
e que mesmo rebeldes
olhavam para os céus?
E aquela alma inquieta, como os caminhos
nos campos, os varadouros
e os igarapés alegres da floresta?
E aqueles lábios que não conheciam o sabor dos beijos
mas mordiam os bagos branquinhos e doces de ingá
e a polpa suculenta dos cajus?
Onde está o meu primeiro amor
a menina de cabelos negros
e de olhos da cor do rio
que nunca será esquecida?”

E a resposta inexorável:

“O tempo ladrão roubou/ de parceria com a vida…”

Me lembro de tudo. E quero fixar nesta página os traços do retrato mais distante, que ficou no Acre. Primeiro, a paisagem: a casa grande, coberta de zinco, com um l argo alpendre aberto para as mangueiras, cercada pelo milharal. E meu pai:

O “velho” pigarreando
de chinela, de pijama,
despacha papéis na sala.
O anspeçada no alpendre
o milharal com penachos,
as saúvas carregando
como fardos, grãos de milho;
arma o tempo, baixa o tempo,
barrica cheia entornando
cantando embaixo da calha.
Que bom o banho na chuva!

Depois a visão do engenho:

Tempo bom! Engenho rude
boi rodando, boi rodando,
- que pena no olhar do boi!
Moenda geme sozinha,
garapa sempre escorrendo,
tachada de mel virando
rapadura se fazendo,
cana raspada prontinha
alfenim branquinho, puro
que nem o sonho de Eudóxia.

Ao mesmo tempo, as recordações do grupo Escolar 7 de Setembro, primeira escola, curso primário da vida:

Festa no Grupo Escolar:
eu, apache, ela, duquesa,
pulseirinha feito cobra
que o preso fez na cadeia,
tem meu nome, o nome dela,
- primeira algema de amor.

E a vida livre:

Saguaçu voa na mata
baladeira estica, estica,
pedra parte, não vem mais.”

Lição de coisas:

“O touro
e a vaca pastam no campo;
o cavalo e a égua cruzam
nos terrenos da Intendência
à vista de D.Zefa
e do padre Bernardeli.
A molecada faz roda
seu padre faz que não vê.”

E a festa na vila, a “chata”que apitava lá em baixo, na curva do rio, junto da cadeia, anunciando a civilização.

“Sino tocando, tocando,
foguete no ar estalando
vestido novo, de seda,
chata trouxe de Manaus;
cara pintada, cabelo
com fita grande, parece
que borboleta pousou
na cabeça da Nininha.”

Roupa branca, meia branca,
camisa branca, sapato
branco, tudo branco,
parece até comunhão
mas não é, é festa só.

Meu Deus, quanta coisa, quanta
coisa mesmo se passou.
Será que isto tudo é meu
ou foi alguém que contou?

Fonte:
JG de Araujo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969

J. G. De Araújo Jorge (O Primeiro Amor)


Somos simples metades: biológica e sentimentalmente. Como as moedas, temos duas faces: cara e coroa. No singular, não existimos, não podemos continuar. Até porque, surgimos de dois,trazendo o destino de “Ser”, no plural: não “sou”, não “és” Somos. Ora, a vida.

“Matemática esquisita
que das suas sempre faz,
ao final de nove meses
somando dois, multiplica,
e ao invés de dois, às vezes,
são três, são quatro, e até mais.”

Estou pensando estas coisas, quando me perguntam o que acho do primeiro amor. É uma entrevista com colegiais. Sim, eu já escrevi sobre o primeiro amor. Também já acreditei que existia, ou que existiu. Ficou naquela visão trêmula como as imagens no espelho dos igarapés da infância. Sobreviveu em lembranças concêntricas, que se ampliam e diluem infinítamente no coração, quando a pedrinha de um fato cai sobre a superfície das águas do igapó da memória.

“Onde está o meu primeira amor
a menina morena de cabelos negros
e de olhos da cor do rio
que nunca será esquecida?

O tempo ladrão roubou
de parceria com a vida.”

Sim, acreditei nele, como toda gente. E porque apascento versos desde menino, como um nômade pastor, lembrei-o muitas vezes:

“O meu amor primeiro, o meu primeiro amor
foi anseio, e viveu a incerteza de uma ânsia;
botão que não se abriu, que não chegou a flor
um pedaço de céu quase limpo e sem cor
perdido nos senfins azuis da minha infância…”

Andei com ele por aí:

“Braços dados, nós dois vamos sozinhos,
o teu olhar de encantamento espraias
pelas curvas e sombras dos caminhos,
debruados de jasmins e samambaias. . .”

E por isso, também identifiquei-me com os casais em tempo de sonho:

“Nada tolda os seus olhos, nem um véu…
Andam sem ver os lados, vendo o fim,
e o fim que vêem é o azul do céu…

Ah, se a gente, tal como os namorados
pudesse eternamente andar assim
pela vida, a sonhar de braços dados…”

Mas fui vivendo, como toda gente, ou como quase toda gente. E um dia, quando relia as provas dos meus versos, comecei a perceber que me enganara, como toda gente, ou como quase toda gente. O primeiro amor não é o primeiro amor.

Ou pelo menos o que chamamos de primeiro amor. Deviam ter outro nome aquelas emoções que esvoaçaram sem deixar pegadas, quase e apenas como nuvens brancas no limbo do coração; aquelas lembranças de mãos dadas, assexuadas, beijando só com os olhos, olhando sem nada ver. Se, na realidade, nós nem nos apercebemos dele ! E só o encontramos quando o tivemos perdido, e há tanto tempo que é quase impossível reconstituí-lo!

E então a pergunta: afinal que é o primeiro amor? E a conclusão que só a vida nos pode dar: é aquele amor completo em todas as direções, dos pés a cabeça, não apenas no céu, mas na terra, nas nuvens e nos ventos, nas raizes e na solidão. Quando se beija não apenas com os lábios, mas com todos os sentidos, quando tudo se vê, mesmo de olhos fechados, e se sofre, até com o pensamento. Para que possa ser perfeito, Buda aconselhou: não deves pecar. Os cristãos repetiram como um eco: guarda a castidade. Tolice, porque estamos sempre puros diante do amor, e quando ele chega, é sempre novo, é sempre o primeiro.

Há infinitos primeiros amores. Ama-se tantas vezes a primeira vez! Renascemos em suas ânsias e toda vez que o perdemos, ficamos à deriva em nosso destino. Felizes, ou infelizes – que importa? – os que encontram o primeiro amor. Porque há homens também que passam a vida inteira amando, de amor em amor, e não amam nunca a primeira vez. Bom é amar a primeira vez muitas vezes, tantas quantas a vida inventar, e o coração puder! Há tanta coisa por aí se chamando de amor que de amor nada tem, não justifica a dor e a alegria, não revela nenhum mistério; de nenhum milagre é capaz !

Ah, o primeiro amor! Às vezes não nos chega propriamente num dia, mas durante a vida toda, em que o vamos construindo de tantas e insignificantes grandezas, sem mesmo tomarmos conhecimento de sua importância. E entretanto, é tudo. Basta que, de repente, vacile, nos ameace, e falta-nos a luz, o ar!

Outras vezes, irrompe como um pé-de-vento abrindo uma janela, abrindo-a ou fechando-a instantaneamente, e nos aparece como algo que emergiu da sombra em que o velávamos, subitamente belo e iluminado.

Ou, ainda, pode explodir como uma granada, e nos cegar até, e nos atordoar. E caímos nele, feridos mortalmente, sentindo-o escorrer quente no corpo, doendo de tanta alegria!

Muitas ocasiões, pensamos encontrá-lo, quando na realidade saltamos sobre ele, e caímos adiante, em duro leito de pó, onde se espoja. Não era amor, mas sua filha bastarda: a paixão. Como surge desaparece, em disparada – potro selvagem em pasto aberto. Mas, então, que é o amor, esse que é sempre o primeiro, múltiplo e infinito como o mar? Dele tentei dizer:

“E de repente. . . (parece incrível)
o tudo de antes não existe mais
não interessa . . .

Um novo amor, amor
é sempre um mundo novo
que começa.

Não importa o percorrido
o conquistado,
ou o que antes foi desejado
por teu marinheiro coração:
um novo amor
começa tudo de chão.

É como se abrisses os olhos para a vida
naquele instante,
como se para trás nada tivesse havido.
Nasces com um novo amor! E então reviverás
o mistério, deslumbrante
do que há de acontecer, como se nunca tivesse
acontecido. . .”

Talvez seja aquela força indômita do coração que levou o poeta a penitencias como esta:

“Chegas. E de repente me pergunto
que amor é esse que existiu sem ti?
Que flores? Se não houve primavera. . .
Ah, nascemos agora, um para o outro,
e antes, não fomos mais que vã espera. . .”

Ou a esta confissão final:

“Éramos apenas dois bichos…
(ou deuses?)
…Nem podia ser mesmo humana
tão louca felicidade…”

Fonte:
JG de Araujo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor -1969

Ademar Macedo (Carnaval em Versos)


T R O V A S

Aquele amor sem fronteira
no carnaval de nós dois,
morreu nesta quarta-feira
pra virar cinzas… depois!
–ADEMAR MACEDO/RN–

Nesta paixão sem igual,
de alegria verdadeira,
nossa vida é um Carnaval
sem direito à quarta-feira!
–ARLINDO TADEU HAGEN/MG–

As cinzas da quarta-feira
são prantos de Carnaval…
Quanta menina faceira
trocou o “bem” pelo “mal”…
–HERMOCLYDES S. FRANCO/RJ–

Vi cinzas, na quarta-feira
retratando a decepção
de uma folia passageira
de um carnaval de ilusão.
–MIFORI/SP–

Meio-dia…quarta feira,
com os meus passos ranzinzas,
no trabalho, que canseira…
estou coberto de cinzas…
–NILTON MANOEL/SP–

Pôs-se fim na pagodeira,
resta a cinza, em despedida,
que o vento da Quarta feira
vai levando na avenida!
–PEDRO WILSON ROCHA/CE–

P O E S I A S :

Neste carnaval, espero,
Que brinque com sensatez
E abraçar todos vocês
Na quarta, é o que mais quero
Eis meu pedido sincero
Que faço e não volto atrás
Gosto de você demais
Se for dirigir, não beba
De Deus a graça receba
Tenha um carnaval de paz!
–FRANCISCO JOSÉ PESSOA/CE–

Na quarta-feira de cinzas
logo bem cedo do dia,
faço de rimas e versos
toda minha fantasia;
me visto de inspiração
pra ser mais um folião
no bloco da poesia!
–ADEMAR MACEDO/RN–

S O N E T O S

Palhaço
–SERGIO SEVERO/RN–

A maquilagem, aos poucos, perde o viço
O narigão vermelho se desprega
As “Troças” inda insistem na “refrega”,
Mas os Maracatus, deram sumiço.

Num ombro um suspensório jaz, puído
no outro, já caiu, de desfiado
O frouxo pantalão, qual um vestido
velho, põe à mostra o aramado.

Já arrefece o som do tamborim,
Os lábios já perderam o seu carmim,
as pernas não suportam o mesmo passo…

Com o Carnaval morrendo na Ribeira,
junto com a chuva, desta quarta-feira,
chora, o meu tristíssimo Palhaço.

Quarta-Feira de Cinzas
–J. G. DE ARAÚJO JORGE/AC–

Toda a terra está envolta nas neblinas
e a friagem se difunde pelo espaço…
– longe se ouve, em cadência, passo a passo
o caminhar dos boêmios nas esquinas…

Pela sombra – as estrelas pequeninas
com sono, tem o olhar nevoento e baço…
No silêncio da noite ouço o compasso
do sereno a pingar das serpentinas…

Algum bando tardio passa adiante
- e deixa pela noite uma batida
de samba em agonia – estrebuchante…

Quarta-feira de cinzas já amanhece,
- mais outro carnaval em minha vida,
vida que há muito um carnaval parece!…

Fonte:
Textos enviados pelo Autor

Esmeraldo Siqueira (Livro de Trovas e Poemas)

TROVAS

Amou o belo e a verdade
Sem crer no Céu nem no Inferno
Do mundo, em vez de saudade.
Sente agora alívio eterno.

Dão-se prêmios repetidos
a livros que valem nada,
de versos desenxabidos
ou prosa vazia e aguada

De amor os versos que fiz
dariam mais de um milheiro.
Toda mulher que me quis
foi por amor… ao dinheiro!

Larápios de mil padrões
há neste mundo, dispersos.
Até conheço ladrões
que roubam frases e versos…

Os asnos são divertidos,
asnos bípedes, é claro,
todos se julgam sabidos,
dotados de senso raro.

Retornado ao pó obscuro,
coração, urna de pranto,
quem saberá, no futuro,
que amaste e sofreste tanto?

Se eu respeitasse o jumento
mesmo o bravio e coiceiro,
adeus meu divertimento,
alegre humor galhofeiro…


POEMAS

CREDO PANTEÍSTA

Creio em ti, Natureza, que és meu culto.
Creio, sem ritos místicos e altares.
No resplendor pleorâmico dos mares,
Onde assoma a grandeza do teu vulto.

Creio na tua força, e pasmo, e exulto,
Vendo, através de lentos avatares,
A gradação das formas singulares,
Até à maravilha do homem culto.

Creio em tuas florestas, nos teus montes,
Na poesia dos rios e das fontes,
Na beleza da terra reflorida.

Creio nas lindas noites estreladas,
No refúgio das brancas alvoradas,
Na sinfonia universal da vida.

(Caminhos sonoros/1941)

OFERENDA À POESIA

Um trono eu te erguerei, um trono, escuta bem,
De esmero original,
Como, em tempo nenhum, na terra, houve ninguém
Que tivesse outro igual

A púrpura – será do meu sangue inda vivo,
Ardente e palpitante.
O ouro – da áurea prisão do meu verso cativo,
Aos teus pés suplicante

Às estrelas irei, na asa da inspiração,
De uma a uma escolhe-las,
Para cingir-te a fronte a reverberação
Das mais lindas estrelas

Que valerão do mundo efêmeras grandezas,
Ante o teu resplendor?
Vencerás imortal rainhas e princesas,
Pela glória do amor.
(Novos poemas/1955)

Fontes:
Colaboração da Profa. Dione de Souza/RN
http://www.geraldo2006.com/arte4.html#Esmeraldo%20Siqueira

Auta de Souza (Poemas Escolhidos)


CREPÚSCULO

a Júlia Lyra

O Ângelus soa. Vagarosamente
A noite desce, plácida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
Chorando a tarde, a noiva peregrina.

Há pelo espaço um ciciar dolente
De prece em torno da Igrejinha em ruína…
Pássaros voam compassadamente;
Treme no galho a rosa purpurina…

E eu sinto que a tristeza vem suspensa
Sobre as asas da noite erma e sombria…
E que nessa hora de saudade imensa,

Rindo e chorando desce ao coração:
Toda a doçura da melancolia,
Todo o conforto da recordação.

TUDO PASSA

Aquela moça graciosa e bela
Que passa sempre de vestido escuro
E traz nos lábios um sorriso puro,
Triste e formoso como os olhos dela…

Diz que sua alma tímida e singela
Já não tem coração: que o mundo impuro
Para sempre o matou… e o seu futuro
Foi-se num sonho, desmaiada estrela.

Ela não sabe que o desgosto passa
Nem que do orvalho a abençoada graça
Faz reviver a planta que emurchece.

Flávia! nas almas juvenis, formosas,
Berço sagrado de jasmins e rosas,
O coração não morre: ele adormece…

AO PÉ DO TÚMULO

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluçais por mim, eu vos bendigo
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu daqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no Céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.

AGONIA DO CORAÇÃO

“Estrelas fulgem da noite em meio
Lembrando círios louros a arder…
E eu tenho a treva dentro do seio…
Astros! velai-vos, que eu vou morrer!

Ao longe cantam. São almas puras
Cantando á hora do adormecer…
E o eco triste sobe ás alturas…
Moças! não cantem, que eu vou morrer!

As mães embalam o berço amigo,
Doce esperança de seu viver…
E eu vou sozinha para o jazigo…
Chorai, crianças, que eu vou morrer!

Pássaros tremem no ninho santo
Pedindo a graça do alvorecer…
Enquanto eu parto desfeita em pranto…
Aves, suspirem, que eu vou morrer!

De lá do campo cheio de rosas
Vem um perfume de entontecer…
Meu Deus! que mágoas tão dolorosas…
Flores! Fechai-vos, que eu vou morrer!”

AO CAIR DA NOITE

Não sei que paz imensa
Envolve a Natureza,
N’ess’hora de tristeza,
De dor e de pesar.
Minh’alma, rindo, pensa
Que a sombra é um grande véu
Que a Virgem traz do Céu
Num raio de luar.

Eu junto as mãos, serena,
A murmurar contrita,
A saudação bendita
Do Anjo do Senhor;
Enquanto a lua plena
No azul, formosa e casta,
Um longo manto arrasta
De lúrido esplendor.

Minhas saudades todas
Se vão mudando em astros…
A mágoa vai de rastros
Morrer na escuridão…
As amarguras doidas
Fogem como um lamento
Longe do Pensamento,
Longe do Coração.

E a noite desce, desce
Como um sorriso doce,
Que em sonhos desfolhou-se
Na voz cheia de amor,
Da mãe que ensina a Prece
Ao filho pequenino,
De olhar meigo e divino
E lábio aberto em flor.

Ah! como a Noite encanta!
Parece um Santuário,
Com o lindo lampadário
De estrelas que ela tem!
Recorda-me a luz santa,
Imaculada e pura,
Da grande noite escura
Do olhar de minha mãe!

Ó noite embalsamada
De castas ambrósias…
No mar das harmonias
Meu ser deixa boiar.
Afasta, ó noite amada,
A dúvida e o receio,
Embala-me no seio
E deixa-me sonhar!

CAMINHO DO SERTÃO

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço
Vê-la através da mata. Nos caminhos
A sombra desce; e, sem achar descanso,
Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

É noite já. Como em feliz remanso,
Dormem as aves nos pequenos ninhos…
Vamos mais devagar… de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.

Brilham estrelas. Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece
Que a Noite ensina ao desespero e a dor…

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…
Turíbulo imenso para Deus eleva
O incenso agreste da jurema em flor.

OLHOS AZUIS

O teu olhar azul claro
Reflete não sei que luz,
O brilho fulgente e raro
Do meigo olhar de Jesus.

Eu cuido ver todo o encanto,
Toda a beleza do Céu,
Nestes teus olhos sem pranto,
N’estes teus olhos sem véu.

Sinto uma doce ventura,
Uma alegria sem fim,
Se d’eles a chama pura
A’s vezes cai sobre mim.

São flores azuis boiando
À tona d’água, de leve,
Esses dois olhos beijando
O teu semblante de neve!

Fontes:
http://apoesiadobrasil.blogspot.com/2011/12/auta-de-souza-1876-1901.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Auta_de_Souza

Humberto Rodrigues Neto e Gui Oliva (Cochicho)

Humberto:
É gostoso, cara amiga,
de vez em quando um cochicho,
mesmo que dê alguma briga,
ou até um grave bochicho!

Gui Oliva:
Está difícil
até o fim
para dizer
não consigo.

Será mesmo
impossível???
deixa a rima pra lá.

O que faz falta mesmo
é a falta de siso
para versejar,

uma baita falta
de motivo
para cochichar

ao pé do ouvido,
aquele segredo
de meter medo

e provocar
ao final
aquele beijo!

Humberto:
Por ser exímia poetisa,
e esse dom não há quem negue,
tente, não fique indecisa,
que dizer você consegue.

Não faça disso um capricho
pois segredar não é crime;
diga logo esse cochicho
mesmo que o verso não rime!

Se é algo pecaminoso
o que anseia me contar,
conte, boba… É tão gostoso
dessas coisas cochichar.

Abra logo esses arquivos
secretos e fascinantes,
pois lhe darei bons motivos
a uns cochichos bem picantes!

Confie-me, pois, seus segredos
de algum desejo proibido;
conte-os sem pejos ou medos,
bem baixinho ao pé do ouvido!

Conhecerei seu desejo
e o seu sonho de mulher…
Que venha após nosso beijo
tudo mais que Deus quiser!

Todos estão convidados a participar dos Cochichos.
Vamos repassar e cochichar, sim,mandando seus
cochichos para a Gui F Oliva, no e-mail gui.oliva@globo.com.

Humberto.

Fonte:
Textos enviados por Humberto

Rosamel/RS (Poemas Avulsos)


VISÃO

Que aura tão linda desponta no mar
o sol e a lua ondas esperam galgar
Quem vem lá com vestido rendado
com mãos espalmadas e doce olhar

Trazendo na testa um raio estelar
ungindo seu povo em suave bailar
Ó mãe quem me dera que a tua visão
em mim derramasse tua mansidão

No mar minha casa deleito o olhar
e lá no horizonte fico a espreitar
Se vejo o encontro do povo do mar
que sacode e balança meu caramujar

Que bênçãos derrames em favos de méis
em perfumes de flores fartos farnéis
Em ondas que embrulham trazendo cabal
o mistério da lenda em grande final

E eu sonho e como sonho em dia claro
levantas nas ondas e contigo deparo
Em azul tão celeste crivado de estrelas
obrigada mamãe por deixar-me vê-las.

MINHA CAMA

Larga lisa e perfumada
Vestida de puro cetim
Ela está sempre arrumada
Cheirosa como um jasmim

Mas está tão solitária
Feito uma ilha isolada
Cansada de ser sedentária
E nunca está ocupada

As cenas não tem replay
Nem som, orquestra ou luz
Ainda resta um long play
Que dança no prato e conduz

Quem me dera voltar ao tempo
Em que a alcova era um ninho
E sem nenhum contra tempo
Devora a loba o cordeirinho

Ficou na minha lembrança
O cheiro da pele suada
Só restando a esperança
De ver a cama molhada

ANTI SOCIAL

Associei meu querer
ao amor que dizias ter.
Mas quebrei a cara
e minhálma dispara.
Ao perceber a traição
maldição…
Mais uma vez, lamento
e choro
por um amor fracassado.

Caminhei milhas
por duros anos
para esquecer
desenganos.
Tentei uma sociedade
amizade colorida
mas virou em ferida
esta ansiedade.
Pura maldade
E por não saber separar
o bem do mal
hoje…..
sou anti social.

AMIGO X AMIGO

Se não te procuro mais é que algo aconteceu
As vezes coisas fatais que meu coração sofreu
Mas tenha então certeza que estou a esperar

De tu’alma a nobreza em vir a mim procurar
Não te afastes de um amigo sem ter motivo ou razão
Carregue sempre contigo bem junto ao coração

Quem tem o bem precioso de ter amigo por perto
É ter um sol radioso iluminando deserto

VÔO DA ÁGUIA

Esse azul sentimental
Raiando por entre as nuvens
Clareando o espaço
Entre picos e montes
É no vôo da águia
Que vai em busca do ninho
Onde encontra o repouso
Do seu longo viajar
Mergulhando na cascata
Bem no interior da mata
Buscando o seu alimento
Dos filhotes o sustento
Leva para o abrigo rochoso
Onde luta carinhoso
Pela vida em liberdade
E o olhar aguçado e profundo
Que rastreia todo mundo
Em milhas a campear
E do alto céu em ocaso
Mergulha firme num raso
E sobe feito uma flecha
Abrindo uma larga brecha
Para um dia novo raiar.

A CADA ESTAÇÃO

Os amores se esvaem
as lágrimas descem
os risos desfalecem
o olhar obscura
e com flamejo lampeja
a face da criatura
seja amarga ou seja pura

Um dia
o amor volta
some toda a revolta
a lágrima seca com um beijo
e o riso é o despejo
que desce cascateado
no som inebriado
com o amor em construção
que rompe a cada estação

Fonte:
http://fioredemel.blogspot.com

Rosemarie Schossig Torres/PR (Versos Com Sabor)


Introdução de seu blog http://versoscomsabor.blogspot.com
Há versos de inúmeros sabores…existem inclusive versos que contam dissabores, catárticos…flores que invadem poemas…poesias que são espelhos, que rompem máscaras…desvendando mistérios…nesse Blog conto um pouco disso tudo…na vertical!

POETISA TEMÁTICA


Penso, considero, então escrevo;
Sinto, ausculto, logo transcrevo…
Sou minhas idéias, poetisa temática.
Métrica? Cabulei aulas de matemática…

Batucam no coração do poeta, os temas
Como cutucam em minha alma, os dilemas.
A caneta derrapa em curvas de des-inspiração
E o piloto tenta não perder o rumo da emoção

Sigo aquele velho caminho; o meu instinto
E a poesia é a estrela-guia, não minto…
Quero derramar no papel meu pensamento,
E feito verso, viajar aos quatro ventos.

FELICIDADE COM MARCAPASSO

Eu giro, rodopio qual a bailarina em sua caixinha;
mal respiro ;não arredo do lugar, nem saio da linha.
E nada se modifica… Mas tantas coisas acontecem.
A música nunca muda, enquanto meus pés mexem…

…Sem chegar a parte nenhuma; segue essa guerra…
Só por migalhas; meus sonhos a existência desterra.
A utopia é fogo de palha; no mais mera sobrevivência.
O jogo jamais se altera; dados viciados; coincidência?

Sem promessas pagas meu fado naufraga rumo ao léu.
O futuro é apenas mais um passo pra bem longe do céu.
E a felicidade com marcapasso dribla as emoções fortes.
Na corda bamba eu calibro a bússola em busca do norte.

REINVENTANDO A LUA

Alta noite. Vizualizo em pequenas tochas Antares e Sírius.
Flores astrais que desabrocham na ribalta do céu luzente.
No cais da galáxia atracam luzes; parecem cadentes lírios.
Quisera saber como se colhe a estrela que cai de repente.

E… Penso que bom seria andar com os pés da imaginação.
Naquele quintal azul suspenso peregrinar por sua láctea via,
pra acordar do sonho trazendo a Aldebarã na palma da mão.
Com calma borda alucinação em minhas retinas essa utopia.

Sem pressa delineio sensações que sobem na pele em flor.
Anseio distinguir cada rincão sideral e esboçar luminoso atlas.
Então depois de percorrer todos os rumos num lisérgico torpor
traço o êxodo das adversidades reinventando a lua… Agora lilás.

RAINHA SEM COROA

Lá vem a bela rosa, de pétalas, bem cingida.
Toda prosa, o anel de gotas rubi num abraço.
E à sua volta os espinhos; fel fazendo laços.
Mas o vento vem, suga o seu vinho, sua vida.

Despetalada e daquele rubro colar despida…
Descubro a corola calva, saia feita em pedaços.
E rolam os pontos vermelhos soltos no espaço.
Inúteis os agudos acúleos, nenhuma ferida…

…Fizeram na brisa, que segue por aí valsando,
com os restos da flor…Pingos que voam à toa…
Que vão prestos pra longe do jardim, adejando.

Então fico pensando nessa rainha sem coroa…
Nua, às vésperas de uma primavera, finando,
como o amor que mesmo antes de ser já enjoa.

CORES QUENTES NO AZULEJO DO OCEANO

Desce ardente lava, fusão que esvai dos vulcões.
O mar azul desvanece; ondas agora são rubras;
coradas; sentem pejo de que o magma as cubra.
A cascata de lampejo ígneo arde aos borbotões.

Em jatos… Cores quentes no azulejo do oceano;
tintas vermelhas ressumam ;navio já é fantasma.
Centelhas, brumas de fogo, exalam mil miasmas.
Não há viva alma para chorar ao léu o desengano.

Um véu de fumo encarnado cinge todo o horizonte.
Tinge nuvens, são algodões embebidos de sangue.
Feroz cena estendida: do céu, terra até o mangue.
O aceso lume não desculpa nenhuma das fontes…

Daí esculpe no cenário flamas de um matiz unicolor.
Ave que se salvou por um triz agradece suas asas.
Pernas pra que te quero foram cair em covas rasas.
E já nada respira, chama não perdoa, nem faz favor.

SONHANDO A PAISAGEM EM PALAVRAS

Qualquer hora pode ser tempo de colheita.
Veja a abelha :aprimora o sorver do néctar.
Até o sol ,quando aflora, beija; aproveita…
Gotículas do rocio da manhã que vem sugar.

Ainda tíbios raios douram ao vento as flores.
A aragem brincando espalha suas sementes.
Nessa viagem leva pelo ar insetos voadores;
vaivém coletando ruídos e sabores diferentes.

No céu, a nuvem grávida de chuva se entrega
à terra ávida desses dotes; doce véu líquido…
Cai… E logo a sede de tantas bocas sossega.
Águas provocam rios, orvalhos, dons límpidos.

Quietinha observo sons e cada movimentação.
Olhos absorvem rumores, tons das imagens.
A tudo o que vejo ponho um nome… Evocação.
Versejo visões; em palavras sonho a paisagem.

ENTRE AS RÉSTIAS DO MARASMO

É sempre arriscado, imaginar tão alto…
Para depois ir esborrachar-me no chão,
desarme do real,que rende minha ilusão.
Reino sem sal; toma a alegria de assalto.

Sobressalto!A vida se impõe por osmose.
Instala, ávida, âncoras; dentes em riste…
Mordem a face feliz do sonho, que desiste.
Restou só a rotina em enfadonha overdose.

Mas, entre réstias do marasmo de concreto,
planto o talvez com mudinhas de quimeras.
O ato falho se infiltra na tez, gestos da fera.
Já se filtra no frio esgar um sorriso discreto…

DOCE OBSESSÃO

Abro a porta que dá para a rua
no rosto um sopro de ar frio,
mas não sinto nada
mil palavras giram na mente
eclipsando todos os sentidos

um pássaro canta na janela
mas não ouço nada
em pensamento recito mil poemas

meu filho me pede algo
não lhe respondo
é que no coração
bate um soneto por minuto

Palavras
são uma doce obsessão
e o universo
um punhado de versos por dizer

Fonte:
http://versoscomsabor.blogspot.com

Pedro Du Bois (Poemas Avulsos)


PUREZA

Há pureza
pura oferta
apurada
em preços
depurados

contém a licença obrigatória
em fosco vidro temperado

pureza ostentada
em graça
desgraça
desgraçada
imagem

possui a inteireza de caráter
em fosso áspero de saudades

pura ilusão
apurada
na depuração
das palavras.

RETORNAR

Vivo na deslembrança
do espaço paralelo
onde me reencontro
ante as bifurcações
em que as decisões
me afastam do início

recupero o gesto
dispo a roupa da infância
transito amargos jardins
em inexistências

rasgo em torrentes águas aprisionadas
no congelamento em que me transformo
na passagem: não lembrar me liberta

no espaço vazio da inconsequência
e na indeterminação da insanidade
sou o ovo em casca: projeto

aos projetos se permitem liberalidades.

AVANÇAR

Avanço sobre a terra
desnudada de significância
na árdua caminhada
inconsentida em mim

todo desatino leva
o destino ao sentido
inigualável da partida

no avançar a terra se faz áspera
e os pés em chagas reproduzem
passos desnecessários ao futuro

rasgo sobre a terra
a permanência
das propriedades
e me instalo: planta
condenada ao fracasso

o insucesso repete a sina do começo
em versos solidificados de cansaços.

DESEJOS

O tigre dos desejos
mancha a reputação
em peles ásperas
de desencontros

a consciência ilesa
deita a prostituta
na sanha arbitrária
dos desejos

a consome em peles
desprovidas, em ascos
desconhecidos, em sedes
saciadas ao acaso

o desejo abandona a casamata
e batalha: a mortalha cobre
as manchas. Desnudada
em suores, assusta o instante
do alcance e desaparece.

VER-SE

como vejo o velho
doente sobre a cama
do quarto
de janelas cerradas
ao dia
em estranha luz
que de fora
insiste em iluminar
o velho
na manhã
de janelas fechadas
sobre a cama
doente na dor
da luz anterior
ao corpo perdido
em quartos fechados
e ângulos diversos
na igualdade dos velhos
doentes e estendidos
sobre escuras camas.

PERMANENTES

Das ideias permanentes
descarto o passado
entre parentes
e os conselhos
dos mais velhos

o jogo de luzes
visto pelo espelho
carrega o significado
da função dos atos: restam
horas decorridas em jogos
de sexos desprovidos
de maturidade

permanecem os ensaios
não oferecidos ao avesso:
a concretização da descoberta
na transmutação da história
em farsa.

Fonte:
O Autor

Emilio de Menezes (Poemas Esparsos III, final)


A JÚLIO FURTADO

Enquanto a idade fria e indiferente,
Os teus cabelos, pérfida, descora,
O teu trabalho e o teu esforço ingente
Cercam?te a fronte de perpétua aurora.

É que teu viver religiosamente
Nas oficinas em que se elabora
A grande força rejuvenescente
Da natureza, no esplendor de Flora!

Flora te é grata, Flora te reanima,
E te confere a eterna mocidade,
Porque, em seu culto, ergueste uma obra?prima.

Teu nome jeito não conhece idade:
É imorredouro para a nossa estima
E para a gratidão desta Cidade!

HOMENAGEM DO “CENTRO DOS VELEIROS”

Tu que hoje cais no misterioso abismo,
Depois de incerta e tropeçante viagem,
Por teu amargo e mórbido humorismo,
Eras do nosso meio a própria imagem.

Não te valendo o musical lirismo,
Não te valendo o apuro da linguagem,
Foste arrastado pelo pessimismo,
Que ataca os que perderam a coragem.

No entanto, o verso teu era um escudo
De ouro polido e de cristal perfeito,
Que ora chamava ao sonho, ora ao estudo.

Tu, que vítima foste deste estreito
E torpe meio, que avassala tudo,
Descansa em paz no derradeiro leito.

EM VIAGEM

Ao fulgor sideral desta noite radiosa,
Foi que te vi partir, indiferente e fria.
Como que entre nós dois, em turbilhão, raivosa,
A avalancha do. Pólo um mar de gelo abria.

E eras tu! Eras tu! pois, no meu peito, ansiosa,
Um maelstrom de amor minh’alma percorria;
E tudo em mim vibrava essa canção saudosa
De tristeza e de fel que o meu lábio exprimia.

Mas, que importa a glacial, a rude despedida,
Se dentro d’alma, alegre, o teu perfil risonho
Levava o resplendor que me aureoleia a vida?

Que importa eu seja, agora, o espectro tristonho
De uma antiga paixão imensa e indefinida,
Se ainda tu és a luz do meu único sonho?

Vetusta catedral que, ao tempo, te esborcinas,
Choras a torre audaz que, aos céus erguendo a agulha,
Os mistérios e os bens, de que a Igreja se orgulha,
Do alto mostrava aos fiéis, nas sonoras matinas.

Já, de ti, longe vão as práticas divinas
Com que davas ao incréu a sagrada fagulha
E ainda julgas ouvi?Ia, em fragorosa bulha,
A oscilar no teu flanco e a desfazer?se em, ruínas.

Abateste, eu me lembro, à tarde, de repente,
Dourando, no clarão de um último arrebol,
0 pó que te envolveu sutil e refulgente!

Torre morta! Afinal, do orgulho, no crisol,
Tombaste amortalhada, ampla e gloriosamente,
No purpúreo esplendor da agonia do sol!

SONETO
(Carta íntima)

Que este soneto, assím, feito ao correr da pena
Possa, filha, dizer?te o que a voz te não diz,
Porque este afeto excede a linguagem terrena,
E não tenho expressões se te vejo infeliz.

Se a vida te não corre, acaso, alegre e amena,
Ouve, em vez da minha, as mil vozes hostis
Em que buscam, os teus, nos infligir a pena
De curvarmos a alguém, humildes, a cerviz,

Tu, que foste, que ainda és e que serás, por certo,
Aquela que, jamais, do interesse ouve a voz
Mais longe estás de mim quando de ti estou perto!

Deves, porém, saber que, quando fico a sós,
A própria multidão, para mim, é um deserto,
Porque o mundo não és nem eu sou: somos nós!

ÚLTIMOS VERSOS

A arte, amigo, em noss’alma só se interna
Por caminho em que o uso é um empecilho,
É a dor, a eterna dor, a estrada eterna
Que eu, entre versos, pés sangrando, trilho,
Quantas vezes o atro fundo da cisterna
A água que dela sai mostra no brilho
É o fulgor de uma lágrima paterna
A refletir a imagem de um mau filho.

Fonte:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes. RJ: Livraria José Olympio, 1980.

Emilio de Menezes (Poemas Esparsos)

ELA
Amar, amar, eternamente amar.”

É bela e sedutora! Seus olhares
Muito meigos, serenos, — um portento, —
Representam-me fúlgidos altares,
Onde vou suavizar os meus pesares,
Na muda invocação do pensamento…

Seus lábios de carmim, sempre sorrindo,
E dos dentes mostrando a fina alvura,
Exornam mais e mais seu rosto lindo,
Esse rosto sem par, de encanto infindo,

O Sacrário sublime da ternura.
Seu corpo donairoso de princesa,
D’uma graça indizível modelado,

É a imagem perfeita da beleza,
Ante a qual, com respeito e singeleza,
Eu me curvo e confesso apaixonado…

NATAL

Não há talvez no Calendário, um dia
Como este vinte e cinco de Dezembro,
Em que a própria velhice se avigora
Da lembrança à dulcíssima caudal!

Moço, nele, a esperança me fulgia,
Velho, nele, ainda exclamo: bem me lembro!
Sinto que vivo numa eterna aurora
Neste glorioso dia de Natal.

Passam-se as horas todas, dentro, apenas,
De um pequenino e colossal minuto,
De um minuto que encerra, hora por hora,
O Tempo imperecível e imortal.

Nem ouço a voz de minhas próprias penas
Só do supremo Bem os sons escuto!
— Vibra dentro em meu seio a eterna aurora
Na glória deste dia de Natal!

Os séculos são nada, ante este imenso
Porém diminutíssimo segundo,
De que eles brotarão, tempos em fora,
Como as caudais de escasso manancial!

De anelo e gozo, num fervor intenso
Em suavíssima luz meu ser inundo!
Canta dentro de mim da eterna aurora,
A glória imorredoura do Natal.

É que não tem o Calendário, um dia
Como este vinte e cinco de Dezembro
Em que a própria velhice se avigora,
Da saudade à dulcíssima caudal
Velho, nele, inda exclamo: ó se me lembro!

Mas de mim vai fugindo a eterna aurora,
Deste saudoso dia de Natal! …

AO TIRO RIO BRANCO

Ide, galharda flor da Paz armada em Guerra!

Ide, gloriosa flor das gloriosas legiões,
Que a mocidade em si, neste momento encerra,
Como encerra o alto céu áureas constelações.
Que desde a orla marinha às quebradas da Serra,
Que dos Campos Gerais às fecundas Missões,
Que onde comece e finde a vossa amada terra,
Vibre o entusiasmo, a encher os vossos corações!
Da mais ampla campina à mais densa floresta,
A natureza ali, toda rebrilhará
Ao fulgor imortal que o vosso brilho empresta.
Ide, que já pressinto, ide que escuto já
O vosso berço entoar, nos mesmos sons de festa,
Num hino a Rio Branco, um hino ao Paraná!”

NO ÁLBUM DE CORDÉLIA MURAT

Aqui não quero ver-te a formosura
Na glória da mulher bela e perfeita.
Ao ler-te o nome, a mim se me afigura
A Cordélia de todos nós eleita.

A Cordélia que a cada travessura,
De menina risonha e satisfeita,
Dava o clarão de um sol a uma alma escura,
Dava a amplidão de um céu a uma alma estreita.

Crescente. És mulher forte e bonita
E o sangue adulto que hoje te avigora,
Mal recorda a Cordélia pequenita.

Eu, porém, só te vejo como outrora.
É que a velhice a recordar me incita:
Sou tarde. És meio-dia. Eu lembro a aurora…

ESPUMAS
(Lendo Amadeu Amaral)

Na aparente quietude ou plácido remanso
E ao suavíssimo olor com que os versos perfumas,
Se lanço alegre o olhar, se úmidos olhos lanço,
Vejo que a luz do sol não n’a encobrem as brumas.

Abaixo, assim, do leve e ondulado balanço
Da superfície espilmea, eu sinto, umas por umas,
As grandes emoções de oceanos sem descanso,
Estudando ocultamente à aluvra das espumas.

Mas nem sempre a avistar tênue espiral de fumo
Se prevê que à floresta, ao requeimar das franças,
Mortos, só restarão os troncos nus a prumo.

Não, que é chama fecunda essa a que te abalanças!
Do que foste, és, serás, o teu livro é o resumo:
Nobres recordações, certezas, esperanças.
===========

“Entretanto, é intuitiva a impropriedade da escolha do uniforme da Cruz Vermelha para
festejos carnavalescos. Esse uniforme foi sempre e é, com especialidade neste momento,
uma cousa sacratíssima. Ele simboliza a abnegação de milhares de senhoras nestes dias
ae amargura”.
(Da seção “Salpicos”, de Emílio de Menezes, na Gazeta de Notícias)

À excelsa Sra. Gaby Coelho Neto

Senhora! Aos vossos pés aqui se ajoelha
Não do humorismo a brincalhona musa,
Mas uma alma que à vossa alma se cruza
Ante a bondade ideal que em vós se espelha.

A Santa Instituição dai a centelha
Da vossa caridade ampla e profusa.
Não podeis insistir nessa recusa
De dar o vosso esforço à Cruz Vermelha.

As que, ingênuas, profanam em folia
O símbolo sagrado, eu as contemplo,
Como cegos a quem falece um guia.

Vinde senhora a dar o grande exemplo
De vosso amor, blindado de energia;
Vinde e Correi as más irmãs do templo!

Fonte:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes. RJ: Livraria José Olympio, 1980.

Emilio de Menezes (Poemas Esparsos I)


TUAS TRANÇAS
A’ …
.

Tudo o que eu vejo, me rodeia e fala,
Desde o arrulo das pombinhas mansas
Até dos sinos o tanger monótono,
Venham falar-me de tuas longas tranças…

Ai quantas noites em que o luar flutua
E a brisa geme dos pinheirais nas franças…
Eu vou sozinho, soluçando a medo
Beijar a sombra de tuas negras tranças

Ai… a lembrança dessa noite infinda
Em que voavas na rapidez da valsa
Deixou minh’alma retalhada em dores
Presa nos elos que essa trança enlaça;

É que inda hoje eu conservo intactas
As doces frases do valsar em meio
É que inda agora julgo estar sentindo
Arfar teu seio em delirante anseio;

O doce hálito que exalavas rindo
As meigas falas… o teu sorrir de então
Ai … tudo… tudo para mim recorda
Louca esperança que alimentava em vão.

É que eu nutria essa esperança frívola,
Falsa quimera que se esvai e finda,
É que eu te adoro, te venero, santa
E curto em silêncio essa dor infinda

Por isso eu hei de como sempre amar-te
Preso nas chamas que do ar tu lanças
Dizer-te, sabes o que eu desejo, louco?
— Morrer envolto nas tuas negras tranças.

CONSOLO

Tudo! … tudo morreu, mas n’alma brota Uma esperança ainda.
SÊNIO

A alma aberta. . . e chega-me a saudade
Do meu amor — coitado! — a enchê-la. . . a enchê-la…
Como me enchia o peito a felicidade
Dos bons sorrisos, dos carinhos dela.

E o martírio e a tristeza agora é tê-la
Ausente — ausente! … e a cruel vontade
Que avulta e eu a tenho e é de vê-Ia,
Inda mais cresce aqui na soledade.

Mas nesta ausência em que — só de pensar —
Sinto que a vida vai-se me acabando,
Inda vem-me — feliz! — acalentar

As esperanças que ela dava quando,
— Cego de amor que a luz vai mendigando —
Ia pedir-lhe a esmola de um olhar.

SÚPLICA
Deixa esses mortos graves,Quero a luz desse olhar ase me consola.
( L. CORREIA: “Canção” — Volatas )

Se o teu olhar me conta, magoado,
Quando a dor me tem feito dentro d’alma,
Inda que o lábio cale, descorado,
Este martírio que o teu riso acalma,

E se deste sofrer encontro a palma
No teu piedoso riso, imaculado,
Por que não volves à alegria, à calma?
Por que me deixas triste e amargurado?

Descerra o lábio! A dor, o esquecimento;
Lança-me o sol do teu sorriso, basta
Para aquecer-me a alma em desalento.

A nuvem do pesar do rosto afasta:
— longe de nós a mágoa, o sofrimento;
Limpa-me o céu da tua fronte casta!

A UM RETRATO

Até vós! até vós! talismã sagrado
Daquele morto amor, daquele amor eterno,
Ides deixar-me só, e triste, e abandonado!
Ó meu fiel amigo, inseparável, terno!

Oh! meu leal companheiro, oh! testemunho amado
Deste sofrer sem termo, este martírio interno;
Até vós! até vós! a quem só hei confiado
Os meu dias de céu e os meus dias de inferno,

Ides abandonar-me, ides voltar contente,
Sujeitar-vos, feliz, ao doce julgo dela;
Mas quero que volteis tão límpido e nitente,

Que na morta expressão de vossa fronte bela
Não se note o vestígio, — esse vestígio ardente
Das lágrimas de dor que derramei por ela!

ASPIRAÇÃO

De uma vida sem fé ao glacial inverno
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Anima-me outra vez uma alegria intensa.

Sinto voltar-me a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu e no descanso eterno,
Pois creio em teu olhar, e na ventura imensa
Que ele encerra, e me mostra apaixonado e terno.

E quando deste corpo a alma arrebatada
Seja, e procure, flor, essa região sagrada
Que aos bons é concedida, esplêndida, a irradiar,

Aos sons celestiais de apaixonado hino
Abra-se para ela, olímpico, divino,
O infinito céu do teu sereno olhar.

O VIOLINO

São, às vezes, as surdinas
Dos peitos apaixonados
Aquelas notas divinas
Que ele desprende aos bocados…

Tem, ora os prantos magoados
Dessas crianças franzinas,
Ora os risos debochados
Das mulheres libertinas…

Quando o ouço vem-me à mente
Um prazer intermitente…
A harmonia, que desata,

Geme, chora… e de repente
Dá uma risada estridente
Nos “allegros” da Traviata.

A UM PESSIMISTA

Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena,
Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras,
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.

Sangra a etérea região, sangra a região terrena
E o horizonte, que as une, inda mais dilacera-as.
E as próprias linhas — louco! em que a sânie verberas,
Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.

Mas, se ao céu e se à terra, e se ao horizonte e ao verso,
Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas
E nela vês tombar e fundir-se o universo,

Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas
E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso
Na própria irradiação das tuas próprias mazelas.

DIAFANEIDADES

Brumas, névoas, no espírito doentio
Passem-me, embora veladoramente,
Tu surgirás eterna flor do estio,
Radiante, rubra, tentadora, ardente.

Toldem-me a vista sóis, e fio a fio,
Trama ofuscante me perturbe a mente,
Eu te verei, eterna flor do frio,
Fria, polar, consoladora, albente.

Visão de fogo, aparição de gelo,
O mágico poder, estranho e raro,
Dás-me de tudo a ver, nítido e belo.

Pois tudo em ti, de amor abrigo e amparo,
Faz-se como este amor que tu’alma fê-lo
Diáfano, leve, transparente, claro.

LESMA

Passas. Ouço o rugir do vento que te leva!
Quando, da Arte, me ajoelho, no mystico delubro
Tu vens, lúdicro arfando, e ao espaço, a crocitar na treva.
E o impotente, o bêbado eu descubro.

Alimenta-te a inveja. O despeito te ceva.
O álcool atou-te a voz rouca e deu-te esse olhar rubro,
Que é o único clarão que do teu ser se eleva.
Mísero, a que do orgulho do régio manto encubro.

Anda! Beija-me nos pés, a clâmide inconsútil.
Eu piedoso Ca estendo ao desespero inerme!
Tu não és venenoso, o teu esforço é inútil!

O teu dente sutil não me passa a epiderme,
Oh! fonte do banal! oh! nascente do fútil!
Larva! tens o perdão! Tens a piedade, oh! verme!

INSTANTE NEGRO

Anda, acima de nós, na abóbada infinita
Em sinistro remígio, algum sinistro corvo
Que grasna ao nosso mal e à nossa dor crocita
Pondo, entre nós e o sol o seu feral estorvo!

Anda, abaixo de nós, uma víbora aflita
Que assalta o nosso sangue e o suga sorvo a sorvo!
A terra é para nós uma furna maldita.
O céu é para nós um teto negro torvo!

Terra e céu, contra nós, se conspiraram ambos.
A vida é um volutabro, e o sofrer não se exprime
Com que andamos por ela esfalfados e bambos.

Nem mais ao próprio poeta há um amor que o reanime,
— Em vez dele hoje entoar, himnos e dithyrambos,
Canta a glória suprema e a volúpia do Crime! …

Fonte:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes. RJ: Livraria José Olympio, 1980.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 15a. Parte, final


” TRAGO AMARGO ”

Dispenso as palavras
de conforto…

Tomarei como um trago amargo
o meu desgosto…

- Amor morto:
amor posto.

” TROVADOR ”

E vou iludindo, assim,
aos outros
e a mim…

Sigo
a espalhar cantiga,
trovador de alma triste
e alegre bandolim…

“TUDO?… NADA?…”

Que hei de dizer-te se nada te posso dizer?
Se tudo sabes sem uma palavra em meus lábios.
Se meus olhos toda vez que te encontram
se confessam como um pecador,
e eu não posso evitar que eles falem por mim
e revelem aos teus olhos meu segredo de amor?…

Que hei de dizer-te? Se nada te posso dizer…
Se devo parecer um incoerente, um tolo…
Se só me resta afinal esse consolo
de me confessar toda vez que meu olhar
encontra o teu olhar. . .

Há tanta coisa ao redor. . . tanto cenário inútil
ao nosso encontro,
- encontro só meu,
pois que afinal nem sei se ao me veres, me vês,
ao cruzar meu passo com o teu…

Tão complicada esta vida… E como seria simples
amar-te
tomar-te como uma criança em meus braços, beijar-te…
(Perdoa, amor, estas coisas que penso
e a estas horas tardes, componho… )
- tomar-te só para mim, e dividir contigo
pedaço por pedaço, inteirinho, este amor,
este sonho…

Chamo sonho a este amor com que me embriago,
amargo pensamento onde apenas é doce
a tua presença,
perdoa, amor: pensar em- ti, era, a principio, vago,
no começo, nem supus que importante isto fosse,
hoje, pensar em ti já é quase uma doença…

Que hei de dizer-te, afinal, se nada posso esperar…
Se temo que tudo se desmanche…
Receio pronunciar qualquer palavra, a palavra
que seria essa pequena pedra deslocada,
capaz de provocar uma avalanche!
… e sepultar
este sonho, e fazer de tudo…
… nada!

” UM NOVO AMOR ”

E de repente… (parece incrível)
- o tudo de antes, não existe mais
não interessa…

Um novo amor, amor,
é sempre um mundo novo
que começa!

Não importa a experiência que tiveste
ou que julgas Ter,
nem essa íntima e inútil convicção
de que nada mais poderia em tua vida
surpreender o coração…

Não importa o percorrido
o conquistado,
ou o que antes foi desejado
por teu marinheiro coração,
- um novo amor
começa tudo do chão…

é como se abrisses os olhos para a vida
naquele instante,
como se para trás nada tivesse havido…
Nasces com um novo amor! E viverás de novo
o mistério deslumbrante
do que há de acontecer, como se nunca tivesse
acontecido…

De repente
nada mais resta,
o ontem, foi uma noite que passou,
- o hoje é o que importa, é o que se vai viver…

Um novo amor, é uma festa,
é uma nova alegria…
Um novo amor, amor, é um novo dia
que vai nascer!

” VAGA ”

E um dia,
levaste com um gesto de vaga sobre a areia
tudo o que havia em minha vida…

Com um vai-vem de vaga, apagaste
tudo,
e restou a praia limpa, a areia branca,
e uma manhã de sol, sem brumas…

E a tua presença de vaga
vaga ternura , em vagas
de carícias a envolver-me todo
de espumas…

” VARIAÇÕES SOBRE O AMOR ”

I
Agora que te amo
concluo e proclamo:
nunca haverá um amor igual ao outro,
podes crer…

Como não há o mesmo beijo, o mesmo olhar,
a mesma ternura,
o mesmo prazer…

II
O amor é como o perfume…
Uma vez que se sente
nunca mais se mistura ou se pode esquecer
completamente…

III
Tu pensas que amas muitas vezes…

Engano, puro engano,
esse é um estranho milagre do coração
humano
que custei a entender,
e que ainda não compreendes talvez:

- toda vez que se ama
é a primeira vez…

IV
Nunca se ama duas vezes
porque apesar de um só, o amor não se repete
no coração da gente…

O amor é como o mar…
- único, múltiplo,
diferente…

V
Os amores são como as ondas
no mar…
Parecem todas iguais quando espumam, distante,
e se põem a avançar…

Entretanto, nunca haverá uma onda
igual àquela que se elevou, cresceu
e se desfez…
Toda onda é onda somente
uma vez…

VI
Um amor é sempre assim
novo, diferente,
e surpreendente,
nada tem com o amor que passou
que floriu, que murchou,
como uma onda, ou uma flor…

Um novo amor, ( que importa o coração
viajado
e sofrido?)
é sempre um novo amor!

Que importa se é velho o barco?
Importa é o novo roteiro
a nova paisagem…

Um novo amor é sempre o primeiro…
É sempre uma nova viagem…

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 14a. Parte


” SONETINHO ”

Não tenho jeito pra trova
apesar das que já fiz,
a quadra lembra uma cova
com a cruz dos versos em x…

Ainda estou vivo e feliz
e do que digo dou prova:
- tentei cantar numa trova,
e meu amor pediu bis.

Bem sei que é meu o defeito
mas uma trova é tão, pouco
que ao meu cantar não dá jeito

Só mesmo um poema é capaz
de conter o amor demais
que trago dentro do peito.

” SORRIO… ”

Ah! vieste me falar de antigamente
desse tempo em que fui sentimental,
quando o amor era um sonho puro e ardente
vestido em véu de espumas, nupcial…

Quando me dava, perdulariamente,
vivendo o mal sem conhecer o mal,
a levar a alma inquieta de quem sente
e de quem busca uma conquista ideal…

Era sestro da idade essa existência…
Sinal de pouca vida e muito sonho,
de muito sonho… e pouca experiência…

Hoje, no entanto, se a pensar me ponho:
- sorrio… Um vão sorriso de indulgência…
…Sinal de muita vida… e pouco sonho…

” SORTE… ”

Está aí, amor, uma coisa que às vezes me pergunto,
(naqueles dias de silenciosa ternura
naqueles momentos sem assunto,)
- uma coisa tola que eu penso
e que você não advinha:

- como podem os outros homens ser felizes,
se Você é uma só…
… e se Você é só minha ?…

” TEMPO PERDIDO ”

Quanto tempo perdido, e como dói
pensar que nunca mais o reaveremos…
Vivemos longe um do outro, como extremos,
que o tempo, – um moinho – lentamente mói…

Quanto tempo perdido… Eu, já mudado,
sem aquele entusiasmo, aquelas ânsias
que ficaram perdidas no passado
e se vão diluindo nas distâncias…

Tu, sem aquela expressão ingênua e pura
aquela ar de menina, que pedia
proteção para um sonho de ventura
que seu olhar inquieto refletia…

Tanto tempo perdido… E houve um momento
quando nos vimos a primeira vez,
que o amor seria belo, como o vento
como o mar, como a terra, o sol, talvez !

” TEMPOS… ”

I
E dizer
que eu não podia passar um segundo sequer
sem saber onde estavas…

Hoje,
nem sei se existes…

II
Houve um tempo, em que eras
o Presente, o Mais-que-Perfeito
o Infinitivo…

Hoje…
nem és Passado…

” TEREZINHA ”

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha…

De quem será?
De quem será?
Que inveja eu sinto
de alguém que está
não sei bem onde,
de alguém que um dia
certo virá
e levará
a Terezinha

É a Padroeira
de antigo sonho
que em minha alma
em vão se aninha…

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha…

” TEUS CABELOS “

Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos…

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los…

Tem estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e… já não me reconheço…

Tua cabeça em minha mão acende-se como uma tocha loura,
e olhos em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro…

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos…

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 13a. Parte

” SOLILÓQUIO AO ENTARDECER ”

I

Interessante, amor, como depois de tantos descaminhos
de tantos desajustes, a vida vai ajeitando a felicidade,
ou a felicidade vai se ajeitando na vida, sem a gente perceber,
se enrodilhando em si mesma como um gato no tapete.

Como vamos reduzindo as proporções de nossos sonhos
(sem que nos apercebamos disto),
modificando nossos planos (aquelas aspirações que eram
como viagens à Marte),

limitando os horizontes de nossa felicidade,
e por isso mesmo, tornando-a possível, real, palpável,
capaz de ser possuída, sem nada perceber de seu conteúdo,
antes tomando uma forma imprevista. Apenas.

Estranho, amor, como a felicidade
pode se reduzir a um quase nada ( sem deixar de ser tudo)
sem deixar de ser felicidade!

(Sabe uma coisa, amor? A gente só pode ser feliz depois
de ter andado muito, e ter provado
os tragos amargos da vida,
e depois que afinal a gente chega a uma espécie de filosofia
sobre o querer, e o poder alcançar…)

Interessante, amor, mas vamos concluindo que a renúncia
é a irmã mais velha da felicidade,
- Irmã Renúncia! – e só por ela, chegamos tantas vezes
aquela alegria de saber
quanto nos basta esse pouco que nos transborda das mãos…

II

Hoje, por exemplo, basta estar em casa, basta Você estar comigo
para que me sinta feliz…
De repente me ocorre que há hoje tanta gente que não pode estar em casa,
que não sabe o que é estar em casa – sentir vagamente, em torno
o calor de uma companhia que faz de cada coisa inanimada
algo que existe, e vibra, e sente, e sofre, e ama,
como um Ser.

( De deixe que lhe confesse, depois de tanto tempo lado a lado:
- nunca a casa me parece tão vazia, como agora
se acaso chego, e não a encontro…)
É tão fácil entender: Você está em toda parte: nas flores das jarras,
na porta entreaberta, no rumor da cozinha, na bolsa sobre a cama,
em tantos lugares! na ordem das coisas, no gosto dos detalhes,
(em tantos detalhes só acessíveis à minha percepção…)

Hoje, basta você estar em casa e já me sinto feliz,
se seu andar, seu vulto, sua voz,
“materializam” sua presença a todo instante.

Basta saber que cada providência sua é um pensamento em mim,
basta saber que vamos nos sentar juntos, à mesa ( e essa é
sempre uma hora de comunhão)
- e vamos nos deitar juntos… E até já não importa se
conversamos tão pouco
sobre o tão pouco de nossas vidas,
se nossos corpos apenas se tocarão, ao acaso, sob os lençóis,
como dois ramos acenando, na sombra, ao entardecer.

Quem nos vir há de pensar que somos apenas duas pessoas sentadas
à mesa,
conversando na sala,
vendo televisão,
duas pessoas dormindo na mesma cama;
e entretanto, que engano !
- somos dois mundos, duas vidas
construídas há tantos anos em tantos irreconstituíveis momentos,
unidas como fios, por duas agulhas que tecem
a mesma malha,
e eu não poderia olha-la como a olho, se Você não viesse de tão longe
em meu coração,
nem Você sorriria para mim desse modo, se eu não fosse para Você
tanta coisa de que talvez nem Você mesmo se aperceba.

Nao sei se consigo traduzir essa sensação de felicidade
que me vai possuindo inteiro – e se vai entranhando em mim,
numa infinita tranqüilidade
que sinto na alma, no coração, nas mãos, nos braços, no corpo todo,
sem nenhuma razão aparente,
e por tão pouco, dirão.

Mas hoje basta Você estar em casa, mais nada, apenas estar em casa,
na tua casa que é a minha casa, na nossa casa,
para que eu me sinta feliz.

III

Chega a ser tola, confesso, essa emoção que faz com que
me deixe ficar esquecido
numa poltrona, em silencio, na penumbra, nesta hora quase noite…
E olhando as coisas em torno, e recostando o corpo pesado,
e cerrando os olhos para me ver melhor, me digo sem nenhum medo
que me sinto tão bem, tão em paz com a minha vida
que ate podia morrer.

(Nada deve haver de pior, afinal, para a felicidade,
que a gente chegar de volta, ao fim do dia,
e não encontrar em sua casa
senão uma casa vazia.)

Hoje, basta saber que continuamos juntos, a seguiremos assim
até o fim;
que tormentas medonhas não conseguiram separar-nos,
que vencemos obstáculos que pareciam intransponíveis
além das nossas forças;

- que continuamos juntos, no mesmo barco, como dois remadores
que ficaram em seus lugares quando as vagas cresceram,
e apertaram suas mãos aos duros punhos dos remos
e somaram a sua fé, a avançaram mais fortes, a sentiram que sobreviveram
porque estavam juntos.

Hoje, basta pensar que alcançaremos as calmarias do fim da viagem
quando as correntes e os ventos não estremecerão mais
nossos nervos cansados,
nem agitarão nossos cabelos grisalhos,
e, quem sabe? – chegaremos à terra, braços dados
um no outro, como antigamente, quando era o começo,
e cegos e aventurosos não conhecíamos o roteiro,
nem perigos e emboscadas…

Hoje, basta Você estar em casa para que me sinta feliz…

E nesse momento em que a felicidade parece se reduzir
e ficar mais leve,
para que a possamos carregar,
deixa que lhe confesse amor, que hoje, Você é sempre,
e é muito mais que aquele amor que foi, e continua sendo,
porque posso chamar Você agora
( e até a hora derradeira )
o que Você nao podia ser outrora:
- a minha companheira.

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Bloco do Amor)

Marca a cadência o tambor,
Já repica o tamborim,
Eu sou do bloco do amor,
Quero ser seu pierrô,
Seu palhaço e arlequim!

Quero ser seu mestre-sala
E sambar com muita arte,
Você segura o estandarte
Sambando livre e contente
Mostrando pra toda gente
Sua bela retaguarda -
Sua comissão de frente!

Quero cair na folia,
Sambar, levantar poeira,
Vou até raiar o dia
Da manhã de quarta-feira!

Vou tomar todas geladas,
Lembrar que a vida existe.
Só paro de madrugada
E, junto com minha amada,
Esquecer que o mundo é triste…

E quando a festa acabar,
O Rei Momo for deposto,
Volto de novo pro posto,
Do sonho vou acordar,
A vadiagem acabou!
É hora de trabalhar…

São Fidélis “Cidade Poema”/ RJ


Fonte:
Poema enviado pelo autor

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 12a. Parte

” REVOLVER ”

Tu me tomas-te, encantada,
em tuas mãos,
(como um menino a um revolver de brinquedo)
com uma alegre ingenuidade…
………………………………………………………………..
Só que ainda não te apercebeste
que é um revolver de verdade…

“RIO-ME”

Rio-me, e entretanto, eu sei que estou doente
que um cansaço de tudo às vezes a alma invade,
e de repente, sou como um mendigo ao fim do dia
sem ter para onde ir, à hora em que todos voltam…

Rio-me, e entretanto, eu sei que às vezes choro
sem lágrimas, sem pranto, só por dentro, e sinto
que a vida de repente é uma coisa sem nada
que lhe possa explicar um segundo que seja!

Rio-me, e entretanto, a vontade que tenho
é de às vezes deitar-me na rua, e esperar
que um vento sopre a luz dos meus olhos, mais forte,

e acabe de uma vez com o que nunca devera
um dia começar, se o fim que se anuncia
ninguém sabe seu nome: é vida, sonho, ou morte?

” SABEDORIA ”

Não te percas em vã filosofia….
O negócio é viver….. Vive primeiro!
O pouco que alcançaste é o verdadeiro,
e o resto, sonho só, – tudo utopia.

Deixa passar o que não pode ser!
A esperança do vão, é doentia…
Ergue a mão ao que a mão pode colher
e ao que está longe, esquece e renuncia……

Se tiver que chegar o inesperado
colhe-o, que essa é a atitude de quem vence:
saber colher o bem predestinado…..

A Vida é o mais efêmero dos bens
nela em verdade, nada te pertence,
nem sabes aonde vais…… nem de onde vens….…

” SEM QUERER… ”

Tu nada dizias…

Mas eu precisava saber
para aplacar minha dor…

Foi então que toquei tuas mãos
sem querer…

Tuas mãos, tão frias…
- Obrigado, meu amor…

” SILÊNCIO ”

E porque tudo
queremos dizer…

Nunca temos tempo
de dizer nada…

” SINAL ERRADO… ”

Teus olhos verdes,
traiçoeiros,
indicavam passagem livre…

Segui…

Era o abismo…

” SÓ ”

Lá fora há um luar triste
molhando tudo…

Será o luar
ou serão os meus olhos ?

” SOLILÓQUIO AMARGO ”

As vezes (e estamos em nossas vidas, naturalmente,
vivendo dias e noites, dias e noites
há tanto tempo . . . )

- e, de repente, um pensamento amargo e insólito
toma conta de mim.

Um dia – e ele chegará – um de nós terá
que partir,
e o outro, vai ficar.

Eu? Você? Quem terá que se despedir
sem dizer para onde? Quem terá que ficar
sem dizer para que?

Imagino esse dia, – e um estranho pavor me paralisa
por alguns momentos.
Não concebo minha vida sem Você,
e, – desculpe-me – tenho mais pena de Você
se for eu que tiver que ir embora.

Ha tantos anos vimos trazendo nossas vidas como uma vida só,
e de tal modo as juntamos que o dia em que tivermos que separá-las
a que ficar, será um simples destroço, um pedaço mutilado de vida
incapaz de sobreviver.

Para que, meu Deus? a gente construir com duas vidas
um destino só,
fazer esse trabalho dias e noites, de tantas pequeninas coisas
aparentemente insignificantes,
de momentos de puro prazer, de horas de lenta agonia,
construí-to lentamente, como quem estivesse fazendo uma
obra para sempre,
e, subitamente – sem o menor aviso, sem a menor razão,
depois de tanta coisa juntada, e sonhada, e sofrida,
uma força maior – como uma faca – corta tudo ao meio
e uma metade se enterra, e a outra metade, de pé, se desmorona
como um auto-mausoléu de areia?
………………………………………………………………………………………..
Eu te agradeço, Senhor, que este pensamento
só raramente me venha, e logo o sopres além…

Que seria de mim, afinal, se ele pousasse por mais tempo
em minha vida?

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 11a. Parte

” PEQUENINA… ”

Sim, és pequenina…
E sendo mulher, lembras mais
às vezes, uma menina…

Uma menina cheia de sonhos
vãos…

Sim, és pequenina…
(como gosto que sejam as mulheres
para melhor caberem em minhas mãos…)

” PERGUNTA TOLA “

Afinal
(para o meu bem
ou para meu mal)

- encontrar Você
para quê ?

” PRESENÇA… ”

Se esta página onde escrevo
fosse um espelho, meu amor

… estaria embaciada ainda
pelo teu calor…

” PRÍNCIPE ENCANTADO ”

Ontem
Me senti Príncipe Encantado
quando você me encontrou…

E ao Vê-la
em sua ingenuidade sonhadora,
em sua desprevenida beleza,
fiquei a lastimar antecipadamente a sorte
de mais uma Princesa…

” QUANTO A MIM… ”

Bom é saber que me esqueceste,
e descobrir (para meu mal
ou para meu bem?)
que eu apenas te amei…

Que tu fosses feliz
foi afinal
o que sempre desejei
e quis…
………………………………………………………………

Não choro, não me lamento
de nada sinto falta…

… E para que falar em sofrimento
se a noite vai alta…

” RECEIO… ”

I

Às vezes receio ( e talvez falte pouco)
que esse ímpeto que vem do coração
com uma força estranha,
extravase em ternura quente
como as lavas de um vulcão pela vertente
de uma montanha…

Receio que transborde
esse ímpeto louco, que domo
nas profundezas do Ser
e é fogo, em meu olhar…

E eu ponho tudo a perder…
Tudo… Eu que há tanto tempo me contenho
não sei como,
a esperar…

I I

Nesse silêncio me aprisiono
e me acovardo,
nesse silêncio me guardo…

Por mim, por ti, por nós dois,
é melhor que não venha a palavra,
que eu fique mudo…

Se te dissesse a primeira palavra
talvez depois
fosse capaz de tudo…

” REMORSO ? ”

Por que há de ser assim o amor,
sempre desajustado
em nossas vidas?

Esta ternura que tanto te cativa
uma outra inutilmente a desejou
e bem que a mereceu….

Perdoa, amor… Mas essa ternura
que te dou,
é remorso talvez, sentimento de culpa,
que seu eu?

Prodigalizo-te o que por tanto tempo
neguei, sem explicação,
a quem tanto se deu, e desesperada se foi
sem qualquer explicação…

” RESTOS DE NAUFRÁGIO… ”

Me lembro de teus gestos de criança, teus olhos garços,
teus cabelos louros despenteados
pela aragem fria,
me lembro de tua perturbação adolescente
naquele dia…

E da expressão de teu olhar
sempre que me encontrasse,
quando o amor era um primeiro rubor de alvorada
em tua face…

S então eu fosse teu e tu fosses minha
eu, puro, sem passado, a esperar pelo mundo;
tu, a imagem da própria ingenuidade
em seu canto inicial,
nosso amor teria sido um céu azul, profundo,
onde dois pássaros esvoaçassem
antes do pouso nupcial…
…………………………………………………….

Maldade do Destino… Coisas da Vida em seus desígnios…
nem pudeste ser minha e nem pude ser teu…
(Ah! aquele instante dos instantes
que irremediavelmente se perdeu!)
- em que este amor teria sido o amor perfeito
como as manhãs de abril nas montanhas distantes…

E hoje que tens cansado o corpo e a alma entregas
em gestos lassos,
com esse jeito de quem tem pago pelo pouco
que tem recebido,
um doloroso preço,
- hoje, enfim, que te tenho em meus braços,
eu, também, sou um saturado, um perdido,
e já não te mereço…

Depois de tantas voltas inúteis, nossas vidas
que ventos estranhos desarvoraram
sobre o mar,
são como os restos de um naufrágio
que as ondas dispersaram
e ao fundo de uma mesma praia
foram dar…

Restos… somos restos de nós mesmos
a boiar…

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 10a. Parte

“O ESPELHO”

Dizias não gostar dele…
Mas já te vais acostumando à sua silenciosa
presença…

Mudo espectador só ele tem o direito de assistir também
às redescobertas de tu beleza.

Tu me chamas de louco, porque às vezes,
não contento de ver-te a face,
te surpreendo em descuidadas revelações
em seus olhos prateados…

Tolice, amor,
por ele posso encontrar num imenso instante
todas as faces de tua beleza
e multiplicar ao infinito
as loucuras e alegrias do nosso amor!

” O VÉU DA FANTASIA ”

Desnuda-te apenas nos instantes cegos dos sentimentos
quando todos nos transfiguramos,
(de nós mesmos, esquecidos…)

Meu Desejo quer-te velada
novamente,
tão de pronto meus braços te soltem
tal como um tronco abatido
ao sabor da corrente…

Não te exponhas assim, displicente, aos meus olhos
que banalizas tua beleza
e podes te igualar a encardidas visões…

Que desça o pano ao fim dos espetáculos
e que voltes aos bastidores
antes das novas apresentações…

Quero-te nua em meus braços, (mas deixa que te confesse: )
quero-te nua, com essa encantada nudez
que eu diria
vestida sempre com um véu
de fantasia…

” OBRA-PRIMA ”

A sua adolescência é em si
uma obra-prima
da natureza,
um pequeno universo…

É impossível conter toda a sua beleza
numa rima,
ou medi-la num verso…

” OUTROS CAMINHOS… ”

Chegas de muito longe… trazendo meu sonho,
e és a imagem da pureza que eu escondi no fundo
dos meus fracassos…

Perdoa, meu amor, se de joelhos me ponho…
E se terás que passar por esse chão imundo
se quiseres chegar
até meus braços…

” PAVANA PARA UMA CRIANÇA MORTA ”

E afinal
em meio a tantos embaraços
eis ao que chegamos, sem perceber…

Andamos de um lado para outro
com essa criança nos braços
sem saber o que fazer…

Um sentimento de culpa nos persegue…
Diante dela, ainda choras,
e a minha alma se cala…

Fomos nós que a deixamos morrer sem um gesto sequer
para salvá-la…

E agora, a carregamos
sem reconhecimento, sem piedade,
esquecidos de tudo que nos deu, em outros tempos
de felicidade…

Mas para que lembrar? Houve mesmo outros tempos
em que ela nos pegou pela mão, como crianças
bêbedas de vida
sem falsos pejos,
e embriagou-nos de carícias
e desejos?…

Hoje… Somos nós que a levamos, em nossos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços,
sem coragem de enterrá-la
no coração…

E por que esperar por um milagre, se nós não cremos
em milagres?
- Se nós não cremos em ressurreição?

” PAZ… ”

Assinemos a paz…

Pelo que fomos
mas já não somos mais,
não vamos desprezar o nosso amor
como um amor qualquer…

Aceitemos o Destino – que a ele cabe
pôr e dispor -
e já que não foi possível a felicidade…

… seja o que Deus quiser…

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 9a. Parte


” NÃO DIGAS… ”

Não diga: sem este amor
morrerá meu coração…

Do tronco abatido, calcinado,
e que parece morto,
irrompe às vezes, às primeiras chuvas
nova vegetação…

” NÓ ”

E ficamos tão nós
tão um no outro
que não sabemos mais onde um começa
e onde o outro termina…

Demos um nó cego
em nossos destinos…

“… NOS BASTIDORES ”

A luz dos refletores
batias asas …

E no amplo palco iluminado
e no meu coração desesperado
bailavas …

Bem que te quis tomar nos braços
quando chegaste, trêmula, comovida…

Mas, apenas te fitei…
É que devo continuar
onde fiquei:
nos bastidores … de tua vida …

” NOSSA CAMA ”

Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.

A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou…

(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aqueles gemidos,
aqueles carinhos
que a mão do tempo raspou, como nos velhos
pergaminhos? … )

A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,

- oceano, que teve ondas e gritos encapeladosapelados,
e nele nos debatemos tanta vez como náufragos
a nadar… e a morrer…

Olho a nossa cama, palco vazio,
em nosso quarto, – teatro fechado -
que não se reabrirá nunca mais…

Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor…

Nossa cama:
- campa (sem inscrição)
do nosso amor.

” NOTAÇÕES TRISTES À MARGEM DO AMOR ”

1
Sim, não somos os mesmos, reconheço
e até
confesso com amargor…
Repara no que tu és
e no que sou agora…
Vamos parar, portanto . . . Antes guardar de pé
as lembranças do amor
que apagá-las, de rastos, sobre o chão de outrora . .

2
O desencanto é perceber que deste ponto em diante
tudo já foi vivido, experimentado,
e não há mais o que ver…
Compreender, imprevistamente, que tudo é passado…
E… mesmo sem presente, e sem futuro:
continuar a viver…

3
Acabaríamos nos envergonhando de nós mesmos,
(nós que nos amamos, nós que fomos amantes)
se este amor que viveu de sensações extremas
e gerou cantos e poemas
acabasse afinal,
burguesmente, como uma festa domingueira,
ou ficasse a rolar sem lances de beleza
uma rotina monótona
e banal…

4
Seria tão fácil se te pudesse falar
sem ressentimento ou rancor:
- se nao mais nos amamos
vamos parar onde estamos,
não vamos azedar
um doce amor…

5
Acho que posso ver além dessa alegria
que desabrocha em meus lábios, desafiando
a minha dor…

Também na madrugada em festa, ao vir do dia,
há lágrimas de orvalho límpidas chorando
no riso de uma flor…

” NOTURNO SEM NÚMERO ”

E eu tão só, e eu tão cansado…
A alma já nada quer
nada reclama…

Só tu cintilas como estrela
numa límpida radiância
na noite de minha insônia…

” NUNCA PENSEI… ”

Nunca pensei que ao ter-te ainda a meu lado
eu pudesse sentir-me, em solidão,
tão só, tão sem ninguém, desesperado,
que nem mesmo a lembrança do passado
tornasse menos frio o coração…

Ah! pior solidão é essa que a gente
sente ao lado de alguém que se perdeu…
Havia tanta coisa… e, de repente,
tudo se esvai, inexplicavelmente:
- já não sabes se és tu, nem se eu sou eu!

Nunca pensei que em tua companhia
pudesse sentir em solidão…
Ah, negra é a noite se foi claro o dia,
e maior é a tristeza, se a alegria
antes cantava em nós, era canção…

Nunca pensei que ao ter-te ainda comigo
no vazio cruel desses instantes
me sentisse tão só, como hoje sigo,
e pudesse concluir, como um castigo:
- tanto mais juntos… quanto mais distantes !

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 8a. Parte

” MARGARIDA… “

Quem já viu a margarida
na sua haste leve e fina
sobre o dorso da colina
ao vento suave a acenar ?

Pois ela é assim, parecida,
em sua inquieta alegria,
oscila, e é toda poesia,
quando vive em meu olhar…

“MENSAGEM CIFRADA”

Minhas costas ficaram como sensíveis palimpsestos
onde escreveste, com os estiletes de tuas unhas
estranhos caracteres
em misteriosa linguagem…

São loucos hieróglifos que gravas sem sentir
como um artista em transe que se pusesse fora de si,
a transmitir a sua mensagem…

Nem tu mesma és capaz de traduzir os sinais
que deixaste gravados em minhas costas
fixando aqueles instantes de infinito prazer
e exaltação,

e eu penso, que se pudesse um dia decifrá-los
teria descoberto o segredo da escrita
do amor
e penetrado, e revelado o enigma
da própria Criação!

” MEU RUMO “

Sou um barco de 7 mares…
És a vela branca
do meu pensamento…

- Vou para onde me levares
ou aonde nos leve o vento…

“MONÓLOGO DO BARQUEIRO SOLITÁRIO”

Não sei como consigo conter este desejo que sopra
e me impele para ti
como um barco para o mar…

Não sei como consigo amarrar-me a mim mesmo
como quem nada sente,
a simular esta calma, esta paz,
deixando-me ficar como um barco a bater inutilmente
contra o cais…

Ahl Se ainda fores minha! Enfunarei mil velas
pelo oceano a fora,
soltarei bandeiras, seguirei audacioso o meu roteiro…

Ah! Se tu fores minha! Não viverei assim
em viagens de sonhos
preso às amarras do meu desespero…

Partirei em busca daquela ilha
que veio em teu olhar…

Ah! Se tu fores minha, que maravilha!
Serei dono do Mar…

” MOTIVO MODERNO PARA SOLO DE VIOLINO “

Que importa se lá fora os carros passam,
os jornais têm manchetes atômicas,
os foguetes violam o espaço,
e os homens práticos carregam pastas
grávidas de negócios,
e fígados insociáveis?

Aqui, junto a ti,
em nosso leito,
meu coração século dezenove te ama,
e murmura coisas que eu fico bobo de ver
como te deixam derretida,
e tocam teu corpo
como um arco de violino…

” NA CURVA EXTREMA… “

Chegamos mesmo a um ponto em que é impossível
continuarmos adiante, o mesmo passo,
e o que é estranho afinal é que ainda te amo
sinto que te amo e que me fazes falta…

Há mistérios no amor, inexplicáveis,
Há caminhos na vida que ninguém
pode prever onde darão, nem como
hão de findar, além da curva extrema…

Insustentável nos parece o sonho
que equilibramos sobre um fio apenas,
não sei o que pensas sobre o outro lado,
sei que me perco, me acovardo, e paro.

Ha, bem quisera com desprendimento
te desejar toda ventura, toda
que não pude ou não soube te ofertar,
e hoje sei, tão distante… inalcançalvel…

Talvez jamais isto se dê, no entanto
se tiver que se dar, que acontecer,
que eu tenha forças para merecer-te
ao menos neste instante de perder-te…
Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 7a. Parte

” JANELA ABERTA “

Chegaste em minha vida
como uma janela aberta
nuca casa vazia e triste.

Trouxeste um dia de sol
um aceno de folhagem
um canto de pássaro.

Que importa se continuo a ser
a mesma casa triste
e vazia?

Debruçado à janela agora
posso te ver passar…
todo dia…

” LAR “

Na estante
meus livros me esperam
e a um simples aceno, conversam
e contam histórias…

Na penumbra
em terna expectativa
minha poltrona guarda em seus braços
a forma do meu cansaço.

Cegos
meus pés calçam no escuro
os chinelos, ao lado da cama.

Em silêncio, meu sono
encontra outro corpo,
(sem fome, sem sede)
e se acomoda e adormece nele
como uma rede…

” LOUCURA… “

A verdade
é que chegaste tarde,
e não pude prever que um dia vinhas…

E o que teria sido um sonho bom e igual
a tantos outros,
uma história de amor e de ternura…

- não pode ser amor somente, e sendo mais
teve que ser loucura !

“MADRIGAL EM TOM DE PRECE”

Principalmente gosto dos teus olhos de águas e espantos
onde flutuas em transe, na luz de duas estrelas fugidias,
e porque eles me dizem que continuas intocada por dentro
e eu fui o primeiro, e há muito me pressentias.

E gosto de teus cabelos quando escorrem
entre meus dedos, e me dão a impressão
de que te tenho nas mãos, e de que todo me emaranho
em sua rede, e de que estamos presos, submersos, perdidos,
sem salvação.

Gosto de tuas mãos pequenas, boêmias, andarilhas
que saem com o destino do amor, e me percorrem,
e se perdem sem caminhos pelos meus cabelos
e me encontram por toda parte, e me aconchegam,
e me socorrem.

Gosto dos teus quadris, amplo vaso torneado
de onde nasce, num torso de planta, a envolver-me
em seus ramos,
de planta que se abre em flores e frutos
que eu desejo e colho
vermelhos, em tua boca, em tuas mãos, em teus seios,
quando nos amamos.

Gosto de tuas costas (como um arco, flexível)
que se alargam em duas luas imensas, geminadas,
surgindo entre os lençóis,
clareando a escuridão,
e que às vezes, de certo jeito, me parece
em teu corpo de mulher,
num meneio qualquer,
com uma grande, exótica e sensual
folha de tinhorão!

Gosto de tua ternura, ternura de vaga mansa,
ternura de praia curva, de enseada onde me deito
como um barco carregado de itinerários,
e de onde, sempre, nunca mais quero partir,
se tudo em torno é perfeito…

Gosto de teu amor… humilde amor que me incensa,
(turíbulo em que teus sentidos todos se consomem)
humilde amor que me exalta, e se prosterna fiel,

como se fosse um Deus, pobre deus submisso
a este culto que o faz tão simplesmente um homem,
- um homem tão preso à terra,
de repente… no céu…

“MADRIGAL PARA UNS OLHOS VERDES”

Nos vossos olhos de mar
de um verde-mar furta cor,
quis um dia navegar
- afoito navegador…

E afinal, por me perderdes
nos vossos olhos de mar,
de um verde-mar furta cor,
dos vossos olhos tão verdes
nunca mais soube voltar…
…………………………….

Vossos olhos são tão verdes
de um verde-mar furta cor,
que afinal por me perderdes
fiquei perdido de amor…

” MALUCO… “

Só sei que depois que a encontro,
só sei que depois que a vejo
não posso dirigir automóvel…

Entro na contramão,
não respeito os sinais
quase atropelo gente,
me chamam de maluco…
e, às vezes, até demais…

E todos tem razão…
Só que não sabem a razão
porque…
Mas quando a vejo, meu amor,
fico maluco, maluquinho
por Você !

” MAR, AMOR E MORTE… “

Esse tédio cinzento… esse imenso vazio
sem nenhuma paisagem…
Esse vento do mar, de umidade, de longes
em que todo me encharco…

E eu a agarra-me à vida
tremendo de frio,
- sem a coragem do comandante do navio
de afundar com o seu barco…

II
Vamos respeitar o amor… (Um dia, ele aconteceu…)
- pelo que tenha sido,
por tudo que lhe demos
ou… pelo que ele nos deu.

(Nem era para nós, difícil, o presságio…)

- Se nada resta fazer, se tudo está perdido,
que ele ao menos se salve
do nosso naufrágio…
Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 6a. Parte


” ESTRELA CADENTE “

Ela que foi um canto de alegria
a Musa do que escrevo em seu louvor,
que pos um véu azul de fantasia
sobre o sonho impossível desse amor…

Que foi luz, que foi som, beleza e cor
no meu mundo fugaz de cada dia,
que foi tudo afinal: perfume e flor
numa vida monótona e vazia…

Que está presente no meu pensamento
como uma onde em vai-vem na praia, ou
uma estrela a luzir no firmamento…

Foi estrela-cadente… Cintilou
no alto dos céus, num ráoido momento
e… nas sombras da noite se apagou!

” ETERNIDADE ”

Estamos fora do tempo…

Este instante de amor que vivemos
é a eternidade.

” EXISTO ”

Seu amor me fez real, e me deu o sentido
da alegria de ser, total, completamente…
Fez de um pobre poeta em sonhos consumido
alguém que tem nas mãos um mundo! e sofre, e sente!

Seu amor foi a vida a irromper da semente
de um velho coração cansado e ressequido,
o verde que voltou ao ramo nu, pendente,
a imprevisível flor, o fruto inconcebido…

Seu amor foi milagre a cantar pelo chão
como a água, no agreste, a acenar ao viajante
a esperança, o prazer, a vida, a salvação…

Passo a existir, quem sabe? apenas porque a amei…
E ela existe talvez, a partir deste instante
porque ela e o seu amor… em versos transformei!

” FACHO DE LUZ ”

Às vezes, tua cabeça loura em minhas mãos
é como um facho de luz.

E é tanta a claridade que cega o meu desejo,
que cerro os olhos, encandeado, e para não me perder
agarro-me ao teu beijo.

” FALTA DE AR ”

Há dias que posso passar sem sol, sem luz,
sem pão,
sem tudo enfim…

( Tenho até a impressão de que não preciso de nada…
… nem mesmo de mim…)

Mas há dias, amor… ( e parece mentira)
- nem eu sei explicar o porquê
de tão grande aflição -

em que não posso passar sem Você
um segundo que seja!
- de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja -

- Você é o ar com que respira
meu coração !

” FAMÍLIA… ”

Da janela do meu apartamento, à noite, quando chego
vejo defronte, a mulher sentada à máquina de costura
sob um foco de luz.

São oito a meia. As janelas da sala, dos quartos, de todo o apartamento
estão apagadas.

A mulher continua costurando, costurando. Ao seu lado
estão sempre brincando um menino a uma menina,
(devem ter 5 a 6 anos)
e sobre a cama de casal ha um menorzinho, quase sempre pulando
sobre o colchão.

Vez por outra a mulher se volta para eles, ( não ouço o que diz)
mas faz pouca diferença porque eles continuam fazendo a mesma coisa.

De repente, ela para de costurar.
As crianças desaparecem.
Um minuto depois, ele se curva para beijá-la, ela se levanta e sai.
As crianças se agarram as pernas dele, entram e saem
correndo por todos os cômodos.
…………………………………………………………………………………………………….

Da janela do meu apartamento, à noite,
todas as noites,
me emociono a pensar, não sei o que…

“… Ser pai é ser esperado, é parar a costura,
é ser segurado pelas pernas, é, de repente…
acender o apartamento todo!”

” FATALIDADE ”

Há muitos anos eu te escrevia
sem por endereços em meus versos.

Tu lias,
compreendias,
e esperavas… que o meu caminho
atravessasse o seu

Era uma fatalidade
o que se deu…

” FUGA ? ”

Escrevo. Tento evadir-me.
Para onde? Se não há saídas
se já experimentei todas as vidas
e em vão…

Tento evadir-me, e as palavras
são como túneis
sem fim, em minha solidão…

“GOSTO QUANDO ME FALAS DE TI…”

Gosto quando me falas de ti… e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos tranqüilos

Gosto quando me falas de ti… e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs…

Gosto quando me falas de ti… quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti… e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti… porque percebo que te desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão…

” HISTÓRIAS… ”

Histórias…
Coisas loucas talvez, vagas, simplórias…
Isso tudo sou eu que imagino,
Você desculpará….

Vamos contar histórias…..
- Era uma vez….. um barco pequenino
que abriu velas ao vento do Destino…..
…….e por onde andará?

“IDENTIDADE”

Se me encontrarem morto no rua
(como um indigente, um desconhecido)
apenas com a minha poesia.

- seria bem fácil me reconhecer…

Bastaria que entregassem à primeira moça
que passasse,
a poesia, para ler,
e ela haveria logo de dizer (com a alma inquieta):
- é o meu poeta …

… E, tenho certeza,
(desculpem-me a imodesta convicção):
- uma lágrima límpida e silenciosa
turvaria seu coração…

” IRREMEDIÁVEL… ”

Nunca que aprende o coração da gente!
Sempre a eterna e inevitável necessidade
de crer no amor
irremediavelmente…

Quando um amor se vai,
nos castiga ou nos trai,
logo se esquece o insulto
ao vir a solidão…

- e o “ateu”, o descrente,
retornam ao velho culto
tão logo um outro amor acena
e ilude novamente
o coração.…

” IRREMEDIAVELMENTE ”

Hoje, quando me encontras
sou um homem amargurado
a tentar esconder-se em sua alegria triste
e em seu triste humor.

Sou um homem ferido, que ainda vive e resiste
desfeiteado
por um amor morrido:
inacabado amor.

Por que não foges? Por que te contaminas
com o fel
dessa melancolia,
que em vão, de risos e cantos
se fantasia,
procurando encobrir um pessimismo cruel
e medonho?

e por que partilhares esse amargor doentio
tu que és toda Primavera
e tens direito ao sonho?

Se há tantos corações iguais ao teu,
no estio,
por que tua ternura ingênua persevera
em vir morar num coração tão frio
e tristonho?

Percebo, – e basta um segundo só, se me concentro:
- sou um homem morrido, irremediavelmente triste
por dentro
a pintar-se, entretanto, por fora de alegria,
por orgulho, pudor, por estranha ironia…

E a tentar disfarçar em vão, seu cansaço
e seu tédio…

Desiste, amor, desiste!
Não gaste tua vida assim, inutilmente,
para salvar um doente, a quem o amor fez doente
sem remédio…

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 5a. Parte

” ELA ”

Quando ela passa na rua
é como uma banda de música:
- um escarceu!

E como sou maluco por música
desde garoto,
- lá vou eu !

” ELEGIAS A UM AMOR PERDIDO… ”

I
Vivemos pior que dois estranhos,
como condenados, carregando
um hediondo segredo
a nos torturar…

Pesada solidão a das almas nuas
que continuam juntas, sempre duas,
sem nada que esperar…

II
Levamos escondido
o corpo de um amor
que em vida, nos enlevou
e hoje, nos oprime…

a verdade
é que simulamos dolorosamente
uma felicidade,
como quem oculta algum crime…

III
A nossa covardia
( e quais serão as razões,
se não há para nós amanhã ou depois? )
- invento esta agonia
a dois…

E assim, como preso sem grades,
em nossa mútua presença,
vamos cumprindo cada dia
de uma interminável sentença…

IV
Crueldade do destino!
Quantas vezes cansado,
sem saber com que forças, me pergunto,
e a mim mesmo me digo:

- por que, pelo mal que fizemos
apenas a nós mesmos
um tão duro castigo ?

” ESCOLHA ”

- Se tivesses que escolher
entre o céu
a terra
a liberdade
o amor,
que escolherias ?

- O amor.

” ESTÁ CHEIO DE TI MEU CORAÇÃO…”

Está cheio de ti meu coração
como a noite de estrelas está cheia,
tão cheia, que ao se olhar para a amplidão
o olhar de luz se inunda e se incendeia…

Está cheio de ti meu coração
como de ondas o mar que o dorso alteia,
como a praia que estende sobre o chão
milhões de grãos do seu lençol de areia…

Está cheio de ti meu coração,
como uma taça, erguida, transbordante,
num momento de amor e de emoção,

- como o meu canto enquanto eu viva e eu cante
como o meu pensamento a todo instante
está cheio de ti meu coração !

” ESTAMPAS ”

I
E dizer
que me fazes sentir Príncipe Encantado
capaz de mil romances e aventuras
e do sonho mais belo,

eu, cavaleiro, de glórias enfastiado,
vencido e destronado,
sem reino e sem castelo…

II
Chegas
com teus olhinhos vidrados
teus olhinhos de contas, de boneca ou de fada,
e se encontro teu olhar
esqueço toda a vida passada
e tenho a impressão de que tudo
vai começar…

Oh, a pureza de teu coração! Oh, a ingenuidade
de teu olhar de manhã sem segredos,
sem nuvens, sentimental…

De repente, me sinto
como um brinquedo, numa casa de brinquedos,
ao olhar de uma criança
na véspera de Natal…

“ESTES VERSOS “

Estes versos não foram escritos como tantos
nas minhas horas sós, nas madrugadas
da lembrança…

Escrevi-os em teu corpo, eu os dizia ao teu lado
ao teu ouvido
com os lábios em teus cabelos,
sem perceber que eram versos …

Foste tu que os encontraste em seu canto
que acreditaste neles,
(e, quem sabe? por vaidade)
te punhas a repeti-los para que não se perdessem …

Estes versos não eram para ser escritos,
não sabiam sequer que eram versos,
eram apenas palavras de amor que tu recolheste
como um punhado de flores silvestres sem nome…

Simples palavras de amor que colheste, e em tuas mãos
desabrocharam sua inútil perenidade,
quando tinham nascido para morrer pelo chão
como as coisas efêmeras…

Agora
estes versos, que não eram versos, que eram simplesmente
palavras de amor,
são versos
de dor.

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 4a. Parte

” BICHOS ? DEUSES ? ”

… E para continuar a viver
tivemos que sair de nós
e voltar à nossa primitiva condição
de bichos…

- Éramos apenas dois bichos…
(ou Deuses?)

… Nem podia ser mesmo humana
tão grande felicidade…

” BOCÓ ”

Você não pode ficar zangada, amor,
quando eu chamo você de boba,
quando eu digo que você tem um arzinho bocó,
um desajeitado jeito de quem ainda
não foi colhida
pela vida…

Agora, vou confessar:
gosto de você assim
com todas as pequeninas coisas, tão você,
ingênuas, comovidas…

E quer saber por quê?
- Eu já estava mesmo ficando cansado
das “sabidas”…

” CICERONE ”

No primeiro dia em que te vi
tu me olhaste
como se já me trouxesses em teus olhos…

Ou como se andasses sobre nuvens
ou como se eu não tivesse os pés no chão…
………………………………………………

e eu te segui
porque compreendi
que tu eras a Cicerone do Paraíso…

” CINDERELA ”

Brincaste de Cinderela em meu Destino.
Eu fiz o Príncipe Encantado
em tua imaginação
e em teu amor.
………………………………………..

Que não acordes de teu sonho deslumbrado
para te convenceres que ofertaste apenas
o coração
à um pobre trovador…

Quando acordei
já te encontrei de olhos abertos
me espiando…

Curiosidade a tua!
querias ver com certeza como eu sou
sonhando contigo!

” …DE VIDRO ”

Pudessem ser de vidro estes versos
para quebrá-los. como quem quebra
um frasco inútil, vazio,
que teima em guardar um recalcitrante perfume
como um desafio…

” DESCONFIANÇA… ”

Que vale a vida afinal
quando chegamos a este ponto?
Deixou de ser romance:
é crônica banal
ou conto.

Vale a pena seguir ?
Sem aquele entusiasmo
aquelas ânsias,
sem aquela força de querer,
só para continuar, e se repetir…
( mais pelo hábito da vida
que pela alegria de viver ?)

Vale a pena continuar ?
Ou é melhor fugir ( fugir ou parar
que são formas diferentes de morrer…)

Já de nada me espanto,
talvez seja tudo paradoxal
mas começo a desconfiar que está chegando esse momento
extraordinário,
em que devo me recolher para ouvir o canto
de meu coração solitário…

” DESCOBERTA ”

De repente
seus olhos se encheram de passado
inexplicavelmente…

e eu percebi, com amargor,
que não havia presente
( nem haveria futuro )
em nosso amor…

“DO OUTRO LADO ”

Quando enfim abri os olhos
debruçado sobre ti, eu olhava teus cabelos finos
tão leves, como um tênue mistério em tua nuca…
E o pequenino lóbulo de tua orelha
onde pendurei o brinco do meu beijo.

E fiquei a pensar que estava ali, tão presente
em ti
e nem me vias…

…Tu estavas do outro lado,
em toda parte de minha vida,
e nem sabias…

” DUALIDADE ”

Sei que é Amor, meu amor…porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor…porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!

” DUETO ”

Bendita sejas tu, que escancaraste
uma janela em minha solidão,
e trouxeste com a luz, esse contraste
de luz e sombra em que meus passos vão…

Bendita sejas tu, que me encontraste
como um mendigo a te estender a mão,
e que inteira te deste, e assim, tornaste
milionário o meu pobre coração…

Bendita sejas tu, que, de repente
fizeste renascer um sol no poente
reacendendo esse ardor com que arremeto

e com que espero novamente a vida,
e transformaste, sem saber, querida,
a cantiga do só… num canto em dueto !

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

Versos Verdes (Parte 2)


AÉCIO OLIVEIRA ARAÚJO
J
ABOATÃO DOS GUARARAPES / PE

Rosa dos ventos

Na fase da lua de mel,
o Jardineiro duvidou da virgindade da Flor.
Falou que o Sol tinha chegado primeiro,
que havia levado o néctar do seu amor.

O Botão era o juiz,
as Folhas jurados, o Galho promotor.

Uma Nuvem baixou derretendo,
os Pingos gritaram: ” Rosa se apaixonou”.

O Jardineiro chorou sambando,
afinou sua faca, a Lua cortou.
Um Beija-Flor saiu de mansinho,
enquanto a Rosa, Folhas a condenaram.

Os Soldadinhos o Jardineiro pegaram.
O Galho, sem dúvida, convenceu o Botão.

Logo após o veredito:
o Canário voou, o Bem te vi coçou o bico.
O Vento a beijou,
a Rosa se espatifou no chão.

AIRTON SOUZA
MARABÁ / PA

O verde, os pássaros, as flores e a poesia

O verde que plantei outrora
Foi desplantado, desamado, descomposto
O verde que fiz ontem
Foi desfeito, desapropriado, desvelado
Os pássaros que adejavam lá
Foram desconsolados, desolados, desconsentidos
Os pássaros que pousavam no verde…
despautério, desconjunto, descontente
As flores que nasceram lá
Foram descartadas, descangotadas, desconceituadas
As flores sem vida e sem aroma
Foram descosidas, descoradas
A poesia que nasceu depois
Foi descabida, desbriada, descaída
O verde que tinha lá
Os pássaros que felizes adejavam
As flores que aromatizavam
São figuras meramente ilustrativas
Enquanto a poesia é descrita.

ANNA KARINA KAMINSKI
CURITIBA / PR

Primavera

Contemplo a beleza divina
De tão belas flores…
Primavera seja bem vinda
Irradiando todas as cores.

São tons, formas e texturas
Azuis, rosas ou amarelos
Cada um com sua mistura
Deixando o mundo mais belo.

Aquarelando o caminho
Begônias, rosas e camélias
O cravo, dália e narciso
Flores do campo e a bromélia.

Ao por do sol vão surgindo
Brincos de princesa e esporeiras
Orquídea, margarida vão se abrindo
Papoula, tulipa e amoreira…

Hibiscos!! Chegou a primavera!
Copos de leite e jasmins….
O colorido também tem a hera…
Mais cores tem meu jardim.

APARECIDO DONIZETTI HERNANDEZ
ITAPEVI / SP

Chuva e terra

Hoje é um dia especial,
Depois do frio,
Vejo e sinto a chuva,
Uma chuva leve e suave.

Chuva que lentamente molha a terra,
Suavemente absorvida para o subsolo,
Filtrada pelo filtro da natureza.

As plantas que vejo de minha janela,
Estão sorrindo, os pássaros gorjeiam,
A melodia é linda.

Juntos, pássaros,
Gotas de chuva batendo nas folhas,
E o cheiro de terra molhada,
Não há como descrever.
Mas dá para sentir.

Sentir a natureza filtrando,
Filtrando…e se recompondo!

CLÁUDIO MANOEL NASCIMENTO GONÇALO DA SILVA
SALVADOR / BA

Primavera

Poesias líquidas em vasos de flores que perfumam o amanhã
Cujas pétalas e folhas pululam ao sabor dos silfos em plena luz do dia.
Há um buquê perfumado com a relva e a madressilva,
E as gotas de orvalho destilam seu frescor com os elementais.
Quero a alegria da primavera e o cantar dos pássaros,
Pois toda leveza gera paixão pela vida a se aproveitar.

Nestes dias, até a superfície do lago é mais bela,
O vento ousado beija a face virgem da aquarela…
… que dança como água pelos córregos a procura do mar.

O orvalho desce pelo mundo lambendo folhas e flores,
E seu sabor revela a alquimia da natureza e de todos os amores,
Em um mistério que um boticário sabe revelar.

Hoje em dia, o dia é o Sol e o Sol toda uma noite,
A Lua que alumia se fez uma mania de se iluminar.
Aquela Eva tem um botão de rosa perfumado,
E como uma borboleta abre suas asas para receber o raio do Sol.
Talvez haja uma nudez que incite a vida numa inocência a se dizer
E como Vênus fecundada numa espuma, exale o arroubo de seu prazer…

EDILOY FERRARO
SÃO PAULO / SP

Detalhe verde

mangueira
frondosa
abrigo fresco

assassinada
na noite
desaparecida

na calçada
a caçamba
ocultada

resta o passeio
alheio
sem sombras

sem folhagens
frutos
aragens

ausência
tristeza
vilania…

Fonte:
Versos Verdes. RJ: Câmara Brasileira dos Jovens Escritores, 2010.

Maria do Carmo Marques Ramos (Poemas Escolhidos)


Tatuí / SP

SONETO AO SONO

Entre os vermelhos tons do ocaso, o dia
Agonizava. A luz do sol não mais
Resplandecia. E a noite veio audaz.
Chegou com seus mistérios e seguia…

Entre nuvens, a lua, a luz abria.
Silencioso, o sono vaga e traz
Às almas o descanso que desfaz
A saudade cruel. Cala a agonia…

Voando com o sono, vem o sonho,
Levando em suas asas fascinantes,
Um mundo de ilusões em cada canto.

Vejo, querido, teu rosto risonho,
Teus olhos feiticeiros, faiscantes
De amor. Vens em meu sonho, amo-te tanto!

O AMOR SOA NA AMPLIDÃO

Um doce calor brilha, o amor ateia.
Teu olhar faiscante vibra aceso.
Tua voz rouca, tépida, tão cheia
De paixão, solta o amor no peito preso.

No céu claro dardeja o sol, alteia
No poente. A tormenta vem, surpreso,
Olhas ao longe o verde mar que ondeia…
E a noite afuma o céu, com todo peso.

Que fogo em teu sorriso fascinante!
Boca vermelha, cálida, macia…
Em brasa, balbucias por meus beijos!

Teu coração lateja delirante!
No peito, o amor ardente, em alegria,
Soa na amplidão mágicos arpejos.

(Poesia publicada no Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea – Junho de 2011)

AMOR ARDENTE

Querido! Pousa teu olhar sobre mim,
Essa luz sem fim, terna enigmática.
Penetra-me a alma triste, descrente,
Com teu olhar quente, a aquecer-me o ser.

Vem sentir o esplendor do amor antigo!
Aspiro estar contigo, meu amor,
Quero sentir teus beijos doces, saborosos,
Teus lábios fogosos a me beijar.

Meu coração é fogo que abrasa,
É amor, é brasa a queimar.
Desejo teu amor, desejo tanto,
Envolvendo-me como manto luminoso.

Vem carregando todas as alegrias!
Sem ti, frias, silentes são as noites.
Vem dizer-me que sou tua querida,
Perfuma minha vida com teu amor.

(Poema de Os mais belos poemas de amor – 2011)
-

Fontes:
Câmara Brasileira dos Jovens Escritores

Versos Verdes (Parte 1)

GABRYELE MAIA DA SILVA
São Luís / MA

Natureza, grandes belezas

No céu, na terra ou no mar
Com a natureza quero estar
Observando as maravilhas do seu luar

Junto com o sol nascendo
Trazendo alegria para o nosso olhar
Quero com os bichos brincar

A biodiversidade posso captar
E nas suas belezas posso navegar
Nas tuas florestas posso andar
E com seu pulmão posso respirar

Trazendo vida ao nosso coração
Sem cobrar nenhum tostão
Essa é a nossa relação

Se você ficar conosco
Vamos viver um tempão
Juntos numa só emoção

IVAN JOSE VIANA BARBOSA
CANDÓI / PR

Pássaro

Pássaro amigo meu é
Amigo dele sou
Ele canta e me encanta
Com sua cantiga durmo
E sonho
Noite após noite
Acordo e ele está lá …
Me desejando Bom Dia!

LUCIANA OLIVEIRA
JABOATÃO DOS GUARARAPES / PE

O verde da natureza

O verde da natureza,
das folhas e das frutas que não estão maduras.
O verde da natureza
que está sempre nas matas na redondeza
na esquina da natureza no espaço da mãe natureza.
O alegre cabelo das árvores,
o brilho do modesto que tem.
Os pássaros cantando alegres no galho de folhas verdes
os bichos ouvindo a linda canção na sua casinha de barro
enfeitada de verde claro e escuro
e com lindas flores coloridas.

PAULA GIOVANA PEREIRA DOS SANTOS
CAÇAPAVA DO SUL / RS

Joaninha valente

Sou uma joaninha,
Que vivo na figueira.
Sou feliz porque
As meninas cuidam de mim.
Me chamam joaninha valente,
Eu fico tão contente.
Fui viver em outra figueira,
Mas lá, meninas não havia.
Aprendi…
Não troco mais de morada.

VILMAR WIEDERGRÜN
SANTA ROSA / RS

Rio sem alma

Rio que cheira a esgoto
Que traz a sujeira do mundo
Que muda de cor
Ora marrom, ora preto
Seus saltos são em vão
Não irão despoluí-lo.
Rio que vaga solitário
Que desce sem esperança
Cadê seus peixes?
Dentro de você não há ninguém
Nem uma vida a lhe povoar
Rio frio, sem graça,
Sem oxigênio
Onde tudo desce,
Onde ninguém sobe.
Ah, rio das mil cores,
Continuará descendo
Mais morto que vivo.
Será que vai resistir
Tendo o mundo contra você?
Assim como está
Será sempre um rio,
Mas sem alma.

VERÔNICA VINCENZA
ÁGUAS CLARAS / DF

O clamor verde

Eu quero a natureza de volta
A tiraram de mim, e isso me revolta!
Quero os pássaros, quero a mata, eu quero ar puro
E tudo isso não é capricho, eu juro

É o meu direito de cidadã
E de todos nós, estejamos aqui ou em Pontaporã
Quero tudo limpo e sem demora
Quero a natureza viva, já está na hora!

Cansei de esperar tanto descaso
Vejam como está o clima e como o rio está raso
Não quero saber de ganância
O que dá aos políticos relevância

Só sei que isso tem de ser feito
Por Presidente, Ministro, Prefeito
E todos nós temos dever de ajudar
A replantar o verde de nosso lugar

Pois sem ele, não viveremos mais
E não vai adiantar culpar os nossos pais
É hoje que devemos nos mexer
E plantar os frutos que queremos colher

Resgatar a natureza é o que faremos
Aqui, Ali, em todos os lugares estaremos
E o verde começará a brotar
Junte-se a nós e venha ajudar!

VALDIRENE DE ASSUNÇÃO PEREIRA
CAÇAPAVA DO SUL / RS

A árvore da vida

Nela vejo os frutos,
Nascerem como se fossem duradouros
Amizades amadurecerem
E ficarem com um sabor todo especial.
Alguns apodrecem e caem.
Em outros fica o prazer, no sabor de quem os saboreou.
Uns enfeitam, uma mesa deixam bela,
A árvore da vida, mostra suas folhas bem vistosas,
Como se fossem lugares,
Lugares por onde passamos que ficam pra sempre,
Outros caem de nossa memória.
Em suas flores está toda beleza da vida,
Sua pureza e sua alegria.
No seu caule a dureza,
Dos desencontros,
Dos desamores,
Das incertezas,
Das decepções,
Das magoas,
Dos desafetos,
Das desilusões,
Na sua raiz está a prova,
Que temos pra onde ir, um solo firme para pisar.
Uma certeza de um retornar,
Uma nova esperança para surgir,
Mostrando-nos que onde há vida,
Sempre restará uma esperança.

SÉRGIO RIBEIRO BORSOI JR
NITERÓI / RJ

Verde

Criou noite… alegrias.
Verdejantes sintonias.
Fizeram-se notas… melodias
Cantou-se tudo que se
podia.

Verdes foram aqueles
dias quem não lembra,
deveria.

Verdes eram as borboletas,
puras voavam e repousavam.
Verdes sombras que faziam
se tornando obsoletas.

O verde veio pra ficar
E as outras cores cativar.
Do escuro e tarde noite,
Surge o sol a verdejar.
-

Fonte:
Versos Verdes. RJ: Câmara Brasileira dos Jovens Escritores, 2010.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas) 3a. Parte


” APORTAR… ”

Você chegou, pequena e humilde
como quem pede proteção
e nada tem a dar…

E hoje, em teus braços, sou eu que me recolho
como um barco cansado de tormentas
feliz da praia calma onde pôde aportar…

” AS SEIS FACES… ”

Quando te encontro e observo que ficaste mais linda
e soltaste os cabelos para me agradar,
e me entregas os lábios num beijo leve e morno como a aragem,
e tranças os teus dedos em meus dedos, e me olhas
como no dia em que te tirei para dançar pela primeira vez,
é que percebo que continuas
a namorada.

Quando te preocupas com o tempo porque vou sair,
e recomendas detalhes como se me visse criança,
e repreendes a minha falta depois que as visitas se foram,
e endireitas a minha gravata, e escolhes a minha camisa,
e me fazes trocar os sapatos que não combinam;

quando surpreende o meu cansaço, e me enlaças,
e recosta a minha cabeça em teu colo,
e me dás conselhos como se eu pudesse segui-los,
é que descubro que há em ti, para mim, até mesmo
um pouco de mãe.

Quando te consomes muito mais com as minhas preocupações
e advinhas meus pensamentos, me prevines contra falsos amigos,
e te empenhas em partilhar também minha luta;

e economizas, como se com isso poupasses minhas forças,
e, sem querer, com uma palavra, desvendas uma solução
tão próxima e tão evidente, mas que meus olhos não percebiam;
quando à noite , na sombra, sem tocarmos os corpos,
conversamos, esquecidos, como dois amigos numa encruzilhada,
é que compreendo que tu és
a companheira.

Quando chego, e ao abrir a porta, estás à espera
com tua felicidade que me envolve e me aconchega,
e tirar da minha mão a pesada pasta de couro,
e me entregas os lábios (úmidos e trêmulos);

quando te encontro depois, em todos os detalhes cotidianos
e prosaicos, que fazem o melhor da vida:
minha toalha de banho no lugar; meus chinelos no seu canto;
minha roupa limpa sobre a cama; aquela jarra com flores arrumada;
aquela mesa posta, com seus talheres brilhando;
aquele odor de refeição que é o perfume do lar;
quando te vejo, leve e diligente, a circular pela casa
que consideras teu Reino, teu Mundo, teu Universo;
sei que tu és então
a esposa.

Quando à noite, de tarde, ou de manhã, (é um momento imprevisto
e nunca marcado) sinto que precisas de mim, que te faço falta,
como do ar, ou da água, de alimento, ou de vida,
e te encontro ao meu lado sempre irrevelada, e te dispo,
e se desencontraram as mãos e nossos corpos
e subitamente nos jogamos, como banhistas
contra o mar, contra as ondas, o mar desconhecido
as ondas que afogam e arrastam,
e de súbito estamos salvos na areia, como náufragos, és
a amante.

Quando te encontro ao meu lado, deitada numa nuvem
a acompanhar outras nuvens preguiçosas e itinenrantes
no céu do coração;

quando te pões a falar como crianças nas brincadeiras
em diminutivos, em “faz-de-contas” de pura imaginação,
e de ti restou apenas o contato dos nossos corpos, que
[permaneceu em nós
entretanto distante, imaterial, a planar
como aquela gaivota na vaga luz da tarde que se esvai;
quando estirados na areia, cansados, mas felizes,
já podemos conversar, eu diria nesta hora que tu és
simplesmente
a irmã.

Quando penso em ti, e te sei tantas, no milagre da multiplicação
do amor,
recolho-me a ti, como pássaro às ramagens, onde encontra
a sombra, o ninho, o balanço, o fruto, – o impulso
para o vôo.

E amo, e trabalho, e sonho, e canto.

” ASTRONAUTA ”

Já foste o mapa-mundi
de meus desejos,
percorri-te em todas as direções

Agora,
veste-te, meu amor…
Não adianta continuares
bela… e nua…

Meu destino é a lua…

” AVISO ”

Por que não te vais ? Por que não segues
teu caminho, sem acidentes,
e teimas em me querer ?

Hei de vingar em ti, também, a culpa que não tens
meu desespero e meu abandono,
o que a Vida me fez sofrer…

” BAILADO ”

Gestação. O sonho Nasce…
O palco é um ventre.

Não eram estátuas
eram mil formas vivas na multiplicidade da beleza
e do ritmo,
nos instantâneos
de cada momento…

Os pássaros perderam as asas
mas o vôo permaneceu
no firmamento…
O canto fez-se harmonia
no plástico silêncio
do movimento

O palco
era um pensamento…

” BASTA VOCÊ ”

Por Você
que encontro e veio,
- que é como um sonho bom que eu sonho
e em vão desejo,
só porque a tenho ao meu lado)
em nome dos meus olhos:
- Obrigado !

Obrigado, por Você!

Basta você ser Você. Para que mais?
E por essa alegria que Você me dá,
por essa estranha felicidade, inexplicável,
que me faz ser feliz sem saber bem por que,
só por isto, e por tudo isto, eu lhe agradeço,

pois o destino achou que vez por outra
mereço
ver Você!

Basta Você ser Você. Basta, por um segundo
sentir a sua mão na minha mão,
tão pouco, pensarão!)
- e, entretanto, para mim é tanta coisa, um mundo
encantado…

Mesmo sem nada me dar, Você já está-se dando
com a sua presença,
e isto é quase tudo para quem não pode, como eu,
senão
sonhar acordado!

Sim, porque tudo, já se vê,
tudo: seria Você!

“HISTÓRIA”

Eras a Musa
eu, o poeta…

Aconteceu naquele instante
em que, displicente,
me estendeste a mão dizendo adeus
- como que diz até logo, -
e eu tive a impressão de que subitamente,
minha vida era uma nova Pompéia
que submergia em lavas para os séculos.

Agora
revendo as provas dos velhos poemas
que me queimaram,
te desenterro estátua irreconhecível
entre cinzas e palavras,
lembranças de um mundo em que fomos personagens,
e em que hoje, és história,
e eu, – arqueólogo.

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

J. G. De Araújo Jorge (Quatro Damas) 2a. Parte

“ALGUMA COISA “

Que ao menos acontecesse alguma coisa…
De bem ou de mal…

Por exemplo:
- Que este sonho despencasse do 10. andar
e virasse notícia de jornal…

” ALPINISTA “

Escalei um sonho de amor
mas rolei sobre o abismo
e me encontraram morto…

Quando um dia me acharam
abriram a minha mão
e te encontraram…
…………………………………………….

Eras a pura Edelvais
inacessível,
que eu quisera colher
e apertara ao coração…

Sim… Fizera o impossível…
Mas em vão…

” ALVORADA ETERNA “

Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos…

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos…

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca…

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

” AMA-ME COMO EU SOU… “

Ama-me como eu sou
sem me perguntar pelo antes de ti,
por esses momentos meus, nublados, sem razão,
pelo passado, em pedaços perdido nas viagens,
- sem querer saber a história das tatuagens
que marcam o coração…

Ama-me como eu sou
(para que perguntar?)
- marinheiro que por tantos mares, inutilmente
se procurou. . . e perdeu,
com tão pouco talvez para te dar,
mas tão pouco, tão eu…

Ama-me como eu sou.
(e sê o que tu és:
humilde, terna, boa,)
- não queiras amarrar-me nem tolher-me
nem ser sombra a seguir-me presa aos pés…
Deixa-me livre, como um velho barco
afeito às ondas pela proa
e aos ventos, pelo convés…

Concede-me a solidão
(que precisam da solidão os que foram do mar…)
Concede-me a solidão, nos meus momentos
de zero, ou de temporal, em que caio em mim mesmo,
como coisa inútil!
e egoísta, e sofrido,
só preciso de mim para voltar…

Sê o que tu és
(humilde e boa, sempre disposta a se dar
sem recompensas,
alegre, toda vez que volto e atiro amarras
para ficar )
- feliz porque cheguei sem ter saudades
sem deixar para trás nada mais do que mar…

Ama-me como eu sou,
(não queiras mudar-me, amor, pois bem sabes que é tarde
e já não há mais tempo)
e o coração quem te diz,
- abriga-me em teus braços, que eu neles renasço e vivo,
que eu não sou senão um homem infeliz
que ainda fazes feliz . . .

“AMOR DE FANTASIA”

O pior, para mim, é ter que encontrar-te todo dia,
falar contigo como a uma estranha,
ver-te linda e distraída,
estender-te a mão, em cumprimentos banais,
quando tu és afinal (que importa se não sabes?)
- a minha Vida …

Em vão me confesso num olhar de ternura
que procura teus olhos, além,
onde ninguém pode chegar,
e o coração se alvoroça! e paro, e me contenho,
numa angústia apaixonada…
E linda, e distraída,
tu nem percebes nada…

Iludo o meu desejo, (esse Fauno em travesti
de velho Pierrot)
a imaginar mil coisas de poeta e de louco,
Ah! se eu fosse o teu Senhor!)
- e te atiro palavras, como serpentinas
displicentes,
para distrair os outros, os intrusos, – presentes
a este singular carnaval
do meu amor…

Ah! se soubesses o quanto és minha,
nesses instantes proibidos
da imaginação,
mas profundamente verdadeiros,
- tu, linda e distraída,
boneca e criança,
talvez acendesses, na distancia dos teus olhos
para os meus olhos marinheiros
e para a minha vida,
alguma esperança.

” ANTES… DEPOIS… “

Antes de ti
mesmo acompanhado
eu continuava cada vez mais sozinho…

Depois de ti
mesmo sozinho
estou cada vez mais acompanhado…

” AO SONETO “

Tu me lembras o pátio de um mosteiro
retangular, fechado, onde as arcadas,
- as quadradas arcadas, – sobre os pisos
jogam luzes e sombras, silenciosas.

São quatorze as arcadas ao redor…
E as palavras caminham de sandálias…
Bem no meio do pátio, entre a folhagem
de um secreto jardim, sussurram águas.

É em ti que os poetas, – monges sem clausura –
se recolhem na vida tantas vezes
e se põem a rir ou a chorar,

entoando seus cantos como rezas,
e ao ouvi-los depois, nem mesmo sabem
se é sua, a música… ou se é a voz da fonte…
-

Fonte:
JG de Araujo Jorge. Quatro Damas . 1. ed., 1964.

J. G. De Araújo Jorge (Quatro Damas) 1a. Parte

” A CARTA QUE AINDA FAREI “

A carta que um dia hei de escrever
quando tu fores minha noiva,
será curta, pequena…

Na verdade, eu já a fiz:

“Meu amor,
que eu não possa nunca te dizer
nem encontre palavras para descrever
o quanto sou feliz !”

” A COMPANHIA “

Do amor não quero mais a aventura,
quero a companhia.

Já não procuro ilusões e surpresas
se todos os caminhos foram percorridos,
se oblíquo sol da tarde alonga a minha sombras
presa ainda a meus pés, a fugir, para onde?

Quero a compreensão, a tranqüila ternura,
a presença melhor depois que amada,
a que sabe ser luz clareando a estrada,
ser aragem na fronte ardente a inquieta;

- alta maré para encobrir escolhos,
ser água para a sede que atormenta,
sombra, quando a luz doer nos olhos.

- A que inteira se dá sem pedir nada
só pela humilde alegria de se dar!

A que é pousada para o amor que vinha
já cansado de tudo e que não tinha
onde ficar.

A que tem mãos felinas, mãos que arranham
infladas de amor,
sem a gente sentir,
mãos que enlaçam, depois, cantam ternuras,
e que emberçam as nossas amarguras
e nos fazem dormir…

A que é mulher, – mar alto, porto e abrigo –
a que fica a nossa espera,
à que se pode voltar a qualquer hora…
A que sabe perdoar nossos pecados
nossos marinheiros desejos desgarrados
e não nos mandam embora…

Do amor não quero mais a aventura
quero a companhia:
a que depois do beijo
me dará a mão,
a que será minha – à noite se entregara
sem pejo -
e impoluída e pura,
continuara comigo, com a mesma ternura
no coração…

Quero a doce, a permanente companhia .

A que depois da noite
é o meu dia,
e, com o braço em meu braço
há de acertar seu passo
na mesma direção…

” A CULPADA… “

Não tens culpa se me encontras céptico, e se custo
a acreditar em ti.

Talvez eu já esteja batido demais, ou talvez
me pareças muito criança.

Tanto a Vida me mentiu, que me acovardo à simples idéia
de uma nova esperança.

” A VIAGEM “

Não vamos fazer planos, vamos apenas viajar
neste barco que nos recolheu
e cujo rumo não sabemos…

Não vamos fazer planos, vamos olhar as gaivotas,
os crepúsculos sobre o mar,
as ondas, as nuvens, os portos que amanhecerão,
agradecer ao destino que nos fez passageiros
do mesmo sonho.

Não vamos fazer planos, não vamos matar as nossas alegrias
modificando roteiros, se não sou o comandante do navio,
se ninguém é,
não vamos matar as nossas alegrias
com itinerários antecipados
como se fossemos turistas ricos
apenas gastando o seu tédio…

Não vamos fazer planos, vamos nos deixar levar
ao sabor das correntes,
vamos agradecer essa viagem como se fosse a primeira
como se fosse a última,
como se fosse aquela viagem há tanto tempo esperada,
que inacreditavelmente se tornasse
realidade…
E o porto onde chegarmos, – qualquer que seja o porto
ou o horizonte de mar que sempre se afastará,
serão o porto e o horizonte
da felicidade…

” A VIDA, DE REPENTE… “

De repente
percebemos como era boa aquela vida que levamos
aqueles calmos momentos de impercebida felicidade,
aquelas horas aparentemente vazias e sem prazer
entretanto, cheias de nós, de nossa simples presença,
de uma ternura que enlevava nossos corações
como as velas cheias dos bancos sonolentos
sobre o mar sem ondas…

De repente
gostaríamos que tudo voltasse para que nos apropriássemos
do que foi nosso, e se perdeu,
para que pudéssemos dar valor
a tanto que tivemos, sem saber que era amor…

Agora
que a vida nos atira (sobre que expectativas
sombrias e inevitáveis?)
nos lembramos que já fomos nós, pelo menos no início,
e subitamente nos sentimos numa curva impossível,
à borda de um precipício…

” ABISMO ? “

Sei que ao voltar a mim, como quem chega
do fundo de um abismo,
trazia duas estrelas em meus olhos
e o ouro dos teus cabelos em minhas mãos…

Afinal
que estranho abismo era esse
em que os anjos nos embalavam
e nos sentíamos na mão de Deus ?!

” AFINAL… “

Restou o travo de uma decepção
que foi perdendo lentamente
o amargor…

Fui eu
( que num momento de paixão doentia )
enriqueci com a minha fantasia
um pobre amor…

” AGRADECENDO A VOCÊ “

Você achará tolos talvez
estes versos que te escrevo,
mas eu explico porque:

- seja lá como for
meu amor,
eu quero agradecer Você
… a Você.

“ALGO MAIS…”

Eu queria te dar algo mais que poesia:
este ardor que me abrasa, e me punge, e espezinha,
e se consome em vão numa íntima agonia
porque não te possuí… porque não foste minha!

Não queria deixar que partisses sozinha
sem algo de vivido entre nós dois – queria
que a amarga solidão que em minha alma se aninha
fosse um canto de sol, de desejo e alegria !

Eu queria te dar algo mais que um lamento,
queria tatuar com meu beijo a lembrança
nem que fosse a lembrança feliz de um momento…

Com tão pouco de mim, num derradeiro empenho,
eu queria te dar algo mais… a esperança,
a fé que já perdi… o amor que já não tenho!
-

Fonte:
JG de Araujo Jorge. Quatro Damas . 1. ed., 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Trevos de Quatro Versos) Parte 2, final

“REALEJO…”

Coração – pobre realejo –
com canções velhas e novas…
Tudo o que sinto, e o que vejo,
vais tocando.. . em minhas trovas…

“QUEM CALCULA ?”

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?

“O ETERNO TRIÂNGULO… “

Aos meus ciúmes doentios
Tu me disseste ainda nua:
- De olhos abertos sou dele!
De olhos fechados, sou tua!

Ciúme tolo, policial,
Tão pretensioso, irritante,
Se eras casada… e afinal
Eu era apenas… amante…

E eis a suprema ironia
Ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
Mas, com quem? – com teu marido…

(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes… mil espreitas…
Hoje, nem sei onde andas,
Nem em que cama te deitas…

“SER MÃE…”

Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
pois ser mãe – é perdoar!

Quando todos te abandonem
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois ser mãe – é compreender!

Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
pois ser mãe – sempre é se dar!

“DIÁLOGO IMPOSSÍVEL”

Chama-me tu, por favor,
Se estamos juntos, e a sós…
- não ponhas este Senhor
tão importuno… entre nós…

Tu tão moça, eu tão vivido…
Tantos anos de permeio.
- Bem poderias ter sido
o grande amor que não veio…

Tu, moça, bela, tão calma…
Eu, inquieto, a alma ferida…
- O diabo leve a minha alma!
- Quero o amor de Margarida!

“PORTUGAL”

Portugal, que, num segundo
da História, – do “era uma vez”
fizeste do mar – um mundo!
E o mundo – um mar português !

Portugal de D. Diniz
que em seus pinhais, em Leiria,
plantava naus que, feliz
o Infante Henrique, colhia!

Araste o Mar – tuas velas
abriram caminhos novos…
Teus grãos – eram caravelas!
E as colheitas – eram povos!

“VOCÊ… E O NATAL…”

Festa na terra e no céu…
Só eu só… tão triste assim…
- Quem dera Papai Noel
trouxesse Você pra mim!

Quem dera Papai Noel
descendo pelos espaços
me desse um pouco de céu
pondo Você em meus braços…

Neste dia belo e doce
de festa, – sentimental,
- quem dera que Você fosse
meu presente de Natal !

“FILOSOFIA…”

Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é… primeiro viver…
e depois… filosofar…

Vou pisando folhas mortas
sem amanhã… Sigo a esmo…
Fecham-se todas as portas…
Sou o fantasma de mim mesmo…

Disse Jesus certo dia
com bondade e com saber
- há mais alegria em dar,
muito mais – que em receber !

Não tinha paz nem descanso…
O amor… a vida…. – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem…

Diz que é rico… Pode ser…
Mas pode ser que não seja…
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja…

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento…

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele… que já morri…

Tu queres mais, sempre mais…
Sê comedido, prudente…
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente…

Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.

Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades… de agora.

- “Crê na Vida”- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça…

Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu

“UVAS…”

Teus seios – frutos maduros.
cachos de uva, de um pomar
guardado por altos muros,
que apenas vejo ao passar…

Alcançá-los, ninguém ousa,
penso, em angústia perene,
- a me sentir a raposa
da estória de La Fontaine…

“SORRIA…”

Esperava tanta luta
e tão pouco foi preciso:
ao invés da força bruta
ele empregou… um sorriso…

Eis a arte de viver
num conselho dos mais sábios:
às vezes, para vencer
basta um sorriso nos lábios…

Nem tanta coisa é preciso
para evitar-se um revés…
- Tão pouco… basta um sorriso
e eis todo mundo a teus pés…

“MÃOS…”

 Como aves desarvoradas
Depois de roteiros vãos
Tuas mãos vieram, cansadas,
Se aninhar em minhas mãos…

Há momentos… Acontece…
Puro, o amor pode ficar,
Como duas mãos em prece,
Esquecidas, a rezar…

Quando maior é o carinho
Às vezes, tenho a impressão
De que conversam baixinho…
Tua mão… em minha mão…

Fonte:
J.G. de Araujo Jorge . Trevo de Quatro Versos”. 1. ed. Livraria São José, 1964.

J. G. de Araújo Jorge (Trevos de Quatro Versos) 1

SOBRE A TROVA

Tudo é trova: a flor, a onda,
A nuvem que passa ao léu
E a lua, trova redonda
Que a noite canta no céu!

Ah, trova com quem me enleio…
- Tens um gingado qualquer
Que lembra esse bamboleio
Do corpo de uma mulher…

A todos prende e cativa,
E não se rende a qualquer…
- É pequena, mas esquiva…
… Não fosse a trova, mulher…

TROVAS

Sejam felizes ou não
Cantando instantes diversos,
As trovas do coração,
são trevos de quatro versos.

Rico eu sou, mesmo sem ouro
E da riqueza, dou provas,
- eis aqui o meu tesouro:
Minha sacola de trovas.

Tão simples, as trovas são
Cantigas com que a alma expande
Tudo o que há no coração
Do poeta – um menino Grande.

Meu terço feito de trovas
Que em versos fico a compor,
Com ele rezo, e dou provas
Do meu culto ao teu amor!

EU FAÇO VERSOS

 Eu faço versos assim
Como quem respira ou canta,
A poesia nasce em mim
Como do chão nasce a planta…

E como que por encanto
Minha dor se vai embora
Pois estas trovas que eu canto
São feitas… como quem chora…

De mãos dadas com as lembranças
Com o mar, com a noite, com a lua
Faço versos, como as crianças
Fazem ciranda na rua…

TUAS MÃOS…

Ternura de cinco pontas
Viva, estranha, inquieta flor…
Tuas mãos são duas contas
Do meu rosário de amor.

Delicados diademas
Trabalhadas obras-primas…
…Tuas mão sãos dois poemas
Rimando, em vermelhas rimas…

Ah, mãos tão frágeis, parecem
Pedir arrimo e guarida…
E entretanto, se quisessem
Guiariam minha vida…

GLÓRIA ?

Minha maior alegria
minha glória humilde e nua
é ver a minha poesia
fazer ciranda na rua…

 Por certo que me comovo,
nem glória existe maior :
ouvir um poeta o seu povo
dizer seus versos de cor !

A POESIA

Poesia, flor de mistério
que brota do coração
e abre as pétalas de etéreo
no céu da imaginação.

Vivo a vida cada dia,
vida comum, sem engodos,
por isto a minha poesia
reflete a vida de todos

A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela…

SOLIDÃO

Por certo a pior solidão
É aquela que a gente sente
Sem ninguém no coração…
No meio de muita gente…

Praias longe, em solidão
Fora de todas as rotas,
Tal como o meu coração
Só como o sonho… das gaivotas…

A VIDA

Gota d’água transparente
que brilha, cresce…e que cai!
Assim a vida da gente
que num instante se vai!

A Vida, – mistério vão
sombra agora, depois luz,
- estranho traço de união
ligando um berço… a uma cuz!

A Vida – uma onda que avança
e volta, vai-vem do mar…
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!

A Vida – visão fugaz,
praia chã, mar que alteia,
onda que faz e desfaz
os seus cabelos de areia…

A Vida – ansiosa escalada
sobre a paisagem do mundo
Tanto esforço para nada
se há sempre abismo no fundo!

Às vezes penso que a vida
que há tanta gente a querer
só existe, – indefinida -
pra gente poder morrer…

Ó pobre vida suicida!
Teu destino é uma ironia
se o que chamamos de vida
é um morrer de cada dia!

Numa amizade perdida,
num amor que se desgraça,
a morte desconta a vida
a cada dia que passa!

Há uma ironia, contida
nas contigências da sorte:
- quanto mais se vive a vida
mais se avança para a morte.

Vive a vida bem vivida
e ao mais, esquece e revela,
que a gente leva da vida
a vida que a gente leva…

Fonte:
J.G. de Araujo Jorge . Trevos de Quatro Versos”. 1. ed. Livraria São José, 1964

Roseana Murray (A Bailarina e Outros Poemas)


O LAMBE-LAMBE

O lambe-lambe lambe o tempo
(como se o tempo fosse
uma bala, um doce)
e vai pregando seus retratos.

No canto da praça
um velho, um menino,
lado a lado
o mesmo desbotado sorriso.

Atrás do pano preto
o lambe-lambe
e seus misteriosos pensamentos:
onde foi parar a moça
que ele fotografou um dia?
A moça rasgou seu coração
como uma velha fotografia
e partiu junto com o vento.

Num canto da praça
o lambe-lambe
e sua estranha galeria.

O MÉDICO

Para o médico, o corpo
não tem segredos:
é como uma fábrica,
uma orquestra,
uma casa com os móveis
todos no lugar.

O sangue corre nas veias
como um disciplinado rio.
O pulso bate com precisão,
afiado relógio marcando a vida.

Se alguma coisa se move
erradamente,
se alguma coisa se quebra,
o médico bota o corpo de castigo,
e vai escrevendo receitas
como cartas que o corpo entendesse.

A RENDEIRA

A rendeira… seu ofício de aranha
tecendo beleza
me ajuda a tecer meus poemas.

Tem mãos de maga,
a rendeira,
tem mãos de espuma.

Não assina seu trabalho
com um nome,
mas com magia,
como um vôo de pássaro
assina o céu.

O VENDEDOR DE COCADA

Lá vai o vendedor de cocada
com seu tabuleiro,
pano branco na cabeça.

Lá vai o vendedor de cocada
vendendo um mundo de coco:
cocada branca ou queimada
pra vida ficar mais gostosa.

Lá vai o vendedor,
tabuleiro na cabeça,
adoçando a calçada.

A ARQUITETA

A arquiteta gostaria
de projetar mil casas
por dia,
aéreas, subterrâneas,
casas de vidro e de paina,
redondas, de esvoaçantes
telhados.

Em frente à prancheta
a arquiteta sonha
o justo sonho
de todo mundo ter
onde morar.

OS CATADORES DE PAPEL

Pela cidade afora,
noite ou dia,
a qualquer hora,
os catadores de papel
são triste paisagem.

Vão juntando papel e pobreza,
moram assim,
nas praças, nos vãos,
em casa feita de nada.

Tenho tanta pena
dos catadores de papel,
agora moram aqui,
no meu poema.

OS MÚSICOS

Na casa dos músicos
as paredes são sonoras,
no teto moram acordes,
e nos vãos sustenidos se escondem.

Os pensamentos dos músicos
não são como os pensamentos comuns,
moram em outras altíssimas esferas.

Para nós, os outros,
eles constroem algodoados
caminhos de sons.

Para que nossa vida
fique mais leve,
fique mais bela.

A ATRIZ

No camarim a atriz
cola uma outra alma
na sua,
um outro rosto
no seu,
e vão pro palco
assim tão grudados,
que é como um rio
navegando em outro
rio.

O palco suspenso
por um fio de magia
é a casa da atriz.

A BAILARINA

A bailarina,
como frágil lamparina,
como pequeno colar,
faz do ar sua casa,
sua estrada pontilhada
de água.

Entre uma estrela e outra
a bailarina descansa.
Ali onde os humanos
não podem ir,
só os loucos, os loucos
e os que sabem
que com um desejo
se constrói um planeta.

O PESCADOR

Os sonhos do pescador
são feitos de espuma, de sal,
de muitos milhares de peixes,
como feixes de girassol.

Na rede do pescador
pedaços de luz e de prata,
seus sonhos materializados.

Em terra firme o pescador
é habitante provisório,
anda meio de lado,
cheio de silêncios marinhos,
suas mãos de alga.

AS FEITICEIRAS

Não sei se existe ainda
o ofício de feiticeira,
isso é coisa medieval.
Naqueles tempos
elas eram lenha de fogueira
com seus ardentes pensamentos.

Queria hoje ser uma delas,
virar tudo pelo avesso,
trocar as almas e os corações.

Fazer por um segundo
deste triste planeta
um outro mundo.

OS CARTEIROS

Abrir uma carta,
o coração batendo,
é precioso ritual.
O que terá dentro?
Um convite, um aviso,
uma palavra de amor
que atravessou oceanos
para sussurrar em meu ouvido?

São como conchas as cartas,
guardam o barulho do mar,
o ar das montanhas.
Para mim os carteiros
são quase sagrados,
unicórnios ou magos
no meio dessa vida barulhenta.

O POETA

O poeta vai tirando da vida
os seus poemas
como pássaros desobedientes
e amestrados.

A palavra é o seu castelo,
sua árvore encantada,
abracadabra construindo o universo.

RECEITA CONTRA DOR DE AMOR

Chore um mar inteiro
com todos os seus barcos a vela
chore o céu e suas estrelas
os seus mistérios o seu silêncio
chore um equilibrista caminhando
sobre a face de um poema
chore o sol e a lua
a chuva e o vento

para que uma nova semente
entre pela janela a dentro

RECEITA DE ACORDAR PALAVRAS

Palavras são como estrelas
facas ou flores
elas têm raízes pétalas espinhos
são lisas ásperas leves ou densas
para acordá-las basta um sopro
em sua alma
e como pássaros
vão encontrar seu caminho

RECEITA DE INVENTAR PRESENTES

Colher braçadas de flores
bambus folhas e ventos
e as sete cores do arco-íris
quando pousam no horizonte
juntar tudo por um instante
num caldeirão de magia
e então inventar um pássaro louco
um novo passo de dança
uma caixa de poesia

RECEITA DE PÃO

É coisa muito antiga
o ofício do pão
primeiro misture o fermento
com água morna e açúcar
e deixe crescer ao sol

depois numa vasilha
derrame a farinha e o sal
óleo de girassol manjericão

adicionado o fermento
vá dando o ponto com calma
água morna e farinha

mas o pão tem seus mistérios
na sua feitura há que entrar
um pouco da alma do que é etéreo

então estique a massa
enrole numa trança
e deixe que descanse
que o tempo faça a sua dança

asse em forno forte
até que o perfume do pão
se espalhe pela casa e pela vida

RECEITA DE TOCAR O OUTRO

Porteira aberta
para o universo cada
um é único
lugar sagrado
onde árvores antigas
e estrelas cantam

tocar o outro
em sua alma
como se fosse
uma flauta

RECEITA DE OLHAR O FOGO

Pula o fogo e dança
nos olhos
uma dança muito antiga

de rios caçadas cavernas
estrelas entrelaçadas

no fogo os pensamentos
se derramam
e os sonhos como poeira mágica

RECEITA DE ESPANTAR A TRISTEZA

Faça uma careta
e mande a tristeza
pra longe pro outro lado
do mar ou da lua

vá para o meio da rua
e plante bananeira
faça alguma besteira

depois estique os braços
apanhe a primeira estrela
e procure o melhor amigo
para um longo e apertado abraço

RECEITA DE OLHAR

Nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda
em acordes de sol

faça do seu olhar imensa caravela

AMOR NÃO É SÓ

Amor não é só de homem
por uma mulher
ou de mulher por um homem
amor é amor por tudo
que é justo e livre
amor é horror a tudo
que o ser inventa
para humilhar outro ser

AMOR À PRIMEIRA VISTA

Amor à primeira vista
é alma trocando de corpo
feito pássaro de ninho
é sede repentina
sede da água do outro

PEQUENOS LUXOS

Amor tem seus pequenos luxos
um pôr-de-sol caprichado
luar derramando água
uma flor recém-colhida
um verso equilibrado
na ponta dos dedos
amor tem seus pequenos luxos
de planta nascendo ontem
pedindo terra adubada

FOLHA SECA

Amor não correspondido
vai virando tudo em deserto
vai calando a voz do mundo
vai tirando da água a sua nascente
amor não correspondido
vai tornando em folha seca
tudo o que toca com os dedos
até perder seus espinhos
e se deixar morrer nos vãos
de uma tarde qualquer

FRUTA NO PONTO

Às vezes dá vontade
de agarrar a vida
com uma duas
dez mãos
e levar à boca
e trincar nos dentes
como uma fruta
no ponto

BANHO-MARIA

Amor não deve ser mantido
em banho-maria
pois seus poderes
de luz e encantamento
se esvaem neste lento
cozinhar
amor pede fogo alto
grossas chamas
sol intenso
e muita pimenta
amor pede tempero forte
pede tudo em exagero
mel de se lambuzar

O PRIMEIRO BEIJO

O primeiro beijo
inaugura a casa
inaugura o corpo
talha a primeira pedra
do caminho

pode e deve ser doce
abelha inventando mel
pode e deve ser louco
doce vôo louco
no corpo do outro

RECADO

Ao vento da noite
sussurro sete segredos:
tudo que tenho por fora
tudo que tenho por dentro
que o vento vá levando
minha sede de amor
pule cercas pule sebes
abra porteiras no mar
derramando meu recado
nos quatro cantos do ar

Fonte:
Murray, Roseana. A bailarina e outros poemas. 1. ed. – São Paulo : FTD, 2001. (Coleção literatura em minha casa ; v. 1)

Antonio Barbosa Bacelar (Poemas Avulsos)

À MORTE DE UMA DAMA

Sombras de um claro sol que me abrasava,
Cinzas de um doce fogo aonde ardia,
Ruínas de uma boca em que vivia,
Cadáver de uma vida que adorava,

Quem te trocou, senhora? O tempo estava
A teus pés, em teu rosto o sol nascia,
De tua vista se compunha o dia,
De tua ausência a noite se formava.

Pois como pôde o tempo pressuroso,
O dia breve, a noite fugitiva
Mudar um corpo e rosto tão fermoso?

Mas tanto sol e luz, tão excessiva
Ardendo de contínuo, era forçoso
Trocar-se em cinza morta a flama viva.

A UMAS SAUDADES

Saudades de meu bem, que noite e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabardes-me a vida com tormento,
Mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

A UMA AUSÊNCIA

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado;
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio;
No mor risco me anima á confiança;
Do que menos se espera estou mais certo.

Mas se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.

À VARIEDADE DO MUNDO

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C’o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

A UMA DAMA

(Romance)

Por fazer lisonja às flores
De flores touca o cabelo
Nise, a gala do donaire,
Nise, a glória dos desejos.
Invejosas as estrelas
Murmuraram tanto emprego,
Se as não contentara Nise
Com tê-las nos olhos negros.
De garbo, postura e talhe
Vai luzida em tanto extremo,
Que nas vidas que cativa
Tem muita parte o asseio.
Quanto pisa e quanto fala,
Vai brotando e florescendo
Uma rosa em cada passo,
Um jasmim em cada alento.
Caçadora ufana e dextra,
Quem viu caçadora Vénus?
Pede as armas emprestadas
Dizem que a um menino cego.
Galharda o arco exercita,
E, com movimento dextro,
De quantas setas lhe fia,
Nenhuma lhe leva o vento.
Guarde-se todo o alvedrio,
Que não dão as frechas erro,
Pois para acertar as vidas
Tomam nos olhos preceitos.
Despejada comunica
Ao monte seus raios belos,
Que nem sempre o majestoso
Há-de afectar o encoberto.
E, com deixar-se admirar,
Nada lhe perde o respeito;
Mas tais amas traz consigo…
Pastores, diga-o Fileno.

Fonte:
alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/bacelar.htm

Manoel de Barros (Poemas Rupestres) Parte III

Segunda Parte

DESENHOS DE UMA VOZ

1.

SE ACHANTE
Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come goiaba.)
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
mangue.

O poema mostra as conjecturas do poeta sobre a honestidade de um caranguejo ‘se achante’.

- a novidade é a voz do poeta emprestada ao caranguejo mas sob o ponto de vista e perspectiva do poeta.

- “Se achante” é o reverso do louvor do poeta à majestade do caranguejo. Devido a essa majestade, o poeta desdobra-se em explicitá-la.

No poema está clara a tentativa de o poeta solenizar o que é desprezível – a majestade de um caranguejo.

Assim o caranguejo:

- é idôneo para flor
- andava sem olhar de lado
- montado num coche de princesa
- andava devagar/ Conforme o protocolo (solene para) receber aplausos
- Muito achante demais.
- Nem parou para comer goiaba.
- Ia como se fosse tomar posse de deputado.
- Acabou a fantasia – O coche quebrou!

Após emprestar ao caranguejo todos os trejeitos de pessoas solenes e dadas ao mundo das passarelas e aplausos, ao mundo das pessoas movidas a aplausos…

Conclui-se que: “O caranguejo (devolvido a si mesmo) voltou a ser idôneo para o mangue – sua verdadeira glorificação!”

Neste poema aparece a voz do poeta para proclamar a lealdade e idoneidade da beleza de cada coisa com a configuração do seu meio. Será esplendorosa para quem souber ver e proclamar essa beleza de que todas as coisas, em seu meio, são portadoras. E o poeta diz a beleza de um caranguejo “se achante” pra valer.

2.

SONATA AO LUAR

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai, Ramela passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

É uma história de amor em tempo de lua ‘arta’ – “Lua arta” é uma expressão da cultura.

O cachorro tornou-se um ‘veículo’ muito interessante ou correio.

Quanto o tempo se completou a sinfonia chegou ao auge – E o amor se fez.

Sonata é feita de quadros e tempos: tempos reais, tempos supostos e tempos intensos.

Estrutura da Sonata:

- Introdução: Sombra Boa não tinha e-mail. Escreveu um bilhete;
- Tema recorrente ou conteúdo: Maria me espera debaixo do ingazeiro/ quando a lua estiver arta.
- Variação do tema ou tempo de espera ou de suspiro ou um dueto: amarrou o bilhete no pescoço do cachorro/ e atiçou: / Vai Ramela, passa!/ Ramela alcançou a cozinha num átimo!
- Volta ao tema central/principal, com intensidade: Maria leu e sorriu.
- Intermezzo lírico – addaggio – choroso: Quando a lua ficou arta Maria estava.
- Volta ao tema central – Vibrante e Fortíssimo: E o amor se fez.
- Final suave e amoroso: Sob um luar sem defeito de abril.

Música da vida: – a voz da engenhosidade
- a voz do amor
- a voz cúmplice da natureza (luar) embelezando o amor.

3.

EMAS

Elas ficam flanando no pátio da fazenda.
A gente sabe que as emas comem garrafas
abotoaduras freios pedras alicates e tais.
Nossa mãe tinha medo que uma ema
Comesse nosso cobertor de dormir e os
vidros de arnica da vó.
Eu tinha vontade de botar cabresto em uma
ema
E sair pelos campos montado na bicha a
correr.
A gente sabia que a ema quase voa no correr.
Que a ema racha o vento no correr.
Eu tinha era vontade de rachar o vento
no correr.

A voz das emas – a voz do poeta ante o vento!

- Elas ficam flanando no pátio da fazenda.
- Mostra o que são as emas e suas proezas de digestão.
- A voz do poeta, ele quer ‘flanar’ numa ema. Apropria-se da voz da ema no vento.
- Velocidade da ema: …a ema quase voa ao correr/ Que a ema racha o vento no correr.

Apropriação da voz da ema pelo poeta: “Eu tinha vontade de rachar o vento no correr”. Assim a ema torna-se o termo de comparação capaz de expressar o grande desejo do poeta, ou superar o vento como as emas fazem, racham o vento. O poeta quer correr, voar, ser mais veloz que o vento.

De fato as emas deram suporte à imaginação do poeta, são fortes, flanam, poderosas na digestão, capazes e rachar o vento. Nelas se materializou a voz do sonho do poeta: ser muito veloz!

4.

VENTO

Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trás.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele não dói nada.
Vento não tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colégio que vento
é o ar em movimento.
E que o ar em movimento é vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela não parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento não tem
organismo.
Fiquei estudado.

O poema mostra o confronto entre o lúdico e o racional. Estrutura-se na luta entre as percepções e o raciocínio.

O infante é retratado em ações concretas e próprias da percepção material ou “coisal” como é do feitio do poeta. Esse encontro de opostos perceptivos é poetizado justamente valendo-se de um elemento ambíguo que se deixa perceber, mas não se vê, somente se sente e é constatado sensorialmente. Da mesma forma a definição racional do vento é clara, mas não constatada, a não ser sensorialmente.

Nessa circunstância, o infante tenta de várias formas constatar a materialidade do vento; vê todas as suas tentativas se frustrarem. Ao fim dá-se por vencido e se proclama vencido pelo racional: “Fiquei estudado!”

A cada ação proposta pelo poeta, aguardava-se um resultado ou reação do vento. Nenhuma, conforme o poeta, se verificou. Nesse processo acontece uma conceituação poética do vento:

– Ele existe mas não olha para trás quando atingido por uma pedra.
– Atingido por uma enxadada não sai sangue.
– Não sente dor.
– Não tem tripa.
– Não tem corpo sensível a facadas.
– Ele é ar em movimento.
– Ele não aceita o suporte de uma costela.
– Mesmo assim o poeta o apedrejou sem resultado.
– Disseram-lhe que o vento não tem organismo.

Mas o vento existe e dele o poeta extraiu esse poema! Não lhe escutou a voz porque não tem organismo. Não pode falar por si mesmo — somente quando em atrito com obstáculos como as árvores ou saliências do terreno.

Confessa o poeta que a racionalidade acabou possuindo-o: “Fiquei estudado!”

5.

ANTÔNIO CARANCHO

Me chamam de Antônio Carancho:
Carancho é por maneira que eu ando de pé virado
Moda carancho mesmo.
Pra bobo eu não sou condicionado.
Sou mais garantido de cantor.
Porém meu canto é fechado.
Lastreadamente sou Antônio Severo dos Santos.
Carancho é de caçoada.
Tenho vareios no olhar as coisas.
Chego de ver vaidade nas garças.
Eu ouço a fonte dos tontos.
Pedra tem inveja aos lírios.
Isso eu sei de espiar.
Eu combino melhor com árvores.
Totalmente ao senhor eu falo:
Quem ouve a fonte dos tontos não cabe mais
dentro dele.
Outra pessoa desabre.

A voz do poema define o poeta ou Antônio Carancho. Neste poema constitutivo, a teoria do poema explicita o seu autor.

Proclama-se: Antônio Carancho. Carancho por causa da ave de rapina de ‘ pé virado’ e jeito semelhante ao andar da ave.

Proclama-se cantor de um canto fechado, e “tenho vareios no olhar as coisas”. Por “Vareios” subentendem-se as diferenças, as modalidades e a capacidade de um olhar descomum que vê outras realidades não normalmente percebidas pelos mortais comuns!

O poeta exemplifica os “vareios” no olhar as coisas:

- Chego de ver vaidade nas garças.
- Eu ouço a fonte dos tontos.
- Pedra tem inveja aos lírios.

São realidades transferidas às coisas, percebidas somente por um olhar especial que vê além das aparências, que capta os revérberos das coisas em suas relações coisais.

Também o poeta Antônio Carancho se revela em suas preferências:

- Eu combino melhor com árvores.

E estabelece o limite ou parâmetro ideal para a percepção do Belo: “ouvir a fonte dos tontos!”; quem aí chegar não “cabe mais dentro dele!” Em outras palavras, “a fonte dos tontos”, segundo o poeta, tem propriedades engrandecedoras da realidade oculta não acessível à razão. Justamente afirma o poeta, na “fonte dos tontos” jorra outra água. Pois os tontos têm a propriedade de inaugurar as coisas conforme a própria fonte, a tontice. Esta é julgada como bobeira pelo justo julgar racional. O poeta que acessou ou abeirou-se da fonte da Tontice, percebe o mundo, as coisas, um universo diversificado e ilógico, mas capaz de transbordar e engrandecer, pois afirma seu ser. Sua capacidade de inaugurar extrapola, pois cria ou vê sempre as mesmas coisas em outra perspectiva e o mundo cresce até o poeta concluir: “Não (se) cabe mais dentro dele!”

Essa perspectiva de abeirar-se à “fonte dos tontos” é um achado do poeta, sua grande descoberta na variabilidade de ir além do real ou das aparências racionais das coisas.

O mundo jorrante da “fonte dos tontos” tem a propriedade inaugural vertiginosa, vai além de todos os seus limites e extravasa, expande o seu mundo e o seu ‘eu’. Abeirar-se da força da “fonte dos tontos” transforma o ‘eu’ do poeta, aumenta sua capacidade de percepção a ponto de ele não mais se perceber como era, é outro. A “fonte dos tontos” o transforma em seu olhar e ele é construído para estar em estado de expansão para a beleza lúdica do universo e das coisas a partir de seu percurso poético.

E ele, não se identificando mais consigo mesmo, afirma que é outro e que o poema o construiu; tornou-se outro ao percorrer o universo inaugurado pela água da “fonte dos tontos”.

Assim concluiu sua inauguração fechando o poema: “OUTRA PESSOA DESABRE!”

O poema contém a teoria em seu caminho inaugural. A proposta do acesso “Fonte dos Tontos” criou o autor, o ‘eu’ do poeta.

O que é a FONTE DOS TONTOS no poema?

Vários traços compõem a resposta:

- Fonte dos Tontos é o campo oposto ao racional e ao fotografável;
- Fonte dos Tontos é um campo não perceptível à narrativa linear, mas habitada pelo surpreendente, pelo inesperado e pelo lúdico;
- Fonte dos Tontos é o lado não manifesto da linearidade das palavras, das sintaxes.
- Fonte dos Tontos é o desprezível, o abjeto, tudo que a pessoa comum não aprecia.
- Fonte dos Tontos é o universo das coisas, dos bichos, das árvores, dos vermes insignificantes, dos insetos, dos moluscos nojentos…
- Fonte dos Tontos é a expressividade dos pequenos, dos sem voz, das coisas já usadas e que foram jogadas fora.
- Fonte dos Tontos é a falta de lógica para a racionalidade que não deixa sair dos trilhos, pois ela não tem trilhos.
- Fonte dos Tontos é a oferta das coisas, dos pássaros, dos insetos ao homem desprezível também, ao imbecil, ao fora do prumo, ao não apto ao fechamento das idéias racionais; em compensação aberto às surpresas, às solenidades dos pequenos e desprezíveis, aos escondidos das coisas, às sintaxes inaugurantes e às imagens de contra-mão.

Todo esse conjunto exige um “eu” capaz de ser acessado, de entrar na clareira do ser objeto na suspeita de sua reinvenção. Quando opera o estado de vigília, o poeta atravessa para o outro universo e é construído pela sucessão inaugural desses objetos, situações e percepções novas. Afinal é outro homem, outra pessoa, pois “Outra pessoa desabre”!

Para isso ele venceu o percurso que o poema lhe oferece:

- Antônio Carancho
- não é bobo
- tenho voz – sou garantido de cantor/ Mas meu canto é fechado!
- Tenho vareios no olhar as coisas e vejo: vaidade nas garças, ouço a Fonte dos Tontos, a inveja da pedra
- combino bem as árvores
- ouço a Fonte dos Tontos,

E ao final do percurso, está repleto pela Fonte dos Tontos e está construído – é outra pessoa. Seu “eu” brotou no percurso apresentado pelo poema em etapas distintas e constitutivas.

Nota-se que o poema se estende com percurso que por sua vez também se apresenta no próprio desdobramento como oferta de cada parte que se coordena na dialética e complementaridade da parte com o todo; sendo que o conjunto, o todo, atrai e congrega as partes, as etapas do percurso do poema de acordo com a ‘dynamis’ que traz e sustenta a fonte do sentido. Dessa forma, as partes, os conjuntos de versos se coadunam entre si pela força que os conduz ao todo que sustenta e apresenta o sentido do poema.

O sentido do poema Antônio Carancho é disposto nas partes para surgir com evidente estruturação depois de receber a contribuição das partes de forma a realçar a conclusão e o seu sentido máximo: a construção das percepções e constatação, mediante a entrega do poeta ao processo antecipa o desenlace bem disposto; ao fim o poeta foi construído pelo percurso. Por outro lado, também a teoria poética se construiu na exclusividade do percurso suscitado pelo poema!

Fonte:
Portal das Letras – Pe. Afonso de Castro
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/p/poemas_rupestres

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 22, final


SOL

Ao Dario Vellozo

Crepúsculo indeciso. As estrelas começam a apagar-se, uma a uma, como lâmpadas que se extinguem. Zéfiro sopra. E num vago sussurro harmonioso, a pouco e pouco, a natureza acorda. Ouvem-se vozes longínquas e dispersas...

Um pássaro:
– Vai despontar a luz.

Outro pássaro:
– Pois que desponte logo.
Tenho ânsias de subir, tenho a cabeça em fogo.
Hoje vou conhecer, pela primeira vez,
A voluptuosidade, a febre, a embriaguez
De voar, de voar, ó sonho que me abrasas!

Outro pássaro:
– Ah que bom de fugir! Que orgulho de ter asas!

Outro pássaro:
– Estou ébrio de amor. O amor é como o vinho.
Que venha logo a luz. Quero fazer meu ninho…

Um galo:
– Dentro desta canção, tão límpida e sonora,
Há matizes de luz e púrpuras d’aurora.

Um corvo:
– Eu sou a podridão e o vento que arrasa;
Sou a fome e a nudez… O sol é a minha casa.

O monte:
– Que solidão sem par, que solidão extrema,
A solidão cruel e áspera de um monte;
Mas quando o sol me toca, é como um diadema,
Aurifulgindo aqui por sobre a minha fronte…

O charco:
– Água esverdeada e suja e pântano sombrio,
Mas quando o sol me doura esta miséria, eu rio.

A floresta:
– Ó delírio brutal! Quando me mordes tu
A carne toda em flor, o seio todo nu,
Com teus beijos de fogo, eu, como a flor do nardo,
Recendo de prazer, e de luxúrias ardo…

Uma árvore:
– Quando ele bate aqui no meio da floresta:
Que sussurro, que ardor, que anseios e que festa!

Uma cigarra:
– Faz tamanho rumor e tamanha algazarra,
Que eu suponho que o sol é como uma cigarra…

Outra árvore:
– E que perfume tem!

Outra árvore:
– E que canções vermelhas!

Outra árvore:
– Nós somos como a flor, ele, como as abelhas!

A terra:
– Quanto me queima o sol, com os seus desejos brutos!

A videira:
– Ó glória de florir e rebentar em frutos!

A palmeira:
– Como gentil eu sou! E o aroma que trescala,
Quando me lambe o sol e o zéfiro me embala!

O orvalho:
– Ao sol eu brilho mais que a pérola d’Ormuz…

O pinheiro:
– Eu sou como uma taça erguida para a luz…

As fontes:
– É um murmúrio sem fim de horizonte a horizonte…
O dia quando nasce é bem como uma fonte…
Através da floresta e desse campo e desse
Vale, há um rumor de luz, como água que corresse…

A abelha:
– Quando sobre o horizonte esse astro heroico assoma:
Que orgulho, que prazer, que vibração cruel,
Pois é de sol e flor, é de luz e aroma,
Que componho esta cera e fabrico este mel!

Um pássaro:
– Ah que alado frescor tem o romper d’aurora!

Outro pássaro:
– É tempo de fugir, é tempo d’ir-me embora…

Outro pássaro:
– É nesse lago azul que hoje quero roçar
As asas…

Outro pássaro:
– E eu é sobre as ondas desse mar…

Um pastor:
– Eu nunca vi o céu de uma beleza assim:
É todo de ouro e rosa e púrpura e carmim…

Outro pastor:
– Dentro daqueles véus ideais do rosicler;
A aurora tem a graça e o ar de uma mulher…

Outro pastor:
– Mas ei-lo que surgiu, em rufos de alvoroço,
Brilhantemente nu, divinamente moço,
Eterno de frescor juvenil e tamanho,
Como se viesse de um maravilhoso banho,
Feito de águas lustrais, e aroma, e ambrosia,
E coragem, e luz, e força, e alegria …

Uma rosa:
– E que límpido céu! Que espetáculo rubro!

Outra rosa:
– É realmente bela esta manhã de Outubro!

Um beija-flor:
– Eu nunca vi assim manhã tão luminosa…

Outro beija-flor:
– É fina como o lírio e é ardente como a rosa…

Um pastor:
– Quando o sol aparece em ondas, a beleza
E a frescura, que espalha, é de tal natureza,
Tem um olhar tão bom, tão novo, tão jocundo,
Que toda madrugada é o começo do mundo…

A floresta:
– Tu me beijas, ó sol, tão loucamente, espera,
Que eu em pleno fulgor ideal de primavera,
Debaixo desse fogo ardente de teus beijos,
Em delírios de amor e amplexos de desejos,
Arrebentando em flor, completamente louca,
Ofereço-te o seio, ofereço-te a boca!

Um pássaro:
– Aqui, onde eu estou, deste raminho verde,
Quero subir até onde a vista se perde…
Quero aos raios do sol minhas asas bater,
Até cair no chão, bêbado de prazer…

As ovelhas:
– Luz radiosa e pura, ó fonte criadora,
Luz que faz germinar em grãos a espiga loura,
E que veste de verde os campos seminus.
Bendita sejas, flor, bendita sejas, luz!

O poeta:
– Ah! Que sombria dor e que profunda mágoa
De não poder ser eu aquela gota d’água,
Que depois de fulgir, assim como uma estrela,
Derrete-se na luz, funde-se dentro dela!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 21

SÚCUBO

Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas…

Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas…

E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!

Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!

VERSOS DOURADOS

La beauté est une promesse de bonheur.
Stendhal

Eu não te posso ver, que não sinta o desejo
De te envolver assim num luminoso beijo,
Num grande beijo nu, a pele cetinosa,
De uma frescura ideal de pétalas de rosa…
E tamanho prazer o coração me inunda,
Em te vendo, de luz, de embriaguez profunda,
Que doido desse amor, bêbado desse vinho,
Não sei mais onde estou, não sei onde caminho.
Sigo. Vou por aí, pela deserta rua,
Sem ver que anoiteceu e que nasceu a Lua,
Sem ver mais nada, sem ter olhos nem ouvido,
Cego, completamente cego, e aturdido,
Dentro dessa visão inquietamente bela
Que fulge como se fosse a luz de uma estrela…
E distante afinal de todos e de tudo,
Envolto no ouro de um silêncio de veludo,
Coroado, como um deus, dos pâmpanos de enganos
E das rosas em flor dos vinte e poucos anos,
Radiante de me ver, sozinho, ao fundo desta
Solidão, como quem entra um palácio em festa,
Que bom de me entregar num êxtase risonho,
Num êxtase sem fim, num êxtase de sonho,
À lembrança, à loucura, à volúpia esquisita,
Ao luxo de sentir que uma mulher bonita
Tem no expressivo olhar, que brilha quando passa,
O dom de oferecer, como uma fina taça,
Para os meus olhos nus, por um instante ao menos,
Os delírios do amor e da embriaguez de Vênus!
Janeiro – 1911

À TOI!

É num dia de sol que te escrevo esta carta,
No meio de uma luz radiosamente farta,

Loira, seca, sutil, aromada, ideal,
Assim como se fosse um vinho oriental.

Escrevo-te ao correr da pena, quase a esmo,
Como vivo afinal: tão fora de mim mesmo…

E confesso-te, flor, ó doce flor-de-lis,
Que te escrevo porque não me sinto feliz.

Eu te amo, vê, porém eu te amo de tal arte
Que te amo muito mais do que devera amar-te.

Muito mais! muito mais! O meu amor é tal
Que o bem de te querer, às vezes, me faz mal.

Causa-me raiva até e me deixa doente:
Fico a chorar e a rir, mas incoerentemente,

Sem poder definir o que é que eu sinto, enfim,
Francamente, a não ser que eu nunca amei assim.

Nunca! Tu para mim és como uma bebida,
Onde um dia eu encontro a embriaguez e a vida,

E noutro, o desespero, a tragédia cruel,
A dúvida sombria e amarga como fel…

É que somente tu tens a força marmórea,
O condão, o poder, a beleza e a glória,

De transformar-me assim, com os teus olhos nus,
Maravilhosamente, ou em lama, ou em luz.

E por isso, também, ó flor abençoada,
Em te vendo passar, não quero ver mais nada.

Tão radiante me vejo, e tão feliz, direi,
Como se fosse rico ou me tornasse um rei.

Hoje, porém, não sei que sombras e que mágoa
Perpassam-me através dos olhos rasos d’água.

Sinfonias de luz andam vibrando no ar,
Mas eu, não sei por que, eu quase a soluçar

Sinto que a destruição, o tédio e o desengano
Me invadem como se eu fosse o império romano.

Ando nervoso, mau, doente, quase hostil,
Debaixo deste céu mirífico de abril.

E, volúpia imortal, delicioso beijo,
Prazer que me destrói, ó rútilo desejo,

Essa tristeza vã, esse histerismo todo,
Tudo isso é só porque te quero como um doido!

GRAÇAS TE RENDO…

Graças te rendo aqui, preciosa Senhora,
Que, num simples olhar de ternura, tiveste
O dom de me elevar, assim como o fizeste,
Entre os brasões do amor e as púrpuras d’aurora…

O dom de me fazer acreditar que veste
O humano coração, como acredito agora,
Não o lodo, porém o linho que se adora,
O linho que fulgura em pleno azul-celeste…

Sei que os votos que são trabalhados com arte
Hão de os deuses cumprir, ó luz maravilhosa:
– Sê, pois, bendita, sê bendita em toda parte!

Que onde fores pisar, que por onde tu fores:
A lama se transforme em pétalas de rosa,
As víboras, em fruto, os espinhos, em flores!

ADULTÉRIO DE JUNO

Ao Reinaldo Machado

Un paysage, c’est um état d’âme.
Amiel

I

Juno, a beleza em flor da primavera,
Mas a deusa de olhar quase sombrio,
Quando tinha ciúme, era uma fera,
Mais furiosa que uma loba em cio.

Cada vez que esse Júpiter tonante
Se transformava numa chuva de ouro,
Para as conquistas de uma nova amante,
Num alvo cisne, ou simplesmente em touro,

Ai da ninfa culpada, albor de neve,
Por mais jovem que fosse, por mais bela,
Ia mudar em corça dentro em breve,
Quando não fosse pois numa cadela!

Juno, porém, tamanho orgulho tinha,
Um tamanho amor próprio desmarcado,
Na sua aurifulgência de rainha,
Que nem por isso dava um passo errado.

Por toda parte palpitavam beijos,
Mais lindos do que a flor do asfodelo,
E os desejos mais sôfregos, desejos
De despir esse corpo e de mordê-lo…

Vendo-a através do linho, que flutua,
A mocidade grega sempre fátua,
Não podendo morder-lhe a espádua nua,
Babujava-lhe o mármore da estátua…

Vênus era a primeira a dar-lhe o exemplo
De quanto vale uma mulher devassa:
O seu templo de amor não era um templo,
Era uma tasca, e Vênus, uma taça…

O Olimpo enfim era uma borracheira,
Era uma gargalhada, um grito insano;
Foi só para enganá-lo a vida inteira
Que Vênus se casou com o deus Vulcano.

Via o infiel correr, ébrio de vinho,
Náiades, hamadríades, e tudo
Quanto encontrava sobre o seu caminho,
Como se fosse um sátiro cornudo.

Via-se desejada como a fêmea
Cujo perfume era o da própria rosa,
Sua única irmã, sua irmã gêmea,
E entretanto teimava em ser virtuosa.

II

Vivendo sempre só quase que todo dia,
Tinha apenas consigo uma única alegria.
Toda linda manhã de sol saía de casa,
Ligeira, como quem é uma deusa e tem asa.
E dentro do seu coche azul, clara e florida,
Levada por pavões, corria a toda brida.
Era um voo através de campos verdejantes,
De palmeiras gentis, serros de diamantes,
Cidades ideais, como lírios na falda
De uma montanha de pérolas e esmeralda,
Rios, vales em flor, floresta colossal,
Lagos polidos como espelhos de cristal,
Nesse dourado mês de outubro, o mês risonho;
E ela passava assim como se fosse um sonho.

Nessa manhã, porém, de uma estranha beleza,
Juno quis passear, como qualquer burguesa.
A sandália nos pés, a fronte coroada,
A túnica sobre o corpo nu, e mais nada.
Mas por simples que fosse a deusa, no momento
Em que ela aparecia, era um deslumbramento.
Onde quer que pousasse o esquisito veludo
Daquele doce olhar, estremecia tudo.
Era como uma luz. A natureza, quase
Ébria, não tinha mais que uma única frase,
Não tinha mais que uma só exclamação,
E o êxtase, o silêncio, o gozo, a adoração.
Vendo-a passar por sobre as suas hastes em flor,
Inquietas de prazer, e histéricas de amor,
Diziam a sorrir lânguidas açucenas:
“Quem passou por aqui foi uma sombra apenas!”
Ia Juno, porém, de tal modo metida
No fundo do seu eu, da sua própria vida,
Que sem vê-las talvez, pálida e desdenhosa,
Calcava sob os pés a violeta e a rosa…

III

Ia indiferente,
Quase triste, quando
Olha, e de repente,
Como que sonhando,

Ela vê dormindo,
Num sono profundo,
O pastor mais lindo
Que havia no mundo.

Surpresa de vê-lo
Belo desse modo,
Beija-lhe o cabelo,
Quer beijá-lo todo…

Um pássaro:
– Ó flor mais branca do que a flor da laranjeira!

Outro pássaro:
– Só faltava uma vez para ser a primeira…

Um fauno:
– Ah! como Endimion, o pastor, é feliz!

Outro fauno:
– Pois pudera não ser… É o rei dos imbecis!

Uma dríade:
– Que força deve ter no azul dessa pupila
Para poder assim chamá-la e atraí-la…

Outra dríade:
– Vede o brilho que vem desse olhar através…

Um fauno:
– Tem mais força no olhar do que Hércules nos pés!

Beija-o como louca,
Mas com tais desejos,
Que enche aquela boca
De um furor de beijos.

Um sátiro:
– É um combate feroz, uma guerra da Helade…

Outro sátiro:
– Nunca se viu assim tanta escurrilidade…

Toda descoberta,
Sem nenhum receio,
Cada vez o aperta
Mais junto do seio…

Com tal abundância,
Com tal alvoroço,
Que ela é quem mais ânsia
Tem daquele moço.

Um jovem fauno:
– Somente para mim a sorte foi cruel:
Nunca pude gozar esse favo de mel…

Um pássaro:
– Despiu-se toda. Está inteiramente nua…

Um sátiro:
– Nua, de uma nudez mais nua do que a Lua…

Outro jovem fauno:
– Nunca o amor me quis. E, no entanto, vede,
Eu e Tântalo, os dois, temos a mesma sede…

E ambos, que loucura,
Ambos, que desordem,
Nessa luta obscura,
Como eles se mordem!

Que doce abandono,
Que esquisito choro,
As folhas d’outono
Caíam como ouro…

Outro jovem fauno:
– E eu que um dia lhe disse: ó meu amor imenso,
Quando te vejo sobre uma torre de incenso,
Toda coroada, assim, de mirtos e de rosas…

Sileno, bêbado, interrompendo:
– Doce paixão ideal, como me apoteosas!

Um fauno:
– Estão se mordendo, os dois, com tamanho furor,
Que até parece ser mais ódio do que amor…

Uma dríade:
– Ódio e amor são dois inimigos, porém
Onde vai o amor, vai o ódio também…

Um pássaro:
– Decerto Juno está completamente louca:
Introduziu-lhe em fogo a língua pela boca!

Que ódios a consomem,
Com que febre o quer,
Beija-o como um homem
Beija uma mulher…

E com que delírio
Tudo em roda estua
Dessa deusa nua,
Nua como um lírio…

Flora, que sorria,
Nunca ouviu talvez
Tanta melodia,
Tanta embriaguez.

Um fauno:
– É um horror, é um horror…

Outro fauno:
– Escândalo profundo…

Uma dríade:
– Se Júpiter souber, incendeia-se o mundo!

Como ela se entrega,
Como se enchafurda,
Cada vez mais cega,
Cada vez mais surda!

Outra dríade:
– Ah! se Júpiter vem aqui neste momento…

Coro de faunos, sátiros e dríades:
– Mandai esse castigo, ó numes, por quem sois!

Mal tinham dito, ergueu-se um rijo pé de vento,
E Júpiter caiu como um raio entre os dois!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Poemas: Bilhete


Mifori
BILHETE

No bilhete dizia, estou aqui no cerrado,
vivendo numa terra que garante,
muitas e muitas contradições.
O dia amanhece radiante,
e há alegria no azul do céu!
À tarde a brisa lenta
vem amenizar o calor sufocante…
E as noites?!… Cada um, a sua inventa!
=================================

Ilze Soares
BILHETE

As palavras dançavam à minha frente,
não conseguia entender o real significado!
Era um curto bilhete do namorado…
Nãodeu explicações,
nem adoçou o seu ato…
Dizia apenas Adeus, vou embora.
O papela ficou encharcado
das lágrimas fartas de emoções!
==================

Sandra Galante.
BILHETE

Escrevo-te aqui algumas palavras
Para que em ti fiquem bem gravadas
Desde o dia que te conheci,
Nada mais belo e fascinante vivi
Conheci o que é o verdadeiro amor…
Digo-te, que viver sem ti é conviver com a dor
Portanto, não me deixe nunca por favor
Prometo-te para sempre te dar o meu melhor…
=================

Giovânia Correia
BILHETE

Nessa vereda aqui estou.
Perdida, e em aflição.
Pois nada mais restou.
Dessa insana e doce ilusão.
Já nem sei se devo caminhar.
Pois perdi também meus anseios.
Finalizo sozinha a chorar.
Pois perdi todos os meios.
=========================

Humberto – Poeta
BILHETE

Meu coração se agitou
ao ler teu lindo bilhete,
mas inda não sei se vou
te amar em teu palacete;
só em pensar fico rendido
a um medo covarde e afoito
de ali surgir teu marido
me apontando um trinta e oito!
=========================

Dilma Suero
BILHETE

Encontrei, na cama amassado,
um curto bilhete, de papel rabiscado.
Peguei-o ansiosa… coração acelerado,
o que diria tal bilhete, seria do meu namorado?
Cheguei junto à janela com mais claridade,
um vento uivante arrancou-me das mãos
e levou-o embora para a eternidade.
==============

Gilson Faustino Maia
Petrópolis-RJ
FUGA

Sumir, foi o meu desejo,
algo que concretizei.
Aproveitei um ensejo
e nem bilhete eu deixei.
Mas hoje eu vivo tristonho,
parece ser tudo um sonho,
que ainda não acordei.
==================

Maria Zélia Gomes
O BILHETE QUE ESCREVI

Eu já te escrevi um dia
Um bilhete de amor
Ia nele nostalgia
Pedacinhos de magia
E restos de algum fulgor
Eram palavras sentidas
Ditadas pelo coração
Relatos … frases perdidas
Novas tristes … doloridas
Misto de dor e paixão
E o bilhete que escrevi
Que não leste e que eu li
Carregado de ansiedade
Ficou amarelecido
Era um relato sentido
Só restou dele … saudade!
================

Marcial Salaverry
UM BILHETE DE AMOR

Minha amada querida,
amor de minha vida…
Peço-te não desapareça,
veja, por ti, perdi a cabeça…
Dominastes meus pensamentos,
tortura-me ficar só com meus lamentos…
E assim, enquanto tua ausência me desespera,
ouço-te quando simplesmente, diz…espera…
====================

Clara da Costa
BILHETE

Escrevi um bilhete quando a saudade doeu
no vazio daquelas noites solitárias,
na saudade que invadia me corpo
O bilhete que escrevi,
falava do meu amor,
desse inesquecível,
e insubstituível amor.

O bilhete que escrevi, resposta não teve…

Morro aos poucos,
sentindo teu cheiro
impregnado dentro de mim…
=================

Arianne Evans
BILHETE

Ele nem me conhecia e eu o amava…
Um dia decidi escrever num bilhete
os meus sentimentos e emoções, quando
o via, quando pensava nele; num papel
bem perfumado contei – lhe pormim ser
amado, masó decepção, o endereço que
eu tinha estava errado, o bilhete voltou
sem por ele ter sido tocado e ainda fechado…
E eu fiquei com aquele amor sufocado…
========================

Aliosha Cigana
Bragança Paulista
BILHETE

O amor passou por aqui
Voando feito anjo estabanado
Mal deu tempo de dizer
Tenho pressa, preciso ir
Deixo-lhe um bilhete
Sem endereço, remetente ou adereço
Possivelmente de alguém
acenando que é por ti apaixonado
==================

Beki Bassan
BILHETE

Deixo este bilhete para você,
porque percebi que você não me ama,
e como não sei se vou conseguir dizer,
o que penso sobre esta mentira que me tortura,
prefiro então nunca mais olhar no seu rosto.
Penso que você poderia ter sido honesto,
no amor não se manda e eu entenderia,
mas ao lhe ver aos beijos com outra,
você partiu meu coração.
Só te peço uma coisa não me procure mais.
ADEUS.
==========

Luiz Gonzaga Bezerra
BILHETE.

O bilhete expressava
Meus sentimentos e amores
Meu desejo imensurável
De tê-la nas loucas noites
Deitadinha ao meu lado
Amando-me e sendo amada.
=================

Marcos Toledo
BILHETE

Tentei escrever-lhe um bilhete de chegada,
mas, como sempre, virou uma carta de amor.
Escrever bilhete para você é dificil,
meu coração se intromete e desanda a falar.
Fala do amor que sinto por você.
De um simples bilhete, vira uma carta
recheada com amor/carinho/paixão/tesão.
Culpa do coração escritor que tenho.
amém
==============

Cibele Carvalho
BILHETE

Escrevi-lhe um bilhete
- que coisa mais antiquada,
nestes tempos de internet -
devo estar ultrapassada…
Dizia do bem que me faz
sua presença em minha cama,
e nada se compara à paz
que sinto quando a gente se ama.
================

Maria Conceição de Paula (São José dos Campos/SP)
BILHETE

Há bem mais de meio século,
não havia, na zona rural,
caneta bonita e moderna.

Mas havia poesia no coração
de um aluno apaixonado.
Assim que aprendeu o b+a=ba
fez essa trova para quem admirava:

A tinta tirei dos olhos,
A pena do coração,
Pra escrever esta cartinha
Pra quem amo de paixão!
==========================

Lora Saliba
BILHETE

Nesse bilhete transmito
Todo meu sentimento!
Digo-lhe, não minto
Não há nenhum impedimento,
Podemos conversar agora,
Aguardo, pode vir, por hora
Com sinceridade lhe transmito
Todo o amor que sinto!
====================

Nilza Stringhetta Rossi (Botucatu/SP)
BILHETE

Um livro iluminado na estante bem guardado
Há algum tempo eu não percebia
Tudo estava empoeirado
O livro cai num repente quase em cima de mim
Salta dele um bilhete dizendo assim
Meu amor és minha vida, por favor,
Encontra-me na avenida
Pego o celular, meu amado, hei de encontrar
==================

Nicola Araujo
BILHETE

Um bilhete timbrado
Recebi perfumado
Dobrado em quatro
No meio um laço

Marcado por lágrimas
Derribadas da alma
Que clama por um amor
Sem travas
==============

Enviar participação para:
ilzesoares@terra.com.br OU ilzesoares@gmail.com
Obrigada
CURTINHO= poema com NO MÁXIMO 8 versos

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 20


PARA OS QUE SE AMAM

Ao Américo Facó

Sobre esse lago azul, que um sussurro de brisa
Aquebranta de amor e encrespa de desejo,
Curvo e leve um batel docemente desliza,
Velas a palpitar radiantes como um beijo…

Dentro, amoroso, vê, um casal se entrelaça,
E enquanto sobre o azul dessas águas quietas
Voga o batel, os dois, com o mesmo ardor e graça,
Beijam-se, como faz um par de borboletas.

Amam-se. E em derredor do lago, que se ondeia,
Como uma flauta, que soluçasse em surdina,
Pelos ramos em flor um pássaro gorjeia,
E ansioso sobre os dois o próprio céu se inclina.

Ah! que doce frescor ideal de mocidade!
Para vê-los assim foi que se fez o mundo,
A alegria, o prazer, o ruído, a cidade,
A poesia, o luxo, aquele céu profundo…

Para gozar o amor dessas crianças, vê-las
Os lábios confundir no mesmo sorvedouro,
A noite se enfeitou de arrecadas de estrelas,
E pôs sobre a cabeça um diadema de ouro…

Primaveras em flor brotaram de repente,
Como romãs ideais, bocas luxuriosas,
E floriram canções madrigalescamente,
E encheram-se os jardins de lírios e de rosas…

Ó que frêmito bom, que beijo, e que alvoroço,
E que sonho ideal, e que róseos matizes!
Não há nada melhor do que ser belo e moço…

Senhor, vamos rezar pelos que são felizes!

A BOA ESTRELA

Ao Aluízio França

Em criança, um dia, consciência pura,
Mostraram-me a estrela da minha ventura.

Ansiado e doido, corri para vê-la…
E vi-a. Que linda, que dourada estrela!

Lembra-me: mais tarde, consciência langue,
Olhei-a. Ela estava coberta de sangue…

Afinal perdido de todo, quis eu
Inda olhar e vê-la. Desapareceu….

PARA QUE TODOS QUE EU AMO SEJAM FELIZES

Eu sei que o meu destino é como aquela espada
De Breno a reluzir sobre minha cabeça,
E por isso também, porque nada mereça,
Ó deuses, para mim, eu não vos peço nada.

Tudo que vier é bom: esta melancolia,
Esta tristeza atroz, esta invasão de mágoa,
A tortura que faz tremer os olhos d’água;
Tudo que vier é bom: é porque eu merecia.

Bendita seja, pois, a mão que me assassina,
Bendito o que me fere e o que me apunhala,
E encheu-me de pavor os caminhos de opala,
E fez cair os meus castelos em ruína…

Mas ao menos, ouvi, e eu por isso me inflamo,
Que do fundo do meu recolhimento eu possa
Pálidas mãos erguer e suplicar a vossa
Magnificência real para aqueles que eu amo.

Que não sendo feliz, ao menos possa vê-los
Felizes, a gozar o prazer que não pude:
O aroma dessa flor-de-lis da juventude,
A alegria de ser sempre moços e belos.

Sim, permiti que o mal que tenha porventura
De um dia os abater, como vítima imbele,
Caia por sobre mim, que eu sei que tenho a pele
Sobre os ossos, porém, insensível e dura.

E unidos, como se fosse num longo beijo,
Doce, espiritual, ansiosamente mudo,
Não compreendam jamais dentro desse veludo,
Dentro desse prazer, dentro desse desejo,

Que há serpentes cruéis e babas de serpente,
E monstros, e reptis, e charcos, e venenos;
Mas simplesmente, olhai, mulheres como Vênus,
Belezas ideais, beijos unicamente!

Que sobre eles, assim como uma auréola em brasas
Possa resplandecer o sonho de tal modo
Que nem toquem sequer com os pés sobre o lodo,
Por isso que sonhar é o mesmo que ter asas…

E que bem como faz à tarde uma andorinha,
De um para outro país, em vindo a primavera,
Emigrem: que isso foi minha melhor quimera,
E eram essas também as ambições que eu tinha.

E transpondo esse mar, que brame e ruge e espelha,
Julguem, sempre a sorrir, que tudo é um sonho vago,
E que esse mar não é senão um doce lago,
De ondulações azuis e bom como uma ovelha.

E sobretudo que, mais verde que uma palma,
Tragam o coração em flores de giesta
Sempre aberto, a florir para uma grande festa
Dentro desses salões ariádnicos d’alma.

E possam sempre ouvir o amor quando segreda,
Mas assim como se fosse um suspiro apenas,
Essas canções em flor, lânguidas açucenas,
Entre os álamos nus de sombria alameda…

E não vejam senão a doçura da vida,
E não ouçam senão o fresco idílio eterno:
Primavera, verão, outono, e o próprio inverno,
Como quem vive ao pé de uma mulher querida.

E sabendo que são puramente bondade,
Alegria, e canção, e luz, e alvoroço,
Não queiram ser jamais esse monstro e esse poço
Que sou, e sempre fui, de orgulho e de vaidade.

E tudo seja pois tão saboroso e rubro
Pomo, que de maduro em favos se derrete,
Tão azulado o céu, mas d’um azul-ferrete,
Cálido a enfebrecer de raiva o mês d’Outubro.

Que eles possam achar quase aos oitenta anos,
Envelhecidos, mas com o lábio risonho,
Que a existência lhes foi mais breve do que um sonho,
Tais as venturas e tão grandes os enganos…

E um dia, quando enfim, de longínquos países,
Chegar a morte, bem como uma dura algema,
Que eles possam dizer nessa hora suprema:
Glória aos céus imortais, que fomos tão felizes!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emílio Moura (Poemas Escolhidos)


INTERROGAÇÃO

Sozinho, sozinho, perdido na bruma.
Há vozes aflitas que sobem, que sobem.
Mas, sob a rajada ainda há barcos com velas
e há faróis que ninguém sabe de que terras são.

- Senhor, são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco?
Eu tenho as mãos cansadas
e o barco voa dentro da noite.

LIBERTAÇÃO

Sou um poeta quase místico:
A vida é bela quando é um êxtase.

Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,
não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade,
mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;
não ouvir as palavras frias que mudam o destino,
ou que o fazem semelhante a um autômato;
e saber a toda hora,
saber sempre
que a vida é bela quando é um êxtase.

MISTICISMO

O céu lindo da vila pobre!
E a igreja pequenina, que se espicha toda na torre,
com vontade de ver o céu.

E o céu tão alto, e o céu tão alto!

TOADA DOS QUE NÃO PODEM AMAR

Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando
e morrendo.

Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.

AQUI TERMINA O CAMINHO

Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave pensamento de exílio.

Por que ainda esperas? Aqui termina o caminho,
aqui morre a voz, e não há mais eco nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto nos perturbaram
e que inutilmente nos conduziram
para nos deixar, de súbito, na primeira esquina?
Essa voz que vem, não sei de onde,
esses olhos que olham, não sei o quê,
esses braços que se estendem, não sei para onde…

Debalde esperarás que o oco de teus passos acorde os espaços que já não têm voz.
As almas já desertaram daqui.
E nenhum milagre te espera,
nenhum.

TRÊS CAMINHOS

Percorri tantos caminhos,
tantos caminhos andei.
O primeiro era de nácar,
de rosa pura o segundo.
O terceiro era de nuvem,
no terceiro te encontrei.
O primeiro já trazia
teu nome brilhando no ar.
Não era nome de terra:
cantava coisas do mar.
Logo senti que o segundo
já era estrada de encantar.
Mas o terceiro, o terceiro
quantas voltas não foi dar!
Deixou meu corpo na terra,
meu coração no alto-mar.
Virou vento, virou bruma,
perdeu-se, rápido, no ar.

COMO A NOITE DESCESSE…

Como a noite descesse e eu me sentisse só,
só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo
só as estrelas é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora…

se só as estrelas é que me entenderiam?

TOADA

Minha infância está presente.
É como se fora alguém.
Tudo o que dói nesta noite,
eu sei, é dela que vem.

CANÇÃO

Não quero ver esta rosa,
nem saber por que floriu.
A cor mais bela do Arco-Íris
foi a cor que ninguém viu.

Não quero ouvir este canto,
nem saber de seu sentido.
Quem é que me conta
o que foi perdido?

LAMENTO EM VOZ BAIXA

A vida que não tive
morre em mim até hoje.
Chega, límpida, pura,
sorri, pálida, foge.

A vida que não tive
salta, viva, de tudo.
Se me sorri nos olhos,
com que ilusão me iludo.

A vida que não tive
é o que há de mim em mim,
chama, orvalho, segredo
do nunca de onde vim.

CALMARIA

Água estagnada,
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.

- Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!

Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.

- Ó vento que adormeceis,
de manso, de manso,
gritai, gritai!

Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.

Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!

CANÇÃO

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.

POEMA

De repente volta
o que nem sei se foi
sonhado ou vivido.
Que apelo me chega
desta voz que emerge
de tão fundas águas?
Alguém esquecido
no fundo dos tempos?
Meu anjo vencido?
Meu duplo secreto?
Que apelo indizível
me chama, me grita
que esqueça, que durma,
ou me divida em tantos
que nenhum seja eu?

Nem eu, nem ninguém.

CONDIÇÃO HUMANA

Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas? Como
reter o que, mal surge,
já se desfaz: é sombra,
algo vago, já neutro,
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém?
Um minuto se esboça,
rútilo se sonha,
ardente se anuncia.
Onde? Quando? Quem sabe?
Sempre se sabe tarde,
sem mais onde, nem quando.

À BOCA DA NOITE

Não olhes: é a noite
completa que tomba.

Não olhes: é a estrada
que, súbito, acaba.

Não olhes: é o anjo,
teu anjo que chora.

Não olhes.

SONETO A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A hora madura envolve-te e palpita
nela o que ora te oferta, ora recusa:
posse do que és, na solidão recôndita,
graça de amar, ressurreição dos mitos.

Claros enigmas riscam céus distantes.
Falam-te as coisas pela voz que é o próprio
sentimento do mundo e pela meiga
sombra gentil que ressuscita a infância.

Ouço-te andar nas lajes desta rua,
que nem sei se é de Minas ou de alguma
pátria remota que ao teu canto se abre.

E amo-te a voz multiplicada em ecos:
verbo dócil à força íntima e pura
que à máquina do mundo se incorpora.

Fontes:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/goias/emilio_moura.html
http://emiliomoura.br.tripod.com/poemas.htm

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 19


TRISTEZA

Ao Alves de Farias

Era de tarde. Estava aqui sozinho,
A mão por sob a face, a mão assim,
Quando, me vendo do alto, um passarinho
Pensou que eu era um ramo, e veio a mim.

Veio. Desceu. Porém tão de repente,
Tão sutilmente, tão suave – que eu,
Se já não fora um coração descrente,
Pensava que do céu é que desceu…

Veio. Pousou aqui, trêmulo e brando,
Aqui por sobre mim, neste lugar,
Neste meu coração quase chorando,
E logo que pousou, pôs-se a cantar…

Findou-se a tarde. Anoiteceu. A Lua,
Toda lavada em rosas de prazer,
Vinha como de um banho, vinha nua,
Vinha prateada e límpida a escorrer…

Eu nunca ouvi cantiga mais amena,
De uma melancolia mais ideal;
Era de tal brandura, de tal pena,
De tal doçura que fazia mal!

Deixava-me no ouvido aquela trova
Não sei que sonho doido de embriaguez:
Era como se alguém me abrisse a cova,
E enterrasse-me vivo de uma vez…

Caía-me aqui dentro, aqui no seio,
Como uma grande luz crepuscular,
Sem que eu soubesse d’onde foi que veio,
De que sombria região polar.

Eu era como um monge, um pobre monge,
Dentro da minha desesperação,
Que caminhasse para muito longe,
Para o exílio, para a solidão…

E tão inquieto eu ia, tão enfermo,
Tão desolado, que fazia dó:
O caminho era fúnebre e era ermo,
E eu ia, eu ia horrivelmente só!

Era tamanha aquela doida mágoa,
Que eu não podia, não podia mais,
Os meus olhos se anuviavam d’água,
Vendo passar meus próprios funerais!

Sobre o meu coração, fria, gelada,
Descia a névoa de uma dor sem fim,
Como se fosse a mão que brande a espada,
Mão terrível e triste sobre mim…

Quanta desilusão que ela me trouxe!
Quanta amargura, quanto horror cruel!
Nesse gorjeio doce, muito doce,
Havia travos de veneno e fel.

Pungia tanto o meu pesar ardente,
Era tão mudo e despedaçador,
Que soluçando torrencialmente,
Não aliviaria a minha dor…

Eu sentia que havia no meu rosto
Essa esquisita cor feita de cal,
Esse mármore frio do desgosto,
Esse palor, esse palor mortal!

E a noite toda, o alegre passarinho
Cantou, cantou, falou com a sua voz,
Ora veludo e seda, ouro e arminho,
Ora nervos e dor, violenta e atroz.

Falou de tudo quanto sucedera,
Com acentos nervosos e febris;
Era macia a voz, era de cera,
Mas como me tornava um infeliz!

Como essa voz tinha ferocidades,
Como era esfomeada e era voraz;
Eu lhe rogava em meio de ansiedades,
Que me deixasse, me deixasse em paz.

E que caminhos tristes! Que avenidas
Longas! E que silêncio tumular!
É por aqui que passam os suicidas,
Quando vão para o ermo se enforcar.

E que sombrios álamos, que choro,
Que desespero, que aflições brutais!
Onde me levas tu, ó mau agouro,
A que trevas e antros infernais?

E que soluço que se não acalma,
Que mágoa intensa, que furor, enfim!
Quem teria morrido na minha alma
Para que o coração chorasse assim?

Debaixo dos estigmas da tristeza,
Eu me via mais triste do que Jó,
Esse que o mundo com pavor despreza,
Mais ulcerado, mais infame, e só.

Era como se eu fosse, em noite escura,
Rio das mortes a rolar em vão,
Aquelas minhas águas de amargura,
Tintas do sangue da inquietação.

E ele a cantar! E eu ansiado: quando
Há de esta ave partir, há de voar,
Há de deixar-me a paz, o sono brando,
O sono leve, que perfuma o ar?

Quando me hás de deixar, música langue,
Ó veneno sutil, ó embriaguez,
Tu que me estás bebendo todo o sangue,
Nervosissimamente, de uma vez?

Mas de repente, assim como de um ninho,
Ei-lo a fugir de mim! Mal eu dei fé,
Já me havia deixado aqui sozinho,
E triste, triste, inda mais triste até!

Raiara enfim o rosicler d’aurora,
Esse cândido albor: olhei p’ra lá,
Para as bandas, por onde fora embora,
E ó que saudade! Quando voltará?

DURANTE UMA ENFERMIDADE

Ao Rocha Pombo

Quem poderá saber? quem sabe lá
D’onde viria aquele sabiá?

Quem poderá saber o que ele tem,
E o que lhe dói, que o faz cantar tão bem?

Que penas serão essas dentro da alma,
Que por mais que ele as diga, não se acalma?

Seria um rei o pobre, ou uma rainha,
Que de uma vez perdeu tudo o que tinha,

E não sabendo mais onde o ganhar,
Pôs-se a chorar, quero dizer, cantar?

Quem poderá saber? Apenas sei,
Quer seja uma rainha, quer um rei,

Que ele é bem como alguém, coitado, quando
Sofre, não se contém, e vai falando…

Chegou a hora triste, a hora santa,
Aperta-lhe a saudade e ele canta…

Eu que conheço a hora do pesar:
Venho, sento-me aqui, fico a escutar…

E de tanto que já o tenho ouvido,
Entendo o que ele diz pelo sentido.

Ora, são esses bosques ideais,
Essa frescura e não acaba mais…

Ora, os campos em flor, e aquela mágoa,
E aquela fonte com soluço d’água…

Às vezes, a saudade e a embriaguez
Desses caminhos que ele um dia fez,

Dessas corridas, desses voos doidos,
Dessas loucuras que fazemos todos,

No meio dos silêncios mais sombrios,
Dos grandes ermos, dos profundos rios…

Ora, aquela dolência, penso eu,
Que só de imaginar que já morreu…

Que em sua terra, todo o mundo agora
Até seu próprio nome já ignora…

Já não se lembra dele mais ninguém,
Nem para o maldizer, nem dizer bem…

Durante o tempo em que eu estive doente,
Foi um amigo, verdadeiramente.

Tão bem me traduziu o coração,
Que foi mais que um amigo, foi irmão.

E ó que irmão que ele foi, como não há,
Eu a sofrer d’aqui, ele de lá!

Até me pareceu que adivinhava:
Quando eu estava triste é que cantava.

E eu por triste que fosse, quando o ouvia,
Era com arrepios de alegria.

É que ele, à semelhança d’um poeta,
Mesmo cantando a mágoa mais secreta,

Tinha sempre o seu modo de a dizer,
Que em vez de magoar, dava prazer…

Eu sei, porém, eu sei que o pensamento
Inda é mais leve do que o próprio vento,

Mais leve do que a luz e do que som;
Sei que me vendo inteiramente bom

Hei de esquecer-te, coração querido,
Como de resto tenho-me esquecido

De tanto sonho bom, por esse mundo,
De tanto sonho que dormiu no fundo,

Bem lá no fundo virgem do meu ser,
Sem que o pudesse mais tornar a ver:

Tal que se fosse a minha própria imagem,
Que eu, em caminho, um dia, de passagem,

Deixasse por aí a refletir
Nesses lagos de pérolas d’Ofir,

Nesses profundos lagos de cristal,
De uma cintilação quase ideal,

De uma cintilação maravilhosa,
Como se fossem lagos cor de rosa,

– Melancólica, assim, cheia de mágoa,
Longa e perdida lá no fundo d’água…

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

José Paulo Paes (Poemas para Brincar)

CONVITE

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia?

CEMITÉRIO

1
Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.

2
Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
era uma pulga suicida.

3
Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!

4
Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
Tinha tanta fome
que comeu-se a si próprio.

ATENÇÃO, DETETIVE

Se você for detetive,
descubra por mim
que ladrão roubou o cofre
do banco do jardim
e que padre disse amém
para o amendoim,

Se você for detetive,
faça um bom trabalho:
me encontre o dentista
que arrancou o dente do alho
e a vassoura sabida
que deixou a louca varrida.

Se você for detetive,
um último lembrete:
onde foi que esconderam
as mangas do colete
e quem matou os piolhos
da cabeça do alfinete?

PATACOADA

A pata empata a pata
porque cada pata
tem um par de patas
e um par de patas
um par de pares de patas.
Agora, se se engata
pata a pata
cada pata
de um par de pares de patas,
a coisa nunca mais desata
e fica mais chata
do que pata de pata.

PESCARIA

Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a idéia
de usar as minhocas
numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
Não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.

LETRA MÁGICA

Que pode fazer você
pra o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora troque o f por g!

Mas se trocar, no rato,
o r por g,
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
o gato.

PARAÍSO

Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóvel matar gente,
mas para criança brincar.

Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?

Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.

Se este mundo fosse meu,
eu fazia tantas mudanças
que ele seria um paraíso
de bichos, plantas e crianças.

GATO DA CHINA

Era uma vez
um gato chinês

que morava em Xangai
sem mãe e sem pai,

que sorria amarelo
para o Rio Amarelo,

com seus olhos puxados,
um pra cada lado.

Era um gato mais preto
que tinta nanquim,

de bigodes compridos
feito mandarim,

que quando espirrava
só fazia “chin!”

Era um gato esquisito:
comia com palitos

e quando tinha fome
miava “ming-au!”

mas lambia o mingau
com sua língua de pau.

Não era um bicho mau
esse gato chinês,

era até legal.
Quer que eu conte outra vez?

RESPOSTAS

- Vá plantar batata.
- Depois você descasca?

- Vá lamber sabão.
- Pois não. Mas me empresta a sua língua
que a minha já está limpa.

- Vá ver se eu estou na esquina.
- Fui e nada vi: o bobo estava aqui.

- Vá caçar sapo.
- Cacei, aqui está: mande logo pro papo.

PROFISSÕES

O MARUJO

Marinheiro pequenino
bebeu água ao se deitar.
Acordou de madrugada:
a sua cama era um mar.

O CARPINTEIRO

Bate bate martelinho
mas não bata feito cego.
Cuidado com o meu dedo
que o meu dedo não é prego.

O BOMBEIRO

Blen blen blen blen
Quem vem? Quem vem?
É o bom bombeiro
e vem ligeiro.
Alguém o chama.
Ele vem que vem
blen blen blen blen.

ANA E O PERNILONGO

para Aninha Vogt

1
Toda semana
eu me lembro da Ana,
Para mim não há semana
sem Ana.

2
Havia um pernilongo
chamado Lino
que tocava violino.
Mas era tão pequenino
o Lino
e tocava tão fino
o seu violino,
que nunca ouvi o Lino
nem vi o Lino.

DICIONÁRIO

A
Aulas: período de interrupção das férias.

B
Berro: o som produzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.

C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.

D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.

E
Excelente: lente muito boa.

F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.

G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta, é um deus-nos-acuda.

H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.

I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.

J
Janela: porta de ladrão.

L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.

M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.

N
Nuvem: algodão que chove.

O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.

P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.

Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.

R
Rei: cara que ganhou coroa.

S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.

T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.

U
Urgente: gente com pressa.

V
Vagalume: besouro guarda-noturno.

X
Xará: um outro que sou eu.

Z
Zebra: bicho que tomou sol atrás das grades.

Fonte:
José Paulo Paes. Poemas para brincar. SP: Editora Ática, 1996. Texto-base digitalizado por Sueli Ducat

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 18

ENTRE ESSA IRRADIAÇÃO

Ao Emílio de Meneses

Entre essa irradiação enorme, que palpita,
É possível que um dia, eu, pálido, a encontrasse,
Como a sonora luz de Vênus Afrodita,
Em meio do caminho, os dois, e face a face…

E que alucinação e que febre esquisita,
Que cegueira de amor e que ilusão falace,
Quando esse girassol, para a luz infinita,
Cá de dentro de mim, então, desabrochasse!

Seriam negros ou dourados os cabelos?
Junto daquela flor, tremeria de zelos?
Não tombaria morto aos pés desse prazer?

Os olhos de que cor? Não sei. Porém suponho
Que seriam assim tão grandes como um sonho…
Mas já passei a vida, e não a pude ver!

UMA CARTA

– Eu te escrevo esta carta, in extremis, Maria,
Deitado aqui por sobre um catre d’hospital,
O corpo exangue, os pés gelados, a mão fria,
E refletindo bem, não sei se faço mal.

Tu te recordas, pois, dessa tarde? Eu me lembro
De tudo. Foi ao pé de uma giesta em flor…
Eu te beijei as mãos, o cabelo… Dezembro
Ardia, enquanto nós mudávamos de cor…

Como sabes, parti noutro dia, bem cedo.
Era preciso ter um nome! Eu me alistei
Entre os que iam talvez morrer nesse degredo,
Em defesa da pátria e em nome de seu rei.

Nunca corri no campo o veado ou a lebre,
E nem mesmo atirei numa simples perdiz,
Mas quando entrei na luta, eu me bati com febre,
Bati-me como um bravo, e saí-me feliz.

No meio da refrega e da fumaça espessa,
Num crepúsculo de betume e vermelhão,
Flutuavas sobre mim, sobre a minha cabeça,
Como se acaso fosse o próprio pavilhão.

Dentro em pouco, também, o meu perfil tamanho
Destaque iluminou, de tal maneira que
Julguei ser um herói, mas um herói d’antanho,
De pluma e capacete e lança e boldriê.

Mas, ontem, ao sair de casa, um camarada
Trouxe-me para ver as linhas de um jornal
Que falava de ti. Olhei. Não disse nada.
Mas para não cair agarrei-me ao portal.

Quando me vi a sós, também, d’aí a pouco,
Tive desejos maus de estrangular alguém,
De te calcar aos pés, de fazer como um louco:
Bater-me contra dez, bater-me contra cem.

Era a hora em que o sol como um ladrão se esconde
Por trás dos serros e para longe de nós:
Tomei a minha espada e caminhei para onde
Eu sabia que estava o inimigo feroz.

Desafiei-os: cinco assaltaram-me, em guarda!
Eu queria morrer nesse combate, sim,
Com a graça, porém, de quem veste uma farda
E tem orgulho de ser um espadachim.

E de fato, que sei? após alguns minutos,
Vibraram-me no peito uma lança, caí
Sob os alfanjes nus desses cossacos brutos…
Mas que importa afinal, se vou morrer por ti! –
Sítio dos Pinhais, Novembro – 1909

SOMBRA

Ao Leôncio Correia

Um dia hei de partir e tu hás de ficar,
Como uma vela que se perdesse no mar,
Por entre o nevoeiro e a cerração escura…
Hás de ficar aqui, ó frágil criatura,
Atirada aos baldões cruéis da sorte má,
Ora de lá p’ra cá, ora de cá p’ra lá…

Tão atroz há de ser, porém, tão esquisito,
Tão despedaçador esse horroroso grito,
Vibrado de través dessas torres de ar,
Que onde quer que eu esteja há de me traspassar,
Há de ferir-me assim com tal desolação,
Com um desespero tal que hei de correr então
De país em país, de cidade em cidade,
Como um doido a tremer de infinita piedade…
E sem que saibas que eu estou presente, enfim,
Eu te possa sorrir, quando penses em mim,
Mas como névoa em torno à palidez da Lua,
E sombra, e nada mais do que uma sombra tua…

A cada passo, então, hei de te acompanhar,
Como uma espécie de gênio familiar.
Eu hei de te seguir, eu que por meus pecados
Só tenho percorrido os caminhos errados
Nessas estradas, mais sutil do que um ladrão,
Como se conduzisse um cego pela mão…
Eu sei o que é um abismo e conheço o perigo,
Onde fores pisar, hei de pisar contigo.
E a dor que te ferir há de ferir-me, pois,
De modo a nos ferir ao mesmo tempo os dois.
Quando soprar a dor, quando rugir o vento
Sobre a tua alma em flor, num descabelamento;
Quando o desgosto assim, num gesto mau, talvez,
Te prostrar como se fosse uma embriaguez;
Quando quiseres te lançar ao fundo d’água
Do desespero ou então aos açudes da mágoa,
Recorda-te de mim e de quanto eu te quis,
Não por seres feliz, mas sim uma infeliz.

E hás de ouvir minha voz no meio do caminho:
Não toques nesse pão, não bebas desse vinho;
Foge dessa tristeza, afasta esse pesar,
Não chores, meu amor, que me fazes chorar.
Não creias nesse olhar luminoso e risonho:
Não ames, que o amor não é mais do que um sonho.
Quando essa taça um dia alguém te oferecer:
Toda de ouro a ferver espumas de prazer,
Que nem sequer o teu lábio de leve a oscule.
Faze mais do que fez aquele rei de Thule:
Quebra essa taça em mil pedacinhos, e após
Lança os restos ao mar, de uma maneira atroz.
Eu te amo, meu amor, porém falo-te sério:
Eu não creio no amor, o amor é um mistério.
Debatendo-te aí, toda, de norte a sul,
Nunca, nunca verás esse pássaro azul…

E havemos nós de andar assim, anos e anos,
Por entre enganos mil e outros mil desenganos.
E eu sempre a te iludir, e eu sempre a te embalar
Sobre as ondas do mar, do encapelado mar.
E um dia, quando enfim, caindo de fadiga,
Quiseres descansar, descansa, minha amiga.
São horas de dormir, o sono não faz mal,
E eu hei de te fechar os olhos afinal.
Quando o sono vier, não faças cerimônia,
Que a vida não é mais do que uma longa insônia.
Quando o sono vier descendo por aí,
Eu não te acordarei, não chamarei por ti.
Vendo-te adormecer, as mãos em cruz no peito,
Nesse frio lençol envolta sobre o leito,
Depois de te beijar os cabelos reais,
Sabendo que jamais hei de te ver, jamais;
Depois de te beijar as tranças veludosas,
E por no teu caixão os lírios e as rosas,
Eu volverei de novo, ó minha doce irmã,
Eu sombra e nada mais do que uma sombra vã,
Para esse Orco profundo e região infinita
Onde entre sombras vãs a minha sombra habita.
Dezembro – 1909

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 17

PUNIÇÃO DO HEREGE

Ao Leite Junior

Foi no ano de mil setecentos e treze,
No meio do esplendor de vasta diocese.
Perante o tribunal da inquisição feroz,
Ninguém ousava erguer os olhos nem a voz.
Era tal o terror, então, que só de vê-lo,
O sangue dos heróis se transformava em gelo.
Tempos nefandos de catástrofe moral,
Dos holocaustos e do veneno e punhal.
A vileza, a traição, a vergonha e o crime,
Tudo para servir a igreja era sublime.
Para a louvar, enfim, para a satisfazer,
Toda abominação era um grande prazer,
Um prazer ideal, um prazer infinito,
Insaciável, mau, diabólico, esquisito…

Ora, morava ali, quase à beira do mar,
Um moço, um fazedor de castelos no ar…
Tinha uma velha mãe e uma jovem esposa,
Que era como se fosse o aroma de uma rosa.
E viviam os três numa tal união
Como três almas a bater num coração!
Elas, metidas em lucubrações tamanhas,
Dia e noite a tecer como duas aranhas,
Teciam com amor, com singeleza e com
Arte, o linho ideal, o linho puro e bom.
Ele, sempre febril, mas de aspecto risonho,
No mármore do verso ia gravando o sonho…
Mas com tal limpidez e com uma graça tal
Como um raio de sol que ferisse um cristal.
E por isso também lhe corriam as horas,
Por esse vasto azul, magníficas, sonoras,
Bem como um colar de pérolas a cair,
Pérolas do Ceilão e pérolas d’Ofir…

O tribunal, porém, da inquisição não via
Com bons olhos crescer essa águia que subia…
Causava-lhe temor, assombrações até,
Que ele tivesse gênio e não tivesse fé.
Mas a imaginação dos filhos de Loyola,
Arrastando o bordão, de burel e sacola,
Para fazer o mal terrível e sutil,
É mais fértil talvez e maior que o Brasil.
E pois, quando passava em certo dia pela
Rua a jovem mulher formosíssima, ao vê-la,
Um abade a chamou pelo nome. Ela, assim
Interpelada, olhou: “Que desejais de mim?”
O abade era um senhor poderoso, que tinha
A ventura de ser o amante da rainha.
Tinha de Don Juan a maneira cortês,
O olhar, o gesto, a voz, o manto e a languidez.
Com o pulso de Sansão e a garganta de Baco,
Era gordo e taful, insolente e velhaco.
Tinha essas frases vãs, que sempre uma mulher
Acolhe com desdém, mas ouve com prazer.
Quando o sangrava o amor, um ferrão que aguilhoa,
Era o abade Manuel a luxúria em pessoa.
Mas, sem medo de errar, também direi, que então
Era o esteio da igreja e da religião.
“Que desejais de mim, senhor abade?” – “Filha,
O nosso encontro aqui foi uma maravilha.
Eras a ovelha ruim, que ia se desgarrar,
E eu fui, por bem dizer, teu anjo tutelar.
Pude agarrar-te, por um fio de cabelo,
Que por sinal é de um louro acendrado e belo…
Intervenção talvez daquele que nos céus
Tudo vê, minha flor. Foi o dedo de Deus.
Hoje, pela manhã, relendo teu marido,
Eu comigo pensei: eis um homem perdido!
Simbólico, através do símbolo, porém,
Ele diz o que quer, e à cabeça lhe vem.
É o inimigo, pois, mais duro e mais violento
Que investe contra nós, porque ele tem talento.
Mas é um doido também, um pobre doido, que
Não sabe contra quem está lutando, crê…
Tenho pena de ti, mas uma enorme pena,
Tu não deves seguir esse maluco, Helena.
Fui eu quem te benzeu na pia batismal,
E os santos óleos pôs e a pedrinha de sal…
Contra aquele que o mundo e as coisas todas rege
Esse doido te quer arrastar. É um herege.
Vamos, foge do mal, foge da tentação,
Entra naquela igreja e faze a tua oração. –”
A moça, erguendo o olhar, límpido como a estrela,
Feriu o abade assim, nervosamente bela:
“Se meu marido é herege eu não o sei, porém
Posso afirmar, senhor, que ele é um homem de bem;
Que é incapaz de fazer o que fazeis agora,
Encontrando na rua uma pobre senhora…
Nunca me proibiu de ir à igreja, bem sei,
Mas onde ele não for, eu também não irei.”
E inclinando de leve a formosa cabeça,
No seu passinho curto ela seguiu depressa.
Findava a luz do sol, como uma guerra em paz,
Toda vestida assim de um roxo de lilás.
Quando Helena chegou à casa, disse tudo.
O marido cingiu a blusa de veludo,
A espada; a mãe, porém, interveio: que não,
Que não fizesse tal, não havia razão,
Quem o dissera foi aquele doce guia:
Não havia razão… É porque não havia!
Ele, cuja cerviz ninguém ousou curvar,
De sua mãe bastava o mais simples olhar…
No outro dia, porém, quase ao romper da aurora,
Vieram-no chamar: que fosse sem demora…
Sem saberem por que, despedindo-se os três,
Choraram, como se fosse a última vez.

Ele foi posto, sem piedade nem mágoa,
Dentro de calabouço escuro, a pão e água.
O cabelo cortado à escovinha e os pés
Algemados, assim como os pobres galés…

Mas, um dia, através daquela estreita grade,
O perfil lobrigou asqueroso do abade,
Que lhe disse: “Tu és de uma injustiça atroz,
De uma injustiça vil para com todos nós.
Embora penses tu e a mocidade clame
Que sou mau e traidor e rancoroso e infame,
No fundo sou cristão e sou filho de Deus:
Sei perdoar, não sou como vocês, ateus!
Todo perdão, porém, somente frutifica
Quando há luz e calor e a natureza é rica.
Assim, ó meu irmão, sobretudo é mister
Que haja arrependimento em ti e tua mulher…
Que ambos saiam do mal criminoso e tamanho
Como as ovelhas que tornam ao seu rebanho.
Foi pela pena que te perdeste, pois é
Com a pena que farás a profissão de fé…
Para traçá-los já com brilho esses poemas,
Depressa mandarei arrancar-te as algemas…
Mas teu crime maior, tua condenação
Sobretudo provém dessa irreligião,
Que tu levaste ao lar, ao coração da esposa,
Que não tem mais amor nem fé religiosa…
Trêmulo de remorso ante o teu Criador,
Confessa o teu orgulho e abate o teu furor.
E antes que desça, pois, como um fogo que arde,
A ira do Senhor, que desce cedo ou tarde,
Possas remediar esse pecado vil,
Insidioso, mau, cativante e sutil,
Fazendo que essa flor, cuja doçura alveja,
Torne como um cordeiro ao seio bom da igreja:
Que chorando de dor, de vergonha e pesar,
Venha hoje mesmo aqui para se confessar.
Quero vê-la tremer, quero ter esse gozo,
Aos pés daquele que é pai todo poderoso!”
E calou-se, entreolhando o prisioneiro… Em vão…
Este a rugir de dor só respondeu-lhe: cão!

Mas dessa hora em diante, ó céu piedoso e justo,
Transformou-se a masmorra em leito de Procusto,
Em dilacerações bárbaras de punhais,
Carnificina atroz, ugolina e secreta,
Mais aguda do que se fosse uma lanceta…
Para lhe mitigar a sede mais cruel,
Faziam-no sorver taças cheias de fel.
Entre sussurros e místicos padrenossos,
Trituravam-lhe a carne e quebravam-lhe os ossos…
De tal modo que em breve esse pobre infeliz
Não foi menos nem mais do que uma cicatriz,
E nem menos nem mais do que um triste esqueleto,
De longas mãos febris e de olhar inquieto…

Vendo o verdugo, enfim, numa dessas manhãs,
Que as torturas brutais não tinham sido vãs;
Vendo que finalmente a luz dessa candeia,
Sob o vento feral da morte bruxuleia,
Como um requinte mau, jesuítico, feroz,
Alçando o olhar, erguendo as mãos, erguendo a voz,
Ele fala do céu, triunfalmente belo,
Lembra que a vida é um sonho, e a morte, um pesadelo;
E antes que de uma vez se apagasse essa luz,
Deu-lhe para beijar o corpo de Jesus.

O moribundo olhou o pálido Rabino,
Esquelético, nu, macerado e divino:
“Sei que foste, Jesus, uma espada em favor
Da justiça, do bem, da luz e do amor;
Hoje, porém, estás do lado do carrasco,
Dos que me fazem mal, dos que me causam asco:
Não te posso querer, sincero como sou!”
E virando-lhe a face, em verdade expirou.
Fevereiro – 1909

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 16


GLÓRIA

Ao I. Serro Azul

Quando um dia eu descer às margens desse lago
Estígio, onde Caron, mediante uma parca
Moeda de estanho vil ou cobre, que eu lhe pago,
Há de me transportar numa sombria barca…

Quando sem um sinal, sem uma prova ou marca
De afeição, eu me for por esse abismo vago,
Vendo que sobre mim funebremente se arca
O céu, e junto a mim esse Caron pressago…

E envolvido na mais completa obscuridade,
Abandonado, e só, e triste, e silencioso,
Sem a sombra sequer do orgulho e da vaidade,

Eu tiver de rolar no olvido, que me espera,
Que ao menos possa ver o palácio radioso,
Feito de louro e sol e mirto e ramos de hera!

Curitiba, 1909

OH QUE ÂNSIA DE SUBIR HOJE MESMO A MONTANHA!

I

Sangue e lodo
E podridão,
O mundo torcia-se todo
No meio da imundície e da dissolução…
Carnificina,
Crimes os mais vis,
Com Messalina
Feita imperatriz.
Por toda a cidade
Eram vozes roucas,
Uivando, por milhões de bocas,
Os uivos tristes da ferocidade.
Dentro desse horizonte,
Sem uma linha ideal,
Sem uma ponte
Para passar além daquela bacanal,
Todo o mundo entendia que viver
Era gozar apenas a nudez
Dessas mulheres nuas,
Aquele vampirismo,
Aquele sodomismo,
Aquela fúria doida de beber,
De se torcer de bêbado nas ruas,
De se enterrar no lodo d’uma vez.
A imundície foi tal
Que os dois eram irmãos, o bem e o mal…

Mas no meio daquela escuridão
Em que andavam todos de rastros,
Olhando para o chão,
Sem poderem erguerem os olhos para os astros,
Almas sentimentais,
Misérrimos galés
Dessas prisões da Vida,
Imundas enxovias,
Tinham ânsias brutais,
Desesperos cruéis, loucas melancolias
De inda poder achar uma saída…
E no meio da mágoa que sobrevinha,
Os corações se abriam de repente,
Como janelas se abrem à noitinha,
Silenciosamente,
Na esperança de ver bruxulear,
De longe, embora, ao menos,
Mais doce do que Vênus,
A luz crepuscular…

Mas sem parar, os anos iam por aí,
E não chegava nunca a hora desse prazer
Que cada qual sentia dentro em si,
Porém sem poder ver…
E danos e gemidos
Cresciam cada vez mais;
E o ódio dos feridos
Era como se fossem uivos de animais…

II

Um pastor, porém,
Com o olhar profundo,
Como todo o mundo,
Que andava em Belém,
Tocando o rebanho
Com o seu bastão,
Uma noite olhou,
E viu, de repente,
Um brilho tamanho,
Um brilho tão doce,
Tão suavemente,
Que ele imaginou,
Que nada mais fosse
Do que uma ilusão.
Mas, quanto mais via,
Quanto mais olhava,
Mais lhe parecia
Que a luz aumentava,
Maior que uma estrela,
E de tal maneira,
Que ele deslumbrado,
Doido para vê-la,
Saiu de carreira
Por aquele lado.

Vendo-o partir, os vales e as montanhas,
Ó que suave música falaz!
E as árvores e as flores mais estranhas,
Tudo saiu logo correndo atrás…
Dentro daquela noite assim tão erma,
Daquela noite doce de luar,
A velhice esqueceu de que era velha,
A enfermidade, de que estava enferma,
E todos com o ar de quem se ajoelha,
Iam como a sorrir e a sonhar…

Era uma glória, um lírio, o encantamento,
A embriaguez, o gozo, a essência rara,
Cada vez mais formoso o firmamento,
A noite, a noite cada vez mais clara…

Era o milagre e o sonho entrelaçados,
Como se fossem rosas, como palma:
Erguiam-se do leito os entrevados,
Os cegos viam com os olhos d’alma…

A natureza, estremecida e bela,
Despertava com essa languidez,
Com esse olhar macio d’uma donzela
Que amasse enfim pela primeira vez…

Era um sussurro harmonioso em tudo:
Os astros eram como um sorvedouro,
Nos caminhos, mais doces que veludo,
Caíam folhas como se fosse ouro…

O mundo quase que a rolar de podre,
O mundo todo cheio de piolhos,
Transbordando de vinho como um odre,
Coberto de gafeira até os olhos,

Levado pelos ventos da esperança
Aos serros ínvios e aos alcantis,
Tinha sorrisos leves de criança,
Exaltações, e sonhos infantis…

Dentro daquela túnica estrelada,
Da túnica de prata do ideal,
Ia sorrindo sem pensar em nada,
Sem se lembrar do bem e nem do mal…

No meio das estradas infinitas,
Dentro daquele manto azul infindo,
De umas nervosidades esquisitas,
Ia como num sonho, ia sorrindo…

Podiam atirá-lo sobre brasas,
Às bestas-feras, aos leões, d’um salto;
Que lhe importava, se agarrado às asas
Ele voava cada vez mais alto?

Que lhe importava, a ele, o horror da mágoa,
A agonia da forca e a própria cruz,
Se através dos seus olhos cheios d’água
Via se abrir o céu banhado em luz?

Que lhe importava a lama e o ódio profundo
Com que o feriam, se ele tinha fé,
Se ele sabia desprezar o mundo,
Se ele, caindo, ia cair em pé?…

III

No meio do furor e do meu desengano,
Quando será também que há de romper-se o véu,
Para mim, que sou, mais do que o povo romano,
O homem luxurioso, e o verdadeiro incréu?

Quando essa luz virá, que às vezes, como um beijo,
Como o frêmito azul d’uma invisível asa,
De uma ânsia, que sei eu, d’um secreto desejo,
Eu sinto palpitar e quase que me abrasa?

Quando ouvirei dizer: – É por ali o caminho!
P’ra o subires, porém, é uma luta vã,
Tens de sangrar as mãos e os pés naquele espinho,
E acreditar de tarde e descrer de manhã!

Nessa estrada não há, não há senão pesares,
Uivos de fome e dor, e feras, e ladrões,
Que depois de arrancar-te o ouro que carregares,
Hão de rir-se de ti e dessas ilusões…

E é além daquele mar, e além daquele abismo,
E dos ódios brutais, e ainda talvez
Além daquele horror, e daquele egoísmo,
E ainda além, e ainda além de tudo quanto vês…

Terás de recurvar, às vezes, como um vime,
Essa espinha dorsal tão dura e inflexível,
Para poder subir a escada do Sublime,
Para poder chegar até o Inexprimível.

Terás de te bater com o máximo denodo,
Tomado de paixão, de cólera, de fúria,
Gládio nas mãos, assim como um artista doido,
Contra o Pecado vão e a incoercível Luxúria…

Tens de arrancar do seio o esplêndido Desejo,
Sem piedade e sem um suspiro sequer,
Como um troféu, como uma glória, como um beijo
Calcando sob os pés o amor dessa mulher…

Tens de vencer, escuta, as cóleras mais cegas,
O Nojo, e o Pavor, teu camarada antigo,
O Desânimo e a Dor, a que tanto te entregas,
E a Dúvida, por fim, teu pior inimigo…

Tens de arrastar na lama o manto de veludo,
E esgotar d’uma vez essa taça de fel,
E ver cair por terra o teu orgulho, e tudo,
A púrpura, e a lança, e a espada, e o broquel…

Se o puderes vencer, porém, chegando lá,
Tua alma há de fulgir, mas d’uma luz tamanha,
Batendo de prazer, teu coração crerá!… –

Oh que ânsia de subir hoje mesmo a Montanha!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

José Zokner (Constatações e Dúvidas)


CONSTATAÇÃO XV

De amor sedento,
Ele, com ar pachorrento,
Pediu ela em casamento.
E já se imaginou com um rebento
Corado, lindo, um portento,
Fruto de um amor puro, isento.
Ela pensou um momento.
Aí, ele, ficou atento
E tomou novo alento
Já que, antes, de tal intento,
Ele recebera um “não” meio lento,
Sob alegação de “palavras ao vento”.
Os minutos da resposta, um tormento
Como uns se sentem em dia cinzento.
E ela: “Sim, meu futuro sargento.
Só que haverá, de lugares, um aumento
Pois minha mãe terá direito a um assento”.
Ele, se sentiu pestilento,
Engulhento,
Enjoamento,
Sonolento,
O corpo todo, suarento,
Nunca sentira tanto sofrimento,
Tanto lamento.
E nunca se sentira tão espoliado,
Tão aviltado,
Desconsolado
Mas, com tanto amor, acabou conformado,
Resignado,
Acomodado.
Coitado!

CONSTATAÇÃO XXI (PARA QUE INIMIGA?)

Depois de fazer,
Com todo prazer,
Para desfazer
Um amorico,
Um namorico
Da melhor amiga
Bolou,
Criou
Um mexerico,
Um futrico,
Um fuxico,
Uma intriga,
Doída como urtiga,
E vibrou
Com a briga
Que disso resultou.

DÚVIDAS CRUCIAIS VIA PSEUDO-HAICAIS

Dúvida I
Foram os nubentes
Que de tanto se beijarem
Ficaram sem dentes ?

Dúvida II
Jogar com determinação
É inclusive segurar
O adversário pelo calção ?

Dúvida III
Linguajar sofisticado
Também é bom pra deixar
O cara enrolado ?

Dúvida IV
Não houve testemunha,
Na queima de arquivo
Como se supunha ?

Dúvida V
Dependendo do lugar,
Você até paga
Para não se incomodar ?

Dúvida VI
Em alto e bom som,
Era ela que dava,
Em casa, o tom ?

Dúvida VII
A gente, pra não ser assaltado,
Deve colocar grades no muro
E viver se sentindo aprisionado ?

Dúvida VIII
Foi um cardápio sofisticado,
No fim de ano, que o deixou,
Na hora do bem-bom, apurado ?

Dúvida IX
Pra ser oposição
Basta ser do contra
Quando der sua opinião ?

Dúvida X
Só porque apareceu um vulto
Estranho na escuridão
Se armou um tumulto ?

Dúvida XI
Por ter um rompante
Ela se pôs a bronquear
A todo instante ?

Dúvida XII
Foi no palanque armado
Que um eleitor gritou algo que
Deixou o político desarmado ?

Dúvida XIII
Ele armou o maior sarilho
Quando ela falou: “quando
Você faz a barba só sai cepilho” ?

Dúvida XIV
Do mineiro, a solidariedade
É só no câncer ou também
Em outra enfermidade ?

Dúvida XV
Diante da conquista
Fracassada, gorada,
Ele fez a pista ?

Dúvida XVI
Colete a prova de bala
Vai virar moda ou é
A necessidade que fala ?

Dúvida XVII
Tuas propostas, porventura,
São sérias, são lérias
Ou são mais uma aventura ?

Dúvida XVIII
A distorção salarial
Não deveria fazer parte
Do Código Penal ?

Dúvida XIX
Quem deu carta branca
Para o meu time do coração
Só jogar na retranca ?

Dúvida XX
Ela fez uma baita fofoca
Por ele não tê-la levado ao motel
E o chamou de nhambibororoca*?

*Nhambibororoca = veado (Mazama gouazoubira) encontrado do Panamá ao Uruguai, semelhante ao veado-mateiro, mas um pouco menor e de pelagem marrom-acinzentada (Houaiss).

Dúvida XXI
Já no começo da disputa foi premonitório
Que o Paraná iria cair pra Segundona regional
Ou foi apenas um maldoso falatório?

Dúvida XXII
Notícia chinfrim
É aquela que diz
Que a crise ta no fim?

Dúvida XXIII
Você acha uma lacuna
Esses políticos todos
Não entrarem numa borduna*?

*Borduna = porrete grosso e pesado (Houaiss).

Dúvida XXIV
Quem entra numa mumunha
Jamais poderia participar,
Em juízo, como testemunha?

Dúvida XXV
Foi o galante pica-pau
Que prometeu à namorada
Um bolo de macacacacau*?

*Macacacacau = substantivo masculino
Rubrica: angiospermas. Árvore de até 10 m (Theobroma microcarpa) da família das esterculiáceas, nativa da Amazônia, de boa madeira, de que se extraem fibras, folhas oblongas, lanceoladas, flores axilares e cápsulas elipsóides e escamosas, com sementes que substituem as do verdadeiro cacau (Houaiss).

Dúvida XXVI
Sentir um forte apego
Por si mesmo é uma solução
Ou um problema do ego?

Fonte:
http://rimasprimas.blogspot.com/
Imagem = Surreal Paradise, por Eclipsy

Helena Kolody (Viagem no Espelho)


Viagem no Espelho é uma antologia da poetisa Helena Kolody. Talvez para justificar o título, os poemas aparecem em ordem inversa, em sentido anti-horário, iniciando-se pelos mais recentes até chegar aos primeiros. A identificação do estilo e da temática da autora vão sendo assim feitos dop mais depurado ao mais intuitivo inicial, embora se note desde o início a capacidade poética e o cuidado com o texto.

A produção literária da poeta paranaense é uma viagem ao contrário, como se fosse um espelho. Começa com “Reika”, de 1993, e vai até “Paisagem interior”, de 1941. Nessa viagem no tempo, por meio da produção de Helena Kolody, o leitor percebe a depuração do estilo, a constante adaptação da poeta ao momento literário presente, a evolução e o crescimento do ser humano que se revela o eu poético.

Nos poemas do livro Viagem no Espelho os sentimentos de fugacidade, transitoriedade, temporalidade e mutabilidade, bem como de esperança e procura, estão presentes em vários de seus poemas.

Estrutura

Reika – Compõe-se principalmente de haicais (3 versos) e tancas (5 versos), com forte presença da natureza.

Ontem Agora – Miscelânia de poemas curtos (haicais e epigramas) e outros mais longos. Em Nós, lembra Alphonsus de Guimaraens, demonstra ironia em Lição Moderna, Nunca e Sempre trabalha com antítese.

Poesia Mínima - Há muita metapoesia. Comenta a meta linguagem e o poeta inspirado (Dom), trabalha a aliteração (Noturno Urbano) e comenta a impotência da palavra para expressar a poesia. Predominam as formas poéticas breves.

Sempre Palavra – Predomina ideia de fugacidade e efemeridade (tema comum a muitos simbolistas e neo-simbolistas), como bem prova o poema Passado Presente.

Infinito Presente - Percebe-se a depressão pessoal, tristeza e nostalgia (Areia).

Saga – Poemas variados, muitos com versos brancos; linguagem bastante metafórica e impressões intimistas, como no poema título.

Tempo – A temática básica é o tempo, a efemeridade (A Esfera do Tempo). Há também a religiosidade, com temas bíblicos (Sarças Ardentes, Ensinamento) e lirismo intimista (Correnteza).

Trilha Sonora – Cenas da natureza em contraste com a vida urbana (Bucólica e Menino de Arranha-Céu).

Era Espacial – É o progresso tirando a beleza, a graça das coisas (Lua Profanada, Maquinomem).

Vida Breve – Retoma o tema da brevidade… (…somos todos estrangeiros nesta vida), do exílio e da espiritualidade (Eucaristia).

A Sombra no Rio - Sobressai a espiritualidade, o desejo de comunhão com Deus. Há referências a origens eslavas e aos imigrantes, bem como fortes lembranças bucólicas da infância. Dedica também um poema aos seus alunos.

Música Submersa - Muito forte a influência religiosa ucraniana nessa parte. Mais intimista e espiritualista, demonstra humildade e visão de Deus (Fio d’Água). parece crer numa predestinação para a dor (Elegia, Emblema). Presença de poemas mais longos, em contraste com alguns breves.

Paisagem Interior – Chegada ao início da carreira da poeta. Linguagem bem mais metafórica, simbólica. Há transcedentalismo, movimento de ascenção (Araucária), forte sentimento de humildade (Rio de Planície) e reconhecimento de um atavismo ancestral (Atavismo). Nesse livro, a autora ainda está com o temperamento oscilante entre soltar-se e reprimir-se (a natureza selvagem embate-se com a religião e a opressão). O anseio da libertar-se, de fugir é constante (Alma). Fala de amor, paixão, de forma lírica e sentimental. Poemas mais longos nos quais predominam as formas clássicas, de versos regulares.

Poemas retirados da obra:

RESSONÂNCIA
Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

FLECHA DE SOL
A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

NOITE
Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

SAUDADES
Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

REPUXO ILUMINADO
Em líquidos caules,
irisadas flores d’água
cintilam ao sol.

DEPOIS
Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

ALQUIMIA
Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

JORNADA
Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

SEMPRE MADRUGADA
Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.

RETRATO ANTIGO (1988 )
Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

VOZ DA NOITE (1986)
O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece… esquece…

A MIRAGEM NO CAMINHO (1978)
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

DOM
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

POESIA MÍNIMA
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

INFINITO PRESENTE
No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo. Poeira esparsa no vento,
apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga
num infinito presente.

Fonte:
Colégio Guarulhos. Disponível em http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/v/viagem_no_espelho

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 15


CORAÇÃO LIVRE

Ao Augusto Rocha

Ah que enfim se rompeu o ergástulo sombrio,
Onde estiveste preso, ó pássaro erradio!

Rompeu-se o espesso véu dessa brutal prisão,
Onde choraste, mas de dor, mas como um cão.

Livre agora, porém, de tudo, sim, de tudo,
A esse cárcere azul, cárcere de veludo,

Mas cárcere cruel, que te fez tanto mal,
Não tornes nunca mais, ó vagabundo ideal.

Não tornes nunca mais, e nunca mais te iludas,
Ao trágico furor dessas cóleras mudas,

A esse nojo, afinal, que tanto ódio te fez,
O incoercível horror banal da fixidez.

Livre. É poder fugir por esse mundo afora…
Quem mais feliz que tu, meu coração, agora?

Livre. O espaço é teu, é teu todo esse ar:
É somente bater as asas e voar…

Segue essa curva azul. É o caminho mais reto,
Ó nômade febril, ó trovador inquieto!

Livre por condição e por índole, tu
Nasceste para ser como um selvagem nu.

Um selvagem, porém, que tem paixão por astros,
Estátuas, capitéis, colunas e alabastros…

Quanto me sinto bem, e como é bom saber
Fugir assim, batendo as asas de prazer!

Ser livre para mim é tudo quanto eu amo:
Não há como poder saltar de ramo em ramo.

Não há gozo melhor, seja lá como for,
Do que esse de voar de uma para outra flor.

Nem orgulho maior e nem glória tamanha
Que o delírio de andar de montanha em montanha!

Olha. Não pares no teu caminho, a não ser
Só para olhar o que for digno de se ver.

O que tiver o dom soberbo de arrancar-te
Numa explosão sincera as lágrimas com arte.

Segue. Na fonte em que beber a ovelha, em paz,
Com as tuas próprias mãos, tu também beberás.

E a árvore sob a qual dormires o teu sono,
Há de dar-te abundante os seus frutos de outono.

E que perfume bom! Que embriaguez assim
Por esse vasto céu, por esse azul sem fim!

O dia é uma canção de luz maravilhosa,
Que se pudesse ouvir cantar por uma rosa…

Segue pois, segue pois, sem saber onde vais…
Nômade, o teu destino é esse e nada mais!

LIED

Ao Júlio Prestes

Num cavalo branco, vales e barrancos,
Caminha p’ras guerras em tempos de paz
Plumas todo verdes, lírios todo brancos…
– Cavaleiro, não vás!

Cavaleiro andante (fulgem armaduras!)
Galopa, galopa, sob estrelas más.
Vai correr o Mundo pelas aventuras…
– Cavaleiro, não vás!

Cavaleiro fino como um argueiro,
Com espada d’ouro, rico falbalás,
Cabelos ao vento – Palmas! – Cavaleiro!…
– Cavaleiro, não vás!

Cavaleiro triste (ceifa a lua nova)
– Que é da sua dama? Que é do seu gilvaz? –
Entra p’los salgueiros caminho da cova…
– Não direi que não vás!
1899

A FOME DE ERISÍCTON

Meu coração é como esse infeliz que um dia
Ceres, p’ra o castigar, deu-lhe fome voraz,
Deu-lhe uma fome tal que quanto mais comia,
Mais queria comer e não ficava em paz.

Era a fome canina, era o horror e a fúria,
De tal maneira que todos os bens vendeu,
E reduzido enfim a uma extrema penúria,
Vendeu o que era seu o que não era seu…

Desesperado até veio a vender a filha
Metra, que era, porém, uma estrela polar,
Tinha a virtude ideal, possuía a maravilha,
O dom de se poder metamorfosear…

Logo, logo que o pai conseguia vendê-la,
Mal se via nas mãos do seu possuidor,
Transformava-se em flor, ou então em cadela,
Em pássaro, em veado, em boi ou em pescador.

Mas a fome cruel daquele esfaimado
Uivava como os cães, os lobos e os chacais,
Nem bem tinha engolido o último bocado,
Sangrando de desejo, ela pedia mais…

Davam-lhe de comer, porém, doentia e louca,
Queria devorar o mundo de uma vez,
O olhar como um demônio, escancarada a boca,
Tomada de um furor bestial de embriaguez.

E tanto desejou, afinal, e tanto ela
Pediu, e soluçou, e ambicionou, e quis,
Que não havendo mais com que satisfazê-la,
Deu em se devorar a si próprio, o infeliz!
Março – 1906

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Pedro Nogueira (O Trovador em Versos Diversos)


CADA MINUTO DE TODO DIA

Sobre o verde vestido
Eu te falo um outro dia
Vais saber após ter lido
A minha ultima poesia.

Que já estou elaborando
Composta de muita verdade
E todas elas só falando
Sobre essa meiga beldade.

Inclusive o sorriso dela
E os cabelos em desalinho
A cor de neblina fica bem nela
E deixa esse trovador doidinho.

Mas vamos falar outra hora
Qualidades bem detalhadas
De lembranças que vem agora
Daquela fada emcantada.

A regente da singela poesia
Que jorra da minha mente
Cada minuto de todo dia
Visando o eternamente.

ANTES QUE O ASSUNTO TERMINA.

Tomara que ela ouça
Essa vóz tão fraquinha
Do coração que não é de louça
E que acha ela uma gracinha.

Vê se de atenção a ele
Não vais se arrepender
E saiba que o sonho dele
É de bem de pertinho te ver.

Se você achar que deve
Pode lhe perguntar tambem
Pra quem é que ele escreve
E pode ir ainda mais alem.

Encoste ele na parede
Tente tirar dele,mistério
Pergunte sobre o vestido verde
Mas sobre isso fale bem sério.

Com esse coração atrevido
Que faz germinar poesia
De modo ansioso e atrevido
Mas sem nenhuma ironia.

E antes que o assunto acabe
E correndo ele vai embora
Pergunte do sorriso cor de neblina
Por que ele ainda tanto chora

POR ISSO A SAUDADE.

Uma tarde chuvosa
A imaginação voando
Minha alma ansiosa
Noticias esperando.

O corção em brasas
Uma taça de vinho
O pensamento bateu asas
O trovador está sozinho.

As rosas molhadas
Parecem gostando
Sem noite enluarada
Eu acordado sonhando;

Tentando uma trova
Bem diferente agora
Tambem queria uma prova
Que ela lê meu verso que chora.

E ao mesmo tempo sorri
Ao pensar na beldade
Que eu nunca esqueci
Por isso a saudade.

NA MENTE FICOU O RETRATO

Nos campos da minha terra
Eu quero de novo correr
E a chuva branca na serra
Outras vezes eu quero ver.

O cantar de um sabiá
A flor branca da laranjeira
Um perfume que só tem lá
Na terra do Pedro Nogueira.

A DEUS eu sou muito grato
Porque ali foi nascido
O trovador mais pacato
E de coração tão atrevido.

Recordo a bela italianinha
Dela eu gostei de verdade
Belos olhos azuis ela tinha
Até hoje eu tenho saudade.

Na beira do manso regato
Eu ia perseguir borboleta
Na mente ficou o retrato
Da estradinha florida e estreita.

MEU SONHAR E MEU MEDO

O lago mansinho
Um espelho da lua
A flor do caminho
Traz saudade tua.

A noite tão calma
Uma taça de vinho
Pra alegrar a alma
De quem está sozinho.

É alta madrugada
Já vai amanhecer
E a saudade da amada
Me obrigando escrever.

O lindo nome dela
Meu tesouro,o segredo
Razão da poesia singela
Meu sonhar e meu medo.

Assim vai seguindo
O cotidiano da vida
E te percebe sorrindo
A minha alma atrevida.

COMPOR POESIA QUE CHORA

O luar do fim de noite
Misturado com lembrança
E o estalo de um açoite
Fé e muita esperança.

Se torna embriagador
Me faz sair fora do sério
Ai eu me vejo trovador
Querendo desvendar mistério.

Escrevo coisa sem nexo
Tentando me encontrar
No emaranhado complexo
Da despedida do luar.

Me sinto um rouxinol
Admirando um pardal
Tentando prender um raio de sol
No topo de um pedestal.

Já que o luar foi embora
É válido um improviso
Compor poesia que chora
Por um amor que eu preciso.

BUSCANDO A PAZ QUE EU TINHA
.
A madrugada está fria
E a saudade judiando
Vai virando poesia
O meu verso sonhando.

Com a beleza dessa mulher
A ternura do meu amor
Que meu coração tanto quer
Pureza e essencia de flor.

Essa caneta que desliza
Parece ter sentimento
E rabiscar ela precisa
Registrando cada momento.

As batidas de um coração
Que ama dioturnamente
Fazendo da vida a emoção
De arrancar versos da mente.

Como petálas,só pra ela
Sentir a presença minha
Em cada poesia singela
Buscando a paz que u tinha.

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=10626&categoria=J

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 14


A CIGARRA E A ESTRELA

Ao Figueiredo Pimentel

No bosque uma pobre cigarra vivia,
Cantando, a coitada, de noite e de dia.

Cantava tão cheia de um vivo prazer,
Que feliz não sendo, parecia ser.

Cantava tão leve, tão sonoramente,
Que até parecia mais feliz que a gente.

Cantava cantigas do bosque e d’além,
Que um dia aprendera sem saber com quem…

Mas, em certa noite, por desgraça dela,
Tamanha brilhara no céu uma estrela,

Tão grande, tão viva pérola d’Ormuz,
De tamanho brilho, de tamanha luz,

Que tudo que amava, tudo quanto d’antes
Fulgira-lhe aos olhos, como diamantes,

Tudo quanto vira e dera-lhe prazer,
Hoje não olhava, nem queria ver…

Nem aqueles campos onde o olhar se perde,
Nem aquelas folhas, nem aquele verde.

Nem mesmo esses vales, nem os alcantis
Onde a pobre fora d’antes tão feliz.

Foi como um delírio de paixão primeira,
Foi uma loucura, foi uma cegueira…

Dentro desse inseto rude dos pauis,
Houve como um sonho de amplidões azuis…

Foi como se dessa região suprema
Lhe descesse um áureo, régio diadema…

Foi como se um manto de uma maciez
De plumas descesse sobre a sua nudez…

Ficou deslumbrada, ficou de tal jeito
Que mais parecia com um doido perfeito.

Teve tal delírio cego, que apesar
De viver alegre, vivia a chorar.

Ela que era pobre como uma cigarra,
Tocando de noite e de dia a fanfarra,

Ela que não tinha de seu um real,
Que passava fome, que vestia mal,

Daria orgulhosa, para ser querida,
Tudo quanto tinha, coração e vida.

Aqueles castelos, com brasões reais
De orgulhos antigos, que não morrem mais.

E durante a noite pálida, estrelada,
Ambas conversavam, sem dizerem nada.

Conversavam juntas e unidas, assim,
Ambas debruçadas sobre um varandim…

Como se a existência fosse um cisne doce,
E o universo um lago murmurante fosse…

Nem tudo na vida são rosas, porém:
Se há rosas, decerto, logo espinhos vêm…

No meio dos sonhos e da primavera,
O inverno chega, ruge e dilacera…

Aparece o inverno, bem como um leão,
Entre as ovelhinhas brancas da ilusão.

Assim, muitas vezes, tal desesperança
Feria a cigarra com espada e lança,

Que ela até pensava, triste de uma vez,
Fazer o que Safo certo dia fez…

Que suspiros flébeis! Que profunda mágoa!
Os seus grandes olhos enchiam-se d’água.

A ilusão morria triste, sem um ai,
Como a glória morre, como a folha cai.

Realmente, como donde a gente brilha,
Sobre tanta coisa, tanta maravilha,

Poderia um astro ver um fanfarrão,
Que só tinha penas de imaginação?

Quem era esse inseto triste e sem valor
Para ser amado, para ter amor?

Tão cheio que fosse da sua cantiga,
Valia o coitado menos que a formiga,

Porque ao menos esta não tem fome, nem
Frio, nem sede, como aquele tem…

Porém a cigarra, como a alma do povo,
Se chorava agora, ria-se de novo.

Ria-se de tudo, de tudo que não
Fossem as loucuras do seu coração.

Pois sempre lá dentro d’alma de quem sofre,
Guardados no fundo dourado de um cofre,

Há eflúvios tão vagos, horas tão sutis,
Que por mais que a pobre fosse uma infeliz,

Logo que se via como que possuída
Dessa onda nervosa de gozo e de vida,

Tamanha doçura sentia e embriaguez,
Que esquecia tudo, doida de uma vez.

E o estrídulo canto tinha o colorido
De um amor que sabe que é correspondido…

Assim, que importava que essa brisa em vão,
Em vão suspirasse que era uma ilusão?

Que importava a ela que, triste ou risonho,
Tudo quanto via fosse apenas sonho?

No meio das ondas furiosas do mar,
Felizes aqueles que andam a sonhar!

Esse aroma doce, que a deixava langue,
Custava-lhe a vida, custava-lhe o sangue,

Custava-lhe tudo que tinha afinal;
Mas que sonho lindo, que paixão ideal!

Bem compreendia que, passando o outono,
Dormiria logo seu último sono;

Mas que bom ao menos de poder dormir
No meio de puras pérolas d’Ofir…

Via-se torcida dentro de uma grade,
A prisão de ferro chamada ansiedade;

Via-se encerrada dentro do pesar
Como numa torre, sem poder voar;

Porém que loucura mais rara e mais bela
Do que esse delírio de amar uma estrela?

Novembro – 1907

FELICIDADE

Ao Gonzaga Duque

Quem me dera que uma vez, em meu caminho,
Eu enlevado a visse pelo luar,
E tal como se fora um passarinho
Verde, nos verdes ramos a cantar…

Eu deixaria o meu sossego, tudo,
Sairia como um cervo, mais veloz,
Para seguir seus passos de veludo,
Seu rastro, seu perfume, sua voz…

E seguiria, cada vez mais bela,
Por onde quer que fosse, e onde quer,
Cada vez mais enamorado dela,
No encalço dessa flor, dessa mulher…

Embora fossem duros os caminhos,
Com que transporte, com que doce amor,
Eu pensaria que eram só arminhos,
Que eram veludos, que eram como flor…

E que esperança doce, e que esperança,
Nunca teve o mundo encanto igual:
Eu a correr atrás, como criança,
Dessa que corre e foge, por meu mal!

E tal o meu ardor, a minha vida,
Tal o delírio vão, tal o prazer,
Que se mais longa fosse essa corrida,
Mais desejos tivera de correr…

Tão enlevado, pois, tão enlevado,
Que quando desse acordo um dia em mim,
Quando eu olhasse, já tivesse dado
A volta ao mundo, embriagado assim…

Seria uma cidade que eu não vira,
Com tantas torres brancas para o ar,
Cidade d’ouro antiga, de safira
Batida pelos ventos, pelo mar…

Seria um sonho de cair de joelhos,
A soluçar, a soluçar em vão,
Por seus cabelos lindos, por seus olhos,
Por seu perfume, pela sua mão…

Seria um sonho ardente, um sonho lindo,
Nunca mais, nunca mais teria fim
Eu a chamá-la: vem! e ela fugindo,
Eu, doido, doido, ela a chamar por mim…

Eu nunca saberia d’onde ela vinha,
Nem quem era também jamais, e nem
Se era uma pastora ou uma rainha,
Se era uma rosa, um sonho, uma cecém…

Ela seria um astro, a realeza,
A encarnação de tudo que aspirei,
O pão da minha fome de beleza,
O meu orgulho, a púrpura d’um rei…

Tal a beleza, o êxtase, o abandono,
Que tivesse desejos, mas cruéis,
De dar-lhe um reino, pô-la sobre um trono,
E eu assim, desesp’rado, sob seus pés…

Haviam de passar anos e anos,
E sempre, sempre ela a me seduzir,
A embriagar-me sempre com os enganos,
A música de pérolas d’Ofir…

A minha vida toda pouco amena,
Antes fanada como folha vã,
Floresceria mais que uma açucena,
Mais que uma rosa verde da manhã…

No encalço dessa flor, dessa donzela,
O lírio e o vale e o serro e o mar e eu,
Fugiríamos todos atrás dela,
Envolvidos na túnica d’Orfeu.

E que doçura única, que doçura
Feita de manto e púrpuras reais,
E essa paixão, crescendo, e essa loucura
Os braços a estender cada vez mais…

E que delírio vão! e que delírio
De eu a querer, de ansiar por sua nudez,
Como se aquele corpo fosse um lírio,
Que se beijasse todo d’uma vez…

Oh que sorriso leve! que ansiedade!
Todo um furor banal de ser feliz,
De me abraçar contigo, F’licidade,
De te beijar, mulher que me não quis.

Oh que sorriso mágico! que enleio!
Que bom! que bem! nunca pensei, cruel,
Que houvesse assim no mundo tanto anseio,
Reinos tão lindos, doces como mel…

E que florido céu! que ânsia! que vago
Som mavioso! que luar! que flor!
Eu dormiria ao fundo desse lago,
Abraçado contigo, meu amor…

Tudo feneceria, como a estrela,
À luz forte, hiperbólica do sol,
Como fenece uma rainha bela,
Um sonho bom, um lírio, um rouxinol.

Tudo adormeceria o mesmo sono,
Tudo por terra havia de rolar,
Como um fino crepúsculo d’outono,
Como uma torre gótica do luar.

Flores, flores do mal, uma por uma,
E cavaleiro, e dama, e olhos fatais,
Mãos divinas, mãos leves como pluma,
E gestos lindos, gestos imperiais,

Tudo se acabaria, ó luz tranquila,
Ó ilusão dulcíssima! ó ilusão!
E eu sempre com a esperança de possuí-la,
Mas sem tocá-la nem sequer com a mão…

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Orlando Mendes (Poemas Avulsos)


UNIFORME DE POETA

Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.

JUVENTUDE

É no tempo dos explícitos cantares
à luz do dia e na escuridão da noite
até uma explosiva prova de acção.

É o tempo das dúvidas inconfessáveis
os cigarros ardendo e o café já frio
e o rosto impassível atrás do jornal
contra a devassa de anônimos vigilantes.

É o tempo dos assaltos ao trânsito
imaginando as máscaras arrancadas
e a beleza de a riqueza como seriam
se não coexistissem incólumes com
ignorância e miséria e violência.

É o tempo da solidão entre as gentes
e de solitário sentir a multidão na savana.

É o tempo de não ter fé e crer ainda
na dádiva total por um beijo de amor
e pela sinceridade dum aperto de mão.

É também o tempo de receber-transmitir
uma secreta raiva chamada esperança.

Tempo que o pudor adulto faz caducar.

EXORTAÇÃO

“Jovem, se tens exercícios de literatura
escritos há mais de um mês, destrói-os.
Rasga-os ou queima-os de preferência
(consta ser universalmente mais ortodoxo)
e se a chama te chamuscar unhas e pele
e as sujar a cinza, não queixes a dor
e lava-te. Destrói-os. Guarda-os todavia
fiéis na memória, palavra por palavra,
para que possas transmiti-los a um amigo
quando depois do venal acto de amor
forem também vender a irresistível suspeita
da tua voz trémula e dos teus outros actos.
Mas não deixes de escrever. Peço-te que não.”

DEDICATÓRIA

Aos poetas que pensam e dizem versos
mas não os sabem escrever
e por isso anónimos lhes chamam.
Nas rochas corroídas pelo sal de outros mares
navegados para implantar espada cruz e poder
nas rochas onde o luar desnuda o silêncio
pulsando canções da noite assim povoada
e que o sol inflama e semeia
sobre as efémeras gostas de cacimba
renovadas com cintilações das estrelas,
aí eu gravarei seus nomes.
E os amantes pressentindo
os hão-de perguntar e saudar.

Fonte:
Antonio Miranda

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 13

ESPERANÇA

Entre o Ódio e o Amor, eu vivo a debater-me.
Quando não sangra o Amor, não ruge o Amor, porém,
Quando aos pés me não calca o Ódio, como um verme,
É o Tédio quem me vê com os olhos do desdém.

E oh! das mãos desse fauno cúpido, eu inerme,
Tal que se fosse uma donzela, uma cecém,
Sentindo que me vão ferir, que vão perder-me,
Tento escapar… Em vão! O monstro me detém…

Tudo, tudo me causa horror. A vida, enfim,
Como um castelo desabou neste momento…
Mas, ah! que uma mulher passa a roçar por mim…

E eu esquecido já do mal que ela me fez,
Vendo-a sorrir, assim, mais leve do que o vento
Atrás dela saí correndo, inda uma vez!

BRUXA

Ao Pereira da Silva

Veio uma bruxa um dia, e eu,
Que nesse tempo era menino,
Mostrei-lhe a mão: a bruxa leu
Linha por linha o meu destino…

Leu tudo, leu, e após, os olhos
Cerrando, exclama: é singular!
Que destino cheio de escolhos,
Altos e baixos, como o mar!

É singular, a bruxa diz,
É singular; mas, ó criança,
Espera e crê. Serás feliz,
Muito feliz! Tem esperança!

Olhei a terra, o abismo, a estrela,
A noite imensa, infindos céus:
“Será mais bela, inda mais bela
Tua sorte, crê! Serás um deus!”

Os anos têm-se sucedido
Numerosíssimos, porém,
Cada vez mais surpreendido,
Espero o bem e é o mal que vem.

Anos têm vindo de permeio,
Quem fui, decerto, já não sou;
Às vezes quase que não creio
No que essa bruxa me contou…

Tudo uma triste mascarada,
Tudo ilusão, tudo quimera;
E pois que já não creio em nada,
Meu coração por que é que espera?

Que mais espera esse infeliz,
Que inda lhe possa dar prazer,
Se tudo, tudo quanto quis,
Completamente, hoje não quer?

Não sei. Porém basta lá fora
Vibrar um hino, que sei eu!
Para que logo exclame: é a hora,
É a hora ideal, que floresceu!

E doido, atrás dessa esperança,
Ei-lo a correr: pois apesar
De conhecer que não a alcança,
Quer ver se a pode inda alcançar…

CAVALEIRO

Por esses campos, ligeiro,
Como a luz e o pensamento,
Vem correndo um cavaleiro,
Cabelos soltos ao vento…

Nem à beira do barranco
Nem do abismo se detém
Aquele cavalo branco
Que a todo galope vem.

Ouvindo o doido tropel,
Param as águas do rio:
“Donde vem esse corcel,
E o cavaleiro sombrio?”

A brisa flébil, a brisa
A vê-lo correr: “Olhai,
Não vê onde o cavalo pisa,
Nem p’r’onde o cavalo vai!”

Não ouve a dor, nem o choro,
Nem a tristeza, que sei
Dentro da púrpura e do ouro
Do seu orgulho de rei.

A galope, pela estrada
É como um cego afinal,
Não vê nada, não vê nada,
Nem o bem e nem o mal.

Ao pé dessa natureza,
Debaixo daqueles céus,
Passa como a realeza,
Como um raio, como um deus!

Tudo para ele é um desejo
Que arde e cintila no espaço
Como o relampo d’um beijo,
Como o fulgor d’um abraço.

Doidamente, doidamente,
No meio de temporais,
Em doido corcel ardente
Galopa cada vez mais.

Galopa. Quase se perde
O sinistro domador,
Por entre a folhagem verde,
Por sobre os campos em flor…

Galopa em tal alvoroço
E tamanho orgulho tem,
Que nessa corrida o moço
Não ouve e não vê ninguém…

Corre, corre mais ligeiro
Do que a luz e o pensamento,
Dia e noite, o cavaleiro,
Cabelos soltos ao vento…

A túnica que ele veste,
A túnica aurilavrada,
Tem a cor azul-celeste,
Os frisos da madrugada.

Mas olhe, da mesma seda
Vestido um dia andei eu;
E pois que lhe não suceda
O que a mim me sucedeu!

VERSOS PARA EMBARCAR

Ao Virgílio Várzea

Tudo, tudo vai mal, e tudo é uma viela,
E um beco escuro, e um charco imundo, e um triste horror;
Pois que bom de embarcar, um dia, a toda vela,
E fugir, e fugir, seja para onde for.

Não há como embarcar. A vida é um navio
Doido, a querer partir, mordendo o pé do cais,
Velas estão a encher, sopra o nordeste frio,
Quando é que partes, ó navio, quando sais?

Não há como embarcar. Do alto d’uma equipagem
Ver o mundo! correr o mundo! viajar…
Poder dizer que foi a Vida uma viagem,
Que começou no mar, que se acabou no mar…

Não há como embarcar. É d’um furor tamanho,
É d’um delírio tal que, embora nunca mais
Se tenha de voltar – como um punhal d’antanho,
A esperança reluz, apenas embarcais…

Não há como embarcar. Furiosos d’insônia,
Enervados de dor, que ânsia d’ir para além,
Ó tísicos, morrer aos pés de Babilônia,
Nos muros de Siquém ou de Jerusalém?

Não há como embarcar. Para onde quer que seja,
Para o desterro, mil perigos através,
Quando os míseros vão, é como olhos d’inveja
Que eu os vejo partir, de corrente nos pés…

Sempre que avisto o mar com as ondas inquietas,
Sempre que o vejo assim, não sei por que será,
Mas tenho as ambições mais doidas, mais secretas,
Loucuras de poder inda fugir p’ra lá.

À mercê e ao furor das ondas e dos ventos,
Havia de correr o mar que não tem fim,
Como Ulisses; porém, ó trágicos momentos,
Sem ter uma mulher que chorasse por mim!

De pé no tombadilho, em frente, à minha vista,
Eu veria passar o que não vi jamais,
A não ser através dos meus sonhos d’artista:
– Encarnações febris, diademas imperiais…

E cegueira ideal e vã de quem se esconde,
E loucura de quem fugiu d’uma prisão,
E doido, sem saber de nada, nem para onde,
A correr, a correr atrás d’uma ilusão!

Ó terras de mistério, ó terras de mantilha,
Ó terras onde o céu é como a flor-de-lis,
Quem me dera dormir, folha de mancenilha,
Debaixo de teu manto azul d’imperatriz!

Reinos antigos, ó paisagem de romance,
Como uma rosa que fenece num jardim,
Ah que bom! ah que bom! de vê-los de relance,
Com castelos feudais, com torres de marfim!

Rainhas como flor, graciosas donzelas,
Com gestos e com voz que me causam prazer,
Como seria bom que, ansiando para vê-las,
Eu as vendo uma vez, não as tornasse a ver…

Eu não sei, eu não sei para onde fugiria,
Eu não sei, eu não sei o que ia ser de mim,
Quem me dera, porém, que logo fosse o dia
De poder embarcar e de fugir daqui!

Quem dera que fosse hoje! E enquanto a nau sulcasse
De proceloso mar entre uivos e baldões,
Eu poder, sem terror, olhando face a face
O abismo, descrever as minhas impressões!

É bem possível que eu, arriscando na sorte,
Notasse que por fim só me saía o azar,
E o diabo, e tudo, e o mais, e tudo, e a própria morte,
E ainda tudo; porém, que ânsia de viajar!
Outubro – 1903

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 12


Poemas

Ao Euclides Bandeira

BAUCIS E FILEMON

Há de a Morte chegar um dia… E pois que bom
Se fosse como a de Baucis e Filemon!

Outono. A tarde vai num carro de veludo,
Lírio, rosa, carmim, e ouro, sobretudo.
A tarde gira, no passeio vesperal,
A luminosa flor estética do Mal.
Zéfiro, vendo-a, em seus vestidos sopra assim
Da flauta rude uns sons de folha de jasmim,
Uns sons de violeta e anêmona e açucena,
Uns sons que inda são mais leves do que uma pena,
E tão bons, e tão bons, que ao longe o mar semelha,
A subir e a descer, um rebanho de ovelha…

E os seus vestidos que são alvos como a paz,
Tingem-se de uma cor de sangue de lilás.
Ó tarde linda, ó tarde linda como Vênus,
Tarde de olhos azuis e de seios morenos.
Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira,
Como uma torre de pérolas e safira.
Ó tarde como quem tocasse um violino.
Tarde como Endimion, quando ele era menino.
Tarde em que a terra está mole de tanto beijo,
Porém querendo mais, nervosa de desejo…
Tarde como no dia em que Júpiter louro,
Por amor de Danaê, desfez-se todo em ouro.
Tarde de se cair de joelhos, por encanto,
E de se lhe beijar a ponta de seu manto.
Ó que tarde sutil! ó luz crepuscular!
Com rosas no jardim e cisnes a boiar…

Outono lindo, lindo… Ao longo dos caminhos,
Como sempre, eles dois, velhinhos, bem velhinhos,
Inda mais uma vez olham essa paisagem,
Que, por assim dizer, é a sua própria imagem,
Terna como eles e com seus reflexos vagos
De ternura a tremer por sobre a flor dos lagos…

Paisagem verde, inda mais verde que um vergel,
Com abelhas, com sol, e com favos de mel…

“Que tarde linda, meu amor, que lindo outono!
Quem me dera dormir o derradeiro sono!”
– “Eu também, Filemon,” sorrindo Baucis diz,
“Já estou cansada, vê, de tanto ser feliz!” –
“Ó deuses imortais! ó piedosos céus!”
Mal, porém, mal porém tinham falado, quando
Pasmo viu Filemon Baucis se transformando
Numa tília, também ao mesmo tempo que ela
O via converter-se em carvalho, e singela,
Saudosamente, os dois se disseram adeus!
Janeiro – 1905

ESTÁTUA

… e olhou sua mulher para trás dele:
e converteu-se numa estátua de sal.

O salgueiro chora,
E o vento chora fino no salgueiro,
O vento chora triste… – Um Cavaleiro
(Ia passando sem olhar) olha e demora…

“Ah! – consigo murmura –
Nestes caminhos lôbregos, de joelhos,
Eu caminhei por sobre incêndios de loucura,
Num Éden prateado e com frutos vermelhos!

Outrora aqui vibrei meus lírios de alvoroço!
A lança de ouro às mãos rutila! à fronte o casco
De ouro a relampejar! e moço! e tudo moço!
Ó moço de Damasco! ó sonho de Damasco!

Turbilhões sensuais de proserpinas doidas!
Cantáridas em flor, brancas, morenas, todas
Luxurioso amei! amei! Eram tão belas!
– Ó Poentes de Outono! ó Luas! ó Estrelas!

Nuvem, que uma tormenta azulada de beijos
Eletriza, lirial nuvem dos meus desejos!
Na minha alma, cruéis, dormem fundos espaços,
Cova sinistra! Cruz Vermelha dos Abraços!

Barco esguio a dançar, carregado de aroma,
Seda, púrpura, arminho e veludo da Pérsia,
– Leito brando da minha angústia e minha inércia,
Em balanço, ondulando, uma entre mil assoma.

Alva!… não a beijei!… Minha vida foi como
Em choupos verdes a correr um passarinho.
Para quando guardei o acre, esquisito pomo,
Ó Desejo escarlate! ó flor cheia de espinho?

Ora o Valpúrgio!… Só, como espectro de lua,
A Lembrança!… um palor diluído em folha rubra!
Quando evitar que o tempo o mármore polua,
E o musgo cresça, e as almas frágeis cubra?

Tudo em perfume se resume, que apunhala,
E a Demência derrama em asperges de hissope!

– Eia pois! eia pois! a caminhos de opala!…”

E o Cavaleiro toca o cavalo a galope.

Foge. Um Anjo, porém, melancólico implora…
Chama-o de longe um Anjo: – Olha mais uma vez!
Estas ruínas, ó Cavaleiro, bem vês,
São tua adaga de ouro e teu arnês de outrora! –

E era o Anjo a açucena endoidecida no Horto,
E a sua voz, luar do Paraíso Perdido!…
Luar de um círio sobre o azul de um lírio morto…
Luar de Além, do Além, além do Indefinido!…

Olha. Não vendo então que via, por seu mal,
O Nu… mais nu! O Nu de um nu de Apodros nuda!
Um esqueleto nu!…
E ei-lo que se transmuda,
– Outra mulher de Ló – numa Estátua de sal!
Abril – 1898

AZAR

Ao Silveira Neto

A galope, a galope, o Cavaleiro chega:
Rei, ó meu bom senhor! com tua filha cega.

– Hoje, teu adivinho assim traçou no ar:
A frota d’El-Rei perdeu-se no alto mar!

Eu, ao descer a noite, ouvi cantar o galo:
Foi a Rainha que fugiu com um teu vassalo.

Teus exércitos, ó! as brônzeas legiões,
Morreram nos areais da Líbia como leões!

Nos teus domínios sopra o vento Noroeste:
A mangra, o gafanhoto, a seca, a alforra, a peste.

Uivam! Lobos? o Mar? o Vento? o Temporal?
Não. É a plebe que arrasta o teu manto real.

Lá vêm as três, ó Rei, lá vêm as três donzelas…
Tende piedade, meus irmãos, orai por elas!

Vêm tão brancas dizer que as noras sensuais
D’El-Rei mataram seus maridos com punhais.

Tuas pratas, teu ouro, e mais ricas alfaias,
Roubam do teu palácio os fâmulos e as aias.

Teu diadema, o cetro, as plumas e os Broquéis,
Em poeira, e sangue, e sob a pata dos corcéis!

O povo reza, que doçura! É bom que reze!
Pela tua alma… Já são horas… Quantas?… Treze.

Maldito seja quem Trono nem Reino tem!
Maldito seja o Rei! Maldito seja! Amém!

No vinho que te dão, e no teu melhor pomo,
No manjar mais custoso, onde entre o cinamomo,

Na linfa clara, vê, no leito ebúrneo, sei,
Nas palavras, no ar, dão-te veneno, Rei!

Ouvem os Arlequins missa, todos de tochas,
E estão vestidos de sobrepelizes roxas.

Resmungam baixo teu nome as velhas, e assim
Queimam em casa, cruz! a palma e o alecrim.

Estão rezando por ti muitos padre-nossos;
Os cães estão, porém, à espera de teus ossos.

Ó ventos! ó corvos! que estais grasnando no ar!
Eis o cadáver do bom Rei de Baltazar!

Dlom! dlem! dlom! dlem! Ouve, bom Rei, de serro a serro
Os sinos dobram, ai! dobram por teu enterro.

Ó ventos! ó corvos! que estais grasnando no ar!
Eis o cadáver do bom Rei de Baltazar!

Ventos, ó funerais! ventos, lamentos roucos,
Ó ventos roucos, ó redemoinhos loucos!

Dlom! dlem! dlom! dlem! Bom Rei, teus ossos não são teus,
Nem o teu trono é teu! Louvado seja Deus!

Nem a tua alma é tua, ó Rei, depois de morto,
Pois demônios estão dançando num pé torto!

Maldito seja quem Trono nem Reino tem!
Maldito seja o Rei! Maldito seja! Amém!

E a galope, a galope, o Cavaleiro esguio
Vai pregar a outro Reino: a Doença, a Noite, o Frio!
Julho – 1898

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 11


UM VIOLÃO QUE CHORA

Ao Nestor Victor

I

Ao Miranda Rosa Junior

Olhos por seu gosto
Não os ponha em flor
Que lhe causam dor:
Sofre de os não pôr,
E de os haver posto…

Alma que anda cega,
Se por sossegar,
Veio a se empregar,
Nesse aventurar,
Muito mal se emprega…

Ter os seus cuidados
Todos em mulher,
Tenha-os quem puder,
Que é melhor não ter,
Que os ter enganados.

Amores são rosas,
Próprias da Ilusão,
Rosas em botão,
Que é quando elas são
Frescas e cheirosas.

Flor de maravilha,
Pérola de Ofir,
Pérola a sorrir…
… Ai de quem dormir
Sob a mancenilha!

Damas, meus senhores,
São todas iguais…
Já porque as olhais,
Nem vos olham mais,
Nem vos têm amores…
Julho – 1900

II

Dessa tão ferrenha mágoa
De querer vos esperar,
Meus olhos se encheram d’água
Salgada como a do mar.

Vós prometestes, senhora,
Voltar, um dia, porém,
Esperei, e até agora
Inda não veio ninguém…

Quando vireis? Não sei. Quando
(O destino tem suas leis)
Vierdes, aqui chegando,
Talvez que não me encontreis…

Mas se me não encontrardes,
O que é natural enfim,
Interrogai estas tardes,
Que hão de vos falar de mim.

Sobretudo este arvoredo,
Que há de vos dizer: “Eu vi,
Ele passeava, em segredo,
Todas as tardes aqui.

Passeava tristonho e mudo,
A pensar em não sei quê,
Tão distraído, que tudo
Via como quem não vê…

Andava, não sei, tão cheio
De torturas ideais…
Um dia o pobre não veio,
E afinal não veio mais…”

III

Ao Rodrigo Junior

Tantas vezes hei sofrido,
Que desta vez conheci
Que tudo ficou perdido
Nas mãos em que me feri.
E é justo que então vos diga
Que a mão que me faz sofrer,
Bem que me devia ser
Amiga, e não inimiga.

Vós me causastes tais penas,
Tão acerbas e tão cruas,
Não só uma vez nem duas,
Porém, senhora, dezenas,
Que eu jamais pude atinar
Com esse vosso querer,
Sempre causando pesar,
Em vez de causar prazer.

Feristes-me de maneira
Que me nasceu a ferida,
Por onde me corre a vida
Bem como uma cachoeira…
Entretanto, é singular
Isto que pois vou dizer:
Quase que sinto prazer
De me fazerdes penar.

Alegar o bem não há de
O coração, mas foi tal
A vossa malignidade
Que o alegar não faz mal:
Fui por vós, senhora minha,
O que não fui por ninguém;
É que à conta vos não tinha
De pagar com o mal o bem.

Eu como um cego supunha
Que fôsseis só formosura,
E não afiada unha,
Que dilacera e tortura:
Não pensei que dentro desse
Puro perfil ideal
Pudesse haver e houvesse
Tanto fel e tanto mal.

O poeta é a eterna criança,
Correndo atrás da ilusão,
Que lhe foge, e ele não cansa
De tanto correr em vão,
Nessa corrida enganosa
De quem não sabe o caminho…
Ora, crer-se que uma rosa
Deixasse de ter espinho!

Pois tal embriaguez sentia,
Prazeres tão absolutos
Quando eu vos acaso via,
Em horas que eram minutos,
Que bem só entendo agora,
Agora enfim é que eu sei
Que vós não éreis, senhora,
A flor que eu imaginei.

Também daqui por diante,
Isso a mim próprio jurei,
Por mais que o prazer me encante,
Vista jamais erguerei,
Nem para uma outra estrela,
Nem para uma outra dama;
Pois para que é que hei de erguê-la,
Se tudo que vejo é lama?

IV

Para o meu coração

Tantos bens ambicionei,
Que por mal dos meus pecados
Nunca os vi realizados
E talvez nunca os verei.
Que, ó meu passarinho verde,
Tanto quisestes e eu fiz,
Que, como por lá se diz,
Quem muito quer, muito perde…

Pensais de mim que sou cego
E que sou doido perfeito.
Mas eu também não vos nego
Ter de vós igual conceito.
Assim os dois ficaremos
Pagos do bem e do mal
Que um a outro nos fazemos,
Mas sem querer afinal.

Vós por me contrariar,
Eu por não vos entender,
Quando me dais um prazer
Logo em seguida é um pesar.
E sempre mal avisado,
Julgais que tudo sou eu,
Culpa do que sucedeu,
Quando eu sei quem é culpado…

Tudo muda a pouco e pouco,
Rochedos e vendavais,
Mas vós, cada vez mais louco,
Meu coração, não mudais.
E assim, o mal como o bem,
Que inda venha a suceder,
Só de vós pode nascer,
De vós e de mais ninguém…

Eu peco por ser sincero,
E vós por não terdes leis,
Eu já não sei o que quero,
Nem sabeis o que quereis
E não há como se esqueça,
Por maior esforço vão,
Nem vós da minha cabeça,
Nem eu do meu coração.

Não podemos ser unidos:
Vossos soluços de mágoa
Soluçam nos meus ouvidos,
Os meus olhos enchem d’água.
Separemo-nos os dois:
Por esses caminhos vou,
Já que sabeis quem eu sou,
E eu sei muito bem quem sois.

V

Lá fora, e à desora,
A lua branca gira,
Um violão suspira,
Enquanto a flauta chora…

Em vão tu te debruças
Sobre a janela, em vão…
Flauta, por quem soluças?
Por que gemes, violão?

A tua vida é morta,
Ó pobre coração,
A ti que bem te importa
Que alguém soluce ou não!

Um dia, quando já
Não existires, quem,
Quem que se lembrará
De ti? Talvez ninguém.

No vasto mar, que anseia,
Nesse profundo mar,
De um pobre grão d’areia,
Quem pode se lembrar?

Que pois a lua gire,
Que o violão soluce,
E um outro se debruce
E pálido suspire…

Tu, os ouvidos fecha,
E a tua porta; a ti
Que importa a flor que ri,
Que importa aquela queixa?

VI

Fragmentos de alguns versos, que se fizeram para os Desenganos, de regresso à terra.

Quando outro dia eu andei
Por esses mares remotos,
P’ra me escapar, e escapei,
Que grandes e ardentes votos
Eu fiz, senhora Sant’Anna,
Que és a mãe, se não me engana,
Mãe dos pobres pescadores,
Dos que vivem a pescar
Os enganos e as dores,
Por essas ondas do mar…

Foi tal a alegria minha,
Salvo nessa embarcação,
Que ergui muitas vezes a alma,
De joelho, a teus pés, rainha,
Como se fosse uma palma,
Que eu erguesse aqui do chão,
Que eu erguesse aqui do lodo,
E tão ébrio de esperança,
Que eu me ria como doido,
Chorava como criança…

Mal, porém, toquei em terra,
Vieram tamanhos danos,
Tanta tristeza e revés,
Tanta fúria, tanta guerra,
Tais foram os Desenganos,
Tantos, tantos de uma vez,
Que eu que tanto te pedi,
Sob uma estrela tão má,
Antes não viesse aqui,
Antes eu ficasse lá!

Outubro – 1906

VII

Pobre meu coração, aqui, no meu ouvido,
Conta-me tudo, vá, porém baixinho, assim,
Ó pobre Aflito, que tens subido e descido
Tantas vezes a Dor, uma montanha, enfim!

Cansado. Bem o sei. E há pouco inda perdido
Por um caminho que era trágico e ruim,
A mão furada, o pé descalço, e perseguido;
E que pena de ti, e que pena de mim!

Eu sei de tudo, sei da última e da primeira,
E de outras mais, e sei do sangue que rolou,
Tão grande que inundou quase a cidade inteira…

Mas, Voluptuoso, vê, de resto que mais queres,
Se nem plumas e nem rosas ou malmequeres,
E nem mais uma flor, e tudo se acabou?…

VIII

Vamos, meu coração, adormece de todo,
E não acordes mais, que vão te fazer mal;
Nunca, que tudo enfim é esse lodaçal,
E não é nada mais nem menos do que lodo…

Assim dormindo, olhos cerrados, desse modo,
Tua inimiga má e boa e natural,
A tristeza, não vai te perseguir, ó doido,
Nem a tristeza e nem a alegria, afinal.

É o descanso, e um bem, e a paz, enfim, e tudo,
E esse sorriso como flor, e a embriaguez,
E o leito leve, e perfumado, e de veludo…

E nada, e nada bom, como o doce abandono,
Esse letargo em que vais cair, a surdez
Desse sono animal, desse profundo sono!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 10

GATA

Na brancura da pele e no gesto macio,
A carícia tu tens e a moleza de gata:
O teu andar sutil é doce como a pata
Desse animal pisando um tapete sombrio…

Tens uma morbidez lânguida de sonata.
Teu sorriso é polido, é fino e é muito frio…
Se as tuas mãos acaso eu beijo e acaricio,
Sinto uma sensação esquisita, que mata.

Quando eu tomo esse teu cabelo ondeado e louro,
E o cheiro, e palpo o teu corpo branco e felino,
Como te torces, pois, minha serpente de ouro!

O teu corpo se enrola em meu corpo amoroso,
E o teu beijo me aquece e vibra como um hino,
Animal de voz rouca e gesto silencioso!

HELIOGÁBALO

É um prostíbulo. E pois, tendo admirado tudo,
– Calígula a rugir dentro d’um lupanar,
Tibério, como se fosse um fauno cornudo,
De lepras e furor a se despedaçar, –

Supunha nada mais ter que ver, quando mudo
E apavorado, viu pela cidade entrar
O novo imperador, coberto de veludo,
Seda e ouro, e por fim bracelete e colar…

E era um deus, era um deus, d’uma pompa feroz.
Quando o filho do sol aos pórticos assoma,
Entre eunucos reais e truões, alçando a voz,

“Viva o Imperador!” O mundo o aclama e quer.
“Viva!” O monstro excedeu as crápulas de Roma!
Heliogábalo é um homem e é uma mulher!
Maio – 1904

AMOR CINZENTO

Ao Celestino Junior

Embaixo é o dia fusco, é a luz mortuária; em cima
Rolos de fumo e sebo, ó soturna cloaca!
A Vida extinta sob uma grandeza opaca…
Nem pomos de ouro, nem cantigas de vindima!

Fumo só. Tédio só. Natureza de luto.
Cinza e betume chove. E em torno se derrama
Todo um acre vapor feralmente corrupto,
Feito de cerdos e de batráquios e lama…

O corpo é um muito mau pardieiro, bem vedes!
E por isso também, embora que murmures,
Oh! minha alma! estás presa entre quatro paredes!

Presa! e dilui-se o mundo! e nem um sonho ao menos,
E nem festas! e nem um agasalho algures,
Num leito brando, nuns braços brandos de Vênus!…
1898

BORBOLETA

Ao José Gelbecke

Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta…
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher…
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação…
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p’ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente…
1903

SÚPLICA DE UM FAUNO

Ao Pânfilo d’Assumpção

– Foi neste bosque, olhai, que ontem a mais pomposa
Das lupercais eu vi. Coroada de rosa,
Dos loureiros em flor à sombra, que perfuma,
Vênus o corpo ideal, mais claro que uma espuma,
Cedeu ao teu furor, ó Adônis, à tua
Fome, como se fosse uma bacante nua…

Ébria, a torcer-se toda em delírios de louca,
Mirto rugiu de amor, a boca em tua boca,
Enlaçada contigo, ó sátiro cornudo,
Sobre essa relva, assim, tenra como veludo…

E que algazarra vã daquela juventude,
Ouvindo Pã soprar na sua flauta rude,
Quando no meio de sussurros e de assombros,
Correu Apolo atrás dos lactescentes ombros
De Leucoteia uivando: eu te amo! eu te amo! eu te amo!
Ágil, sutil, veloz, como se fosse um gamo…

E que riso cruel, tonitroante e louco,
Quando Vulcano aparecendo daí a pouco,
Entre outros braços nus, que não de seu esposo,
Vênus veio encontrar delirando de gozo…

Correu o vinho a flux. Os sonhos e as quimeras
Coroaram o deus Pã de mirtos e de heras…
Resplandeceu o sol da alegria. A floresta
Ecoou, como se fosse o próprio Olimpo em festa.

Só eu de quem jamais a dúvida se arranca,
Só eu não pude rir dessa risada franca.
Adoro uma deidade, a caçadora Diana,
Mas amar sem ventura é uma batalha insana…

E de fato, não sei que demônio porfia
Entre nós dois, que sendo a única alegria
Dos meus olhos, jamais logro o puro desejo
De morrer a seus pés como a onda de um beijo…
Por Júpiter, no entanto eu juro que não posso
Domar este furor, conter este alvoroço…
Por onde quer que eu vá, luz desesperadora,
Eros o coração me enfurece a toda hora
Desses desejos vãos, inquietos e raros,
Que eu nunca vencerei, porque a beleza é fátua…

Assim pois, antes ser um triste cego, Vênus,
Ou possuir então esse prestígio, ao menos,
De poder transformar-me, ó deuses, numa estátua
Mais insensível do que o mármore de Paros!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Fábio Rocha (Antologia Poética)

LOBOS

Escrever
Meu corpo se enche de emoções dementes,
como uma taça sob torneiras intermitentes.
Se não fosse a poesia,
para onde ela transbordaria?

FÉRIAS

A Fábio, Eduardo, Suzana e José Ronaldo Neto

Lá vai o turista
subindo a ladeira.
E corre o pivete
atrás da carteira…
Lá vem o turista
descendo a ladeira.

JARDIM

A Marta, Mário, Ilka e Salvador

Do velho terraço cheio de limo,
pedaço cinzento de sua infância,
via as sombras da grande amendoeira.
O balanço enferrujado,
as grandes e barulhentas folhas caídas…
Parecia algo intocado, sagrado.
Um copo de água estagnado
era visitado
por miúdos pardais sedentos.
As amêndoas serviam de giz
para escrever nas paredes
que era um menino feliz.

BRILHO

A Alessandra

Sempre haverá
estrelas no céu.
As nuvens passam,
as tempestades se acalmam…
Sempre haverá
estrelas no céu.
Pingue a última gota
de esperança do coração…
Sempre haverá
estrelas no céu.
E nelas verei teu sorriso.

CHUVA ATUAL

Vendo a chuva que cai agora,
lembro daquela
que choveu outrora.
Escorrendo pelas folhas, naquele dia…
Hoje chove a melancolia.
Há o frio, Há poças,
há o cheiro da chuva na terra,
há tristeza em cada gota.
Algo nas nuvens se move.
Quem chora quando chove?
O pior é que a cada dia,
aquilo que já choveu,
de novo jamais chover poderia.

O VIGIA

O vigia
vigia.
Raios de luz esguia
iluminam a rua vazia.
O vigia
vigia.
Uma brisa suave e fria
traz cheiro de terra molhada e assobia.
O vigia
vigia.
Em sua mente toca uma canção da utopia
que há muito não se ouvia.
Mas é triste a canção.
E só traz mais solidão
e melancolia.

DEFINIÇÃO

A Daishoo

A vida é
como a lágrima que cai.
De tristeza ou alegria,
cai com poesia.
Algumas caem rebeldes, brigando.
Outras se deixam levar.
Caem tristes, felizes, esperançosas,
melancólicas, rebeldes, carentes ou desgostosas.
Mas todas que dos olhos saem,
sem exceção, caem.
E feliz da gota
que chega ao mar,
após cair longamente,
a procurar.
E a comunhão eterna, total e imutável
encontrar.
(Não conte a ninguém não,
mas algumas gotas que se juntam tem essa sensação,
mesmo antes do fim da queda.)

SOLIDÃO

Não estou só.
Há ácaros em minha pele,
insetos escondidos em meu quarto,
células estranhas em meu sangue,
vírus em animação suspensa no ar
e sua forte presença
em meu coração.

Fonte:
ROCHA, Fábio. A Magia da Poesia. Rio de Janeiro: Papel Virtual Editora, 2000.
Editoração Eletrônica: Ana Petrik Magalhães

Ialmar Pio Schneider (Por que não ler os best-sellers ?)


A leitura, segundo meu juízo, pode ser de instrução, de auto-ajuda, e também de entretenimento, entre outros. Então por que alguns intelectuais se indispõem em aceitar os best-sellers? Assistindo ao programa do Jô Soares que entrevistava o acadêmico imortal Lêdo Ivo, pelo lançamento do seu livro Poesia Completa, e por estar com 80 anos de idade, en passant, falaram sobre os autores que mais vendem e os que não. O poeta falou que é muito relativo este enfoque, uma vez que alguns fazem sucesso porque escrevem para determinada clientela ledora, mas ao mesmo tempo desaparecem na efemeridade das coisas passageiras. Eu, de minha parte, leio certos best-sellers e os tenho apreciado, geralmente. Acredito que o que faz a vendagem dos livros é a mídia. Já vi em página de revista num ônibus em Paris uma propaganda do livro de Paulo Coelho, Veronika decide morrer. Como ele tem um público cativo em quase todo o mundo, é sabido que é um dos maiores vendedores brasileiros de todos os tempos.

Voltando ao poeta Lêdo Ivo, enquanto assistia ao programa do Jô Soares, sendo entrevistado, procurei na prateleira um livro dele, Antologia Poética, com seleção de Walmir Ayala e introdução de Antônio Carlos Villaça, e me deliciei com o seguinte soneto, que reputo um dos melhores de sua verve:

Soneto do Empinador de Papagaio

“A nada aceito, exceto a eternidade,
nesta viagem ambígua que me leva
ao altar absoluto que, na treva,
espera pela minha inanidade.

O que sonhei, menino, hoje é verdade
de alva estação que em meu silêncio neva
o inverno de uma fábula primeva
que foi sol, cego à própria claridade.

Na hora do fim de tudo, separados
fiquem os dois comparsas do destino
que sabe a cinza após o último alento.

E a morte guarde em cova os injuriados
despojos do homem feito; que o menino
empina o papagaio, vive ao vento.”
– Ediouro – pg. 65.

E o entrevistador caçoava dele, dizendo que continuava sendo um menino, embora octogenário.

Mas, pelo que pude aquilatar, eles são leitores de best-sellers, pois quem não quer divulgar seus trabalhos e conquistar leitores?! Não sejamos hipócritas !

Venho de ler um dos maiores best-sellers da atualidade, O Código da Vinci, de Dan Brown, – dez milhões de livros vendidos em todo o mundo – na edição da Sextante. Trata-se de um romance policial, com poucas personagens para não atrapalhar a fluência na leitura, e pleno de lances inesperados. Tenho certeza de que o sucesso de venda deste livro, se deve à simplicidade e a desenvoltura da trama que aos poucos vai conquistando o leitor, sem muito academicismo e sofisticação intelectualista que só fazem afastá-lo. Assim como existem os leitores analfabetos funcionais, tão apregoados por alguns intelectuais, também há os escritores que escrevem só para si mesmos, não atingindo o homem comum do povo que é a maioria no mundo inteiro.

Na poesia, quem não se lembra de J. G. de Araújo Jorge, nas décadas de 50 a 70 ? com seus poemas românticos cativando os corações enamorados ?! Conheço diversas pessoas que se encontraram, se amaram e viveram felizes, lendo e ouvindo as poesias deste poeta que fabricava estes versos:

“Uma hora de morrer…

- I –
Uma hora de morrer é aquela em que,
debruçado sobre teus olhos,
me agarro a ti para salvar-me
e sinto que afundamos juntos.

– II –
Uma hora de morrer
é aquela em que nada dizes,
em que apenas me olhas como agradecendo,
e em que me guardas ainda contra ti
como se quisesses ter a certeza
de que apesar de tudo
ficamos na terra”.

– do livro A Sós… 9ª edição – Editora Record – 1982 – na contracapa.

No meu modesto entender, toda a leitura que desperta a curiosidade do leitor de maneira simples e atinge os corações também, é válida, tanto na prosa quanto na poesia. O importante é que seja agradável, não deixando de ser instrutiva e iluminando as mentes das pessoas…

Fontes:
Texto enviado pelo autor
Imagem = http://www.indigoheartpublishing.com/

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 9

Sátiros e Dríades

DE UM FAUNO

Ao Ismael Martins

Ah! quem me dera, quando passa em meu caminho
Juno! com seu andar de névoa que flutua,
Poder despi-la dessa túnica de linho…
E vê-la nua! Eu só compreendo estátua nua!

Nua! essa corça nua é branca, e é como a Lua…
Ser eu Apolo! embriagá-la do meu vinho!
Porém se estendo no ar os meus braços, recua,
Esquiva, a dama apressa o passo miudinho…

A dama foge, não deseja que eu avance…
Meu desejo, porém, é um gamo. De relance,
Vendo-a, corre a querer sugar-lhe o claro mel…

Despe-a; carrega-a, assim, despida, para o leito…
E, nua, em flor, bem como um sátiro perfeito,
Sobre o feno viola essa Virgem cruel!
1898

DON JUAN

Sensível, como quem podia ser, apenas
Mais vão do que uma sombra um gesto perpassou,
E logo desse herói, revoltas as melenas,
Brilhava o estranho olhar, que tanto ambicionou…

Era uma confusão. Pálidas e morenas,
Cada qual, cada qual como Deus a formou,
Não foi uma, nem dez, porém foram centenas
As mulheres por quem Don Juan desesperou…

Todas, todas que viu, ele mordeu de beijos,
Enraiveceu de amor, poluiu de desejos,
Tomado de furor, doido d’embriaguez…

Um delírio! Porém, Don Juan era um artista
E portanto cruel, nervoso, pessimista,
E de resto, o infeliz nunca se satisfez!
Novembro – 1903

NÃO SEI QUE POETA…

Não sei que poeta mau teve a lembrança, um dia,
Possuído d’um furor de plebe iconoclasta,
Baseado em não sei que falsa filosofia,
De querer te cobrir d’uma glória nefasta…

E entre epítetos e baldões de toda casta,
Esquecendo afinal o tom dessa hierarquia,
E a pose arquiducal e antiga da poesia,
O teu manto de rei nervosamente arrasta…

Ele não soube ler, ó herói, o teu destino,
Um supremo desdém, um orgulho divino,
E nunca pôde ver, pálido Dom João,

Através desse olhar, cismativo ou risonho,
Que não eras senão o símbolo d’um sonho,
E essa flor ideal e eterna da Ilusão!

DON JUAN, MAS PORQUE FOI…

Don Juan, mas porque foi um sedutor, de resto
Não deixou de curtir a Decepção cruel,
Pois sempre que sonhou, enlevado num gesto,
Sorver o amor, assim como um favo de mel,

Não sei, não sei que flor, com ódio manifesto,
Angélica, porém, com alma de Ariel,
Quando ele ia beber, inquieto, quase honesto,
Deitava-lhe no copo o veneno e o fel.

Abrindo os corações, todos, de par em par,
Apenas ele quis transpor o limiar,
Que estremeceu e tão branco e desfigurado…

Lírio ou rosa, não sei, nenhuma flor tocou,
Que uma serpente vil não tivesse manchado,
E um verme também não exclamasse: aqui ’stou!
Maio – 1904

UM DOS SONETOS DE DON JUAN

Ao Domingos Nascimento

Todos os dias o meu coração suspira,
Umas vezes por ti, meu bem, outras por ti,
Meu novo bem, assim que se fora uma lira,
Ora em dó, ora em fá, ora em ré, ora em mi…

Ó torres de marfim, ó torres de safira,
Pérolas ideais, que eu nunca possuí,
Quando é que poderei (a minha alma delira)
Palpitar sobre vós, bem como um colibri?

E que ânsia de poder fundir-vos num só beijo,
E que ânsia de beijar a todas de uma vez,
Astros, dignos do meu soberano desejo!

Carnes, alvor de luz da manhã, que irradia,
Olhos, inundações furiosas de embriaguez,
Tranças revoltas como uma noite de orgia!
1903

OUTRO SONETO DE DON JUAN

Quando fulges aqui pela minha lembrança,
Ó fogo de Babel, luxuriosa flor,
É como se fulgisse a ponta de uma lança,
E é mais ódio talvez que eu sinto do que amor.

E vingança também e sede de vingança,
Sabendo que afinal foste possuída por
Tudo quanto bem quis, atroz desesperança,
Por vaidade ou prazer, ser teu possuidor…

E que horrível pesar que pois assim me veja
Condenado a querer enfim uma mulher
Que todo o mundo quis e todo o mundo beija…

E tenha por destino e por minha desgraça,
A infâmia de beber no fundo de uma taça
Onde eu sei que bebeu um beberrão qualquer!…

AINDA OUTRO DO MESMO AUTOR

Ó Sodoma gentil, ó flor maravilhosa,
Ser amado por ti causa-me tal prazer
Que eu não sei te dizer, minha pálida rosa,
Mas depois de te amar vale a pena morrer.

Acredita, eu não sei, pérola preciosa,
De gesto mais gracil e doce de mulher;
Que bom de te lançar, carne voluptuosa,
Por sobre os ombros nus flores de malmequer!

Tu não és, tu não és menos que uma rainha,
E parece que estou ao fundo de um clarão,
De um êxtase sem fim, que apenas se contém…

Eu desejo morrer. No meio da ilusão,
Ó Sodoma, porém, de inda tu seres minha,
Quem me dera viver, só p’ra te querer bem!
Fevereiro – 1904

AINDA OUTRO…

Quando te vejo assim passar como um lampejo,
Não imaginas tu, causa de meu prazer,
O anseio, e o fulgor, e o horror com que te vejo,
E o orgulho, e a ambição, e a fome de te ver.

Escuta: para mim, tu és um grande beijo,
Que inundasse de luz o fundo do meu ser…
E é um punhal este amor, e é um dardo este desejo,
E nada satisfaz a ânsia de te querer!

Os nossos olhos são uma voracidade!
Mal se avistam, não sei que loucura os invade:
Correm a se agarrar, trêmulos de paixão…

E pelejam assim, agarrados e unidos,
No meio d’um fragor trágico de rugidos,
Doidos por se querer destruir, mas em vão…
Novembro – 1903

E FINALMENTE O ÚLTIMO…

Ao Santa Rita Junior

Meu encanto, meu bem, rosa de Alexandria,
Minha tulipa, meu ideal, minha ilusão,
Minha loucura, meu amor, minha agonia,
Meu céu aberto, que parece uma prisão:

Minha esperança e meu pesar de cada dia,
Ó minha luz, tu és o meu desejo vão,
E a espada, e o broquel, e a pluma, e essa alegria,
E esse delírio, e a flor da desesperação!

Quando será, porém, ó moinho de vento,
A hora que tarda, enfim, o suplício, o momento,
Em que eu, embriaguez celeste, hei de poder,

Já fatigado, já, de tudo, sim, de tudo,
Desses teus olhos vãos, mais caros que o veludo,
Ansiar ao pé de ti, mas por outra mulher?…

Fonte:

Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 8


ESPECTRO

Chego, fecho-me aqui no quarto. Lá por fora
Ruge o vento de dor. Bate desesperada
A chuva nos vitrais. Eu estou só. Agora
Completamente só. E a noite é gelada.

Sofro. Quero iludir a minha dor que chora.
Folheio este volume e não compreendo nada.
Tento escrever, em vão. Mais, eis que sem demora
Noto que a porta foi como que descerrada…

É alguém, alguém talvez… Meu coração se pasma,
Todo o meu ser enfim trêmulo se retrai:
Vejo pé ante pé chegar esse fantasma…

Entra. Senta-se aqui. Olha-me bem de frente,
Melancolicamente e dolorosamente,
E sem dizer palavra, em seguida, ele sai!

NOX

Escureceu. Silenciosa,
A Noite faz a toilette:
Na cabeleira tenebrosa
Engasta a Lua um alfinete.

Depois, o corpo sempre moço,
O corpo em flor de Sulamita,
Num banho imerge até o pescoço,
Banho de estrelas que palpita.

E enfim de todo quase nua,
Somente envolta em véus ideais,
No carro d’ébano flutua,
Pelos espaços siderais.

Vendo-a passar, dos rendilhados
Palácios de ouro e de cristal,
Como se fossem namorados,
Os astros fazem-lhe um sinal.

E cada vez mais se reclina
Sobre esses coxins de veludo,
Sorrindo como Messalina
Para todos e para tudo…

MORS

Nesse risonho lar,
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar…
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala…

Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálida rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!

FLORA

Ao Gilberto Beltrão

Ontem, eu me encontrei contigo, ó primavera,
Os lábios a sorrir, como uma flor vermelha,
Tu trazias na mão a clássica corbelha,
E na fronte ideal uma coroa d’hera.

Em derredor de ti, loucamente, passava
Um turbilhão febril de raparigas, quase
Nuas, veladas só por um sendal de gaze,
Mais leve do que o som que Zéfiro soprava…

ODE À SOLIDÃO

À Exma. Sra. Baronesa do Serro Azul

Vamos, é tempo de se abrir a mão de tudo
E fugir de uma vez,
Desses caminhos de sândalos e veludo,
Dourada embriaguez…

É tempo de dizer a tudo quanto passa
O meu adeus final,
Às rosas e aos rosais, à mocidade e à graça,
Tudo que me fez mal.

Quanto me sinto bem, ó minha doce amiga,
Eu, pálido ermitão,
Aqui dentro de ti, da tua paz antiga,
Eterna solidão!

No meio do silêncio imenso que me cobre,
Assim como um capuz,
Como é bom de escutar o mar quebrando sobre
Esses rochedos nus…

É a mesma coisa que se habitasse um castelo,
E é o único lugar
Onde eu me sinto grande, onde eu me sinto belo
Em face deste mar…

Que essências ideais eu respiro! Nenhuma
Outra região assim
Tem esse cheiro bom. A solidão perfuma
Como um jasmim…

És o retiro, a paz, o sonho, e esse caminho
Que eu sempre quis,
O caminho ideal, por onde eu vou, sozinho
E triste, mas feliz.

Ah! para mim tu és o egrégio cofre aonde,
Por suas próprias mãos,
A minha alma recolhe as lágrimas, e esconde
Os meus soluços vãos…

Bendito seja pois esse silêncio obscuro,
Bendita sejas tu,
E esse teu ventre liso, e esse teu seio puro,
Esse teu seio nu,

Onde ao cair enfim de uma tarde de outono
Desejo adormecer,
Calmo, porém, assim como quem dorme um sono
Num seio de mulher…

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 7


LÍRIO!

Ao Generoso Borges

Nos olhos fundos azuis de serro:
Geme um salgueiro; passa um enterro.

Riso d’inverno, gelado escuto:
– Pássaro branco que anda de luto.

Mão como as algas, mão que me corta,
Quando eu a aperto, tísica morta.

Esguia, magra, toda arcadinha,
Vime mais brando que uma velhinha.

Pálida Morte! pálida Morte!
Sopra essa vela, vento do Norte!

Toca-a bem longe, por esses mares,
Mares de prata, prata e luares…

Se Deus a esquece sobre esta vala,
Pó dos caminhos, hão de pisá-la…

Ela, uma rosa, doente exangue,
Vai ficar cega de chorar sangue…

Lírio tão fino da lama tire-o:
Para entre os Lírios mais outro Lírio!

Que olhe por ela! que olhe por ela!
Fúlgida, pura, como uma estrela!

Que quando a veja, trêmulo a abrace,
Beije-lhe os olhos, olhos e face…

Mas tão etérea, mas tão algente,
Que ambos solucem convulsamente!
1899

SOL D’INVERNO

Ao Serafim França

Sol d’Inverno, tíbio velhinho
A mim, um doente d’hospital,
Quando me vens dar o teu vinho,
Bebo, bebo, não me faz mal.

Sol d’Inverno, velhinho doente,
Que tosse e escarra o ouro e o pus!
Que bom! Que bom! tisicamente,
Tremer debaixo de tua luz!

Ó música feral d’abelhas!
Ó zumbidos prenhes de dor!
Mágoas com manchas vermelhas,
Prazeres com gangrena em flor!

Volúpia! Embriaguez celeste!
Língua de fogo! A mim, o pó
Lambe-me, como tu lambeste
As feias úlceras de Jó.

Ó riso enfermo! ó riso espectro!
Esqueleto que estás a rir…
Rei Sol que perdeste o cetro,
Rei louco, Rei bom, ó Rei Lear!

Olhos folhas tristes d’Outono,
Olhos toque d’incêndio no ar…
Olhos carregados de sono,
Olhos 13, diabo, Azar…

Sob o teu beijo, alvas cantigas,
Manto de fulvos areais,
Dormem leoas, paixões antigas,
E amáveis monstros sensuais.

Dorme também, ó sol d’Estio,
Como um ébrio, meu Coração,
Ébrio de estrada, monstro frio,
Gelado pela Decepção!

Amo-te, glória da mansarda,
Amo-te, (e o vento é um punhal,)
Tu és o meu Anjo da Guarda,
O meu Lençol, meu Hospital!

Amo-te muito, como poucos,
Quando te ausentas por aí,
Eu, os tísicos e os loucos,
Ganimos de paixão por ti!

Ilusão morna dos casebres,
Bordão florido, cheio de luz,
Bom riso no meio das febres,
Suores d’Agonia… Jesus!

Frio, frio!… (Que é de um Amigo?)
Partes? adeus! nenhum lençol!
Meu Único Amor, meu Jazigo,
Fogão dos pobrezinhos, Sol!

Julho – 1899

EM SEU LOUVOR

Ao Clemente Ritz

Lírio do Cedron, ó Rosa do Carmelo!
Tu tens a alegria da Estrela d’Orion…
Quando eu te contemplo como um Setestrelo
Regina Cœlorum, Lírio do Cedron…

Fluido Sonho à Lua, vago Céu desnudo,
Sombra que perfumas como o benjoim…
Teu passo ressoa por sobre veludo,
Quando tu caminhas, Lira de Marfim.

Tudo que é murmúrio, tudo que é frescura,
Ó Cheia de graça! reluz em teu Ser…
Campo é teu olhar elísio de verdura;
Cordeirinhos brancos andam a pascer…

Quando tu me falas, falam os aromas,
Ó boca de lírio, prateado luar!
Com palavras de ouro, com aromas domas
Ondas mais revoltas que as ondas do mar.

Quando eu penso em Ti, Pomba muito mansa,
Recendes-me ao nardo, Capelinha em flor,
Dourada da palma verde de esperança,
Lírio do Cedron, ó Rosa do Assor!

Entre lírios verdes, entre palmas bentas,
Entre lírios brancos, fulge o teu altar…
Resplandecem lírios, onde Tu te assentas,
Ó Virgem Maria! desejo rezar!

Ó Virgem Maria! Mater Dolorosa!
Minha alma a teus pés é uma criança a rir…
Que teus pés me calquem – brancos pés de rosa!
Tão bem eu me sinto! deixa-me dormir…

1898

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 6

SOLIDÃO

I

Não era mais que uma pequena aldeia,
Um lugarejo assim, com passarinhos,
Flores, verdura e sol. Paisagem feia.
A igreja, um velho cura, água e moinhos…

De quando em quando o fado, a Lua cheia,
E casos mil fantásticos de velhinhos,
Com princesas no meio, com adivinhos,
E sempre lá no fundo a mesma ideia…

Eu não seria mais do que um moleiro.
Ocupado, ocupado, o dia inteiro,
Sem ambições jamais do que eu não vi.

Nem cornamusa alegre de pastores,
Nada! Nem tudo me seriam flores…
Mas quem me dera não sair dali!

II

No meio desta rústica paisagem,
Que eu por felicidade descobri,
Que bom de interromper a minha viagem,
De erguer a tenda e fazer pouso em Ti.

Que doce aqui ficar nesta ermitagem!
Que bom! que bom de me enterrar aqui!
Onde eu achei melhor camaradagem?
Gente mais simples onde foi que eu vi?

Podia o Orgulho uivar pela cidade,
Não me entraria em casa a Vaidade,
Eu fecharia a porta a tudo isto…

Oh! esquisita flor que se descobre:
De viver entre os pobres como um Pobre,
Entre os humildes como Jesus Cristo!

III

Aquele que ali vai nesse caminho,
Todo despido, todo, da Ilusão,
Não tem um manto, o pobre, não tem linho,
Não tem mulher, não tem sequer irmão.

É mais pobre que Jó, o pobrezinho,
De seu não tem senão esse bastão,
Que ao mesmo tempo é o seu copo de vinho,
E a sua luz em meio à Decepção…

O vento fere rijo como açoite
Quando ele passa. É noite. Anoiteceu.
E ele não sabe onde passar a noite.

Não sabe nada, nem por que nasceu,
Nem por que vive, nem por que se afoite…
– Esse velhinho é mais feliz do que eu!

IV

Que bom se eu fosse aquele lavrador,
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou…

Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste do sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor…

E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda d’um roxo frio de lilás…
Quem dera ser o lavrador, porém!

Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!

V

Oh! para que sair do fundo deste sonho,
Que o destino me deu, e que a Vida me fez,
Se eu quando, a meu pesar, casualmente, ponho
Fora os pés, a tremer, volvo, ansiado, outra vez.

O meu lugar não é no meio de vocês,
Homens rudes e maus, de semblante risonho,
Não é no meio de tamanha insipidez,
D’um egoísmo atroz, d’um orgulho medonho!

O meu lugar é aqui, no seio desta ruína,
Destes escombros, que reluzem como lanças,
E destes torreões, que a febre inda ilumina!

Sim, é insulado, aqui, no cimo, bem o sei!
Entre os abutres e entre as Desesperanças,
E dentro deste horror sombrio, como um Rei!

VI

Que outro desejo bom, que me cative,
Eu poderei achar, laços fatais,
Se naquela prisão, onde eu estive,
E onde quisera estar, já não estais?

É de esperança, eu sei, que o homem vive,
E é de quimera e sonhos imortais,
Mas se o que desejei eu não obtive,
Que outra fortuna posso querer mais?

Que mais hei de querer, se para aquele
Que o destino cruel bate e repele,
Todo desejo é inteiramente vão?

Sim! Porém o Silêncio é o deus Apolo!
E tem a graça, e o gesto, e o beijo, e o colo
De Vênus Afrodita – a Solidão!

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Carlos Drummond de Andrade (O Poeta Singrando Horizontes XIII)


DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

DOMICÍLIO

… O apartamento abria
janelas para o mundo. Crianças vinham
colher na maresia essas notícias
da vida por viver ou da inconsciente

saudade de nós mesmos. A pobreza
da terra era maior entre os metais
que a rua misturava a feios corpos,
duvidosos, na pressa. E de terraço

em solitude os ecos refluíam
e cada exílio em muitos se tornava
e outra cidade fora da cidade
na garra de um anzol ia subindo,
adunca pescaria, mal difuso,
problema de existir, amor sem uso.

DURAÇÃO

O tempo era bom? Não era.
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto
da raiz mesma do ser.

ELEGIA

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estela fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando,
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia, em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 5

CORRE MAIS QUE UMA VELA…

Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento…

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais…

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte…
Mas eu queria que corresse mais!

***

QUADRAS

À memória do Albino Silva

Eu de certo não sei, se venho d’um gorila,
Ou se venho talvez do paraíso terreal…
Em todo caso pó, e quando muito argila…
Achei-me um dia aqui; quem sabe por meu mal!

Eu não sei d’onde vim; mas viesse d’onde viesse,
Da poeira ou da luz, do gorila ou de Adão,
Toda a minha ânsia é de subir como uma prece,
Toda a minha ânsia é de brilhar como um clarão.

Para onde vou? Não sei. Qual é o meu destino?
Também não sei. Porém desejo caminhar
Por essa estrada além, bem como um peregrino,
E o meu instinto é como um pássaro a voar!…

***

DONA MORTE

entrando num albergue:
…………………………………………………………….

– Mãe, que és tão pobre e não tens leite,
Ó dor crescente! ó Lua cheia!
Vida – candeia sem azeite,
Olha-me, vê, não sou tão feia!
Pé ante pé,
Queres? olé !

Glacial, esguia, num momento,
Eu entro, sopro essa candeia…
Queres? olá !
Quem foi? quem foi?
– o norte, o vento…
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!
…………………….……………………

***

INCOERÊNCIA

Quando eu aperto assim mais leve que uma pluma,
Ó meu desejo bom, ó minha flor-de-lis,
Esse teu seio nu, de carne que perfuma,
Em abraços, em beijos loucos e febris,

Não sei dizer por que, mas vem-me à fantasia,
Que em vez de estar aqui, abraçando-te nua,
Por sobre este peplum de seda, eu poderia
Andar inquieto aí, pelo meio da rua,

Exposto ao vento, à chuva, à neve, ao frio, ao lodo,
Pálido de suor, carregado de tédio,
A procurar em vão, nervoso e quase doido,
Para um irmão, que morre, um extremo remédio !

***

SOLIDÃO

Ao J. H. de Santa Rita

Desde os mais tenros anos, Solidão,
Que adivinhei que eu era teu irmão.

Onde quer que eu, andando, te encontrasse,
Ó sombra, ó sonho, ó ilusão falace,

Fosse na imensidade azul do mar,
Todo num fim de luz crepuscular,

Ou na deserta e solitária praia,
Quando o vento soluça e a onda desmaia,

Sempre que te enxergava, em vez de ter
Medo, como outros têm, tinha prazer.

Tinha um secreto gozo, uma alegria,
Tão esquisita que eu não definia.

Era como se acaso visse alguém
Que conhecesse, que quisesse bem…

Tal a misteriosa afinidade
Que havia entre nós dois, ó Soledade!

Entretanto, não sei que sucedeu,
Não foste minha, e nem pude ser teu.

E era, bem compreendo, era no meio
Desse florido e aveludado seio,

Que eu devera passar a vida, e não
Como a passei, aqui, ó Solidão,

Entre enganos cruéis e desenganos,
Dias e dias e anos e anos!

Era em teu seio, sim, como um enfermo,
Teu seio triste, e vasto, e nu, e ermo…

Era em teu coração, que para mim
Foi sempre aberto em flor, como um jardim…

Inda tenho, porém, frescuras d’alma,
Lírios e rosas, violeta e palma…

Inda te posso amar, ó minha flor,
Com a mesma graça, com o mesmo ardor,

Com o mesmo gesto, a mesma inquietude,
Com que eu amei na flor da juventude…

Pois serei teu, e tu, a embriaguez
De quando amei pela primeira vez.

E teu somente, ó flor silenciosa,
Coroada de mirtos e de rosa,

Nós fugiremos, pombos ideais,
Longe destes abutres e chacais,

Para o fundo dos vales e dos montes,
Ao pé dos lírios, em redor das fontes,

Enlaçados no mesmo abraço pois,
No mesmo beijo luminoso os dois,

Ó doce paz, ó meu dourado asilo,
De um azul melancólico e tranquilo,

Ó ilusão, ó mãe das ilusões,
Filosofias e religiões,

Mãe de tudo que é belo e que irradia,
Mãe do Silêncio e da Sabedoria!

Dezembro – 1907

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Emiliano Perneta (Ilusão) Parte 4


ÉBRIOS…

Muito embora que vão alegres e cantando,
Causa terror assim pelo meio da estrada
Vê-los a caminhar, como um sinistro bando;
Eles têm o nariz vermelho, a face inchada…

Pelas vielas mais escuras, cambaleando,
Sem que queiram saber de nada, de mais nada,
Notâmbulos, senis, passam de quando em quando,
Mas como espectros, que fogem de madrugada…

Nada pior. É bem como uma Messalina,
Que já teve e não tem e anda cumprindo a sina
Misérrima… Porém eu vejo-me tão mal,

Que até chego a sentir saudade dos mendigos,
Da espelunca e dos meus camaradas antigos,
Que eu sei que hão de morrer num catre d’hospital!

***

ESSE PERFUME…

Esse perfume – sândalo e verbenas –
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas ó perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
– E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei – as minhas mãos nas tuas –
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto…
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

***

CONVALESCENTE

Ao coronel Joaquim Ignácio

Choveu durante largo tempo; dia
Sobre dia choveu, e ela, doente,
E ela, pálida e triste, em febre, via
Brumoso e feio o céu, continuamente.

E nem uma esperança mais! Chovia.
Mas melhora, e, olhando o céu em frente,
Vê que o céu fulge e se enche de alegria,
De uma alegria de convalescente!

E débil, de mansinho, abre a janela…
O sol casquilha, em ouro se derrama,
Fora na balsa, como uma risada…

E ela: “Que doce por aquela estrada
Pisar agora em luz! Feliz quem ama,
Como eu amo esta vida, que é tão bela!”

***

VERSOS DE OUTRORA

Fui bom. Mas a bondade é coisa trivial:
A infância, a infância fez-me uma guerra infernal.

Fui alegre e sincero. O mundo, a rir, em troco,
Abominavelmente achou que eu era um louco.

Ema, a teus pés caí, beijei-te as mãos, Ester!
Fiz tolices de quem não sabe o que é a mulher…

Com que olhar de altivez, com que fundo desprezo,
Chamastes-me coitado – olhar noutro olhar preso.

Numa ideia de forma esquisita, uma vez,
Aspirei com ardor a esplêndida nudez;

Gente que não entende um fino gozo d’arte,
Que eu era um imoral, disse-o por toda parte.

Indiferentemente eu agora caminho
Sobre rosas em flor ou sobre linho ou espinho;

Automático vou, sem pesar nem prazer;
Ora pois! vamos ver o que é que vão dizer…

Num País de Bárbaros.

***

METAMORFOSES

À Mme. Georgine Mongruel

Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.

Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio…
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.

Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz…

Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!

***

NOITE. DEITO-ME AQUI…

Noite. Deito-me aqui ansiosamente, e deito
Este fardo de dor, e esta fadiga enorme.
Faz frio. A neve cai. O vento chora. O leito
Gela. Mas vou dormir, e feliz de quem dorme.

Realmente, a vida foi como um castelo informe,
Como um castelo no ar, como um castelo feito
De papelão, mas construído de tal jeito
Que eu fiz de marionete, ó Marion Delorme!

Hoje, tudo rolou pelos abismos, tudo,
Esse orgulho feroz, essa lança, esse escudo,
As viagens a Citera, e esses brasões reais…

Eu vou dormir, porém. O sono não sei donde
Desce por sobre mim, como uma grande fronde…
Ah que bom de dormir e não acordar mais!

Maio – 1910

***

SONETO

Ao Azevedo Macedo

Que se escreveu, quando se acreditou que tendo dona Alba se ausentado por mui longes terras, nunca tornasse mais a dar novas de sua pessoa.

É noite. E o vento, como a folha d’uma espada,
Corta, sibila, espanca, e zurze, e dilacera,
E eu que vou, eu que vou, sozinho, pela estrada,
Eu não tenho por mim nem um raminho d’hera.

Eu não tenho por mim ninguém, não tenho nada.
Tenho a noite, este horror, esta cruel quimera,
A minha solidão, que a mim me desespera,
E o vento a soluçar, e a túnica gelada…

Mas, bruscamente, enfim, ao longe, ao longe se ergue,
Como um olho de sangue, embora, aquele albergue,
Oh! um espectro mau, que outrora eu conheci!

Dentro dele, eu bem sei, uma profunda vala…
É o covil da traição que envenena e apunhala…
Tenho sono, porém, e vou dormir ali!

Abril – 1905

***

PARA ELA

Quem um dia me vir, caído pelo chão,
Ferido pela dor, que é o teu punhal, Iago,
No meio do sangue, assim, no meio d’um lago,
Como um funâmbulo torcido, mas em vão…

Há de dizer que do meu destino aziago
A culpa teve mais minha imaginação,
Quando errava através da noite, como um vago,
Como um fantasma, só, como um ladrão.

Cada qual, cada qual, com um motivo diverso:
Este me dirá que foi a mania do verso
Que me veio a matar; aquele, outra qualquer…

Ao ver a minha face, em terra, friamente,
Muitos hão de pensar: coitado, era um doente…
Ninguém dirá, porém, que foi esta mulher!…

Fonte:
Emiliano Perneta. Ilusão e outros poemas. Re-edição Virtual. Revista e atualizada por Ivan Justen Santana. Curitiba: 2011

Florbela Espanca (A Mensageira das Violetas) I


CRISÂNTEMOS

Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais…
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!

NO HOSPITAL

À Théa

Na vasta enfermaria ela repousa
Tão branca como a orla do lençol
Gorjeia a sua voz ternos perfumes
Como no bosque à noite o rouxinol.
É delicada e triste. O seu corpito
Tem o perfume casto da verbena.
Não são mais brancas as magnólias brancas
Que a sua boca tão branca e pequena.
Ouço dizer: – Seu rosto faz sonhar!
Serão pétalas de rosa ou de luar?
Talvez a neve que chorou o inverno…
Mas vendo-a assim tão branca, penso eu:
É um astro cansado, que do céu
Veio repousar nas trevas dum inferno!

VULCÕES

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.
No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…
Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

O MEU ALENTEJO

Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,
Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…
Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

PAISAGEM

Uns bezerritos bebem lentamente
Na tranqüila levada do moinho.
Perpassa nos seus olhos, vagamente,
A sombra duma alma cor do linho!
Junto deles um par. Naturalmente
Namorados ou noivos. De mansinho
Soltam frases d´amor…e docemente
Uma criança canta no caminho!
Um trecho de paisagem campesina,
Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!
Oh, abre-me em teu seio a sepultura,
Minha terra d´amor e de ventura,
Ó meu amado e lindo Portugal!

VOZES DO MAR

Quando o sol vai caindo sob as águas
Num nervoso delíquio d´ouro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d´epopéias? Tens anseios
D´amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?…
…Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

CRAVOS VERMELHOS

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!
…Bem sei vosso segredo…Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol,
O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga…”

ANSEIOS

À minha Júlia

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!…
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!
Não ´stendas tuas asas para o longe…
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!…

A ANTO!

Poeta da saudade, ó meu poeta qu´rido
Que a morte arrebatou em seu sorrir fatal,
Ao escrever o Só pensaste enternecido
Que era o mais triste livro deste Portugal,
Pensaste nos que liam esse teu missal,
Tua bíblia de dor, teu chorar sentido
Temeste que esse altar pudesse fazer mal
Aos que comungam nele a soluçar contigo!
Ó Anto! Eu adoro os teus estranhos versos,
Soluços que eu uni e que senti dispersos
Por todo o livro triste! Achei teu coração…
Amo-te como não te quis nunca ninguém,
Como se eu fosse, ó Anto, a tua própria mãe
Beijando-te já frio no fundo do caixão!

NOITE TRÁGICA

O pavor e a angústia andam dançando…
Um sino grita endechas de poentes…
Na meia-noite d´hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!…
Tenho medo da noite!… Padre nosso
Que estais no céu… O que minh´alma teme!
Tenho medo da noite!… Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria dor parece…
Ó noite imensa, ó noite do Calvário,
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ´squece!

ERRANTE

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…
Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…
Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

CEGUEIRA BENDITA

Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago…
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho…
Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!…
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros té à morte!

Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).

Ângela Togeiro (Momento Poético)


JUNTANDO AS METADES

Sou mulher,

por mais que evitemos

ser o que somos,

por mais que nos cubram de panos

para nos esconder,

ou que nos dispam para nos admirar,

por mais que nos mutilem o físico,

ou a alma, para nos anular,

por mais que nos espanquem

para mostrar

a força bruta da inferioridade,

por mais que nos desvalorizem

em piadas grosseiras,

será apenas

quando nos respeitarmos,

como seres que se completam,

que evoluiremos.

Homem e Mulher, Mulher e Homem,

Nosso destino é um só.

Fora isso,

fingimos evolução,

reconhecimento de direitos

criando mais desigualdade,

na falsa igualdade.

Somos mulheres perdidas

nos descaminhos da humanidade

mas sempre

Mulheres.

MULHER

Sou mulher,

sou todas as mulheres:

sou Afrodite, Amélia, Angela, Eva, Diana, Joana,

Madalena, Maria, Raquel, Rita, Sara,

Salomé, Tereza, Vênus, Zênite…

Tenho na genética

a herança dos tempos,

que me dá todos os nomes,

que me tira todos os nomes,

quando me desdobro em outra mulher.

Nasci em todas as raças,

tenho todas as cores puras e miscigenadas.

Pratico todos os credos.

Nasci em todos os cantos deste planeta.

Vivi em todas as eras.

Registrei meus gritos em todos os rincões,

mesmo se expulsos da alma

no mais profundo silêncio.

Vim de todos os lugares,

nasci em berço de ouro, em choupana,

na rua, nas matas, hospitais, templos…

Fui vestida, fui enrolada,

despida, jogada.

Gerada num útero que me amou,

ou num que me recusou.

Pouco importa, se rica ou pobre,

se esculpida no Belo ou no Feio,

preciso cumprir meu destino,

meu destino de Mulher.

Fonte:

Boletim Guatá

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Poetas de Ontem e de Hoje III)


Luxo e Lixo
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis “Cidade Poema”

O pobre catando lixo
E o poder só no luxo;
A cambada nem se lixa
Só tem a ideia fixa
No seu salário que é farto
No seu abono que é fixo.
Usa um discurso que é falso
Fingindo ser boa gente
Enganando o pobre incauto,
Vira as costas pro indigente
Faz mau uso do erário
Fica rico de repente…

Só vive de mordomia
Cheio de facilidade;
Sua vida é só folia
Carnaval o ano inteiro,
Pois não lhe falta dinheiro
E mesmo com o rei deposto,
Vive de pura mamata
Enquanto o povo se mata
De tanto pagar imposto…

Mas um dia a casa cai
Isso não vai demorar
O povo não vai querer
Nem o pobre agüentar
Ficar segurando a vaca
Pra vagabundo mamar!

A um pintassilgo
Belmiro Braga

Por que vens tu cantar, ó passarinho,
por entre as folhas úmidas de orvalho,
no flóreo jasmineiro meu vizinho
E mesmo em frente à mesa onde trabalho?

Por que não vais vigiar teu fofo ninho
(Não te zangues comigo, eu não te ralho)
a baloiçar à margem do caminho,
qual rosa escura num recurvo galho?

Tu tens em que cuidar; por isso, voa
e deixa-me sozinho… Esse teu canto,
embora sendo alegre, me magoa…

Não te demoras, vai! Deixa-me agora,
que o teu gorjeio me faz mal, porquanto
nunca se canta ao lado de quem chora…

Pedido
Sônia Maria Grillo/ES

Venha quando quiser,
mas venha,
venha se puder ou se der,
mas não deixe de vir…
Grite, solte-se, escreva, ligue,
o som da sua voz, quero ouvir,
dê notícias suas,
não suma, não se desligue de mim
e das minhas esperanças nuas…
Fale-me de você
sobre seus caminhos,
suas andanças pelas ruas,
pelas luas, pelas estrelas, pelo ninhos…
Não se esqueça,
sobra espaço na minha vida sim?
Sobra espaço também no meu coração
então, por favor não desapareça,
não se perca de mim!

14.05.2009
Vitória-ES

Renúncia
Manuel Bandeira
1886 / 1968

Chora de manso e no íntimo… procura
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia :
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia .
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura…

A vida é vã como a sombra que passa
Sofre sereno e de alma sombranceira
Sem um grito sequer tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira.

Rugas
Maria Nascimento Santos Carvalho/RJ

Há nas rugas precoces do meu rosto
sensível nitidez do sofrimento
de não poder falar do meu desgosto,
e de ter que esconder meu sentimento.
Estas rugas são marcas de um sol posto
relegado a tristeza, a esquecimento…
São vincos de um passado em mim exposto
para externar as marcas de um tormento.

Sempre há uma história triste em cada ruga :
um desencontro… as mágoas de uma fuga
ou mesmo a dor de um – Não – que alguém nos disse…

Mas, seja por qualquer razão que for,
as rugas feitas pelo desamor
ferem mais do que as rugas da velhice…

Na tasca
Raimundo Correa
1859 / 1911

Dentro, na esconsa mesa onde fervia
Fulvo enxame de moscas sussurrantes
Num raio escasso e tremulo do dia
Espanejando as azas faiscantes.
Vi-o; bêbado estava e, inebriantes
E capitosos vinhos mais bebia,
Em tédio, como os fartos ruminantes
A boca larga e estúpida movia.

Eu pensativo, eu pálido, eu descrente,
Aproximei-me do ébrio, com tristeza,
Sem ele quase o pressentir sequer,

E vi seu dedo, aos poucos, lentamente
No vinho esparso que ensopava a mesa
Ir escrevendo um nome de mulher.

No colo da poesia
Zena Maciel – Recife/PE

Brinco no colo da poesia
Excito-me com as letras em euforia
rodopio com as fantasias
faço uma seresta no coração

Engravido as palavras de sonhos
Bebo rimas risonhas
Vôo nas asas de um poema
de um pássaro sedutor

Acordo nos braços do paraíso
com a boca cheia de sorrisos
sedenta de lirismo
de um soneto encantador

Bato palmas para as loucuras
Visto-me com as diabruras
do irresistível verbo amar
Ponho-me a sonhar!

Sonho que sou a primavera
Imantada de carnívoras flores
com o néctar de doces quimeras
e uma alma bordada de paixão!

O Beijo
Bastos Tigre
1882 / 1957

A namorada do Mário,
Lia – um anjo de inocência,
Para um caso de consciência
Vai consultar o vigário.

E, a face rubra de pejo,
Lhe pergunta se é pecado
Dar um beijo ao namorado,
Ou dele levar um beijo.

Diz o padre: – Um beijo apenas
É pecado, dos veniais,
Mas sendo dois, três ou mais
Merecem do inferno as penas.

Lia está de causar dó!
Pavor do inferno, bem vejo,
Ela bem sabe que o beijo
Não se dá nem leva um só…

Fonte:
Textos enviados pelo autor

Carlos Drummond de Andrade (Antologia Poética)


O AMOR BATE NA AORTA

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não posso compreender…

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que não amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia.
Joaquim se suicidou e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

DENTADURAS DUPLAS

Dentaduras duplas!
Inda não sou bem velho
para merecer-vos…
Há que contentar-me
com uma ponte móvel
e esparsas coroas.
(Coroas sem reino,
os reinos protéticos
de onde proviestes
quando produzirão
a tripla dentadura,
dentadura múltipla,
a serra mecânica,
sempre desejada,
jamais possuída,
que acabará
com o tédio da boca,
a boca que beija,
a boca romântica? … )

Resovin! Helocite!
Nomes de países?
Fantasmas femininos?
Nunca: dentaduras,
emgenhos modernos,
práticos, higiênicos,
a vida habitável:
a boca mordendo,
os delirantes lábios
apenas entreabertos
num sorriso técnico
e a língua especiosa
através dos dentes
buscando outra língua,
afinal sossegada…
A serra mecânica
não tritura amor.
E todos os dentes
extraídos sem dor.
E a boca liberta
das funções poético-
sofístico-dramáticas
de que rezam filmes
e velhos autores.

Dentaduras duplas:
dai-me enfim a calma
que Bilac não teve
para envelhecer.
Desfibrarei convosco
doces alimentos,
serei casto, sóbrio,
não vos aplicando
na deleitação convulsa
de uma carne triste
em que tantas vezes
me eu perdi.

Largas dentaduras,
vosso riso largo
me consolará
não sei quantas fomes
ferozes, secretas
no fundo de mim.
Não sei quantas fomes
jamais compensadas.
Dentaduras alvas,
antes amarelas
e por que não cromadas
e por que não de âmbar?
de âmbar! de âmbar!
férricas dentaduras,
admiráveis presas,
mastigando lestas
e indiferentes
a carne da vida!

A MÃO SUJA

Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.

A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.

E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.

Ai, quantas noites
no fundo de casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
Cristal ou diamante,
por maior contraste,
quisera torná-la,
ou mesmo, por fim,
uma simples mão branca,
não limpa de homem,
que se pode pegar
e levar à boca
ou prender à nossa
num desses momentos
em que dois se confessam
sem dizer palavra…
A mão incurável
abre dedos sujos.

Eu era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
- o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.

Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura – transparente -
colar-se a meu braço.

Antonio Manoel Abreu Sardemberg (Poemas de Amor)


AMOR E PAIXÃO

Amor é brisa suave,
é aconchego, é carinho,
vôo cadente da ave
indo em busca do seu ninho.
É bruma leve do mar
em manhã de primavera,
desejo louco de estar
com alguém que se espera.

Volúpia louca é paixão,
mar revolto, tempestade…
É amar sem a razão,
é só loucura e vontade.
Paixão é amor sem juízo,
sem norte, reta ou tino,
errante sem ter destino,
o inferno no paraíso!

Amor é paz, é ternura,
é o frescor da aragem,
a mais cálida coragem,
maior ato de bravura.
É o céu lá nas alturas,
é a mais sublime imagem!

Paixão é inconseqüência,
é demência desmedida,
é o nada, é ausência,
é o fim – a despedida!

Amor é tudo, enfim
é a vida iluminada,
é a afirmação, é o sim,
é o encontro na chegada!

SEU BEIJO

Seu beijo é favo de mel,
a seiva que me alimenta,
é pedacinho do céu,
desejo que me atormenta!

É o fogo mais ardente,
que se pode experimentar,
é sinônimo de querer,
volúpia louca de amar!

Seu beijo é tudo, enfim!
É o querer.
O gostar,
vontade imensa de ter
mas que não posso alcançar!
seu beijo é gotinha dágua,
nas profundezas do mar!

PRESA

Quero ser a sua presa,
Enroscar-me em sua teia
Sem reação ou defesa,
Ser manjar em sua mesa,
Deixar sugar o meu sangue
Até secar minha veia…

Quero ser seu alimento,
Provisão de cada dia,
Ser o seu pão, seu sustento,
E depois do acalento,
Ser sua noite de orgia.

Eu quero ser o seu vinho,
O cálice que inebria.
Ser madrugada, seu dia,
Ser seu parceiro no ninho.

Quero ser a sinfonia
Mais suave e maviosa,
Ser seu verso e sua prosa
Seu delírio e fantasia…

Quero ser a sua rima,
Sua trova e sextilha,
Sua estrada, sua trilha,
Seu fogo ardente, seu clima.

ABRAÇO

Chegou como aragem mansa
Em manhã de primavera…
Era a mais doce quimera,
A mais intensa esperança,
A desejada bonança
Que um homem quer e espera.

No rosto, abria um sorriso,
Um semblante angelical,
Um mundo pleno e total.
Era o próprio paraíso!
Nunca senti nada igual.

Nos seus olhos cor de mel
Trazia a luz que irradia
Lindo toque de magia,
Universo de esplendor
Que eu sempre quis um dia.

Seus braços aconchegantes
Eram buquê de carinho,
O afago de um ninho,
A ternura de amante,
O perfume do jasmim,
Emoção mais fascinante
Que senti dentro de mim.

E, assim, bem de mansinho,
Nossos braços se enroscaram.
E ficamos bem juntinhos
Atados como num laço…
Então eu pude sentir
Minha razão de existir
Nesse terno e doce abraço.

NOITE DE AMOR

Entro em teu quarto com meu pensamento,
Devagarinho pra não te despertar,
E pouco a pouco, em doces movimentos,
Passo em teu corpo todinho tocar!

Sinto o calor que ele me irradia,
Ouço em teu peito o coração pulsar,
Quero que a noite nunca vire dia,
Que o tempo pare, só pra te amar!

Em toques cálidos fico a percorrer,
Todo teu corpo , só para sentir,
A sensação gostosa de te ter!

E já em êxtase eu te quero tanto,
Mais, muito mais, começo a te pedir,
E você me dando todo teu encanto!

VOCÊ

No rosto traz um sorriso
terno, amigo e verdadeiro,
no peito traz um gigante,
que se abre a todo instante
e acolhe um mundo inteiro!

És ternura da mais terna,
és doçura da mais doce,
e se eu poeta fosse,
diria da forma mais Vera:
és outono, primavera,
o mais ardente verão!
És acalento, alegria,
meu sonho de cada dia,
és tudo afinal então!

E neste dia de hoje,
quero te confessar:
se eu fosse o CRIADOR,
dar-te-ia o céu, o mar,
o campo coalhado de flor,
e para arrematar,
dar-te-ia todo amor,
que se possa imaginar!

Fonte:
E-mail enviado pelo poeta
Alma de Poeta

Amosse Mucavele (A Poesia Epigramática do Amin Nordine ou a Babalaze do Atirador das Verdades)


Um poema assim é árduo/ sem cola e na vertical/ pode levar uma eternidade. ‘’ ARMÊNIO VIERA’’ Ao Sangare Okapi e Lúcilio Manjate “Amosse Mucavele

Amin Nordine nasceu em Maputo aos 17 de fevereiro de 1969 e perdeu a vida aos 5 de fevereiro de 2011,e autor de apenas 3 livros, o que não tem importância porque a literatura não se assemelha a uma competição, onde quem publica muitas obras sai vencedor (assim sendo existem escritores que tem sido felizes nesta maratona aliando a quantidade versus qualidade como o seu cavalo de batalha e tem se notabilizado como verdadeiros campeões ex: Mia Couto, Antônio Antunes, Pepetela, Moacyr Scliar…),bastando lembrar-se do Luís B. Honwana, Noemia de Sousa, Gulamo Khan,e Lilia Momple para sustentar a tese de que qualidade nem sempre rima com a quantidade.

Publicou – Vagabundo Desgraçado (1996), Duas Quadras para Rosa Xicuachula (1997), e Do lado da ala-B.

Amin Nordine e um militante de uma escrita sólida em todos lados seja o da ala- A ou da ala- B, isenta de qualquer submissão política, caracterizada pelo inconformismo da realidade que o circunda e pela revolta social, esta poesia epigramática e uma revelação de um fatalismo que voa em voo rasante sobre as angustias de um passado melancólico, e um presente envenenado.

E do futuro o que se espera ? o futuro não será isto!’’… superlotada receita galgando o vento/com as mãos no coração do destino.’’

O que é do lado da ala-B? o leitor descobrirá que esta no lado mas vil de um jovem país com os seus problemas, e é neste lado onde reside o poeta solitário nas suas abordagens anti-heróicas, mas das multidões na sua mordacidade social, um verdadeiro maquinista do comboio dos duros, um autêntico vomito da babalaze de um poeta bêbedo do seu dia-a-dia. Detentor de uma caligrafia rebelde, com versos quentes como o fogo e cortantes como a espada afiada, onde eclodem temáticas de afrontamento de um certo tempo histórico (ex: carta ao meu amigo Xanana, banqueiros de banquetes, bandeira galgada aos 25, (c)anibalizinhos…)

Talvez o outro lado da ala destes poemas, não! Isto ultrapassa a dimensão poética, ou por outra destes melancolicos dissabores que despertam os filhos desta pátria que nos pariu deste manancial de barbaridades versus mentiras, que transformam o sonho de estar livre da opressão em um pesadelo ,não será esta a voz do povo?

Estes melancolias dissabores são a pólvora contida na’’ bala’’(ala-B) desta poesia que o autor preferiu chamar de’’ arma da vitória’’ que dispara esta bala certeira onde a cada estrofe vai abatendo o seu alvo. Dai nasceu este livro embrulhado por uma critica social.

A título de exemplo o poema ‘’barbearia dos cabrões (‘’queixos barbudos engravatados/ barbearia dos cabrões/ que deixa todo chão careca/ e ao alto mastro hasteiam bandeira/ para desfraldarem o corpo nu do povo…’’)

‘’Apesar da irrequietude e da impenitência, algumas vezes virulentas que caracterizam esta poesia ou das entremeadas doses de apurada ironia ou de compaixão pelos desafortunados, o que sobressai nesta forma particular da escrita e um virtuosismo estimulador da sensibilidade da razão,(…),nessa brevidade desafiadora da nossa capacidade leitoral e estética.’’( F.NOA-o prefaciador).

Segundo Zenão a brevidade e um estilo que contêm o necessario para manifestar a realidade. Esta brevidade encaixa-se na poesia do A.Nordine onde nota-se uma presença massiva de traços inter-textuais da obra do poeta Celso Manguana cidadãos da mesma esquina (ambos eram jornalistas culturais do semanário Zambeze) guerreiros da poesia epigramática, e soldados da mesma trincheira. A.Nordine exilou-se na morte, Celso Manguana exilou-se na loucura, e eu procuro exílio na memória destes 2 poemas:

‘’Sonâmbula esta pátria
cresce nas estatísticas
e acorda com fome
custa amar uma bandeira assim?
tem o amargo do asilo
almoço de pão com badjias
sabem bem todos dias.’’

Celso Manguana pag.14- aos meus pais-Pátria que me pariu-2006.

‘’ Se por tanto tivesse ser capaz
moça-pátria deste amor que refrega
seja o meu coração a minha entrega
escrever-te a cerca duma paz
e alto levante-se da vez que nega
não é para o povo o discurso assaz
nenhum político, milagroso ás
é tamanho o sofrimento que chega!
para o povo aumentem um quinhão
venha do vosso governo mais pão
burilada a página da história
apagar a sua triste memória
fazemos o país livre da escória!!!’’

A.Nordine-pag.50-soneto da paz-Do lado da ala-B-2003.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

V Concurso Literário “Cidade de Maringá” (Poemas Livres Vencedores) Troféu Cássia Arruda

ANTÔNIO ROSALVO R. ACCIOLY
(Nova Friburgo/RJ)

Ofertório

A aurora manchava de sol
o corpo verde das planícies.
No eitão do terreiro,
a vó conversava com os ventos.
Um branco giz de nuvens escorregava
no claro azul do céu.
“Deus está presente em nós.”
Dizia minha mãe.

Era domingo.
Um domingo vazio de ruídos.
Tão intenso que escutávamos o ruminar
do capim nos dentes dos bois.
Pai vestia uma calça cáqui.
Amarela…
Mais berrante que o amarelo do milho.
Nosso celeiro também era amarelo.

À noite, à luz de velas,
mãos erguidas aos mistérios da fé,
a vó rezava.
Pedia fartura.
Uma fartura que muitas vezes não vinha.
Só a fé,
na invisibilidade dos mistérios,
permanecia no Celeiro vazio.

CARLOS BRUNNO SILVA BARBOSA
(Valença/RJ)

Celeiro Dulcinéia

Evita meu celeiro, triste homem das vontades básicas,
Meus trigos não alimentam tua fome,
São grãos colhidos no solo do lirismo;
Vêm do mundo das idéias, da mente de um sonhador
Que protesta por alimentos reais,
Mas só protesta, só, protesta, em vão, pois não te alimenta.
Evita este meu arroz invisível, colhido na safra da solidão,
Pois minhas composições não enchem teu estômago vazio.
Meu depósito de alimentos não perecíveis é eterno
Mas impróprio para o consumo de teus olhos famintos.
Lamento, escravo senhor! Os latifúndios continuam florindo cancerígenos
No solo da ambição desmedida dos homens que pisam em tua campina sem vida,
Enquanto meu armazém só contém produções aquém dos teus anseios.
Para teus desejos cereais, trago um galpão seco de comida,
Poemas, gigantes fingidos, nada mais que meros moinhos de vento…
Procura outro reino, Sancho Pança da realidade rocinante,
Pois este meu celeiro é de um fidalgo errante castigado de ilusão…

Larí Franceschetto
(Veranópolis/RS)

DE SILOS & DE SONHOS

Tempo de perdoar-se.
O tempo de ontem nunca mais
mas ao invés de obeso ócio
o grito
ao invés de caco de vidro no olho
o riso.
Colher amoras com a boca,
reacender o verde da terra
alimentar a fome dos moinhos
a fértil(idade) das maçãs do berço,
o sabor de renovar os vinhos
acarpetem de janeiros meu celeiro
onde deságuam meus rios.
Sim! Plantar com o coração
girassóis no parapeito das janelas,
abrir os braços,
deixar as chuvas de verão
e o pôr-do-sol dos calendários
amanhecerem os meninos.

A colheita o trigo da vida
(re)abasteça de sonhos os silos.

ROBERTO RESENDE VILELA
(Pouso Alegre/MG)

Testemunho do Silêncio

O silêncio desse rancho…
… agora entregue aos marimbondos e cupins,
aos morcegos e aranhas;
agora entregue aos caprichos do tempo…
confessa, envolto em nostalgia:
- A alegria que saiu daqui
continua quebrando escuros;
e o suor é a chuva que mata a sede
de um mundo que transcende as distâncias.

Os buracos são ouvidos abertos
às pérolas do imaginário campestre;
aos causos contados à sombra das árvores;
às palavras ajustadas ao meio ambiente.

Tudo o que aconteceu ganhou tantos sabores
quantas foram as amizades…

Esse rancho…
não foi somente a ribalta azul
em que o sonho e a esperança,
com alma e elegância,
dançavam de rosto colado.

Esse rancho…
permitiu que a missão de heróis anônimos
fosse cumprida com dignidade.

À tardinha, cinzenta e lânguida,
cantando, dolentemente,
ainda chega o carro de bois,
trazendo as dádivas do chão
a esse memorável celeiro;
levadas, logo depois,
nos ombros incansáveis do roceiro.

ROSANA DALLE LEME CELIDONIO
(Pindamonhangaba/SP)

Eterno Celeiro

Sou menina…

Leio o livro;
sei-o lido… – arquivo.
Pulo a sela, divirto-me, brinco.
Selo o morto, descarto, bato o jogo.

Sou mulher…

Selo o cavalo, cavalgo, apeio.
Selo a carta, envio,
Antes disso… – releio.

Sou mãe:

No meu ventre – a vida.
No meu seio – o leite,
Mato fome e sede.
Se não sabes…- sei-o.

Aos rebentos:

Fiz um silo, só de sentimentos.
Muitos deles…
Todos eles farturentos.

Se sentirem o vazio,
Procurem o abrigo:
A certeza do alimento.

Amor de mãe – Eterno celeiro:

Provento!

Fonte:
AGULHON, Olga e PALMA, Eliana. V Concurso Literário “Cidade de Maringá”. 1.ed. Maringá: Academia de Letras de Maringá, 2011.

>Roberto Pinheiro Acruche (Meus Poemas Nº 11)

>

SONHOS NAUFRAGADOS

Um peixinho prisioneiro
fora do seu hábitat
sofre no cativeiro
olhando as águas do mar.

Vendo a sua sombra
em outro plano a nadar
imagina não estar só
preso naquele lugar.

Ao vê-lo assim, imagino,
para onde irão levá-lo
e quantos sonhos ficaram
lá no fundo do mar.

Assim vive tanta gente
pelo mundo a lamentar
em aparente liberdade,
prisioneira… e na verdade,
sem o direito de sonhar!

A PRIMEIRA VISTA

Quando a vi, pela primeira vez,
os meus olhos traduziram: é ela…
Não havia mais dúvidas… nem talvez…
Apaixonei-me pelo seu encanto,
pelo porte, pela alegria que irradiava.

Foi o amor que deflagrou, como um raio
que se arroja durante a tempestade;
invadindo-me o peito,
se alojando no coração.

Procurei viver esse amor… e vivi!
Nele encontrei a explosão da felicidade.
Era como ver toda a beleza do universo
ao mesmo tempo; sonhar o sonhos mais lindos,
descobrir todos os mistérios da magia,
mergulhar num mar de flores,
de poesias e fascinação.

Agora, tudo está acabado,
estou pagando os meus pecados
e o que detona dentro do peito,
é a saudade!

INDAGAÇÕES

Por que chora em meus braços
perdida nos abraços
quando mais intenso
é o nosso enlace?

Por que esta lágrima sentida,
sofrida, que encharca o seu rosto
precisamente no momento
que o prazer atinge e
invade todo o seu ser?

Por que arrasta o lençol
se cobrindo parcialmente
e anda para disfarçadamente
continuar a enxugar
as lágrimas incontidas?

De maneira dissimulada
esboçando um sorriso,
volta a me abraçar
e responde: Nada não, bobagem!

IPÊ AMARELO

Postado na janela
da casinha onde morava,
de longe eu olhava
para uma árvore seca,
morta, entre tantas outras
de folhagem espessa e exuberante.
Admirava cada uma daquelas
com seus contornos e ramagem multiverde
que instituíam um quadro fascinante,
primorosamente desenhado pela natureza…
E apiedava daquela cujo tronco,
aparentemente infecundo
e galhada totalmente desfolhada,
feia, desfigurada,
que certamente seria cortada,
em lenha transformada,
para alimentar o forno de alguma bolandeira.
Outro dia,
quando voltava à vista para a mesma direção,
um novo visual me chamou a atenção;
deparei-me com uma aquarela;
e aquela árvore de galhada seca, estava florida,
unicolorida, totalmente amarela…
Encantadoramente bela!
Os meus olhos em princípio,
diante da admiração,
ficaram nela fixados;
depois buscavam em todas as direções
algo que pudesse ser comparado
com tamanha perfeição.
O seu brilho parecia reluzir
como se fosse ela
uma estrela entre as outras espécies.
A sua cor destacava-se,
a beleza refletida era tão fascinante e divina,
que por bucólica sina
acreditei, entre os devaneios meus,
estar assistindo mais do que uma obra prima da natureza;
e que ali, só poderia estar repousando,
a sublime luz de Deus!

Fonte:
Colaboração do Autor

>Roberto Pinheiro Acruche (Meus Poemas n. 10)

>

PRECISO DE ESQUECER

Já tentei te esquecer,
ignorar-te
e não mais saber de ti.
Mas quando te vejo
reacende o meu desejo
meu coração estremece
meu peito aquece
tudo em mim enlouquece
tanto quanto sou louco por ti.
A tua imagem me fascina
me alucina
me faz navegar nos sonhos
no mar das ilusões,
flutuar no mundo da fantasia…
E pensar que um dia,
pelo menos um dia…
Possa tê-la em meus braços
sentir os teus abraços
o sabor dos teus beijos
e matar os meus desejos.
Ah… já tentei te esquecer
ignorar-te
e não mais saber de ti.
Mas quando te vejo
enlouqueço de desejo
me encanto
meu coração entra em pranto
e explode de amor.
Eu sabia que te amava,
que te amava muito,
só não sabia que era tanto.
Preciso te esquecer!

BARCO FORA D’ÁGUA

Viajei, rompi fronteiras,
naveguei durante dias
noites inteiras,
agora sou somente,
um barco fora d’água.
Perdi o meu mundo…
Não tenho remo,
leme, nem direção…
Meu destino é a solidão!
Não vejo mais
o mar salpicado de estrelas
e os reflexos prateados
do luar ascendendo.
A luz do sol já não me alcança,
sinto que estou perecendo
ainda que amarrado
ao verde da esperança.

MADRUGADA

Quando chego, em casa,
já de madrugada,
trazendo em mim
o teu perfume,
fico louco de ciúmes
do travesseiro que abraças,
do cobertor que te aquece.
Invejo as manhãs que te vêem acordar,
o chuveiro que te banha,
a toalha que te seca.
Quando chego, em casa,
já de madrugada,
cansado da emoção
de longa noite embalada,
ainda sentindo o sabor dos teus beijos…

Dá-me um desejo
de ser tua alvorada
para clarear com ternura
o teu rosto e
apanhar-te pela cintura,
já descansada
e ter de novo em meus braços
o teu corpo descoberto
sentindo os teus abraços
o sabor dos teus beijos
matando meus desejos.
Quando chego, em casa,
já de madrugada
o que me acode
é a esperança
de outra noite embalada,
com quem não me sai da lembrança!

ARREPENDIMENTO

Hoje eu me agredi,
me ofendi,
me injuriei, xinguei-me,
falei mal de mim;
contrariei o meu gosto,
bati em meu próprio rosto
e ri da minha cara.

Hoje eu sei
o que é sofrimento
a dor, o lamento.
o arrependimento
por ter deixado você!

CONFIDÊNCIAS AO LUAR

Lua, mística e de rara beleza
inspiradora dos enamorados,
assistente de segredos guardados…
confessados a vossa realeza!

Qual trovador não vos citou um verso
encantado com a luz prateada
ou caminhando pela madrugada,
ainda que, em estado adverso?

Crendo em vossa majestade, confesso,
que vos prestei versos e confidência…
recitei poemas com eloquência…

-Sorvido por grande amor, nele imerso,
perdido de paixão neste universo…
condenado… venho pedir, clemência!

Fonte:
O Autor

>Florbela Espanca (Livro de Poemas)

>

FOLHAS DE ROSA

Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo…

E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente…

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado…

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia…

NAVIOS-FANTASMAS

O arabesco fantástico do fumo
Do meu cigarro traça o que disseste,
A azul, no ar, e o que me escreveste,
E tudo o que sonhastes e eu presumo.

Para a minha alma estática e sem rumo,
A lembrança de tudo o que me deste
Passa como o navio que perdestes,
No arabesco fantástico do fumo…

Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros,
Têm o brilho rutilante de astros,
Navios-fantasmas, perdem-se a distância!

Vão-me buscar, sem mastros e sem velas,
Noiva-menina, a doidas caravelas,
Ao ignoto País da minha infância…

SUAVIDADE

Pousa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.

Hás-de contar-me nessa voz tão qu’rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.

E hás-de adormecer nos meus joelhos…
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves…

Hão-de pousar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves…

TOLEDO

Diluído numa taça de oiro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é nosso!
O sol a rir… Vivalma… Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer…

As tuas mãos tacteiam-me a tremer…
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
- Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo…
Uma torre ergue ao céu um grito agudo…
Tua boca desfolha-me num beijo…

NIHIL NOVUM

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egipto com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!

SE TU VIESSES VER-ME…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

LOUCURA

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada! …

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada! …

Pesadelos de insónia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!

À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera… quebra-me o encanto

FUMO

Longe de ti são ermos os caminhos.
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são outonos: choram… choram…
Há crisantemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos! …

A TUA VOZ NA PRIMAVERA

Manto de seda azul, o céu reflecte
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios húmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Fonte:
ESPANCA, Florbela. Poemas Selecionados. Disponível no Portal Domínio Público.

>Roberto Pinheiro Acruche (Meus Poemas n. 9)

>

OBRA DIVINA

Veja Amor, como é linda esta paisagem!
A luz dourada do sol sobre a mata,
a água cristalina da cascata…
Indescritível, tal uma miragem.

Olhe aquelas árvores, que beleza!…
Esta vastidão plena, tão florida,
exuberantemente colorida,
climatizada pela natureza.

Cenário encantador, impressionante!
Harmoniosamente perfumante,
modulado com a magia do amor…

Minudenciosamente preciso,
somente quem criou o paraíso
adviria… ser seu escultor!

ABSTINENTE

O que mais ambicionas que eu faça
para receber de ti o que sonho?
Vendo-te tão reservada, suponho…
Que nessa união, não sintas mais graça.
Por que insistes negar-me o teu carinho
se a ti me entrego com amor e ternura,
e deixas-me sentir a desventura
de estar só, mesmo não estando sozinho?

Imploro teu amor… e abstinente…
Já rezei, chorei, pedi pôr favor…
Contudo persistes indiferente.

Rejeitado, vou padecendo a dor,
aprisionado por este amor,
transformado num pedaço de gente!

PALHAÇO

Eu sou palhaço!
Eu sou palhaço!…
Você na está vendo?
Eu sou o palhaço que brinca,
que ri e que chora!

Brinco porque tenho alma de criança,
divirto pelo prazer de fazer sorrir…
De fazer sorrir a criança alegre,
a criança triste,
a criança que tem e a que não tem brinquedo.

Mas eu também choro!
Eu choro!…
Eu choro pela criança abandonada,
pela criança que sofre,
pela criança maltratada,
pela criança que tem fome,
pela criança incompreendida,
pela criança violentada.

Mas eu continuo palhaço
da cara pintada
fazendo dá risada.

Eu tenho que alegrar a criançada!
Viva… Eu sou palhaço, no circo
ou aqui fora,
não importa o lugar e a hora,
eu sou o palhaço
que brinca, que ri e que chora.

CONTRA PONTO

Quando a saudade aperta
e o ciúme rasga o coração,
entre a raiva e a paixão…
travado no silêncio,
no momento mais forte
da imaginação…
Xingo-te, injurio-te,
ofendo-te com as mais agressivas
e insultuosas palavras.
Chamo-te, de cortesã,
devassa, meretriz,
safada, ordinária, vadia…
Mas quando me procuras
enlouquecida de desejo…
atiro-me em teus braços,
te abraço, te beijo
chamo-te de paixão
mulher da minha vida…
e entrego-me as volúpias
do teu amor;
e no desagravo
deixo de ser senhor
para ser teu escravo,
servil e devotado amante
acorrentado aos teus desejos.

POEMA PARA O MEU AMOR

Em você encontro a paz
a ternura que me satisfaz.

Em você encontro o perfume
das flores, o calor da paixão
e o ardor do ciúme.

Os seus lábios rosados,
as vezes pintados de carmim,
tão sedosos e formosos
são como as flores do alecrim.

Você é o meu aconchego,
minha inspiração,
a razão dos meus sonhos,
minha vitória, meu troféu,
a estrela do meu céu.

Você é minha alegria,
meus versos, minha poesia,
a melodia da minha cantiga,
o amor da minha vida.

Fonte:
O Autor

>Jacy Pacheco (Poemas Avulsos)

>

AMBIÇÃO DO PINGO D’ÁGUA

A noite esqueceu
no côncavo de uma folha
vizinha de um riacho,
um pingo d’água.

Veio o sol
como uma rosa grande ardendo em febre
envolveu a pequenina gota
num punhado de cores.

Pingo d’água acordou,
olhou para baixo,
gostou do riacho…
Sonhou ser assim,
ser riacho também…

E correr,
e crescer,
ir além…
ser um rio bem grande,
maior do que ninguém…

veio o vento
de repente
e desgarrou da folha o pingo d’água.
Pingo d’água morreu.
Pingo d’água perdeu-se no riacho.

Pingo d’água sou eu.

PRIMAVERA DO MUNDO

Primavera do mundo, tu virás!
Talvez não venhas na tranqüilidade
de um dia claro e musical.
Trarás as mãos ensangüentadas
e as rosas se abrirão todas vermelhas.

Mas chegarás!
E extirparás a tirania
e todos os princípios egoístas.
E as máquinas da paz
revolverão o solo redimido
pelo sangue de irmãos idealistas.

Primavera do mundo, eu te entrevejo
numa nesga de sol recém-nascido,
anunciando o bem dos homens livres,
a vitória do amor, do ideal fecundo!

Aguardo o teu instante triunfal
primavera do mundo!

O ATEU

Era médico e jovem. Dizia
impropérios ao Deus que adoramos:
- Terra e mar, sol e sal, penedia,
vales, rios, e peixes, e ramos,

são produtos do acaso. Eu queria
defrontá-lo onde está, onde estamos.
Se existisse, por certo O veria.
Ora, Deus! Na ciência creiámos!

Mas, um dia, se viu a tratar
de seu filho… Que esforço gigante!
Tudo fez na aflição de o salvar!

E, prevendo-lhe o último adeus,
o doutor, a buscar céu distante,
suplicou: – Ajudai-me, meu Deus!

CONFORMISMO

Lembrar é bom… Já não me abraso
ao suscitar recordações:
glórias colhidas ao acaso
e as mágoas, Vida, que me impões!

Uns me trataram com descaso,
ungiram-me outros de atenções.
E mergulhei no meu ocaso
de frios sonhos e paixões…

Lembrar, após longa jornada…
Sustar um pouco a caminhada.
revendo a etapa percorrida…

Lembrar é bom.., deixando em paz
glórias e mágoas para trás,
para aceitar melhor a vida.

Fontes:
J.G . de Araujo Jorge. Antologia da Nova Poesia Brasileira- 1a ed. 1948
Magia dos Sonetos .

>Roberto Pinheiro Acruche (Meus Poemas n. 8)

>

ELA E A JANELA

Continuamente eu ficava
olhando para a janela,
na esperança que ela
ali viesse chegar.
E quando chegava,
a janela a emoldurava;
enquanto eu, distante, fitava
sua figura encantadora.
O coração sorria
tomado de alegria
de vê-la, como queria,
radiante e feliz.
Era um quadro admirável
uma escultura notável,
lindo momento de amor!
Assim, era a cada dia
os nossos encontros!
Não via à hora, de
pertinho ouvir a sua voz,
afagar as suas mãos,
sentir as batidas de seu coração.
Queria senti-la num abraço…
E isso, não aconteceu
por mais que almejássemos…
Nossos encontros marcados,
só eram realizados, quando ela, divinamente… bela…
Postava-se, naquela janela!

PERCEPÇÃO

Sinto alguma coisa
indeterminada, agitando-me,
querendo ser exposta,
sem que eu compreenda
e saiba como agir.

É uma sensação incômoda,
perceptível, complexa.

Quero olhar para fora,
mas o que adianta…
se o que sinto permanece
por dentro, na alma!

PASSARINHO

Passarinho bate asa
Cantarola e faz o ninho
Do amor vêm os ovinhos
Ampliando a criação…
Com esmero incomum
Sustenta os filhotinhos
De biquinho a biquinho
Perpetrando a alimentação.
Passarinho que bate asa
Que nunca abandona o ninho
Até que os filhotinhos
Batam azas e gorjeando
Saiam por aí voando
Construindo novos ninhos
Ampliando a criação…

PONTO FINAL

Apanhei a caneta,
que estava sobre a escrivaninha
e comecei a escrever,
no bloco que estava ao lado,
a carta de despedida.

Havia tomado uma decisão!

Um amor de tantos anos,
vivido com tamanha intensidade,
com total cumplicidade,
estava nos seus derradeiros momentos.

A impressão, é que
seria eterno, indissolúvel,
inquebrantável…

Mas acabou!
Sim… acabou definitivamente…
Não dava mais para continuar.

Porém, mais difícil que acreditar
era iniciar a missiva.

Rasguei a primeira folha…
Rasguei a segunda, e adentrei
a madrugada desfolhando o bloco
sem conseguir dar início ao texto
que pudesse explicitar a razão.

No alvorecer, na última folha,
em estado dúbio,sem saber começar,
escrevi apenas…
Não sei o que dizer… PONTO FINAL.

Fonte:
Colaboração do Poeta

>Pedro Du Bois (Poemas Inéditos)

>

FINAL

No final do dia
aproximado ao cansaço
trazido dos ofícios
não estou
presente. Ausentado ao tempo
não traduzido, esmaecido
nos alvoreceres da noite

amanhecido em finais
de tardes recompostas

minha ausência despercebida
em minúcias: a estrada
bloqueando a entrada.

TRANSFORMAR

Sobre o despovoado: tapera

(rancho espalhado
ao mar, barco
encalhado em areias
límpidas, peixe
saciado em vontades)

sobre a beleza
paira: Itapema

(rancho desconsiderado
em altos prédios, carro
congestionando ruas,
peixe desesperado
em águas impuras).

ESTAR

Não estamos, minha senhora,
à espera do despropositado;
as vírgulas assinalam distanciamento;
estamos, minha senhora, a praticar atos
necessários no encaminhamento
da história aos primórdios: cada fato
se reporta em cadeia
ao fato inicial; minha senhora,
o esforço finda o caminhar
e do início sentimos
o ordenar das coisas;
ao primeiro soprar da vela
em chama, minha senhora,
o despertar do monstro
se apresenta: assim a espera
e a entrega.

CONSTRUIR

O telhado impede
a natureza

o piso
concede aos pés
a maciez

as portas, bifurcações
do acaso: entrar
sair
ficar na soleira
voltado ao tempo
original da hora

janelas permitem observar
a rua pelo lado de fora.

REINSTALAR

Reinstalo a vida
e a remeto ao final:
o mágico e o profeta
duelam crenças

a carta marcada
indica a morte
reinventada: vida
na sucessão
da hora
induzida
ao desconhecimento

a vida se distancia
no espaço em acreditar
e descobrir do truque
a artimanha: desvanecer
em barulhos diários de antigas
reconstruções.

ESQUECER

Inolvidável: a lembrança se aventura
em paralisações faciais

o medo
transparece
o suor
do corpo

sou o mesmo
em cabelos ralos
em cabelos brancos
em olhos ansiosos

com que procuro
na memória o inolvidável
fazer de conta.

Fonte:
O Autor

>Roberto Pinheiro Acruche (Meus Poemas n.7)

>

PAIXÃO OCULTA

Durante anos nos olhávamos,
trocávamos amabilidades
e falávamos sobre muitos acontecimentos…
Coisas do dia a dia, episódios da vida,
ocorrências antigas…
E a nossa amizade,
já amadurada pelo tempo,
não deixava que abríssemos
os nossos corações, para revelar
um sentimento que germinava
no peito e que a cada dia ficava mais
evidente, flagrante e manifesto.
Beijando-lhe a face,
gesto comum em nossas saudações,
ao sentir o seu perfume,
não resistindo o impulso,
exclamei:
- Quisera sentir esse seu perfume
beijando seus lábios!
Um olhar direto, súbito, ela me dirigiu;
silenciosa, espichou os braços
afastando-nos de um tenro abraço
e caminhamos.
Nada mais, apesar de conversarmos,
ponderamos sobre o ocorrido.

Mas ficou visível, claro, indubitável,
que algo mais intenso nos unia; e nossas
reações demonstraram confessadamente,
que ocultávamos o que verdadeiramente sentíamos.
Dias decorreram, sem que atrevessemos
insinuar, qualquer manifestação,
a propósito do meu repentino gesto.
Razões provocadas pelas nossas existências,
talvez, em decorrência de nossos destinos,
nos afastaram por certo período.
Até que, num inesperado encontro,
sem que nada disséssemos,
nos entregamos num beijo prolongado,
voluptuoso, fazendo revelar todo o
desejo que fluía de nossos instintos…
Antecedendo a um novo momento,
onde deleitamos toda a sensação
de uma conjunção amorosa,
com a voracidade que nossa avidez ansiava.

ILUSÃO

As pessoas me perguntam:
- Afinal, onde está aquele grande amor,
aquela paixão tão intensa, tão bonita,
que te deixava risonho, radiante,
um legítimo modelo de felicidade?
Daí, esboçando um sorriso, respondo:
- Tudo, como na vida,
um dia acaba
e o tempo germina o esquecimento…
Não existe mais nada,
Terminou.
Ah… Quem me dera fosse verdade!…
Que nada mais existisse…
Que livre desse amor me visse…
Eu não esboçaria esse sorriso triste,
não sentiria essa saudade
que me lanha o peito,
que me transforma,
que me faz desse jeito…
Autêntico modelo de infelicidade!

MEU SEGREDO

Por mais que eu queira
Não posso dizer que te amo
Mesmo te amando intensamente.
Por mais que te queira
Não posso revelar o tamanho da minha paixão.

Por mais que eu queira
Não posso estar ao teu lado
Sentindo as tuas carícias
O toque sutil de tuas mãos sedosas
O sabor dos teus beijos.

Por mais que eu queira
Também não posso te esquecer…
Tu estas em meus sonhos
Nas minhas fantasias
Nas minhas ilusões
Nas minhas orações
Nas minhas horas de nostalgia
Nas horas que canto, grito o teu nome,
que este amor me consome
e me faz sofrer…
Não posso te esquecer.

Se algum dia
Tu olhares para mim
Saberás enfim
Que não vivo apenas por viver…
Vivo, porque te amo.

Fonte:
O Autor

>Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Entre Amigos I)

>

Queridos amigos e queridas amigas.

Estamos apresentando mais um projeto ENTRE AMIGOS, desenvolvido pelo site Alma de Poeta – http://www.sardenbergpoesias.com.br/ , para divulgar poesias de nossa autoria e de amigos poetas conhecidos aqui na net.

No número de hoje temos a grata satisfação de trazer os seguintes amigos poetas
Ligia Antunes Leivas
José Feldman
Antonieta Elias Manzieri
Dária Farion

Espero que gostem desse ENTRE AMIGOS, feito com muito carinho para todos vocês.
Esperamos todos para um cafezinho no nosso espaço cultural http://www.sardenbergpoesias.com.br/
Um forte e terno abraço.

A. M. A. Sardenberg
————————————
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis “Cidade Poema”/RJ
SOL POENTE

Quando contemplo ao longe o sol poente
atrás do monte lá no infinito
sonho acordado o sonho mais bonito,
e tenho a fé de um homem forte e crente.

A luz suave, quase se apagando,
acende em mim um fogo tão ardente,
e ao pensar eu fico imaginando
o amor se pondo assim tão de repente.

O tempo passa e vem a madrugada
como um açoite castigando a gente
na aurora fria, escura e tão calada!

Oh… breve tempo tenha dó de mim
por que flagela um coração carente,
me machucando tanto, tanto, assim!

Lígia Antunes Leivas
Pelotas/RS
ENTRELINHAS

Na insensatez dos conceitos
emergem desejos…
Quebra-se o elo:
desequilibra-se o universo.

A expectativa antessonha auroras
neste querer maior
de peles de veludo unidas
no desenho de nós mesmos.

Na hora cálida da tarde
atiçam-se todas as luzes…
Um pouco de mim, de ti, de nós
e a explosão de todos os sentidos.

Cada espaço traz a medida certa
…um oceano cresce entre nossas vidas
e nesta separação entre desenganos
descubro-me atônita!

Olhos ao longe (tão longínqüa distância!…)
Sou voz perdida, sou desterro
sou muito menos agora
que as entrelinhas deste poema…

José Feldman
Ubiratã/PR
SIMPLESMENTE SENTIDO

Quando sentir o vento tocar seus ouvidos,
sou eu
sussurrando o meu amor por você.

Quando sentir as gotas da chuva sobre seu rosto,
são as minhas lágrimas
que te encharcam com meu amor.

Quando sentir o calor de um dia de verão,
imagine que é o meu corpo
te abraçando e
te dando o calor de meu coração.

Quando olhar pela janela de seu quarto e vir as estrelas piscando,
são meus olhos
que piscam aos milhares
as palavras
“Eu te amo!”

Quando passear pelo parque e vir uma árvore,
abrace-a e feche os olhos,
estará abraçando a mim,
meu corpo, meu coração
junto a si.

E se olhar para o alto desta árvore
ouça o farfalhar das folhas
É minha voz dizendo:
Eu sou teu para todo o sempre,
Volta para mim!

Antonieta Elias Manzieri
São Pedro/SP
AUSENTE

Ando dispersa de mim,
não sinto minha presença,
não quero ficar assim,
não suporto essa ausência.

Busco e rebusco meu eu
num labirinto medonho.
O que foi feito de mim?
Onde estão os meus sonhos?

Só eu posso me reencontrar
nessa estrada sem fim.
Mas estou tão longe de mim…
Será que ainda consigo me achar?

A distância é assustadora,
eu desconheço o caminho.
Nem uma mão consoladora
para curar as feridas
causadas pelos espinhos.

Nada, ninguém, só eu
a clamar desconsolada…
Isolei-me dos amigos meus,
perdida nessa longa estrada.

E agora, que rumo seguir?
Será que valeu a pena,
por coisas tão pequenas,
destruir o meu porvir?

Dária Farion
Pinhais/PR
CARISMA DIVINO

Ter na alma o afeto,
Na palma da mão a vida.
Encerrar no coração a imagem
Na mente a coragem.

Ter certeza,
Gritar com firmeza:
Meu filho , és meu rei
meu herói.

Fonte:
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

>Maranhão Sobrinho (Poemas Avulsos)

>

O GATO

Enquanto mamãe Chiquinha
no quarto o caçula embala,
com os contos da Carochinha,
os dois namoram na sala.

-Tu não te zangas Corinha,
se eu te beijar? Anda…fala!
-Não sei, não, diz-lhe a priminha
e um beijo bem longo estala.

A mãe, que, ao menor ruído,
se assusta, pergunta: -Cora,
que foi isto? e atenta o ouvido.

Diz-lhe a filha que a escutou:
-Não foi nada, não, senhora:
foi o gato que espirrou!

SOROR TERESA

… E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado…

somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado…

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa…

Não creio que, de amor, a morte venha,
mas, sei que a vida da soror boiava
dentro dos olhos do Senhor da Penha…

Papéis Velhos… Roídos pela Traça do Símbolo, 1908

TELA DO NORTE

No estirão, percutindo os chifres, a boiada
monótona desliza; ondulando, a poeira,
em fulvas espirais, cobre toda a chapada
em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.

Baba de sede e muge a leva; triturada
sob as patas dos bois a relva toda cheira!
Boiando, corta o ar a mórbida toada
do guia que, de pé, palmilha à cabeceira…

Nos flancos da boiada, aos recurvos galões
as éguas, vão tocando a reses fugitivas
o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões…

E, do gado o tropel, com as asas derreadas
quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,
arrancam coleando as emas assustadas…

Estatuetas, 1909

MÁRTIR

Das cinco chagas de pesar, que exangue,
Trago no triste coração magoado,
Descem rosários de rubi de sangue
Como do corpo do Crucificado…

Pende-me a fronte sobre o peito, langue,
De infinitas Traições alanceado…
E, na noite da Mágoa, expiro exangue
Na Cruz de Pedra da Paixão pregado…

Subi, de joelhos, expirando, o adusto
Desfiladeiro enorme do Calvário…
Sob o madeiro da Saudade, a custo!

Sem consumar meus sonhos adorados,
Oiço, no meio do Martírio vário,
O chocalhar sacrílego dos Dados…

Fontes:
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
Antonio Miranda

>Pedro Du Bois (Livro de Poemas)

>

REAFIRMAÇÕES

Reafirmo a crença no futuro
diz o homem moribundo

o medo da inexistência tolhe
seu gesto de contrição: a sabedoria
reversa redescobre os mitos
onde permanece no pensamento
adverso de ser o nada redundante

reafirmo a esperança no presente
afirma o homem em despedida.

CHOVER

Sou a sede
a fome
a garra com que o pássaro
retira d’água o peixe
que se oferece
em superfícies

na profundeza
o abismo se fecha
na escuridão do tempo
naufragado

minha fome se completa
minha sede busca a gota
terminal dos ares.

REMANESCENTES

Somos todos
único remanescente
da tormenta: carregamos tormentos
distribuídos em igualdade

(talvez não sejamos menos
passíveis do que os outros:
é possível ver a raiva
sob o tapete)

entre todos
um: reflexo
amiudado em certezas.

A carreira em perseguido
insucesso.

LONGE

Longe em ares
sou vácuo. Diferença
indistinta entre o som
e o nada. Aconselhado
retorno ao vício em respiração
diária: anoto a solicitude
do pedido: ares
ininterruptos. No vácuo
me encontro em corpos
decompostos: retorno ao ovário
e me aplacento.

O vácuo permite aos ares
o desfazimento dos elementos.

A decomposição do corpo
no irrealizável.

HAVERES

Na terra que não é sua: o proprietário
na vontade que lhe escapa: o pânico
na descoberta da hora: o tempo
na desconfiança do ato: o fato
na memória encoberta: há quem conte
sobre o outro lado
memorizado em estrofes
intercaladas: há
o ranger de dentes
e a dor de cabeça
pelo não acontecido

na forma pública: o todo recolhido
ao sacrifício.

Fonte:
Colaboração de Pedro Dubois (Poemas Inéditos)

>Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Projeto 4 em 1) numero 3

>

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (São Fidélis)
ALUCINAÇÃO

Tentei em vão suavizar a vida,
Tornar mais leve o fardo tão pesado,
Fazer da volta o ponto de partida,
Buscar na ida o amor tão cobiçado!

Eu quis fazer da pauta a partitura
De um canto leve, doce e tão suave,
Cantar a vida com toda a ternura,
Voar em sonhos como uma ave!

Eu quis da luz o raio de esperança
Mas, por castigo, só me veio a treva.
Não me atrevo e guardo na lembrança
O que a serpente aprontou pra Eva…

E desse jeito fico aqui quietinho,
No meu cantinho, bem acompanhado,
Pois não será por falta de carinho
Que comerei a fruta do pecado!

Antônio Roberto Fernandes (São Fidélis)
LADAINHA

Olhai pra mim, mulher da minha vida!
Senhora dos meus sonhos, me escutai!
Minh’ alma já não sabe aonde vai,
neste vale de lágrimas perdida.

Com a luz de vossos olhos me mostrai
um caminho, uma chance, uma saída,
Senhora finalmente aparecida,
meus negros horizontes clareai.

Não tenho vocação para o martírio,
perdão se é heresia o meu delírio
mas nestes lábios que têm fogo e mel.

Arrebatai-me agora, ao gozo eterno
para que eu – que já conheço o inferno -
possa, convosco, conhecer o céu!….

Guilherme de Almeida (São Paulo)
NÓS

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos…

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
—” Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!”

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos…

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto…
Hão de falar os teus cabelos brancos…

TROVAS

Saltando apenas num pé,
negrinho, maroto e arteiro,
o saci, nada mais é,
que o capeta brasileiro…
CAROLINA RAMOS/SP

Que falta me faz, Senhor,
um anjo de intenso brilho…
que foi exemplo de amor
e me chamava de filho!
JOÃO FREIRE FILHO/RJ

Sentimos tanta alegria
quando estamos abraçados,
que, para nós, qualquer dia
é Dia dos Namorados!
DIVENEI BOSELI/SP

Vou definir a saudade
em claro e bom português:
- A Saudade é uma vontade
de viver tudo outra vez!
ANA CECÍLIA FERRI SOARES/SP

Fonte:
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

>Roberto Pinheiro Acruche (Lançamento de Trovas & Poemas n.21 – Novembro de 2010)

>

Faça o download AQUI.

Pra falar sozinho, a esmo,
o louco quis inovar,
telefonando a si mesmo
do orelhão pro celular!…
Sérgio Bernardo-RJ

Meu coração, tem cuidado…
embora ilusões recolhas,
és como o arbusto cansado
que se despede das folhas…
Carolina Ramos – Santos-SP

Quem só vive de aparência
maquilando o que é real,
é vidro na sua essência…
bem longe de ser cristal.
Francisco José Pessoa-CE

As pessoas nunca morrem,
simplesmente elas encantam…
vivem sempre e nos socorrem

com as obras que aqui plantam!
Nei Garcez-PR

Para mim era uma ofensa
se acaso erguias a voz,
mas foi tua indiferença
que ergueu um muro entre nós.
Tereza Costa Val – MG

A moça perdeu o rumo
quando o namoro esquentou…
E atrás da moita de fumo
quase que a cobra fumou…
Maria Nasc. Santos Carvalho-RJ

Com dose medicinal
e um equilíbrio perfeito,
não há carinho anormal
e nenhum homem sem jeito!
Marilene Bueno– RS

Estas trovas, e muito outras, além de poemas, você pode fazer o download aqui do impresso Trovas e Poemas n.21, de Roberto Pinheiro Acruche.

Fonte:
R. P. Acruche

>João Barbosa (Balaio das Letras)

>

MINHA MORADA

Encostada ao pé da serra,
Num pedacinho de terra,
Construí minha morada.
Vivo cheio de esperança,
Como vida de criança,
Não desconfio de nada.

Minha casa é amarela,
Bem na frente uma janela
E uma varanda espaçosa.
No meu pequeno jardim,
Um belo pé de alecrim
E muita flor perfumosa.

Uma coisa mui bonita,
Toda tarde nos visita,
Um casal de seriema.
São coisas da natureza,
Num recanto de beleza,
Num pedacinho de Extrema.

Tem muito amor e vida,
Nesta Terra querida,
Que me viu nascer.
É motivo de emoção,
Bate forte o coração
Que o peito faz doer.

EXTREMA

Subi no alto da serra
E não pude me conter,
As belezas desta terra
Que Deus fez pra se ver.

Vi os montes e as matas;
Também os vales e colinas;
Vi montanhas muito altas
E as verdejantes campinas.

Vi também minha cidade
Encostada ao pé da serra;
Quão grande felicidade
No meu coração encerra.

- Extrema cidade querida,
Berço de encantos reais;
Tu és a mais preferida
No Sul de Minas Gerais.

VIDA SOFRIDA

Meu amigo está velho
E muito cansado;
Quanta recordação
Do tempo passado!
Eu perguntei:
- E a sua vida?
Ele respondeu:
- Está muito sofrida!

Há tempos atrás
Eu vivia contente;
Sempre cantava
Muito sorridente;
Chegou a velhice
E a necessidade,
Deixei o sertão
E vim pra cidade.

Procurei meu direito
Na previdência;
Fiz meu pedido
Com certa urgência,
Que me concedesse
O meu benefício;
Pra conseguir
Foi um sacrifício.

Esta é a vida
De um trabalhador,
Que muito lutou,
Derramou suor,
E nunca enjeitou
Serviço pesado;
E hoje só vive
Num banco sentado.

NA SOMBRA DO BOSQUE

Na sombra do bosque
A brisa refrescante
Passa, a todo instante;
E as borboletas multicores
Ruflam as asas, com singeleza;
Saudando a natureza
Por entre as belas flores.

Na sombra do bosque
O garboso bem-te-vi
Pousando aqui e ali
Na ramagem perfumada
Solta seu belo canto,
Que se admira tanto
O caminheiro da estrada.

Na sombra do bosque
Tem pássaros canoros
De cantos sonoros
Com tanto queixume.
A relva florida
Tem beleza, tem vida,
E suave perfume.

HERÓIS DA LIBERDADE

Em terras estranhas,
Distante das montanhas
Desta Terra brasileira,
Muitos foram obrigados
A ficarem exilados
Além da nossa fronteira.

Alguém até inocente,
Longe da nossa gente,
Cabisbaixo e calado;
Enfrentou sério dilema,
Pra resolver o problema
E voltar ao nosso lado.

Os heróis da nossa Terra
Enfrentaram fortes guerras
E lutaram pra vencer;
Em busca da liberdade,
Lutaram com fidelidade
Sem jamais esmorecer.

A nossa liberdade,
Devemos na verdade,
Aos heróis altaneiros,
Que com grande glória,
Alcançaram a vitória
Neste país brasileiro.

Fonte:
http://www.balaiodasletras.com.br

>Luis Guimarães Junior (Poemas Escolhidos)

>

NOITE TROPICAL

Desceu a calma noite irradiante
Sobre a floresta e os vales semeados:
Já ninguém ouve os cantos prolongados
Do negro escravo, estúpido e arquejante.

Dorme a fazenda: — apenas hesitante
A voz do cão, em uivos assustados,
Corta o silêncio, e vai nos descampados
Perder-se como um grito agonizante.

Rompe o luar, ensangüentado e informe,
Brotam fantasmas da savana nua …
E, de repente, um berro desconforme

Parte da mata em que o luar flutua,
E a onça, abrindo a rubra fauce enorme,
Geme na sombra, contemplando a lua.

Sonetos e rimas (1880)

JAGUAR

Rosna o fulvo jaguar, triste e dormente,
No seio da floresta: — a fera inteira
Dobra à velhice, e a névoa derradeira
Cobre-lhe a fauce lívida e impotente.

O imundo inseto, a mosca impertinente
Zumbe-lhe em torno; — a cobra traiçoeira
Fere-lhe a cauda inerte, e a aventureira
Formiga morde-o calma e indiferente.

Apenas quebra o sono funerário
Do velho herói o grito, entre as folhagens,
Do cordeiro medroso e solitário;

Ou, através das tropicais aragens,
O tropel afastado, intenso e vário
D’um rebanho de búfalos selvagens.

Sonetos e rimas (1880)

“O CORAÇÃO QUE BATE NESTE PEITO”

o coração que bate neste peito,
E que bate por ti unicamente,
O coração, outrora independente,
Hoje humilde, cativo e satisfeito;

Quando eu cair, enfim, morto e desfeito,
Quando a hora soar lugubremente
Do repouso·final, — tranqüilo e crente
Irá sonhar no derradeiro leito.

E quando um dia fores comovida
— Branca visão que entre os sepulcros erra —
Visitar minha fúnebre guarida,

O coração, que toda em si te encerra,
Sentindo-te chegar, mulher querida,
Palpitará de amor dentro da terra.

Sonetos e rimas (1880)

PAISAGEM

O dia frouxo e lânguido declina
Da Ave-Maria às doces badaladas;
Em surdo enxame as auras perfumadas
Sobem do vale e descem da colina.

A juriti saudosa o colo inclina
Gemendo entre as paineiras afastadas;
E além nas pardas serras elevadas
Vê-se da Lua a curva purpurina.

O rebanho e os pastores caminhando
Por entre as altas matas, lentamente,
Voltam do pasto num tranqüilo bando;

Suspira o rio tépido e plangente,
E pelo rio as vozes afinando,
As lavadeiras cantam tristemente

Sonetos e rimas (1880)

FORA DA BARRA

Adeus! Adeus! Nas cerrações perdida
Vejo-te apenas, Guanabara altiva…
- Varella. – Ao Rio de Janeiro.

Já vamos longe… Os morros benfazejos
Metem na bruma os cimos alterosos…
Ventos da tarde, ventos lacrimosos,
Vós sois da Pátria os derradeiros beijos!

As alvas plagas, os profundos brejos,
Ficam além, além! Adeus, gostosos
Tormentos do passado! Adeus, oh gozos!
Adeus, oh velhos e infantis desejos!

Na fugitiva luz do sol poente
Vai se apagando – ao longe – tristemente
Do Corcovado a majestosa serra:

O mar parece todo um só gemido…
E eu mal sustenho o coração partido,
Oh terra de meus pais! Oh minha terra!
1873.

A VOZ DAS ÁRVORES

Enquanto os meus olhares flutuavam,
Seguindo os vôos da erradia mente,
Sob a odorosa cúpula fremente
Dos bosques – onde os ventos sussurravam,

Ouvi falar. As árvores falavam:
A secular mangueira fielmente
Repetia-me a rir o idílio ardente
Que dois noivos, à tarde, lhe contavam;

A palmeira narrava-me a inocência
De um brando e mútuo amor, – sonho que veste
Dos loiros anos a feliz demência;

Ouvi o cedro, – o coqueiral agreste,
Mas, excedia a todas a eloqüência
Duma que não falava: – era o cipreste.

PAULO E VIRGÍNIA

Fomos um dia alegres, estouvados,
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.

Risonhos, venturosos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.

Seus cabelos – enquanto ela corria,
Voavam, loiros com a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.

Por fim voltamos – em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia…
Resta a saudade que inspirou meus versos.

Fonte:
Academia Brasileira de Letras

>Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Projeto 4 em 1) numero 2

>

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (São Fidélis/RJ)
RUMO DA VIDA

Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada…

Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema…

Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!

José Antonio Jacob (Juiz de Fora/MG)
ALMINHA

Desperto, pois que o sol já está lá fora,
E ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.

Que corre alegre, rodopia e trança
Entre o florado que a manhã decora,
Depois, como uma folha, vai embora
Seguindo a brisa que na tarde avança.

Não se descuide minha alminha boa
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina e o tempo voa!…

E, antes que o dia, ao alto, se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve,
E acomoda-se, no meu colo, e dorme…

Luiz Caetano Pereira Guimarães Junior (1847 / 1898)
VISITA À CASA PATERNA

Como a ave que volta ao ninho antigo
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos, olhou-me grave terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala… (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade
Minhas irmãs e minha mãe… O pranto

jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.

Pedro Emílio (São Fidélis/RJ)
Planta um beijo em meu Jardim
meu amor, quando te fores,
que ao ver teu beijo florir
murcharão as outras flores!

Fonte:
Antonio Manoel Abreu Sardenberg

>Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Projeto 4 em 1) numero 1

>

Voz da Razão
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis “Cidade Poema”

Quando minha razão fala,
com a voz do coração,
tudo em mim então se cala
e minha vida se embala
na mais sublime canção.

E quando a luz matutina
vem meiga me despertar,
a esperança descortina
e a fé, então, me ensina:
é hora de agradecer,
é momento de rezar!

E quando o silêncio cala
profundo dentro da gente,
sem querer a alma sente
que por nós é DEUS quem fala!

A Rosa e os Espinhos
Alda Corrêa Mendes Moreira

Era tão linda a rosa amarela que achei!
A sua cor jamais me demonstrou tristeza,
e ninguém percebeu as dores que amarguei
quando eu a vi murchar com tanta singeleza.

Nem ninguém saberá o pranto que abafei
ao ver que aquele viço era a grande certeza
da prova de um amor que nunca revelei,
sem esperar da vida a volta da beleza.

E agora que estou só, fitando a simples haste
daquela bela flor que espargia carinhos,
tenho em meu peito dor que só me traz desgaste.

Chorando o fim da rosa, eu procuro caminhos
que anulem este amargo e penoso contraste,
pois triste é encontrar apenas os espinhos!

Dorme
Fernando Pessoa
1888 – 1935

Dorme enquanto eu velo…
Deixa-me sonhar…
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir…
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

TROVAS
Todas extraídas do site http://www.sardenbergpoesias.com.br/ , página de trovas nº 1, outubro de 2006, organizada pelo amigo trovador A.A.de Assis

As almas de muita gente
São como o rio profundo:
-A face tão transparente,
E quanto lodo no fundo!…
Belmiro Braga – Juiz de Fora

Mesmo soltas e espalhadas
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!
A. A. de Assis – Maringá

Baú velho, tampo torto,
cartas e fotos mofando…
-Refúgio de um sonho morto
que eu vivo ressuscitando!…
José Overney – Pindamonhangaba

Quisera ser um brinquedo
ou ser fios de esperanças,
para morar em segredo
no coração das crianças!
Maria Nascimento – Rio de Janeiro

No tear da solidão,
rendeiro em dias tristonhos,
basta um fio de ilusão
para tecer os meus sonhos!
Elisabeth Souza Cruz – Nova Friburgo

Amigos que não convêm
São aves de arribação:
- Se faz bom tempo eles vêm…
- Se faz mau tempo eles vão…
Soares da Cunha – Belo Horizonte

Num dos lances mais astutos
que a vida tem-me inspirado,
eu mostro os olhos enxutos,
e escondo o lenço molhado.
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba

Fonte:
O Autor

Pedro Ornellas (Prosas de Poeta – Soneto em 7)

Todos os sonetos com metro menor que 10 sons são por definição denominados SONETILHOS.

O soneto em sete é também chamado de soneto em redondilha maior ou heptassílabo.

Pouco cultivados, mas de beleza ímpar, merecem uma melhor atenção, razão pela qual conclamo meus amigos sonetistas a experimentá-lo, os que ainda não o fizeram. Quem sabe os trovadores que ainda não fazem sonetos possam começar por aí, afinal os dois quartetos são trovas.

Pesquisando, encontrei algumas nos poetas do passado:

De Emílio Menezes:

O VIOLINO

São, às vezes, as surdinas
Dos peitos apaixonados
Aquelas notas divinas
Que ele desprende aos bocados…

Tem, ora os prantos magoados
Dessas crianças franzinas,
Ora os risos debochados
Das mulheres libertinas…

Quando o ouço vem-me à mente
Um prazer intermitente…
A harmonia, que desata,
Geme, chora… e de repente

Dá uma risada estridente
Nos “allegros” da Traviata.

De Bernardino da Costa, que cultivava mais essa forma:

CROMO XXV

Na alcova sombria e quente
Pobre demais, se não erro,
Repousa um moço doente
Sobre uma cama de ferro.

Pede-lhe baixo inclinada,
Sua mulher — que adormeça,
Em cuja perna curvada
Ele reclina a cabeça.

Vem uma loira figura
Com a colher da tintura,
Que ele recusa, num ai!

Mas o solícito anjinho
Diz-lhe com riso e carinho:
— Bebe que é doce, papa
i!

Entre os poetas de hoje, Glauco Mattoso vem se dedicando ao heptassílado, como neste que fez aludindo a uma mensagem de teor biblico:

A TROVA E A PROVA
(a Pedro Ornellas)

A um confrade trovador
perguntei: “No que acredita?”
Respondeu: “Num Salvador,
na Palavra, em livro escrita!”

Mas pergunto-lhe: “E quem for
incapaz de ler?” Me cita
a Palavra oral: “O Amor
sempre encontra o que o transmita!”

Vem-me ainda outra questão:
si a Palavra pode ou não
ser verdade ou ser mentira.

Ele pensa um pouco e diz:
“Quem duvida e está infeliz
que comprove e que confira!”

Finalizo com um dos meus,

Pedro Ornellas
INFORMAÇÃO

Segue em seu carro o doutor
na estradinha empoeirada,
quando avista um lavrador
na roça puxando enxada.

Pergunta ao trabalhador:
“Não sou daqui… não sei nada…
pode informar, por favor,
se vai pra Franca esta estrada?”

Franzindo a testa, o caipira,
olha na estrada, suspira,
e na resposta se apressa:

“Si vai num sei, não sinhô…
mais vai sê ruim si ela fô,
que a gente aqui só tem essa!

Fontes:
O Autor

Imagem recebida por e-mail, sem definição de créditos do autor.

>Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 4)

>

Trova do Dia

Quanta inspiração me causa,
o entardecer morno e rubro.
Faz na vida doce pausa,
e com sol quente eu me cubro.
CARMEN PIO/RS

Trova Potiguar

Adotando os bons conselhos
das faculdades morais,
os filhos serão espelhos
da retidão de seus Pais.
DJALMA MOTA/RN

Uma Trova Premiada

1999 > Amparo/SP
Tema > VÍCIO

Tantos jovens, sem carinhos,
desprotegidos da sorte,
se perdem pelos caminhos
do vício que leva à morte!…
HERMOCLYDES S. FRANCO/RJ

Uma Trova de Ademar

Nenhuma ciência explica
as satisfações da mente.
O prazer não se fabrica,
ele nasce simplesmente…
ADEMAR MACEDO/RN

…E Suas Trovas Ficaram:

Entre o orgulho e a solidão,
no meu mundo, hoje pequeno,
guardo um “sim” de prontidão,
esperando o teu aceno!
ULYSSES CARVALHO JÚNIOR/RJ

Uma Poesia livre

Daufen Bach/MT
“CRISPARES – POEMA-INÍCIO”

Entre um verso para teus olhos
e uma fantasia para os teus lençóis,
transfiguro-me
para um renascer contínuo.

inauguro o absoluto,
o verbo fluente,
fixado,
nunca acabado.

inauguro em mim
o sentir do amor.

Estrofe do Dia

Hora que o sentenciado
nas grades da detenção,
por todo mundo humilhado
sente mais recordação,
sonha com a liberdade
mas por infelicidade
não sai daquela enxovia;
a Deus eleva uma prece,
baixa a face a lágrima desce,
ao som da Ave Maria.
CANHOTINHO/PB

Soneto do Dia

Francisco Macedo/RN
DESISTIR, JAMAIS!

Escalava a montanha novamente…
E, alpinista de amor enlouquecido,
chegaria a um lugar desconhecido,
jamais imaginado pela mente.

Eu sentia o infinito a um batente,
e, jamais eu teria desistido!
Mas, por forças humanas, impedido…
- E a chegada tão perto, um pouco à frente.

Um grande sonhador, não fica triste,
de alcançar o ideal, jamais desiste,
quer sempre ir mais à frente, e, se cansado…

Ele tenta vencer o seu limite,
buscando o inalcançável, ele admite,
que se jamais chegar… Terá tentado!

Fonte:
O Autor

>Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 3)

>

Trova do Dia

Fiel aos sonhos vassalos,
qualquer grande sonhador
guarda o medo de guardá-los
escondendo sua dor!
NILTON MANOEL/SP

Trova Potiguar

Meu pai, menino crescido,
brinca mais que meus irmãos…
Meu coração, comovido,
vê os calos em suas mãos…
CLEVANE PESSOA/RN

Uma Trova Premiada

2008 > Caicó/RN
Tema > ESTRADA > 4º Lugar.

Na estrada, outra pedra imensa,
mas, nem assim titubeio:
- não há revés que não vença
quem crê em Deus, como eu creio…
DARLY O. BARROS/SP

Uma Trova de Ademar

Sem pai, sem mãe, nem parente,
sente o mais triste desgosto,
não tem a quem dar presente
nos meses de maio e agosto.
ADEMAR MACEDO/RN

…E Suas Trovas Ficaram:

Romance da mocidade
eu quis, um dia fazer;
tomou-me a mão a saudade
e então se pôs a escrever…
LUIZ RABELO/RN

Uma Poesia livre

Flauzineide Machado/RN
EU SOU APRENDIZ

Entre versos e rimas,
Eu escrevo poesias
Histórias contadas
Para serem sentidas.
Entre versos e rimas,
Eu escrevo emoções
Para serem vividas
Entre corações.
Entre versos e rimas,
Saio a caminhar
Para aprender,
Para ensinar.
Entre versos e rimas,
Canto feliz
A reviver

Estrofe do Dia

Até parece mentira
Certas coisas deste mundo:
Numa fração de segundo
A roda do tempo gira;
Um instante se retira,
Outro pula no tablado;
O tempo é tão apressado
Que passa pisando a gente…
Futuro é quase presente,
Presente é quase passado.
JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN

Soneto do Dia

João Justiniano da Fonseca/BA
O SONETO MODERNO.

O soneto renasce, e a todo pano,
transita pelos mares da poesia.
é clássico ou moderno, em confraria,
navega ao vento norte ou ao minuano.

É discriminação e puro engano,
dizer que a rima é velha e sem valia.
O belo é sempre belo, na poesia,
na pintura, na música… E que dano

causa o antigo teatro, o enceno, a mímica,
que afaga o espírito e ilumina a química,
do riso alegre, da tranqüilidade?

Renascendo o acadêmico soneto,
traz um sentido novo, e, em branco e preto,
tem gosto e aroma de modernidade!
—-

Fonte:
O Autor

>Renata Paccola (Cristais Poéticos)

>

TROCADOS

No afã de conquistar algum trocado,
há quem entregue o corpo e venda a alma
pelo seu dinheirinho abençoado
que o faz ganhar o pão perdendo a calma.

Abra as mãos para ver, maravilhado,
que uma fortuna cabe em sua palma,
porque nem sempre o rico é afortunado
e nem sempre a fartura nos acalma.

Há quem ganhe dinheiro por esporte…
Contudo, neste mundo tem mais sorte
quem conquista os amigos verdadeiros,

mas chegando aos momentos derradeiros,
faz um pedido a todos os herdeiros,
que, por favor, esperem sua morte!

LIBERDADE

Liberdade, meu sonho mais distante!
Caminho com as pernas amarradas,
e com a realidade, de mãos dadas.
Liberdade, conceito conflitante!

Meu mundo de ilusões acorrentadas
tem a felicidade num instante
e, no outro, a tristeza mais cortante…
Sou um pássaro de asas arrancadas.

Liberdade, vital contradição:
até um escravo é livre quando alcança
a liberdade do seu coração.

Contudo, chegará aquele dia
pelo qual sobrevive uma esperança
da liberdade, ainda que tardia!

INDIFERENÇA

Passo por ti, e nem sequer me notas,
embora eu vá seguindo tua vida.
Sei de tuas vitórias e derrotas,
acompanho de perto tua lida.

De tuas fãs, eu sou a preterida.
Em teu meio, sou alvo de chacotas,
e me sinto como uma nau perdida
(busco em vão encontrar as próprias rotas).

Passas com jeito de quem não me quer,
usas palavras vãs, idéias turvas,
ao passo que eu te espero sem perder a calma.

Mas se pensas em mim como mulher,
enquanto vais olhando minhas curvas,
eu fico retratando tua alma.

DOM

De todos os meus dons, o que mais prezo
está na minha mente poderosa.
Por ser, antes de tudo, misteriosa,
nunca sei se gargalho ou se me enfezo.

Deixo-me dominar e sou teimosa.
Se tento fazer bem, é quando leso.
Sou profana, descrente, e sempre rezo.
Quando perco, sou mais vitoriosa.

Defendo a tese em que não acredito.
Quando minto, estou sendo verdadeira.
Por tudo o que vivi, eu já sou pura.

O espaço em que viajo é o mais restrito.
E tudo o que ganhei na vida inteira
é meu dom de assumir toda a loucura.

FOGO

Ao entregar meu corpo e minha vida
àquele que tomou conta de mim,
numa ação pelos céus reconhecida
vou revelando meu amor sem fim.

Contudo, para o mundo, estou perdida
por ter no corpo o fogo do carmim.
Vou carregando, embora perseguida,
em minha alma, a pureza do marfim.

Se o amor é belo para quem o vê,
é mais sublime para quem o faz.
Se a experiência pode ser bem vasta,

continuo na busca de um porquê
da existência, que com loucura traz
um corpo impuro numa alma ainda casta.

GIRA-MUNDO

Eu sei que não nasci para este mundo
repleto de tensão e violência,
avesso ao sentimento mais profundo,
em cujo solo impera a delinqüência.

Prossigo com um sonho de decência,
e neste sonho às vezes eu me afundo,
até chegar à beira da demência
e em meu espelho ver um vagabundo.

Mas da revolta o meu maior motivo
é que, apesar de tudo, ainda vivo
tentando ter o mundo a meu favor.

Seguindo o movimento de um pião,
eu giro pelo mundo em contra-mão
se o mundo gira contra nosso amor.

SOBRAS

Sobras
são sombras.

Sobras do passado,
saudades,
sombras que ainda se movem,
embora estendidas no chão.

Sobras,
quebras
dos grilhões de vidro que já não prendem,
mas seus cacos ainda cortam.

Sobras,
retalhos,
tijolos,
que foram e serão
partes de uma construção.

Sobras,
lembranças que podem se deteriorar
se não forem bem conservadas.

Saudosismos,
sobras inúteis
de fatos perfeitos.

Uma lágrima rola,
sobra de tantas derramadas.

Frases que poderiam ser ditas,
páginas ainda não escritas
da história que juntos vivemos
e que deixamos por terminar;
sobras úteis
de pratos malfeitos.

Sobras,
restos imortais
do passado que se confunde com o presente.

As sobras de hoje
serão o prato de amanhã,
quando a sombra partirá
e as lágrimas
não sobrarão.

Sobras de uma paixão,
um resto de sol
e uma poça no chão.

FEITIÇO

Se eu tivesse os poderes de uma fada
Estaria contigo o tempo inteiro
Iluminando tua madrugada
Como se fosse a luz de um candeeiro.
Seria teu bordel e teu mosteiro,
Seria teu refúgio e tua estrada
Do nascer ao momento derradeiro,
Da hora da partida até a chegada.
Eu te seduziria qual sereia,
Então, nos amaríamos na areia;
Depois, te afogaria com meus beijos.
E no final eu me transformaria
Numa estrela repleta de magia
Que pudesse atender aos teus desejos!
—–

Fontes:
http://www.avspe.eti.br/sonetos/RenataPaccola.htm
http://www.apperj.com.br/IIIfestival_poesia_faladarj_resultado.htm
http://margaretcendon.sites.uol.com.br/renatapaccola.html

>Cláudio Feldman (Poemas Escolhidos)

>

60 ANOS

Antes o dia continha seu próprio significado
Hoje
Miro coisas que não entendo-leis turvas
E rostos ilegíveis -
A vida
Varre os domingos
Para os jardins pretéritos

O rumo se perdeu
Na desordem das águas
Por isto
Meus ossos rangem
À mutação das coisas e seu desígnio

PAIXÃO

Como alguém que abandona os sapatos
Para andar sobre brasas
Me entreguei à paixão com júbilo feroz
E o alento da amada foi o meu:
Nossas peles gêmeas
Venceram o opaco silêncio do mundo.

Hoje, que as nossas veias se apartaram,
Já não somos os mesmos: mas o eco
De nosso amor alumbrado de carícias
Ainda estremece as ruas solitárias
Com a secreta brisa de bailantes primaveras.

O MUNDO

O mundo ri enraizado no trigo
Águas medem os passos do sol

A ave livre veste o ar de vozes
O coração rima com nuvens

Mas um menino soluça sobre a pedra
E o mundo passa refletido nos punhais.

GATO

1

o gato
-pupilas de ladrão-
imprime no escuro
pegadas de algodão

tangenciando casas
dopadas de sonhar
os bigodes do gato
espetam o luar

2

o felino
procura mais
do que sardinhas
nas rondas animais:

talvez
respirar os segredos
que a noite oculta
atrás de seus dedos

talvez
o sentido da vida
que move seus gestos
à dúctil saída

3

o gato
e seus rastos
espera amanhecer
para conter os astros

UMA POESIA

1

Uma rosa vermelha entre colunas,
Uma corda que se fecha na garganta,
Uma nuvem que bate nas janelas,
Uma harpa que, prisioneira, canta.

2

Uma criança deitada no trigal,
Uma escada que desce para o escuro,
Uma chaga que brilha como adaga,
Uma bomba que nasce atrás do muro.

3

Uma lanterna esquecida na gaveta,
Uma gazela que foge dos soldados,
Uma viúva tocada pela chuva,
Uma terra de espinhos coroados.

4

Uma floresta em chamas no retrato,
Uma esperança que ficou na porta,
Uma formiga que atravessa o cais,
Uma rocha que avança contra a morta.

5

Uma raiz procurando a saída,
Uma estátua roída pelos ventos,
Uma imagem achada na viagem,
Uma poesia vestida de momentos.

POEMA DO VENTO NO CEMITÉRIO

Os ciprestes cantam
Ao sopro do vento.
Embalam quem?

ILHA

Teu ser:
Ilha verde e luminosa
Flutuando entre o céu
E o Mar
Mas
Com raízes fincadas
Na treva abissal

Teu ser:
O sonho
De arrebentar
As ilhadas amarras
E partir
Como um navio
No domingo

VIDA NATURAL

Um galo aceso no telhado.
Girassóis ao vento.
Pessoas entram no mar de luvas.

HAICAIS

SECA

Corvos
Nos galhos curvos:
Únicas folhas.

DIA LENTO

Dia lento:
Um velho cavalo
Subindo a encosta.

JOANA D’ARC

incenso
que perfuma
depois de queimado

Fonte:
Jornal de Poesia

>Vladimir Cunha dos Santos (Poemas Avulsos)

>

ALMA

Eis uma alma que passa
pela Terra
pelos séculos XX e XXI.

Entristecida
das atitudes dos homens
Sobrecarregada de ilusões
Monologando com a pluralidade
Divergindo com seu tempo
Pendente numa face morena-clara
de olhos cor do mar em ressaca
e na rua, a caminhar,
a ressuscitar seus mortos.

Uma alma serenizada tanto
quanto uma entrada de primavera,

Uma alma insubmissa tanto
quanto um ciclone
em busca
de um lugar
comum.

DESAMOR

Caminhei na escuridão
da imensa sala
prisioneiro
de antiga relação.

O som do cantar dos grilos
sem parar
alimentou minha nova decisão.

Forjar o amor eterno
é paterno demais,
e nem os animais o fazem
por toda a vida.

Separar almas partidas
é a saída
para a nova felicidade,
não importa a idade,
o que vale é a esperança
da liberdade de existir.

Poder agir em paz
com a consciência,
e amar sem parar pra pensar!

Caminhar na escuridão,
espantar a certeza de ser
prisioneiro
de um desamor,
refém do desencanto
visível nos olhos, na alma…

Caminhar em direção absoluta
ao novo desejo impregnado na vida…
este é o dilema,
o caminho
a seguir.

O VELHO GRANDE DO SUL

O velho grande do sul
sangra de emoção
em seu galope silencioso
pelas coxilhas do pampa
-seu habitat natural e eterno-
enquanto o rosto rude
estampa a melancolia
dos homens solitários por natureza.

O velho grande do sul
sem muito sucesso na vida
vira a página todos os dias
sendo protagonista real
de sua história real
sem mística, sem mitos,
com ritos de um cotidiano
que se esvai ano a ano.

O velho grande do sul
resiste ao tempo
e serve de exemplo
para os jovens grandes do sul
que embriagam-se com a modernidade.

E calado,
olhos no horizonte,
reflete a esperança.

OLHAI OS TEMPORAIS

Da sacada da minha casa nova
Eu vejo o prédio da biblioteca pública
Eu vejo o campo de golfe
O aeroporto, as palmeiras gigantes
Eu vejo o casario das vilas ao redor
Eu vejo as ruas da cidade e os ipês.

Da sacada da minha casa nova
Eu assisto ao espetáculo dos temporais
Com suas nuvens negras e carregadas
Seus trovões assustadores
Seus relâmpagos que cortam o céu
E iluminam a escuridão da noite chuvosa.

Da sacada da minha casa-alma
Enxergo as brumas da solidão
Entrando com o ano novo.
Sinto uma sensação coletiva de vazio
Uma esperança relevante de amor
Ao som do vento
e dos pássaros.

(Rosário do Sul, RS, BR, janeiro de 2007.)

NOVOS TEMPOS

Meu som divaga
Nos fluídos dos meus sonhos,
Meus pés resvalam
No subproduto humano
Que nos tornamos
E tudo é natural
No nosso tempo
No nosso modo de ser.

Quero um novo beijo na boca
Uma nova emoção no peito
Uma tarde inteira para amar
Entre as relíquias do meu baú
Entre as meninas da minha escola.

Quero uma sacola
Para ir correndo
Ao supermercado
Do amor.

Fonte:
http://wlady.zip.net/

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