Arquivo do mês: maio 2009

>Ponto de Leitura de Itu realiza AMANHÃ a 1ª Exposição de Fanzines da cidade

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A 1ª EXPOZINE de Itu, do PONTO DE LEITURA- Biblioteca Comunitária Prof. Waldir de Souza Lima tem como objetivos divulgar os fanzines nacionais de todos os estilos, fortalecer esta mídia independente no interior de São Paulo e ainda mostrar para os meios de comunicação o valor desta mídia, que foi criada nos anos 1930 nos Estados Unidos.

Fanzine é um termo derivado das palavras inglesas fan (fã, em português) e magazine (revista, em português) que, entre outras traduções, significa uma publicação editada por um fã. Trata-se de uma publicação despretensiosa, eventualmente sofisticada no aspecto gráfico, dependendo do poder econômico do respectivo editor. Engloba todo o tipo de temas, com especial incidência em histórias em quadrinhos (HQs), ficção científica, literatura, música, feminismo, vegetarianismo, cinema, anarquismo, rock, hip hop, terror, mangás, assuntos gerais, jornalismo alternativo, entre outros. Também se dedica à publicação de estudos sobre algum assunto proposto pelo grupo ou editor. O público interessado nestes fanzines é bastante diversificado.

O primeiro fanzine surgido no Brasil foi o Ficção, criado por Edson Rontani em 1965 em Piracicaba (SP). Criado numa época que o termo que definia produção independente era boletim, o fanzine trazia textos infomativos e uma interessante relação de publicações brasileiras de quadrinhos desde 1905.A produção de fanzines no Brasil nos últimos anos vem crescendo e tem características de reação dos artistas e público ao descaso das editoras de quadrinhos com relação à produção nacional.

Na programação da 1ª EXPOZINE de Itu destacam-se: oficina com o fanzineiro ituano Paulo Rodrigues; encontro de fazedores com coordenação do Zine Kausadores Di Revolta (Itu); exposição de materiais; palestra com o Prof. Gazy Andraus, Doutor em Ciências da Comunicação, na área de Interfaces da Comunicação, pela ECA-USP (premiado com a melhor tese de 2006 pelo HQ-MIX-2007); intercâmbios de fanzineiros; e uma homenagem ao quadrinista e fanzineiro Moacir Torres.

A homenagem é para um dos mais importantes fanzineiros e quadrinistas do interior paulista. Moacir Torres nasceu em Agudos (SP) em 1957 e reside em Indaiatuba (SP) desde 1993. Começou como desenhista na TV Cultura em 1974. Fundou em 1978 em Santo André (SP) com Cláudio Feldman, a Editora Taturana, que publicou dezenas de títulos, além de periódicos como o Jornal da Taturana e Tempo Livre. Trabalhou como arte-finalista para a Editora Abril e ilustrou o suplemento “Diário Criança” do jornal “Diário Popular” de São Paulo por cerca de dez anos. Participou de várias coletâneas literárias e de dezenas de salões de humor e HQs. Criou e publicou várias revistas em quadrinhos, atividades e livros infantis. Duas revistas infantis criadas por Torres foram lançadas recentemente na Espanha e em Portugal. Atualmente ministra oficinas de desenho e vem produzindo várias revistas de atividades infantis para editoras, além de passatempos e quadrinhos para vários jornais brasileiros.

O público interessado pode conferir a exposição de Fanzines e publicações independentes no PONTO DE LEITURA, e também participar da oficina: Como criar um Fanzine? às 14 horas no dia 24 de maio, data do evento, e da palestra às 16 horas. As inscrições para a Oficina podem ser feitas no próprio Ponto de Leitura.

Os Fanzines interessados em participar do evento podem enviar exemplares para o endereço: Rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu/SP, CEP 13300-005, aos cuidados de Paulo Rodrigues.

A abertura oficial da exposição ocorre no dia 24 de maio a partir das 16 horas. A participação em todas as atividades é gratuita.

SERVIÇO

1ª EXPOZINE DE ITU – 2009

QUANDO: 24 de Maio de 2009 a partir das 14 horas.

ONDE: PONTO DE LEITURA – BIBLIOTECA COMUNITÁRIA PROF. WALDIR DE SOUZA LIMA.

ENDEREÇO: Rua Floriano Peixoto, 238, Centro, Itu/SP.

QUANTO: Entrada gratuita.

CONTATOS: bibliotecacomunitariaitu@gmail.com ou pelos fones:
(11) 8445.6122 – Renato
(11) 4813.3556 – Paulo
(11) 7163.3756 – Josuel
(11) 7599.4109 – Raphael

Fonte:
Biblioteca Comunitária Prof. Waldir de Souza Lima

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>Pär Lagerkvist (Barrabás)

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Barrabás, símbolo do homem moderno
(artigo de João Carlos Petrini)

O romance do sueco Fabian Pär Lagerkvist, Barrabás, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1952, descreve de maneira sugestiva a dialética que acompanha todo o desenvolvimento da sociedade moderna, entre uma postura religiosa e uma racionalista. A obra apresenta Barrabás, uma figura marginal nos Evangelhos, preso nas masmorras do império romano, condenado à morte e inesperadamente libertado pelo clamor popular, que o preferiu a Jesus.

As personagens são dos primórdios do cristianismo, mas as questões levantadas são tipicamente modernas e a narrativa introduz o leitor no âmago do drama da liberdade diante do Mistério. O romance confirma a tese de Octávio Paz, de 1984, segundo a qual a literatura do século passado, muitas vezes irreligiosa e secularizada, não consegue se afastar do mistério, antes permanece a ele vinculada, como eixo de uma inevitável problemática, com a qual o homem do século XX se vê impelido a confrontar-se, mesmo que de maneira irreverente ou blasfema.

Lagerkvist (1952) apresenta o drama de Barrabás com uma linguagem simples e direta, numa sobriedade elegante, deixando entrever, por trás das cenas descritas, situações e posturas nas quais o leitor pode-se reconhecer. O romance, escrito como anotações sucintas dos acontecimentos relatados, deixa amplos espaços para que o leitor, movido por discretas sugestões, se envolva com a problemática.

Barrabás é apresentado como um bandido, violento e admirador da força, parricida, cioso de sua autonomia. Ele tem sua vida salva graças a Jesus, pois Pilatos o libertou em lugar do carpinteiro nazareno. Barrabás vive por causa de um outro que morreu em seu lugar e ele não sabe por quê. Experimenta uma irresistível urgência de compreender quem é esse por obra do qual está vivo, procurando compreendê-lo no horizonte explicativo de seu mundo, a partir dos critérios e dos valores com os quais está familiarizado. Ele é símbolo do homem moderno, com o qual guarda muitas semelhanças: este também é violento, pois construiu a civilização da qual se gloria ao clamor dos canhões, e é parricida, tendo eliminado o Pai do seu horizonte. O homem moderno reconhece no cristianismo a fonte dos valores que impuseram ao mundo a sua cultura e, como Barrabás, tem necessidade de compreender a origem da qual recebeu tudo o que tem de mais precioso. Procura enquadrar a tradição cristã nos esquemas da racionalidade iluminista mas, ao fazer isso, perde a possibilidade de abrir um verdadeiro diálogo com essa realidade..

Sabendo que Jesus tinha dito que iria ressuscitar ao terceiro dia, o personagem de Lagerkvist se posta perto do túmulo para ver o que iria acontecer. De repente, um clarão deixa-o quase cego por alguns momentos. Em seguida, ele vê o túmulo vazio e encontra uma mulher que exulta de alegria, afirmando que Jesus ressuscitou. De início, ele pensa que está diante de uma situação extraordinária, que poderia explicar o que aconteceu nos últimos dias. Mas, logo em seguida, ele pondera que sua vista ficou ofuscada porque tinha permanecido muito tempo na escuridão da prisão e a primeira luz do dia certamente devia ter produzido aquela cegueira momentânea. E, regozijando-se interiormente por constatar que tudo estava dentro dos padrões da normalidade com os quais estava familiarizado, sentiu pena da mulher que, na sua simplicidade, estava alegre por algo irreal, quase certamente fruto de sua imaginação, sugestionada pelos acontecimentos dos dias anteriores.

Todo o romance é um contínuo suceder-se de idas e vindas entre uma irresistível exigência de saber se Jesus é realmente o Filho de Deus e a confirmação de que tudo corre de acordo com as leis da natureza e segundo as regras do poder. A cada página, ele parece atraído a juntar-se àquelas pessoas que conviveram com Jesus e que são estranhamente fascinantes, mas acaba por prevalecer a distância, sugerida pela visão da realidade à qual está acostumado.

Barrabás entrevista Lázaro, que Jesus ressuscitara, mas não se persuade da divindade do Mestre. A exaltação da humildade e da misericórdia feita pelos cristãos provoca sentimentos de repulsa num homem como ele, admirador da força e da violência. As circunstâncias o levam a uma mina do império romano, onde deve trabalhar amarrado com uma corrente de ferro a um escravo que era discípulo de Jesus. Barrabás fica impressionado pela transformação que observa no rosto do companheiro de desventura quando reza ajoelhado; ele admira a força interior que vê emanar desse homem que parece falar com Deus. Era uma força que Barrabás desconhecia e queria para si. Risca o símbolo de Cristo no verso da placa de identificação dos escravos, como estava na placa do amigo, mas não consegue rezar e chega a considerar tudo uma ilusão, toma as distâncias também desse companheiro e, por fim, o denuncia. É levado a Roma e quando ouve dizer que os cristãos estão tocando fogo na cidade, fica entusiasmado. Quem sabe, eles deram o passo para rebelar-se à prepotência romana e usar a violência para defender-se. Agora, sim, tem algo em comum com essas pessoas e pode fazer parte desse grupo. Ele também, então, começa a atear fogo à cidade.

O romance termina com Barrabás na prisão, junto com os cristãos. Sofre a maior decepção quando descobre que os cristãos negam sua responsabilidade pelo incêndio. O entusiasmo dele devia-se a um equívoco. Eles o reconheceram; a maioria olhava para ele com certa hostilidade, porque o amado Mestre morrera em lugar dele. Ele fica afastado de todos, solitário. Estranhamente, histórias e temperamentos tão distintos continuam entrelaçando-se. Apesar de todas as diferenças, a Barrabás e aos cristãos é reservado um destino semelhante. Com efeito, no final, ele também é crucificado. A cena guarda uma impressionante proximidade e, ao mesmo tempo, a maior distância com o que acontecera com Jesus em Jerusalém: no alto da cruz, ao dar o último suspiro, Barrabás grita: “Nas tuas mãos entrego o meu espírito”, que são palavras quase idênticas às pronunciadas por Jesus. Mas o autor marca a diferença dizendo que Barrabás emitiu o seu grito “dirigindo-se às trevas” e não “ao Pai” como fizera Jesus . Na forma como Barrabás encerra sua aventura terrena, pode-se reconhecer uma alusão ao niilismo, que emerge como a última meta para a qual o homem moderno se encaminha.

Fontes:
PETRINI, João Carlos. Pessoa, Matrimônio, Família: entre Cultura Pós-moderna e Cristianismo. Disponível em http://www.hottopos.com/videtur25/petrini.htm

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>Pär Fabian Lagerkvist (23 Maio 1891 – 11 Julho 1974)

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(Växjö Småland, 23 de Maio de 1891 — Estocolmo, 11 de Julho de 1974)

Escritor e poeta sueco nascido em Växjö Småland, laureado com o Prêmio Nobel da Literatura (1951) pelo vigor artístico e verdadeira independência de pensamento com a qual desenvolveu a sua poesia.

Filho de um mestre de estação, Anders Johan Lagerkvist e de sua esposa Johanna Blad, desde cedo inclinou-se pela literatura e, assim chegou a universidade. Depois de um ano na Universidade de Uppsala, foi para Paris (1913), onde viveu a influência do expressionismo, especialmente como pintor. Morou principalmente na França e Itália, e mesmo depois do seu retorno definitivo para a Suécia, freqüentemente viajou pelo Continente e pelo Mediterrâneo.

Na poesia suas primeiras publicações bem sucedidas foram Ansiedade (Ångest ,1916) e Canções do Coração (Hjärtats sånger ,1926). Seus primeiros sucessos em prosa foram volumes autobiográficos Gäst hos verkligheten (1925) e Det besegrade livet (1927). Como dramaturgo, foi extremamente versátil com peças como Um momento difícil (Den svåra stunden , 1918), Segredos do Céu (Himlens Hemlighet ,1919), Han som fick leva om sitt liv (1928).

Também com seu trabalho demonstrou forte oposição ao totalitarismo com publicações como Bödeln (1933), O homem sem alma (Mannen utan själ, 1936) e Seger mörker de i (1939). Outros três romances importantes de fundo religioso foram O Anão (Dvärgen , 1944), Barabbas (1950) e Sibyllan (1956), sendo Barabbas, a história de um crente sem fé, seu primeiro sucesso verdadeiramente internacional.

Morreu em Estocolmo. Suas últimas publicações em vida foram A Terra Santa (Det heliga landet , 1964) e Mariamne (1967).

Fontes:
– Tradução do sueco dos títulos de livros: José Feldman
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/NLPFLage.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A4r_Lagerkvist

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>Os Jogos Florais

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Os Jogos Florais são concursos de Trovas realizados sob a égide da União Brasileira de Trovadores.

O primeiro concurso do gênero foi instituído na cidade fluminense de Nova Friburgo em 1960, considerada hoje o berço dos Jogos Florais

O período entre 28 de Abril e 13 de Maio do calendário romano marcava a celebração dos Jogos Florais (ou Florálias – do latim floralia, ium), assim denominados por se tratarem das festividades em honra de Flora, deusa da Primavera, das flores, dos cereais, das vinhas e das árvores frutíferas. A lenda diz que Flora é uma das divindades sabinas introduzidas em Roma por Tito Tácio e adorada pela populações itálicas, em geral. Desde então, associa-se o mel à deusa, como um dos presentes que esta terá concedido ao Homem, o mesmo acontecendo com todas as flores que conhecemos.

Segundo Junito de Sousa Brandão (1993), nesta data as cortesãs reuniam-se e dançavam ao som de trombetas, num concurso em que as vencedoras eram coroadas de flores, tal como era hábito fazer-se nas cerimônias de adoração da própria divindade. Por influência desta tradição romana, em toda a Península Ibérica, embora com especial incidência na zona do Algarve, ficou até aos nossos dias o costume de colocar nas portas e janelas das casas flores de giestas, também designadas por Maias (nome que provém do fato de florescerem em maior abundância do quinto mês do ano). Mais ainda, no início do século era habitual escolher-se nas aldeias uma jovem que, vestida de branco, era coroada de flores tal como a deusa.

Um pouco mais tarde, a partir do século XIII, esta celebração passou a abranger uma esfera mais alargada, agora enquanto concurso literário: os poetas e amantes da escrita, em geral, tinham nesta data a possibilidade de apresentar as suas produções num concurso, cujos procedimentos se regem por um regulamento que conforme o local que são realizados possuem características específicas: os participantes podem optar por várias modalidades de escrita, sendo as mais comuns o poema lírico ou as quadra populares de tema livre, o soneto (tomando como inspiração um determinado assunto), poesia obrigada à utilização de um mote específico ou alegórica à própria cidade onde se realizam os Jogos e, finalmente, o tratamento de um adágio popular. Seus autores são obrigados a apresentar-se sob pseudônimo, para que os jurados não sofram qualquer tipo de influência durante a avaliação. Aos melhores trabalhos são oferecidos prêmios, habitualmente três por modalidade. Por vezes, são ainda concedidas menções honrosas aos candidatos, cujos trabalhos, embora não sejam vencedores, são considerados dignos de destaque.

Com a criação dos Jogos Florais de Nova Friburgo surgiu o Baile das Musas para que fosse escolhida a Musa daquele ano, evento que acompanha a história dos Jogos Florais, não só de Nova Friburgo mas de vários concursos nacionais.

Surgiram da união de Zeus com Mnemósine, tendo como berço as proximidades do monte Olimpo. Elas cantavam acompanhadas da lira do deus Apolo.

São NOVE as MUSAS criadas pela mitologia grega .
• Calíope (bela voz), a primeira entre as irmãs, era a musa da eloqüência.
• Clio (a quem confere fama) – musa da História, sendo símbolos seus o clarim heróico e a clepsidra. Jovem coroada de louros, tendo na mão direita uma trombeta e na esquerda um livro intitulado “Tucídide”. Aos seus atributos acrescentam-se ainda o globo terrestre.
• Érato (a que desperta desejo) – musa do verso erótico. Ninfa coroada de mirto e rosas. Tinha na mão direita uma lira e na mão esquerda um arco.
• Euterpe (a que dá júbilo) – musa da poesia lírica, tinha como símbolo a flauta e aparece coroada de flores.
• Polímnia (a de muitos hinos) – musa dos hinos sagrados e da narração de histórias. Usava um véu e, por ser meditativa estava sempre com o dedo na boca.
• Melpômene (a cantora) – musa da tragédia; usava máscara trágica e folhas de videira.
• Terpsícore (a que adorva dançar) – musa da dança, tocava a cítara ou lira. Regia o canto coral.
• Tália (a festiva) – musa da comédia que vestia uma máscara cômica e portava ramos de hera.
• Urânia (celeste) – musa da astronomia, tendo por símbolos um globo celeste e um compasso.

Fontes:
http://www.jogosflorais.com.br/
http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/J/jogos_florais.htm
Imagem = http:// http://www.angela.bispo.nom.br/

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>L Jogos Florais de Nova Friburgo 2009 (Resultado Final)

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VENCEDORES 2009

CONCURSO NACIONAL
TEMA: SAUDADE (Lírica/Filosófica)

1º Lugar – Troféu Aloisio de Moura
Entre os véus da noite, imerso,
insone em meu travesseiro,
escrevo apenas um verso
e a saudade… um livro inteiro!
Maria Lucia Daloce
Bandeirantes – PR

2º Lugar
Saudade, lembrança acesa,
não de um amor que passou,
mas, sim, com toda certeza,
daquele amor que ficou! …
Antônio Vanzella-
S. Bernardo do Campo – SP

3º Lugar
Se o meu tempo está marcado
e da saudade eu disponho,
invento alguém ao meu lado,
cerro meus olhos e sonho…
Milton Nunes Loureiro
Niterói- RJ

4° Lugar
Saudade é um velho barquinho
que vence o tempo e a distância
e recolhe, no caminho,
os pedacinhos da infância …
Ercy Mª Marques de Faria-
Bauru- SP

5º Lugar
No rosto, um leve sorriso
disfarça a dor da saudade…
- Há vezes em que é preciso
fingir a felicidade .
Olga Agulhon-
Maringá – PR

MENÇÃO HONROSA

Passa o tempo… e, enquanto corre,
a lembrança vai sumindo…
Mas a saudade não morre:
- Apenas fica dormindo…
Pedro Mello
São Paulo- SP

Quem diz que não tem saudade
e se é verdade o que diz,
não teve a felicidade
de já ter sido feliz.
Orlando Woczikosky
Curitiba- PR

Praça da minha cidade
onde hoje volto tristonho,
vim, nos rastros da saudade,
matar saudades de um sonho !…
Tereza Costa Val
Belo Horizonte – MG

Ó Saudade, hoje me provas
que és a melhor das amigas,
porque fazes sempre novas
minhas saudades antigas…
Ercy Maria Marques de Faria
Bauru- SP

Partiu, deixando o seu traço
no meu caminho dos sós…
- A saudade é esse espaço
que existe sempre entre nós.
José Valdez C. Moura
Pindamonhangaba – SP

MENÇÃO ESPECIAL

Na saudade eu julgo ver
uma inversão de caminhos:
á gua passada a mover
os meus internos moinhos …
Maria Helena Oliveira Costa
Ponta Grossa- PR

Entre nós não há mais nada,
mas ante a prova de fogo,
saudade é carta marcada
que acaba ganhando o jogo !
Alba Cristina Campos Netto

São Paulo- SP

Saudade, mágoa sentida,
barco distante do cais;
pedaço da própria vida
que a gente não vive mais …
Marta Mªa O. Paes de Barros
São Paulo – SP

Ah , saudade do passado !
tão presente e tão intensa,
que penso ouvir teu chamado,
buscando a minha presença.
Sônia Mª Sobreira da Silva
Rio de Janeiro- RJ

Saudade é luz matutina
no crepúsculo da gente.
Sol que o passado ilumina
quando escurece o presente.
Orlando Woczikosky
Curitiba- PR

CONCURSO NACIONAL
TEMA : CINQUENTÃO (Humorística
)

1º Lugar
Diz o cinquentão vaidoso:
- “Eu sou madeira de lei!”
E, a mulher, em tom jocoso:
- “Então deu cupim…que eu sei !”
Marta Mª O. Paes de Barros
São Paulo – SP

2º Lugar
Na sinuca, ela afobada
num jogo de sedução,
acertou uma tacada
no taco do cinqüentão !
Adilson Maia
Niterói – RJ

3º Lugar
- Por não ser mais “cinquentão”
- quase beirando os setenta –
já não vivo de ilusão,
mas que a gente tenta… tenta ! ! !
Eduardo A. O. Toledo
Pouso Alegre – MG

4º Lugar
Ante a noiva bem nutrida,
o cinqüentão fica louco :
- Ela só pensa em comida
e cinquentão come pouco…
Milton Nunes Loureiro
Niterói-RJ

5º Lugar
Tentando aparentar trinta,
o cinquentão se “ferrou”.
Comprou um estoque de tinta,
mas… o cabelo acabou.
Wandira Fagundes Queiroz
Curitiba – PR

MENÇÃO HONROSA

Faxina pra lá de boa
ela faz por cinquentão:
limpa a casa da patroa
e a carteira do patrão.
Maurício Pindamonhangaba-
São Paulo- SP

O cinquentão se arruinou
negócios, TUDO caído …
é que a mulata o deixou
zerado em todo sentido
Mª de Fátima S. de Oliveira
Juiz de Fora – MG

O cinquentão não se aguenta:
é calculista bebum,
e tão logo fez cinquenta,
já que ter “ Cinquenta e Um” !!!
Marisa Rodrigues Fontalva
São Paulo – SP

Freguês quer jornal inteiro !
Quem viu a folha de esporte ?
- E o cinquentão no banheiro :
foi alguém de muita sorte !
Wanda Horilda Freesz de Lima
Juiz de Fora – MG

Rico cinquentão? Coitado!
Quisera que fosse assim!
Ele anda mais apertado
que pasta dental no fim!
Renata Paccola
São Paulo –SP

MENÇÃO ESPECIAL

Quis dar o golpe na sorte
se encostou no cinquentão
um ricaço esperto e forte
que lhe deu tanque e fogão !
Alfredo Barbieri
Taubaté – SP

Fez plástica o setentão
e mudou seu visual…
Mostra um rosto cinquentão,
mas no “resto”… tudo igual !
Tereza Costa Val
Belo Horizonte – MG

O botox em profusão
na cinquentona foi erro,
porque causou a impressão
de sorrir durante o enterro…
Pedro Mello
São Paulo- SP

Eu me dei bem… Ela aponta
para um rico solteirão.
Dei um desfalque sem conta
na conta do cinqüentão !
Adilson Maia
Niterói – RJ

O leito ficou quebrado
pela dupla pesadona:
um cinquentão assanhado
nos braços da cinquentona .
Gilson Faustino Maia
Petrópolis- RJ

CONCURSO PARA OS TROVADORES DE NOVA FRIBURGO

TEMA- CIÚME (Líricas)

1º Lugar
Nosso amor é tão intenso
e a confiança entre nós
fala tanto que o bom senso
deixa o ciúme sem voz.
Joana D´arc

2º Lugar
Se abusas das tuas saias,
dos decotes, dos perfumes,
não posso impedir que saias,
mas eu morro de ciúmes!
Elisabeth Souza Cruz

3º Lugar
O ciúme é vento frio,
lança cravada no peito,
sentimento de vazio,
ao ver vazio o meu leito!
Paulo Sergio Pinheiro de Carvalho

4º Lugar
Ciúmes…brigas…saudade…
Da angústia à supremacia,
eu chego à triste verdade:
- O amor é droga e…vicia!
Elisabeth Souza Cruz

5º Lugar
Ultrapassando as fronteiras
do sim, do não, do talvez,
nosso amor vence barreiras
e o ciúme não tem vez!
Dirce Montechiari

MENÇÃO HONROSA

Surgem de todos os cantos,
mas não demonstro em meu rosto…
Os meus ciúmes são tantos
que sufocam meu desgosto.
Cyrléa Neves

Eu abraço a solidão
dos lençóis, e o meu queixume
é ter perdido a razão,
na cegueira do ciúme!
Ivone Marques Moreira

Se falas do amor em nós,
não ouço…duvido sim!
Há ciúme em viva voz
gritando dentro de mim.
Therezinha Tavares

O teu ciúme insensato,
não te fez ver a verdade;
levou contigo um “Retrato”,
deixou comigo a saudade.
Sérgio Martins

Teu ciúme muito louco,
sem limite, sem medida,
vai minando, pouco a pouco,
os dias da minha vida…
José Moreira Monteiro

MENÇÃO ESPECIAL

Por favor, não desarrume
este encanto verdadeiro
só porque tenho ciúme
até… do seu travesseiro!
Ana Maria Motta

Seu olhar que perde o lume
ao piscar quando me quer,
contém amor e ciúme
de apaixonada mulher.
Adilson Calvão

Quando o ciúme me abraça
eu quase morro de dor;
mas, quando você me enlaça,
sempre sufoco de amo
Dirce Montechiari

Não se explica o nosso encanto
pois teu ciúme…(que horror!)
que nos causa dor e pranto
alimenta o nosso amor!
Hermelina Schuenck

Nosso amor se eleva ao cume,
naquela poesia infinda
da pontinha de ciúme
que você conserva ainda!
Rodolpho Abbud

CONCURSO PARA OS TROVADORES DE NOVA FRIBURGO

TEMA: SUSPIRO (Humorísticas)

1º Lugar
O suspiro está perfeito,
mas é tão pequenininho
que deve ter sido feito
com ovos…de passarinho!
Ana Maria Motta

2º Lugar
Doceiro que sai do apuro
com suspiro e rocambole
sabe o quanto já foi duro
vender só maria-mole!
Ailto Rodrigues

3º Lugar
A vovó, nos seus oitenta,
não pode comer chouriço;
olha, suspira e comenta:
- já fui muito boa nisso…
Denise Cataldi

4º Lugar
Vê passar o seu vizinho,
e a mulher sente revolta
do suspiro, bem fininho,
que o marido dela solta.
Therezinha Tavares

5º Lugar
- Suspira o velho…sonhando,
e a velhinha, já nervosa:
-Você sempre me acordando
com propaganda enganosa!
Ivone Marques Moreira

MENÇÃO HONROSA

Na praça da cavalgada,
suspira o velho azarão
vendo a mocinha montada
num baita de um alazão!
Ivone Moreira Marques

Lá na praça do Suspiro,
o vovô, todo em genérico:
-Eu tento, assanho e transpiro,
mas quem sobe é o Teleférico!
Elisabeth Souza Cruz

Ele lambe até a panela,
suspirando sem canseira,
na pensão onde a costela
mais gostosa é da caseira!
Ailto Rodrigues

Ela cozinha. Ele, em torno.
Preparam suspiros novos:
enquanto ela aquece o forno,
ele vai batendo os ovos!
Ana Maria Motta

Sob um arbusto na praça,
o casal fez seu retiro,
mas, quando a polícia passa,
não se ouve nem um suspiro!
Rodolpho Abbud

MENÇÃO ESPECIAL

Trabalha em banco privado
da praça e, quando há sol quente,
ele suspira cansado
se fatura outra cliente.
Joana D’Arc da Veiga

Ao comprar um sapatão,
o marido reprovou!
E, ao vê-lo com um gatão,
ela suspira: – Empatou!
Dilva Moraes

Cinquentão, gordo, gabola,
suspirando, num sussurro,
pergunta pra jovem: – Rola?
E ela: – Deita que eu empurro!
Pedro Cleto

Morreu!…Duvido e confiro.
Oh!…que eu confio na sogra…
Até o último suspiro
ela é fingida e me logra.
Dirce Montechiari

Quando requebra me mata,
diz o luso: Eu quase piro
mas dou por esta mulata
o meu último suspiro!
Clenir Neves Ribeiro

MAGNÍFICOS TROVADORES

CONJUNTO TEMA: AMOR

1º Lugar – Troféu Anis Murad
Teu ciúme, cortando os laços
do nosso amor, me magoa…
Mas meu amor abre os braços
e, por amor, te perdoa
João Freire Filho

2º Lugar
Porque te dei muito amor
fiquei só…Pois não sabia
que vai perdendo o valor,
o que é dado em demasia!…
José Tavares de Lima

3º Lugar
Quando, à noite, a chuva canta
e as lembranças tomam cor,
a saudade se levanta
e acorda o meu velho amor !
Octávio Venturelli

TROVA ISOLADA – TEMA AMOR

1º Lugar-Troféu Colbert R. Coelho
Escrito de próprio punho,
mas na gaveta guardado,
o meu amor é um rascunho
que nunca foi publicado!
Sérgio Ferreira da Silva- São Paulo – SP

2º Lugar
A voz do perdão ressoa
quando o amor é quem nos chama:
quem ama sempre perdoa,
se não perdoa… não ama! Trova isolada – tema: Amor
Octávio Venturelli – Rio de Janeiro- RJ

3º Lugar
Nosso amor, desde o começo,
tem tal alcance e medida,
que, quanto mais envelheço,
mais o sinto…além da vida
João Freire Filho – Rio de Janeiro- RJ-
.

CONJUNTO – TEMA: CIÚME

1º Lugar – Troféu Annis Murad
Eis a feia envaidecida :
João tem ciúmes de mim
- Mas ele é cego, querida?
- Como tu sabes!… É sim.
José Tavares de Lima – J. de Fora- MG

2º Lugar
Fato estranho e repetido
deixa a madame cismada:
sempre que beija o marido
a babá fica emburrada !
Pedro Ornellas – São Paulo – SP

3º Lugar
É quando o ciúme bate
da mulher, em seus serões,
que a gente escuta o alfaiate
“ falando com seus botões” !
Edmar Japiassú Maia

TROVA ISOLADAS – HUMOR TEMA: CIÚME

1º Lugar
Tomou medida extremada
por ciúmes e ‘entrou bem!…
mandou embora a empregada
-e o marido foi também!
Pedro Ornellas – São Paulo-SP

2º Lugar
Deixa, vó de ciumeira,
que o vô só pensa em rezar…
-Diz a velhinha, cabreira:
e se a reza funcionar?…
José Tavares de Lima- J. de Fora – MG

3º Lugar
Fato estranho e repetido
deixa a madame cismada:
sempre que beija o marido
a babá fica emburrada!
Pedro Ornellas – São Paulo- SP
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>Gérard de Nerval (Poesias)

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DÉLFICA

Conheces tu, Dafné, este cantar de outrora
que junto do sicômoro ou sob os loureiros,
ou mirtos, oliveiras, trémulos salgueiros,
este cantar de amor… que volta sempre e agora?

Reconheces o Templo – peristilo imenso -
e os ácidos limões que teus dentes mordiam,
é a gruta onde imprudentes ébrios se perdiam
e do dragão vencido dorme o semen denso?

Hão-de voltar os deuses que saudosa choras!
O tempo há-de trazer da antiguidade as horas;
a terra estremeceu de um ar de profecia…

Todavia a sibila de rosto latino
adormecida à sombra está de Constantino
e nada perturbou a severa arcaria.

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VERSOS DE OURO

Pensando livre, julgas que nenhum outro ente
Pensa num mundo em que tudo jorra a vida?
És livre de dispor da força em ti contida,
Mas do que tu decides é o Universo ausente.

Respeita no animal um espírito agente.
Em cada flor uma alma espera ser sentida.
Um mistério de amor tem nos metais guarida.
Tudo é sensível. Tudo sobre ti potente.

Teme, no muro cego, um olhar que te fita.
A tudo o que é matéria um Verbo está ligado.
Não faças dela nunca uma coisa perjura.

Num ser obscuro às vezes há um deus que habita.
E, como um olho nasce em pálpebras fechado,
Sob as rugas das pedras uma alma se apura.
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A PRIMA

Tem seus prazeres o Inverno; e, ao domingo, às vezes,
se o sol pousa na neve dos jardins burgueses,
a gente sai com a prima para passear…
- E não se esqueçam lá da hora do jantar -

- é o que a mãe diz. E quando nós já vimos todos
os vestidos em flor passando entre o arvoredo,
a menina tem frio… e lembra com bons modos
como a névoa da tarde vem chegando cedo.

Voltamos para casa, recordando o dia
que tão rápido foi… e que tão pouco ardia…
E do fundo da escada cheira-se esfomeado
o perfume, lá em cima, do peru assado.
===============
O Desditado

Eu sou o tenebroso, – o viúvo, – o inconsolado
Príncipe d’Aquitânia, em triste rebeldia:
É morta a minha estrela, – e no meu constelado
Ataúde há o negror, sol da melancolia.
==================
Duas vezes o Aqueronte, – é o grande feito meu, -
Transpus a modular, nesta lira de Orfeu,
Os suspiros da santa e os clamores da fada…
Gerard de Nerval.
––––––––

A vida pulsa em cada tom, e ouço
palpitando-te o peito a dor e o luto
alaúde lilás. O clarim soa
enquanto o verso, livre, te machuca.

Viúvo obscuro tanges tua corda
na vaza deste verso, casa oca,
e plange o bandolim, perícia louca,
poeta dos silentes que não dormem.

Mas és o desditado, és o bastardo.
Cavaleiro do tempo em espaço vivo
invades, berro bárbaro na boca

o que não abandonas, deserdado,
mesmo se vendavais te varram a vida,
e o grito da tua chaga purgue e lave

a tua voz extrema de cantor.
Se lá chegares! É que jamais chegas,
jogo de júbilo face ao tormento.
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>Gérard de Nerval (22 de Maio 1808 – 25 Janeiro 1855)

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Gérard de Nerval (Paris, 22 de Maio de 1808 – 25 de Janeiro de 1855) foi um notório poeta do século XIX, considerado um expoente da poesia francesa.

Seu nome verdadeiro era Gérard Labrunie. Foi educado pelo pai, uma vez que sua mãe teve morte prematura.

Gérard de Nerval, cujo nome verdadeiro era Gerard Labruni, nasceu em Paris 22 de maio de 1808. Órfão de mãe, filho dum médico do exército de Napoleão, o jovem Gerard foi criado em Mortefontaine, na propriedade de seu tio-avô, no país Valois, região de florestas e lagos, tudo embuído de poesia e mistério, onde ele se inspira na poesia rústica e popular.

Ao longo de seus estudos parisienses, no colégio Carlos Magno, ele foi sócio do célebre Théophile Gautier, na elaboração de um folhetim dramático que era publicado regularmente na imprensa.

Ele refuta seus estudos de medicina, apaixona-se pela literatura alemã e em particular por Goethe, do qual ele seria mais tarde um grande tradutor e se fez conhecer por uma tradução de Fausto(1828) e depois de Hoffmann. Fausto, de Goethe, tradução na qual Berlioz se baseou para criar a sinfonia A Danação de Fausto.

No dia seguinte à batalha de Hernani(1830)da qual participou, ele frequenta a boemia da margem esquerda e o “Cenário” romântico e se vê numa louca paixão pela atriz Jennny Colon em 1836, que encarna todos seus sonhos, mas que o abandona para se casar com um músico. Ela se constituirá em seguida como uma das figuras femininas ideais, como em Aurélia (1855). Esta paixão infeliz determinará um traço característico de sua obra: a expansão do sonho na vida real, o fantástico e o amor platônico servindo para ele como fonte de inspiração.

Em 1841, começou a apresentar sinais de esquizofrenia, sendo internado por um tempo. Viajou pela Alemanha em companhia de Alexandre Dumas, e depois sozinho, pelo restante da Europa. Jenny Colon, sua” única estrela”, morre em 1842.

Ele se engaja, então, em 1843 numa viagem ao Oriente que o leva ao Egito, Síria, Turquia, Malta e Nápoles. A narrativa Viagem ao Oriente publicada em 1851 retrata essa experiência, toda impregnada da cultura antiga e de mitologia. Após a viagem, sua readaptação à França fica difícil e ele vive durante dez anos de pequenos trabalhos em edição e jornalismo.

Em 1851 sofreu nova crise de esquizofrenia, sendo internado por diversas vezes repetidas na clínica do Dr. Blanche, em Passy. Sua” loucura” lhe deixa mesmo assim alguns momentos de lucidez, donde nascem suas obras-primas e obras-mestras, Sylvie, Os filhos do Fogo e principalmente As Quimeras, seguida de doze sonetos repletos de alusões às revelações que o poeta crê ter recebido do Além, e logo tingidos dum hermetismo ligado à diversidade dos símbolos que ali funcionam simultaneamente. Nos últimos tempos de sua vida, ele leva uma existência errante e de miséria, até a manhã de 26 de janeiro de 1855, quando é encontrado dependurado sob a grade de uma escada, na rua da Velha-Lanterna, perto do Châtelet. É publicada Aurélia.

Características literárias

Desde cedo foi atraído pela literatura alemã, em especial “Contos Fantásticos”, de Hoffmann, e “Fausto”, de Goethe, que começou a traduzir em 1828.

Sua viagem ao oriente, que despertara o interesse pelo esoterismo e ocultismo, a esquizofrenia que o acompanhava, e a forte influência alemã foram fatores que o tornaram pouco alinhado com o romantismo francês de seu tempo.

Há uma certa melancolia em sua obra que o marginaliza ou, segundo pensam alguns críticos, o aproxima de um pré-simbolismo.

Obras principais
Elégies et Odelettes (1830) (Elegias e Odes Pequenas)
Fragments de Nicolas Flamel (1831)
Les filles du feu (1854) (As Filhas do Fogo), onde figuram os sonetos das Chimères (Quimeras)
Les amours de Vienne: La Pandora (1854) (Os Amores de Viena: A Pandora)
Aurélia ou le rève et la vie (1855) (Aurélia ou o Sonho e a Vida)

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/
www.clicfolio.com/clicfolio/arquivos.php?arq=33644&id=8924

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>Trova VI

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>XXII Jogos Florais de Ribeirão Preto 2009 (Resultado Final)

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TEMA NACIONAL: CIGANO (LIRISMO)

Categoria Vencedores

1º lugar – Carolina Ramos – Santos – SP
2º lugar – Hermoclydes Siqueira Franco – Nova Friburgo – RJ
3º lugar – Ederson Cardoso da Silva- Niterói – RJ
4º lugar – Olympio da Cruz Simões Coutinho – Belo Horizonte – MG
5º lugar – Izo Goldman –São Paulo – SP

Categoria Menção Honrosa

1º lugar – Renato Alves – Rio de Janeiro – RJ
2º lugar – José Ouverney – Pindamonhangaba – SP
3º lugar – Antônio Augusto de Assis – Maringá – PR
4º lugar – Maria Apparecida S.Coquemala – Itararé – SP
5º lugar – Ébea Priscila de Sousa e Silva – Caçapava – SP

Categoria Menção Especial

1º Lugar – Marilucia Resende – São Paulo – SP
2º Lugar – Marina Bruna – São Paulo – SP
3º Lugar – Ercy Maria Marques de Faria – Bauru – SP
4º Lugar – Miguel Russowsky – Joaçaba – SC
5º Lugar – Hermoclydes Siqueira Franco – Nova Friburgo – RJ

TEMA NACIONAL: EREMITA (humor)

Categoria Vencedores

1º lugar – Therezinha Dieguez Brisolla – São Paulo -SP
2º lugar – Renata Paccola – São Paulo – SP
3º lugar – Eduardo Domingos Bottallo – São Paulo – SP
4º lugar – Izo Goldman – São Paulo – SP
5º lugar – Marina Bruna – São Paulo – SP

Categoria Menção Honrosa

1º lugar – Ademar Macedo –Natal – RN
2º lugar – Therezinha Dieguez Brisolla – São Paulo – SP
3º lugar – Ruth Farah Nacif Lutterback – Cantagalo – RJ
4º lugar – Argemira Fernandes Marcondes – Taubaté-SP
5º lugar – Vanda Fagundes Queirós – Curitiba – PR

Categoria Menção Especial

1º lugar – Ébea Priscila de Sousa e Silva – Caçapava – SP
2º lugar – Therezinha Dieguez Brisolla – São Paulo -SP
3º lugar – Antonio Barradas Barroso – Parede, – Portugal
4º lugar – Olympio da Cruz Simões Coutinho – Belo Horizonte – MG
5º lugar – Maria Lúcia Daloce – Bandeirantes – PR

Fonte:
A.A. de Assis

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>Amadeu Amaral (O Elogio da Mediocridade)

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Carta a um crítico

Meu amigo:

Está V. a ensaiar os seus pendores para a crítica, no que faz muito bem, porque é tempo de se ir criando por aqui essa coisa proveitosa; mas a ensaiá-los a custa de pobres poetas enfermiços e de prosadores claudicantes, no que faz muito mal. Permita que lhe represente, em brevesos linhas, os equívocos fundamentais e as incongruências desta sua atitude heróica.

O crítico, meu caro, que ferozmente agride as obras medíocres, procede como o sujeito que pretendesse deitar abaixo o pavimento inferior de uma casa de vários andares, para só conservar o resto. A mediocridade é necessária, absolutamente necessária que no sentido de coisa inevitável, quer no sentido de coisa útil. É, porque tem de ser; além disso, é benéfica.

A turba imensa dos medíocres constitui uma como nebulosa informe, sementeira protoplasmática de estrelas. A maioria dos grandes de lá saiu, e felizes daqueles que saíram de vez, para não mais tornar ao rebanho depois de um esforço máximo e prodigioso. Em regra, a obra total de um escritor de fama é uma série de livros que vai da mediocridade ao esplendor de um pináculo de ouro, e esse pináculo, como o de uma pirâmide, é justamente a porção que ocupa o menor lugar no espaço. A glória de Cervantes está inteira na cúpula de um enorme edifício literário Dom Quixote; o resto ficou para sempre mergulhado na sombra, como o corpo colossal de um casarão que só conserva iluminado, no seio da noite, a torre mais alta e mais esguia.

Certo, escritores há que, em rigor, nunca foram medíocres, cujas primeiras tentativas podem comparar-se aos primeiros vôos, mas aos primeiros vôos das águias jovens. São poucos. Esses mesmos, porém, não existiriam se não houvesse a vasta mediocridade que os cerca, que lhes serve de ponto de apoio, que lhes alimenta o espírito nos primeiros tempos, e que os impele para cima com todos os estímulos contraditórios da rivalidade e do aplauso.

Toda literatura pressupõe uma multidão de medíocres, e não só de medíocres, senão também de inferiores, de rudimentares, de falhados e de decadentes. Tanto mais pujante e luminosa ela é, tanto mais grossa a multidão rasteira. Esse mato baixo sustenta a indispensável camada de humus, resguarda e entretém a vida incipiente das árvores destinadas à máxima expansão. Foi esse mato que permitiu, na Inglaterra, o crescimento fabuloso de Shakespeare, a cuja volta trabalhava e produzia uma plêiade de dramaturgos fortes e uma turba-multa obscura de escribas irrequietos.

Por que, pois, essa fúria sinistra de demolição, de que o meu jovem amigo se mostra dominado, a exemplo de outros cavalheiros que conscienciosamente manejam o cacete correcional da crítica impiedosa?

[...]

No seu entender, quem publica um livro está por força na atitude de quem constrói um pagode monumental, e nele se remira, e lá dentro se instala, como um Buda, à espera da romaria dos pósteros. Ora, o livro, depois que se inventou a imprensa, deixou rapidamente de ser um luxo, uma alfaia, um segredo, um adorno, qualquer coisa que avaramente se guardava a um canto da casa, entre a arca pregueada e o oratório esculpido, como uma relíquia ou um manipanço, para ser algo que já não corresponde a qualquer imagem antiga, algo de imprevisto e de original, uma característica flagrante de tempos renovados: um instrumento de comércio transitório entre as almas, prolongamento da conversação adstrito à troca universal das idéias.

O livro tem de ser considerado, não mais como um repositório de coisas concebidas e filtradas “para a eternidade”, mas sim como uma rede de pesca a sair do seio imenso das águas, trazendo de envolta com o peixe a alga, o marisco e a salsugem. Instrumento, utensil, aparelho, o livro tem a sua função naturalmente limitada: o seu fim primacial não é durar, é prestar serviço. Cumprida a sua missão, embotado, enferrujado, substituiu-se pelo mais novo e mais interessante e põe-se fora. Nem por isso deixou de haver um momento em que foi bem-vindo. Era um elo, passou; mas teve a virtude de arrastar um outro, que também passa, e a circulação continua…

Deixe em paz, meu bom amigo, os literatelhos em que V. gosta de saciar o seu rancor ao pedantismo e à pretensão. Ou bem que faz moral, ou bem que faz crítica.

Como crítico, o seu dever é respeitá-los: estão desempenhando a alta função de preparar o terreno para o surto das grandezas futuras.

Lembre-se de que o nosso amigo Shakespeare não fez, nas sua grandes peças, senão apoderar-se tranqüilamente de produtos medíocres para os transformar a seu jeito, insuflando-lhes aquilo que os predecessores não haviam podido dar-lhes, apesar de toda a boa vontade: gênio. Lembre-se de que a lenda dos gigantes que fazem línguas e literaturas por si sós está definitivamente morta. Dante não teria feito a Divina comédia, nem Camões os Os lusíadas, nem você estaria aí escrevendo críticas, se não fosse a enorme legião dos pigmeus sem nome nem lustre, cujo esforço apagado e tenaz, inumerável e ininterrupto, lavrando subterraneamente, aumenta pouco a pouco o tesouro coletivo da língua, lhe dá variedade, elasticidade e energia, e a conduz ao ponto de poder ser manejada com fragor por um punho poderoso.

Não se impressione com as pretensões da mediocridade, com a troca de doçuras ditirâmbicas em que ela se compraz. O louvor excessivo só perverte e inutiliza, em regra, os que nasceram talhados para coisa nenhuma. Há, em compensação, muito cavalheiro de grande valor que a canalha deixa na sombra? A isso, meu amigo, nem, Você nem ninguém dará remédio. Molière, numa época de florescência literária, que V. não quererá comparar com a nossa, passava por um hábil comediógrafo, em quem a crítica justiceira do tempo nem por isso lobrigava grandes méritos. Em compensação, Delille foi aclamado gênio pelos contemporâneos. E, sempre há de ser assim.

O caminho que V. deve tomar é outro. Deixe os medíocres em paz, e vá direito aos grandes. Com eles é que o meu amigo deve medir forças. Trate de ser alto e forte com eles, e renuncie a esse trabalho infrutífero e triste de remexer miçangas e alfinetes, acocorado numa esteira.

Lá é que eu desejo ver aplicadas as excelentes disposições que V. revela para a crítica, e que nos hão de dar daqui a pouco o nosso respeitável Brandes, ou o nosso compendioso Faguet.

Ex-corde…

Fonte:
- AMARAL, Amadeu.O elogio da mediocridade. SP: Hucitec, 1976.

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>Agostinho Neto (Teia de Poesias)

>

Antigamente Era

Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo

Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo

E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados

Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.
=================================

Confiança

O oceano separou-se de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente/
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo.

Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso

Enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construíam mundos maravilhosos

john foi linchado/o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continuou ignorante

E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou a certeza

As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de chão.
============================

Civilização ocidental

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.
=================================

kinaxixi

Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar…
Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas
Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool
Nem felicidade nem ódio
Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar
==============================

Poesia Africana

Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
========================

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>Agostinho Neto (1922 – 1997)

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Antonio Agostinho Neto nasceu a 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, a cerca de 60 km de Luanda. O pai era pastor e professor da igreja protestante e, tal como sua mãe, era igualmente professora. Após ter concluído o Liceu em Luanda, Neto trabalhou nos serviços de saúde. Viria a tornar-se rapidamente uma figura proeminente do movimento cultural nacionalista que, durante os anos quarentas, conheceu uma fase de vigorosa expansão.

Decidido a formar-se em Medicina, Neto pôs de lado parte dos seus magros proventos durante vários anos e, foi com essas economias que embarcou para Portugal em 1947 e se matriculou na Faculdade de Medicina de Coimbra. Não havia uma única instituição de ensino superior na Colônia. O estudante que pretendesse continuar os seus estudos via-se forçado a fazê-lo à custa de grande sacrifício e tinha de alcançar um notável status acadêmico em condições de pobreza e descriminação racial extremamente difíceis. Estudando primeiro em Coimbra e posteriormente em Lisboa, foi-lhe concedida uma bolsa de estudos pelos Metodistas Americanos dois anos depois da sua chegada à Portugal.

Cedo se embrenhou em atividades políticas e experimentou a prisão pela primeira vez em 1951, ao ser preso quando reunia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz em Estocolmo.

Retomando as atividades políticas após a sua libertação, Neto tornou-se representante da Juventude das colônias portuguesas junto de um movimento da juventude portuguesa, o MUD juvenil. E foi no decurso de um comício de estudantes a que assistiam operários e camponeses que a PIDE o prendeu pela segunda vez.

Preso em Fevereiro de 1955, só veio a ser posto em liberdade em Junho de 1957.

Por altura da sua prisão em 1955 veio ao lume um opúsculo com os seus poemas. Entretanto, certos poemas que descreviam as amargas condições de vida do Povo angolano e a fervente crença do poeta no futuro haviam já atravessado, anos antes, o muro de silêncio que Portugal erguera em torno da repressão que exercia sobre os democratas e dos crimes brutais que se perpetravam nas colônias.

O caso da prisão do poeta angolano desencadeou uma vaga de protestos em grande escala. Realizaram-se encontros; escreveram-se cartas e enviaram-se petições assinadas por intelectuais franceses de primeiro plano, como Jean-Paul Sart, André Mauriac, Aragon e Simone de Beauvoir, pelo poeta cubano Nicolás Gullén e pelo pintor mexicano Diogo Rivera. Em 1957 foi eleito Prisioneiro Político do Ano pela Anistia Internacional.

Em 10 de Dezembro de 1956 fundaram-se em Angola vários movimentos patrióticos para formar o MPLA, Movimento Popular para Libertação de Angola, o movimento que lançaria a luta armada do povo angolano contra um Portugal fascista e obstinado, cujas estruturas econômicas e sociais eram demasiado obsoletas para permitir a aplicação das soluções neocolonialistas procuradas noutros lugares. Começando por se organizar nas áreas urbanas, entre os operários e intelectuais progressistas, o MPLA viria a mostrar em breve as suas notáveis flexibilidade e capacidade de adaptação às exigências do momento quando passou à luta armada, criando um exército do povo para conduzir uma guerra que o poeta viria a chefiar.

Em 1958, Agostinho Neto doutorou-se em Medicina e, casou no próprio dia em que concluiu o curso. Nesse mesmo ano, foi um dos fundadores do clandestino Movimento Anticolonial (MAC), que reunia patriotas oriundos das diversas colônias portuguesas.

Neto voltou ao seu País, com a mulher, Maria Eugênia, e o filho de tenra idade, em 30 de Dezembro de 1959. Ocupou, então, a chefia do MPLA em território angolano e passou a exercer a medicina entre os seus compatriotas. Muitos membros do Movimento tinham sido forçados ao exílio nos anos que antecederam o seu regresso à Angola, tendo estabelecido um quartel-general próprio em Conacry, na independente República da Guiné, donde podiam informar um mundo ainda em larga medida ignorante da situação em Angola.

Sucederam-se novas prisões em Julho de 1959, incluindo a de Ilídio Machado, o primeiro presidente do MPLA, um dos réus do célebre julgamento dos Cinquenta, julgamento militar secreto em que foram aplicadas severas penas à destacados militantes do MPLA, alguns dos quais foram julgados na ausência, dado que haviam já optado pelo exílio.

Em 8 de Junho de 1960, o diretor da PIDE veio pessoalmente prender Neto no seu Consultório em Luanda. O que se seguiu foi um exemplo típico da brutalidade assassina praticada pelas autoridades fascistas. Uma manifestação pacífica realizada na aldeia natal de Neto em protesto contra a sua prisão foi recebida pelas balas da polícia. Trinta mortos e duzentos feridos foi o balanço do que passou a designar-se pelo Massacre de Icolo e Bengo.

Receando as conseqüências que podiam advir da sua presença em Angola, mesmo encontrando-se preso, os colonialistas transferiram Neto para uma prisão de Lisboa e, mais tarde enviaram-no para Cabo Verde, para Santo Antão e, depois para Santiago, onde continuou a exercer a medicina sob constante vigilância política. Foi, durante este período, eleito Presidente Honorário do MPLA.

Na altura que mereceram as honras das primeiras páginas dos jornais as notícias da captura, no oceano Atlântico, de um navio português, o Santa Maria, por um grupo de democratas portugueses chefiado por Henrique Galvão, ex-funcionário colonial que acabava de escapar à prisão em Portugal! E que havia denunciado a existência de trabalhos forçados em Angola num fulminante relatório escrito em 1961. Correu o boato de que o navio rumava à Luanda, boato esse que levou à capital angolana grande número de jornalistas estrangeiros. Os militantes do MPLA que operavam clandestinamente em Luanda decidiram fazer coincidir a sua planeada ação para libertar os prisioneiros políticos com a presença desses jornalistas, no intuito de atrair as atenções do mundo para a dolorosa operação ao domínio português na colônia de Angola.

Puseram o seu plano em prática. As primeiras horas do dia 4 de Fevereiro de 1961, as prisões de Luanda foram assaltadas por homens munidos de catanas armas de fogo, algumas das quais capturadas durante um ataque realizado antes contra um Jeep da polícia. Se bem que os assaltantes não tivessem conseguido os seus intentos, este ato de coragem dirigido contra os baluartes da opressão foi a primeira salva da luta armada que alastraria pelo território angolano, conduzida pela determinação de homens e mulheres preparados para superar todas as dificuldades e que, neste momento, já dura há mais tempo do que qualquer luta armada em África.

À esta explosão sucedeu uma repressão brutal. Bombardearam-se aldeias, e aqueles habitantes que conseguiram fugir foram metralhados e atacados com napalm. O número total das vítimas tem sido calculado entre vinte e trinta mil, mas pode muito bem ter sido superior, dado que as autoridades coloniais nunca se preocuparam com manter um recenseamento exato da população africana. Espalhando o terror, as autoridades fascistas mataram e mataram recorrendo a métodos tão horrendos como o agrupar pessoas e passar-lhes um bulldozer por cima. Nas áreas urbanas, a sua ação tinha por objetivo a liquidação dos africanos instruídos, os ditos assimilados, receando que estes elementos assumissem a direção das massas.

Algumas fotografias conseguiram chegar à imprensa estrangeira, de entre as quais merece especial referência uma que foi inserta em diversos jornais (por exemplo, no Afrique Action, semanário que se publica em Tunes). Nessa fotografia, um grupo de jovens soldados portugueses sorriam para a câmara, segurando um deles uma estaca em que foi espetada a cabeça de um angolano. O horror transmitido por esta fotografia despertou muitas consciências para os crimes nefandos que se perpetravam em Angola. Foi precisamente por mostrar esta fotografia a alguns amigos em Santiago (Cabo Verde) que Neto foi preso na cidade da Praia e transferido depois para a prisão de Aljube em Lisboa aonde deu entrada em 17 de Outubro de 1961.

Acima de tudo, o MPLA lançou uma implacável campanha em prol da sua libertação, apelando para a solidariedade mundial para com Neto e todos os prisioneiros políticos angolanos.

Sob esta forte pressão, as autoridades fascistas viram-se obrigadas a libertar Neto em 1962, fixando residência em Portugal. Todavia, pouco tempo depois da saída da prisão, a eficaz organização do MPLA pôs em prática um plano de evasão e Neto saiu clandestinamente de Portugal com a mulher e os filhos pequenos, chegando a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha ao tempo a sua sede exterior, em Julho de 1962. Em Dezembro desse ano, foi eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento.

Agostinho Neto na África de expressão portuguesa é comparável à Léopold Senghor na África de expressão francesa.

Presidente Neto lança-se numa intensa atividade desde 1963, já eleito Presidente do MPLA, quer no interior, quer no exterior do País. Dirigiu pessoalmente as relações diplomáticas do Movimento, podendo assim visitar numerosos países e contatar grandes dirigentes revolucionários que nele reconheceram sempre o guia esclarecido de um povo heróico e generoso, que travava uma guerra justa pela independência nacional, pela Democracia e pelo Progresso Social.

Com a “Revolução dos Cravos” em Portugal e a derrocada do regime fascista de Salazar, continuado por Marcelo Caetano, em 25 de Abril de 1974, o MPLA considerou reunidas as condições mínimas indispensáveis, quer a nível interno, quer a nível externo, para assinar um acordo de cessar-fogo com o Governo Português, o que veio a acontecer em Outubro do mesmo ano.

Presidente Neto regressou à Luanda no dia 4 de Fevereiro de 1975, sendo alvo da mais grandiosa manifestação popular de que há memória em Angola. Dirige, pessoalmente, a partir desse momento toda a ação contra as múltiplas tentativas de impedir a independência de Angola, proclamando a Resistência Popular Generalizada.

E a 11 de Novembro de 1975, após 14 anos de dura luta contra o colonialismo e o imperialismo, o Povo Angolano proclamou pela voz do Presidente Neto a independência Nacional, objetivo pelo qual deram a vida tantos e tão dignos filhos da Pátria Angolana, tendo sido nessa altura investido no cargo de Presidente da República Popular de Angola.

Ao intervir no ato da proclamação da Independência, o Presidente Neto sintetizou claramente quais as meta e meios para as materializar, definindo como objetivo estratégico a construção de uma nova sociedade sem exploradores nem explorados.

O Processo de Reconstrução Nacional nos domínios político, econômico e social com vista à melhoria das condições de vida de todo o Povo Angolano, a concretização das suas aspirações mais legitimas, tornou-se então a preocupação fundamental da direção do País, que firmemente aponta como fato decisivo o papel do trabalho de todo o Povo na criação das bases materiais e técnicas para a construção do Socialismo. Em Dezembro de 1977, funda-se então o Partido de Vanguarda, o MPLA – Partido do Trabalho.

A figura de Neto, como militante total, corajoso revolucionário e estadista eminente não se limita às fronteiras de Angola. Ela projeta-se no contexto africano e mundial, onde a sua prática e o seu exemplo servem de impulso à luta dos Povos que, no Mundo, estão ainda submetidos à humilhação, ao obscurantismo e à exploração.

Assim é que, nas tribunas internacionais a voz de Neto nunca deixou de denunciar as situações de dominação colonial, neocolonial e imperialista, pela Libertação Nacional, a favor da independência total dos Povos, pelo estabelecimento de relações justas entre os países e pela manutenção da paz como elemento indispensável ao desenvolvimento das nações.

Agostinho Neto foi também um esclarecido homem de cultura para quem as manifestações culturais tinham de ser, antes de mais, a expressão viva das aspirações dos oprimidos, armas para a denúncia de situações injustas, instrumento para a reconstrução da nova vida.

A atribuição do Prêmio Lótus, em 1970, pela Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos e outras distinções atribuídas a algumas das suas obras de poesia, são mais um reconhecimento internacional dos seus méritos neste domínio.

Também na República Popular de Angola, a eleição de Neto como Presidente da União dos Escritores Angolanos cuja proclamação assinou, traduz a justa admiração dos homens de letra do jovem País, pelo seu mais destacado membro, que tão magistralmente encarou a “SAGRADA ESPERANÇA” de todo o povo

Morreu em Moscovo, em 1997.

Obra literária
Poesia
• 1957 Quatro Poemas de Agostinho Neto, Póvoa do Varzim, e.a.
• 1961 Poemas, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império
• 1974 Sagrada Esperança, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros)
• 1982 A Renúncia Impossível, Luanda, INALD (edição póstuma)
Política
• 1974 – Quem é o inimigo… qual é o nosso objetivo?
• 1976 – Destruir o velho para construir o novo
• 1980 – Ainda o meu sonho

Fontes:
http://www2.ebonet.net/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.lusofoniapoetica.com/index.php/content/category/6/38/299/

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>Honoré de Balzac (20 Maio 1799 – 18 Agosto 1850)

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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um romancista francês.

Nasceu no departamento francês de Indre-et-Loire e em 1849, com a saúde debilitada, viajou para a Polônia para visitar Eveline Hanska, uma rica dama polaca com quem se correspondeu mais de 15 anos. Em 1850, três meses antes da morte de Balzac, eles casaram-se.

Tendo-se tornado num dos maiores nomes do realismo na literatura, as suas obras são, no entanto, cunhadas sobre a tradição literária do romantismo francês. Sua A Comédia Humana (La comédie humaine), que reúne oitenta e oito obras, procura retratar a realidade da vida burguesa da França na sua época.

Os hábitos de trabalho de Balzac tornaram-se lendários – escrever cerca de quinze horas por dia, impulsionado por um sem-número de chávenas de café. Com uma produção volumosa, é frequente que se apontem pequenas imperfeições em sua obra – o que, no entanto, não é suficiente para retirar de muitas delas o epíteto de obras-primas.

Biografia

Filho de Bernard François Balssa, administrador do hospício de Tours, e de Anna Charlotte Sallambier, Honoré de Balzac foi o primeiro de três crianças (Laure, Laurence e Henry). Henry-François era, de longe, seu favorito.

O pai de Balzac, Bernard François, foi nomeado diretor da Primeira Divisão militar em Paris e a família se instalou na rua do Templo, no Marais; bairro de origem da família. Em 04 de novembro de 1816, começa a cursar Direito e obtém o diploma de bacharel três anos mais tarde. Ao mesmo tempo, tem aulas particulares teóricas na Sorbonne. Passou este período na casa do procurador Jean-Baptiste Guillonnet-Merville, um amigo da família e amante das letras.

Estilo

A prosa realista de Balzac e seu fôlego como um retratista quase enciclopédico de sua época sobrepujam eventuais características menos invejáveis de seu estilo e o posicionam como um bastião da literatura francesa.

Balzac foi sepultado no cemitério do Père Lachaise, em Paris, e seu jazigo conta com uma estátua realizada por Auguste Rodin. O discurso foi feito por Victor Hugo.

A Comédia Humana

A obra de Balzac encontra-se em domínio público e um razoável número delas está disponível digitalmente através do Projeto Gutenberg. No Brasil, a obra foi editada pela Editora Globo, em edições que contam com notas introdutórias de Paulo Rónai.

A Comédia Humana, que conta com oitenta e oito obras, a maior parte romances e contos, é um retrato de uma época com seu conjunto de personagens fictícios e reais que chegou a proporcionar o comentário de que “Balzac estaria competindo abertamente com o Registro Civil”.

Escritos políticos

Formado advogado, Balzac acreditava em uma monarquia constitucional, e em uma aristocracia de tipo feudal, a qual ele dizia ser o intelecto do sistema social. Escreveu um panfleto em favor da primogenitude, e declarava não acreditar nos “direitos do homem”, na igualdade humana, ou na habilidade das massas e do povo de se autogovernarem. Ele afirmava “Um só homem deve ter o poder de fazer leis.”

Obras

Ficção
• A Comédia Humana (1829-1848) – contos, novelas e romances
• Contes Drolatiques (1832) – contos
• O Amor Mascarado (L’Amour Masque ou Imprudence et Bonheur – 1911) – romance

Não-Ficção
• Tratado dos Excitantes Modernos (Traité des excitants modernes – 1839) – ensaio
• Pathologie de la Vie Sociale (Traité de la Vie Élégante et Traité de la Démarche – 1839) – ensaios
• Os Jornalistas (Les Journalistes – 1843) – panfleto

Poesia
• Cromwell (1819) – tragédia em versos
• A mulher de trinta anos

Teatro
• L’École des Ménages (1839)
• Vautrin (1839)
• Les Ressources de Quinola (1842)
• Paméla Figaud (1842)
• La Marâtre (1848)
• Mercadet ou le Faiseur (1848)

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/

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>Honoré de Balzac (A Comédia Humana)

>(não confundir com “A Comédia Humana”, de William Saroyan, de 1942)

A Comédia Humana é o título geral de oitenta e oito obras, em sua maior parte romances, novelas e contos, que retratam principalmente a ascensão da burguesia, ocorrida à época da Restauração. No Brasil, A Comédia Humana foi publicada integralmente em dezessete volumes, entre 1945 e 1953, pela Editora Globo, de Porto Alegre e reeditada entre 1989 e 1993, pela nova Editora Globo, de São Paulo, em ambas as ocasiões com orientação, introduções e notas de Paulo Rónai.

Visão geral

Uma tarefa colossal

Tudo na “A Comédia Humana” é imenso: dezessete volumes (nas edições brasileiras), oitenta e oito obras (mas planejada para ter cento e trinta e sete), mais de dez mil e seiscentas páginas (na edição da nova Editora Globo), mais de dois mil e quinhentos personagens. No entanto, Balzac não se referia a si mesmo como escritor e, sim, como historiador de costumes. Conforme Terezinha de Camargo Viana, “Balzac, ao se propor como “historiador de costumes”, tem como perspectiva assinalar o processo de profundas mudanças pelas quais passa a sociedade francesa na primeira metade do século XIX, evidenciando a transição do Antigo Regime à consolidação da moderna sociedade burguesa“. Para atingir este objetivo, o autor introduziu na literatura assuntos, profissões e classes que nela nunca tiveram lugar antes: o sistema de transporte interurbano na França, o processo da tipografia, o jornalismo nascente, a rotina dos cartórios e dos escritórios de advocacia, os comerciantes e suas listas de clientes e fornecedores, o sistema de descontos de letras, a confecção de perfumes, atas de concordatas, montagem de processos de falências etc., a nada Balzac se furtou, sem jamais cair no ridículo ou na monotonia. Tratou também da luta de classes (seu romance póstumo Os Camponeses contém, pela primeira vez na literatura, a palavra “comunismo”), do espiritismo, dos meandros da política, do misticismo e de temas espinhosos, como o lesbianismo. Aliás, segundo Otto Maria Carpeaux, o gênero literário romance divide-se em antes e depois de Balzac. Antes, como em Manon Lescaut, do Abade Prévost, A Princesa de Clèves, de Madame de La Fayette ou A Nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau, um romance seria “a relação de uma história extraordinária, ‘romanesca’, fora do comum. Depois, o espelho do nosso mundo, dos nossos países, das nossas cidades e ruas, das nossas casas, dos dramas que se passam em nossos apartamentos e quartos“.

Do romance popular à provocação a Dante

O primeiro volume saiu em 1842, mas a essa altura quase todas as obras já haviam sido publicadas, tanto em jornais como em forma de livros. Balzac estreou nas letras na década de 1820, escrevendo subliteratura influenciada pelo romance gótico, com títulos como A Última Fada ou a Nova Lâmpada Maravilhosa, Anette e o Criminoso, João Luís ou a Enjeitada e Clotilde de Lusignan ou o Belo Judeu. Sabia que eram livros sem nenhum valor artístico, por isso assinava-os com pseudônimos como Lord R’hoone e Horace de Sainte-Aubin. Finalmente, em 1829 publicou o primeiro título que assinou com seu nome, o romance histórico A Bretanha em 1799. A partir daí, em um ritmo cada vez mais frenético, saíram até 1833, entre outros, A Pele de Onagro, Luís Lambert, Sobre Catarina de Médicis, Fisiologia do Casamento, O Coronel Chabert, Eugênia Grandet e uma grande quantidade de contos, como Uma Paixão no Deserto, O Romeiral, A Obra-Prima Ignorada, O Ilustre Gaudissart, A Estalagem Vermelha etc. Em 1834, resolve classificar todas as suas obras em três grupos: Estudos de Costumes, Estudos Filosóficos e Estudos Analíticos. Finalmente, em 1842 encontra o título definitivo de todo o conjunto: A Comédia Humana, um evidente contraponto à Divina Comédia de Dante.

A volta sistemática dos personagens

Ainda em 1834, Balzac teve a idéia, inédita na história da literatura, de fazer reaparecer seus personagens em diferentes obras, em diferentes estágios de suas vidas: aqui na juventude, ali velhos e pobres, acolá ministros ou banqueiros; aqui coadjuvantes, ali figuras centrais; felizes em um conto, infelizes em um romance; por vezes ainda ingênuos e cheios de sonhos, uns rematados crápulas em outro momento etc. Essa invenção “originalíssima e de grande alcance, cujo mérito cabe exclusivamente a Balzac“, nas palavras de Paulo Rónai, repercutiu não muito favoravelmente à época, mas teve uma enorme influência sobre inúmeros escritores, entre eles Camilo Castelo Branco, Marcel Proust, William Faulkner e José Lins do Rego. Decisão tomada, Balzac pôs-se a refazer muitas de suas obras, trocando nomes e biografias de personagens, ajustando situações, datas, etc. até conseguir um todo coerente. Considerando-se que a galeria dos tipos criados pelo autor chega à casa dos milhares, é surpreendente que ele raras vezes tenha se enganado em algum pormenor físico, psicológico ou biográfico de suas criaturas. Naturalmente, nem todos os personagens participam de mais de uma obra: Oscar Husson, por exemplo, protagoniza e só aparece em Uma Estréia na Vida; César Birotteau está todo em História da Grandeza e da Decadência de César Birotteau; e assim, com inúmeros outros. Entretanto, aproximadamente seiscentos, como Eugênio de Rastignac, a Marquesa d’Espard, o doutor Bianchon, a Condessa de Restaud, arrivistas como Máximo de Trailles e Henrique de Marsay, a corista Florina, o caricaturista Bixiou, o dândi português Marquês Miguel d’Ajuda-Pinto e um longo etc. transitam por diversos livros, às vezes como personagens principais, às vezes (ou sempre) secundários, às vezes apenas entrevistos ou entreouvidos. Só Esplendores e Misérias das Cortesãs, por exemplo, conta com mais de cento e cinquenta reaparições! O fato de essa técnica transformar cada romance, novela ou conto em capítulos de um conjunto maior e único, não significa que eles não possam ser lidos separadamente, com raríssimas exceções.

Pensamento conservador, analista imparcial

Cheio de idéias, com mil planos na cabeça e atormentado por eternas dívidas, Balzac impôs-se uma rotina insana que fazia com que trabalhasse de quatorze a dezoito horas por dia. Apenas em 1834 foram publicados A Procura do Absoluto, O Pai Goriot, A Duquesa de Langeais e Um Drama à Beira-Mar; em 1835, Seráfita, A Menina dos Olhos de Ouro, Melmoth Apaziguado, O Lírio do Vale e O Contrato de Casamento. E assim, todo o conjunto que forma A Comédia Humana foi escrito em menos de vinte anos. E de que tratam todos esses livros? A rigor, Balzac fala de uma única paixão. Porém, ao contrário dos escritores até então, essa paixão não é mais o Amor, e sim o Dinheiro: os personagens se humilham, casam, traem e cometem crimes para escalar posições sociais, para manter as aparências, para adquirir poder. Amor, honra, lealdade, honestidade, tudo se subordina às novas tentações trazidas pela vida moderna pós-Revolução Francesa. Assim, é imperioso acalmar credores, resgatar letras vencidas junto a usurários, amortizar dívidas contraídas nos elegantes magazines erguidos em luxuosas galerias (os shopping centers da época), exibir chapéus, luvas e bengalas incrustadas de diamantes em passeios pelos bulevares ou ainda ser aceito nos exclusivos salões da fervilhante Paris, a capital do mundo. Carpeaux fez a síntese: “A Comédie Humaine é a “Tragédia do Dinheiro”“. Balzac, não à toa considerado o criador do romance moderno, intuiu que aparência é tudo e que, dentro em pouco, todos estariam sujeitos à influência avassaladora da imprensa e da publicidade. Por outro lado, apesar de ferrenho monarquista e feroz católico, e apesar de em vários momentos colocar na boca de algum personagem suas idéias conservadoras, até mesmo reacionárias, Balzac disseca com invejável imparcialidade a ascensão da odiada burguesia, e a derrocada final da sempre bajulada nobreza, que se afogou em decadência moral e se deixou corromper por aquela nova classe social. Por isso, Vitor Hugo, em discurso proferido sobre sua tumba, afirmou que, querendo ou não, Balzac pertencia “à forte raça dos escritores revolucionários“. Hegel e Marx, fãs confessos, não poderiam concordar mais.

Os grupos e subgrupos

Mesmo depois do início da publicação dos volumes da A Comédia Humana, Balzac continuava a revisar incessantemente suas obras. Além da divisão nos já citados Estudos de Costumes, Filosóficos e Analíticos, criou subdivisões, como Cenas da Vida Privada, Cenas da Vida Provinciana, Cenas da Vida Parisiense etc., num total de seis, todas subordinadas aos Estudos de Costumes. Indeciso, diversos livros foram colocados arbitrariamente pelo autor ora em uma categoria, ora em outra, mesmo porque essas divisões sempre foram muito artificiais. Ilusões Perdidas, por exemplo, apesar de fazer parte das Cenas da Vida Provinciana, caberia tranquilamente nas Cenas da Vida Parisiense; as obras arroladas em Cenas da Vida Rural poderiam perfeitamente ser colocadas entre as Cenas da Vida Provinciana; já as obras que compõem as Cenas da Vida Privada passam-se em Paris, em sua maioria, daí poderem fazer parte das Cenas da Vida Parisiense. Mas, ainda não satisfeito, Balzac criou ainda várias novas subdivisões dentro das Cenas: “Os Primos Pobres”, para acomodar A Prima Bette e O Primo Pons, “Os Celibatários”, “Os Parisienses na Província”, “História dos Treze” etc. Pouco disso era necessário, porém demonstra mais uma vez a vontade do autor de ser o mais racional e analítico possível.

As grandes obras

Parte do que Balzac escreveu é reconhecidamente fraca (o próprio autor concordava com isso) ou ficou datada com o tempo. Entretanto, a grande maioria continua indispensável, pelo que representa de testemunho de uma época e, principalmente, pela relevância das questões levantadas, ainda atuais um século e meio depois de virem à luz. Para uma relação com algumas das narrativas mais importantes, acompanhadas de um breve comentário, bem como um quadro geral, contendo todas as obras que compõem a Comédia , ver Obras de A Comédia Humana de Balzac.

Os grandes personagens

Uma galeria imensa

Balzac povoou suas oitenta e oito obras com mais de dois mil e quinhentos personagens. Muitos são inesquecíveis: Luciano de Rubempré, o poeta ingênuo de Ilusões Perdidas; Eugênio de Rastignac, o provinciano ambicioso, que inicia sua trajetória vitoriosa em O Pai Goriot; o demoníaco e manipulador Vautrin, também apresentado na mesma obra; toda a fauna de Paris, como os dândis Máximo de Trailles e Henrique de Marsay, o caricaturista Bixiou, o doutor Bianchon, as cortesãs Ester e a Sra. Marneffe etc.; a prima Bette e o primo Pons; aristocratas decadentes como a Marquesa d’Espard e a Duquesa de Maufrigneuse; a Cibot; Seráfita, o hermafrodita; o adolescente antipático Oscar Husson; Luís Lambert, gênio atormentado; a conformada Eugênia Grandet e seu pai avarento; o Pai Goriot e o Coronel Chabert; Birotteau e seus perfumes; Gobseck, o usurário filósofo; o juiz Popinot…; a galeria é imensa. Obras foram escritas tentando relacionar todos os personagens, com suas respectivas biografias, os livros onde aparecem etc.: Dictionnaire Biographique des Personnages Fictifs de la Comédie Humaine, de Fernand Lotte (Paris, 1952), Balzac et Son Monde, de Félicien Marceau (Paris, 1955) e Répertoire de la Comédie Humaine, de Anatole Cerfberr e Jules François Christophe (Paris, 1887). A respeito deste último, Paulo Rónai conta que “um dos dois autores, Cerfberr, ficou inteiramente alucinado por essa longa convivência com as personagens saídas do cérebro de Balzac e morreu quase louco imaginando ser ele mesmo uma personagem de A Comédia“.

Paris, o maior personagem

No entanto, o maior personagem d’A Comédia Humana é, sem dúvida, a cidade de Paris. Balzac situou suas obras por toda a França (Issoudun, Saché, Tours, Sancerre, Vendôme etc.) ou em outros países (Itália, Espanha, Noruega, Alemanha), contudo nada menos que quarenta e sete (mais da metade, portanto) têm Paris por cenário, total ou parcialmente; várias começam com a descrição de um aspecto da Cidade-Luz: uma rua, uma loja, uma casa, o comportamento dos parisienses etc. Balzac foi, e ainda é, o maior de todos que se aventuraram a cantar Paris. Mas, que Paris seria esta? “A Paris dos dramas escondidos, dos devotamentos desconhecidos, das ignomínias humanas despercebidas…A Paris leprosa do bairro dos estudantes, a prestigiosa do Faubourg Saint-Germain, a barulhenta dos negócios (…), onde mulheres elegantes, belas, aduladas, vão do seu amante ao agiota“. Jovens de todos os continentes procuram Paris, em busca de riqueza, de fama, até (por que não?) de amor. A maioria se deixa consumir pelo fogo da cidade e morre em silenciosa solidão; outros sobrevivem de expedientes desonestos e se esquivam por furtivas vielas; outros há que desistem e voltam para suas aldeias, envergonhados e ressentidos; e há os que vencem, brilham intensamente, chegarão a ministros, porém já sem alma, presas de luxúria, ganância e cinismo. Mas essa feérica Paris, que Balzac, ele mesmo parisiense apaixonado, chama de “uma doença e até várias doenças”, “deserto sem beduínos“, “um instrumento que é preciso saber tocar” etc., é também a capital das idéias, do luxo e da civilização; enfim, como disse um personagem de Modesta Mignon, Paris é “um inferno que se ama“.

A Comédia Humana e o Brasil

Continuamente perseguido pelos credores e escravo da monstruosa tarefa a que se propôs, Balzac sonhava com soluções milagrosas, que iriam tirá-lo do atoleiro em que se encontrava, não importa quão absurdas elas fossem. No auge do desespero, chegou a pensar em mudar-se para o Brasil! Em 1840, escreve à Condessa Hanska, sua amante: “Cheguei ao cabo de minha resignação. Creio que deixarei a França e irei levar meus ossos ao Brasil, num empreendimento louco e que escolhi justamente por causa da sua loucura…Este é um projeto absolutamente firmado que será posto em execução ainda este inverno“. Como era de se esperar, desiste de tudo no mês seguinte. Mas o autor costumava seguir a vida do Brasil pelos jornais, e acabou por colocá-lo em várias obras. Para ele, o Brasil era uma terra exótica, cheia de oportunidades e onde era possível enriquecer rapidamente. Enfim, nada de muito diferente da imagem que a Europa tinha do país e, por extensão, das Américas.

Em O Baile de Sceaux, Maximiliano de Longueville associa-se a um banqueiro e fica rico numa especulação no Brasil; Carlos Grandet, de Eugênia Grandet, parte para o tráfico de escravos, entre outras atividades igualmente recrimináveis, e também enriquece; o Marquês de Aiglemont, personagem de A Mulher de Trinta Anos, conhecia muito bem as costas dos Brasil, depois de muito trabalho e perigosas viagens que o deixaram rico. Os diamantes brasileiros também marcaram sua presença: em Gobseck, o usurário do mesmo nome reclama que a jóia está se desvalorizando porque o Brasil abarrotou a Europa com pedras menos puras que as da Índia; outro usurário, o joalheiro Elias Magus, concorda que o diamante brasileiro é mesmo inferior, em Um Contrato de Casamento. Por outro lado, Rafael de Valentin, o infeliz de A Pele de Onagro, pensou certa vez em se mudar para o Brasil; as “duras cangas do Brasil” são citadas numa frase perdida em Z. Marcas; em Um Caso Tenebroso, o olhar do personagem Michu é em certo momento comparado aos jaguares do país; Ferragus, na novela do mesmo nome, dá-se com o embaixador do Brasil.

Cite-se, ainda, o milionário Barão Henrique Montes de Montejanos, único personagem brasileiro da Comédia Humana (apesar do nome francamente espanhol), que tem papel destacado na trama de A Prima Bette; o barão é moreno, cara fechada, traja-se de acordo com a moda parisiense e usa um grande diamante na gravata…

Devido aos laços históricos e afetivos que unem o Brasil a Portugal, não se pode esquecer do abonado Marquês Miguel d’Ajuda-Pinto, personagem português cuja família possui ligações com os Braganças, e que aparece em várias obras: O Pai Goriot, Esplendores e Misérias das Cortesãs, Os Segredos da Princesa de Cadignan e Beatriz. No princípio um dos dândis mais distintos de Paris, o Marquês tem uma trajetória rica pela Comédia, casando-se, intrigando, apaixonando-se e participando de conspirações.

Presença d’A Comédia Humana

Conquanto o público sempre prestigiasse as obras de Balzac, a quase totalidade da crítica negava seu valor. Com exceção de Victor Hugo e Teófilo Gautier, eram poucas as pessoas do meio literário com quem o autor podia contar, mesmo já próximo de sua morte, em 1850. Entretanto, cem anos depois, a bibliografia balzaquiana contava seis mil títulos! Uma procura na Internet resulta em um milhão e quinhentas mil referências. Balzac é hoje universal. Sua obra começou a ser reconhecida ainda no século XIX: Dostoievski traduziu Eugênia Grandet para o russo e teria sido influenciado pelo autor em obras como o conto O Senhor Prokhártchin (1846) e o romance inacabado Niétotchka Niezvânova (1849); em Portugal, Camilo Castelo Branco escreveu um conjunto de oito narrativas a que deu o nome de Novelas do Minho, (1875-1877), inspiradas em Balzac; já Eça de Queirós idealizou as Cenas da Vida Portuguesa, ciclo de romances destinados a retratar a sociedade portuguesa após o estabelecimento do liberalismo em Portugal, sob D.Pedro IV (D. Pedro I no Brasil), dos quais vieram à luz Os Maias e A Capital; a Comédia é a precursora do chamado roman-fleuve, ou “romance-rio”, como Os Rougon-Macquart (1871-1893), de Émile Zola, Jean Christophe (1904-1912), de Romain Rolland, Em Busca do Tempo Perdido (1913-1927), de Marcel Proust e Os Thibault (1922)-1940), de Roger Martin du Gard. Balzac também está presente, por exemplo, na obra do escritor brasileiro José Lins do Rego, particularmente nos romances do chamado Ciclo da Cana-de-Açúcar e em William Faulkner, ficcionista estadunidense, criador do mítico Condado Yoknapatawpha, por onde circulam gerações de Compsons, Sartoris, McCaslins, Snopes etc.

O Pai Goriot, Pierrette, A Pele de Onagro, Eugênia Grandet, Uma Mulher Abandonada e muitas outras obras já foram adaptadas para o cinema ou televisão. A Prima Bete, inclusive, já foi filmada três vezes, sendo a mais recente em 1998; em 1990, Gérard Depardieu encarnou o autor em uma minissérie francesa do mesmo nome, que conta sua vida; em 2001, outra minissérie francesa, Rastignac ou os Ambiciosos (“Rastignac ou les Ambitieux”, no original), trouxe para o presente as vidas de Eugênio de Rastignac, Luciano de Rubempré e outros personagens balzaquianos, conservando todas suas motivações e características psicológicas; já em Balzac e a Costureirinha Chinesa (“Xiao Cai Feng” no original), filme chinês de 2002, dois jovens são enviados a uma vila nos confins da China para serem reeducados. Lá, descobrem uma caixa cheia de livros de Balzac e outros autores e passam a lê-los para a população, enquanto se apaixonam pelos personagens balzaquianos, principalmente Úrsula Mirouet, e pela costureira do título, cujo futuro é determinado pelo comportamento das mulheres criadas por Balzac.

Com a consolidação do capitalismo e, consequentemente, da moral burguesa, para uma quantidade imensa de pessoas o Dinheiro e o que ele proporciona — poder, ascensão social, bens de consumo — são o principal, e muitas vezes o único, valor a considerar. Em um cenário assim, Balzac está totalmente à vontade (e discretamente vingado), pois sua obra, iniciada há quase dois séculos, continua mais pertinente que nunca.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/

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>Concurso Nacional de Poesia Helena K0lody

>

A Secretaria de Estado da Cultura do Paraná torna público que, a partir do dia 1º de junho até 31 de julho de 2009, estarão abertas as inscrições para o Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody 2009 :

1. Participação

1.1 Podem participar do Concurso candidatos que apresentem poesias inéditas, que não tenham sido objeto de qualquer tipo de apresentação, veiculação ou publicação antes da inscrição no concurso e até a divulgação do resultado e entrega dos prêmios aos vencedores.
1.2 O tema é livre e o texto deve ser em língua portuguesa.

2. Das Inscrições e Prazos

2.1 As inscrições serão realizadas no Setor de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, situada na Rua Ébano Pereira, 240, Curitiba – PR, CEP 80410-240.

2.2 De 1º de junho a 31 de julho de 2009.

2.3 O participante deverá imprimir a Declaração de Autoria que se encontra no site da SEEC/PR: http://www.cultura.pr.gov.br/ no Link da Editoração e enviar junto com os trabalhos devidamente preenchida.

2.4 As inscrições poderão ser feitas via postal, para o endereço fornecido no item 2.1 e cuja data de postagem não poderá ultrapassar a data limite da inscrição.

2.4 Cada autor poderá inscrever-se com 03 (três) poesias.

3. Do Formato e Apresentação das Poesias

3.1 As poesias terão que ter obrigatoriamente um título e deverão ser enviados em 04 (quatro) vias impressas, em papel A4 (mais uma cópia em CD-ROM) com no máximo três páginas cada, texto digitado em Word, utilizando fonte Arial, tamanho 12, espaço entrelinhas 1.5.

3.2 Não deverão conter nenhuma informação que possibilite a identificação do autor. Não há necessidade de pseudônimo. E encaminhados da seguinte forma:

a) envelope “A”, devidamente lacrado, contendo os dados de identificação do autor (nome completo, endereço, telefone, e-mail) , uma pequena biografia e os títulos dos trabalhos escritos no seu exterior;
b) envelope “B”, contendo as 04 (quatro) vias impressas, o CD-ROM e o envelope “A”.

3.3 O envelope “A” somente será aberto após a Comissão Julgadora emitir o seu veredicto.

4. Do Julgamento

4.1 A seleção dos trabalhos será efetuada por uma Comissão Julgadora especialmente
designada pela SEEC/PR, integrada por 03 (três) membros, de comprovada vinculação com a área literária, que terão 60 (sessenta) dias para realizar seu trabalho.

4.2 A Comissão Julgadora do Concurso terá plena autonomia de julgamento, não cabendo
recurso às suas decisões.

4.3 O resultado do Concurso será divulgado na imprensa e em site próprio da Secretaria de Estado da Cultura: http://www.cultura.pr.gov.br

4.4 O processo de seleção e julgamento será registrado em ata firmada pelos membros da Comissão Julgadora.

5. DA PREMIAÇÃO

5.1 A Comissão Julgadora deverá selecionar 03 (três) trabalhos vencedores do Concurso que receberão prêmios nos seguintes valores:
a) 1º lugar – R$ 5000,00 (cinco mil reais);
b) 2º lugar – R$ 3000,00 ( três mil reais);
c) 3º lugar – R$ 2000,00 (dois mil reais).

5.2 E mais 12 (doze) menções honrosas, totalizando 15 (quinze) selecionados.

5.3 A premiação consistirá, ainda, na publicação dos trabalhos em uma antologia com os selecionados nos Concursos da SEEC/PR, cabendo a cada um, 50 (cinquenta) exemplares.

6. Disposições Finais

6.1 Serão desconsideradas as inscrições que não atenderem o que estabelece este Edital.

6.2 Os vencedores serão comunicados pela SEEC/PR no prazo máximo de 01 (uma) semana, após a publicação do resultado.

6.3 Os casos omissos serão resolvidos pela Secretaria de Estado da Cultura, ouvidas a Comissão Julgadora e a Comissão Organizadora.

6.4 Fica vedada a participação de membros da Comissão Julgadora e da Comissão Organizadora.

6.5 Os trabalhos inscritos não serão devolvidos aos autores em hipótese alguma.

CRONOGRAMA

Inscrições: de 1º de junho até 31 de julho de 2009.

Julgamento : até 30 de setembro de 2009.

Divulgação do resultado: primeira quinzena de outubro de 2009.
=============================================
A poesia deve ser enviada, acompanhada da Declaração de Autoria, conforme segue:

Eu, _______________________, RG nº. _________________, CPF____________,

residente _______________________, declaro para todos os fins de direito que a

poesia__________________________________________________ enviada com objetivo de participar do Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody, é de minha exclusiva autoria, eximindo a Secretaria de Estado da Cultura de qualquer responsabilidade civil ou penal, ainda que regressivamente, sobre direitos autorais da poesia em toda sua íntegra.

Local e data

Nome e assinatura
===================================

Mais informações através do site da SEEC/PR: http://www.cultura.pr.gov.br/ ou pelos telefones: (41) 3321-4738 e (41) 3321-4718.

Fonte:
http://www.cultura.pr.gov.br/

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>Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio

>

A Secretaria de Estado da Cultura do Paraná torna público que, a partir de 1º de junho até 31 de julho de 2009, estarão abertas as inscrições para o Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio 2009:

1. Participação

1.1 Podem participar do Concurso candidatos que apresentem contos inéditos, que não tenham sido objeto de qualquer tipo de apresentação, veiculação ou publicação antes da inscrição no concurso e até a divulgação do resultado e entrega dos prêmios aos vencedores.
1.2 O tema é livre e o texto deve ser em língua portuguesa, devidamente corrigido e adequado a norma padrão do conto.

2. Das Inscrições e Prazos

2.1 As inscrições serão realizadas no Setor de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, situada na Rua Ébano Pereira, 240, Curitiba – PR, CEP 80410-240.

2.2 De 1º de junho a 31 de julho de 2009.

2.3 O participante deverá imprimir a Declaração de Autoria que se encontra no site da SEEC/PR: http://www.cultura.pr.gov.br/ no Link da Editoração e enviar junto com os trabalhos devidamente preenchida e assinada.

2.4 As inscrições poderão ser feitas via postal, para o endereço fornecido no item 2.1 e cuja data de postagem não poderá ultrapassar a data limite da inscrição.

2.4 Cada autor poderá inscrever-se com 03 (três) contos.

3. Do Formato e Apresentação dos Contos

3.1 Os contos terão que ter obrigatoriamente um título e deverão ser enviados em 04 (quatro) vias impressas, em papel A4 (mais uma cópia em CD-ROM) com no máximo dez páginas cada, texto digitado em Word, utilizando fonte Arial, tamanho 12, espaço entrelinhas 1.5.

3.2 Não deverão conter nenhuma informação que possibilite a identificação do autor. Não há necessidade de pseudônimo. E encaminhados da seguinte forma:

a) envelope “A”, devidamente lacrado, contendo os dados de identificação do autor (nome completo, endereço, telefone, e-mail), uma pequena biografia e os títulos dos trabalhos escritos no seu exterior;
b) envelope “B”, contendo as 04 (quatro) vias impressas, o CD ROM e o envelope “A”.

3.3 O envelope “A” somente será aberto após a Comissão Julgadora emitir o seu veredicto.

4. Do Julgamento

4.1 A seleção dos trabalhos será efetuada por uma Comissão Julgadora especialmente
designada pela SEEC/PR, integrada por 03 (três) membros, de comprovada vinculação com a área literária, que terão 60 (sessenta) dias para realizar seu trabalho.

4.2 A Comissão Julgadora do Concurso terá plena autonomia de julgamento, não cabendo
recurso às suas decisões.

4.3 O resultado do Concurso será divulgado na imprensa e em site próprio da Secretaria de Estado da Cultura: http://www.cultura.pr.gov.br

4.4 O processo de seleção e julgamento será registrado em ata firmada pelos membros da Comissão Julgadora.

5. DA PREMIAÇÃO

5.1 A Comissão Julgadora deverá selecionar 03 (três) trabalhos vencedores do Concurso que receberão prêmios nos seguintes valores:
a) 1º lugar – R$ 5000,00 (cinco mil reais);
b) 2º lugar – R$ 3000,00 ( três mil reais);
c) 3º lugar – R$ 2000,00 (dois mil reais).

5.2 E mais 12 (doze) menções honrosas, totalizando 15 (quinze) selecionados.

5.3 A premiação consistirá, ainda, na publicação dos trabalhos em uma antologia com os selecionados nos Concursos da SEEC/PR, cabendo a cada um, 50 (cinquenta) exemplares.

6. Disposições Finais

6.1 Serão desconsideradas as inscrições que não atenderem o que estabelece este Edital.

6.2 Os vencedores serão comunicados pela SEEC/PR no prazo máximo de 01 (uma) semana, após a publicação do resultado.

6.3 Os casos omissos serão resolvidos pela Secretaria de Estado da Cultura, ouvidas a Comissão Julgadora e a Comissão Organizadora.

6.4 Fica vedada a participação de membros da Comissão Julgadora e da Comissão Organizadora.

6.5 Os trabalhos inscritos não serão devolvidos aos autores em hipótese alguma.

CRONOGRAMA

Inscrições: de 1º de junho até 31 de julho de 2009.

Julgamento : até 30 de setembro de 2009.

Divulgação do resultado: primeira quinzena de outubro de 2009.

O Conto deve ser enviado, acompanhado da Declaração de Autoria, conforme segue:

Eu, _______________________, RG nº. _________________, CPF____________,

residente _______________________, declaro para todos os fins de direito que o

Conto________________________________________________, enviado com objetivo de participar do Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, é de minha exclusiva autoria, eximindo a Secretaria de Estado da Cultura de qualquer responsabilidade civil ou penal, ainda que regressivamente, sobre direitos autorais do conto em toda sua íntegra.

Local e data

Nome e assinatura

Mais informações através do site da SEEC/PR: http://www.cultura.pr.gov.br/ ou pelos telefones: (41) 3321-4738 e (41) 3321-4718.

Fonte:
http://www.cultura.pr.gov.br/

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>Trova V

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>Mário de Sá-Carneiro (Dispersão)

>

I-PARTIDA

Ao ver escoar-se a vida humanamente
Em suas aguas certas, eu hesito,
E detenho-me ás vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.

Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
Não há muitos que a saibam refletir.

A minh’alma nostálgica de além,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a força de sumir também.

Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.

É subir, é subir além dos céus
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados rezar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.

É partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d’irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.

É suscitar cores endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d’alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.

Ser coluna de fumo, astro perdido,
Forçar os turbilhões aladamente,
Ser ramo de palmeira, agua nascente
E arco de ouro e chama distendido…

Asa longínqua a sacudir loucura,
Nuvem precoce de sutil vapor,
Anseia revolta de mistério e odor,
Sombra, vertigem, ascensão–Altura!

E eu dou-me todo neste fim de tarde
Á espira aérea que me eleva aos cumes.
Doido de esfinges o horizonte arde,
Mas fico ileso entre clarões e gumes!…

Miragem roxa de nimbado encanto
Sinto os meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.

Sei a Distancia, compreendo o Ar;
Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz;
Sou taça de cristal lançada ao mar,
Diadema e timbre, elmo rial e cruz…
. . . . . . . . . . . . . . .

O bando das quimeras longe assoma…
Que apoteose imensa pelos céus!
A cor já não é cor–é som e aroma!
Vem-me saudades de ter sido Deus…
* * * * *

Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro–é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois…

II-ESCAVAÇÃO

Numa ânsia de ter alguma coisa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh’alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente á força de sonhar…

Mas a vitória fulva esvai-se logo…
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo…
–Onde existo que não existo em mim?
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d’amor sem bocas esmagadas
Tudo outro espasmo que principio ou fim…

III-INTER-SONHO

Numa incerta melodia
Toda a minh’alma se esconde.
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…

Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!
. . . . . . . . . . . . . . .

Tateio… dobro… resvalo…
. . . . . . . . . . . . . . .

Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…
. . . . . . . . . . . . . . .

Que pesadelo tão bom…
. . . . . . . . . . . . . . .

Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…

IV-ÁLCOOL

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas d’aureola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo
Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra alem…

Corro em volta de mim sem me encontrar…
Tudo oscila e se abate como espuma…
Um disco de ouro surge a voltear…
Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio d’inferno em vez de paraíso?…
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eteriso?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que eu ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.

V-VONTADE DE DORMIR

Fios d’ouro puxam por mim
A soerguer-me na poeira-
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte…
. . . . . . . . . . . . . . .

–Ai que saudade da morte…
. . . . . . . . . . . . . . .

Quero dormir… ancorar…
. . . . . . . . . . . . . . .

Arranquem-me esta grandeza!
–Pra que me sonha a beleza,
Se a não posso transmigrar?…

VI-DISPERSÃO

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não tem bem-estar nem família).

O pobre moço das ansias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso tambem
Que te abismaste nas ansias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi… Mas recordo

A sua boca dourada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde dourada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!…)

E sinto que a minha morte–
Minha dispersão total–
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu ultimo dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e alem me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas…
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas…

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar…
Ninguém mas quis apertar…
Tristes mãos longas e lindas…

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal…
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?… Ai de mim!…

Desceu-me n’alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço…
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço…
. . . . . . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba…

VII-ESTÁTUA FALSA

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh’alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu emano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar…

VIII-QUASI

Um pouco mais de sol–eu era brasa,
Um pouco mais de azul–eu era alem.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d’espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho–ó dor!–quasi vivido…

Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quasi o principio e o fim–quasi a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
–Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim…–
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ansias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol–vejo-as cerradas;
E mãos d’heroi, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol–e fôra brasa,
Um pouco mais de azul–e fora alem.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Paris 1913–maio 13.

IX-COMO EU NÃO POSSUO

Olho em volta de mim. Todos possuem
Um afeto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ansias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse–ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d’alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo…
–Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?…
* * * * *

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emaranha-la nua,
Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim–ó ânsia!–eu a teria…

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo d’extases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me rio,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

X-ALEM-TEDIO

Nada me expira já, nada me vive-
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim d’alma esquecida,
Dormir em paz num leito d’hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
Á força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei á dor,
Pois tudo me ruíu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silencio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…

XI-RODOPIO

Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’herói,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…

Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

Luas d’ouro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam…

Virgula-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas–
Um lenço, fitas, dedais…)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…

Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas–
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…

XII-A QUEDA

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixa-la
E giro até partir… Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço d’ouro,
Volve-se logo falso… ao longe o arremesso…
Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
Morro á mingua, de excesso.

Alteio-me na cor á força de quebranto,
Estendo os braços d’alma–e nem um espasmo venço!…
Peneiro-me na sombra–em nada me condenso…
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
–Vencer ás vezes é o mesmo que tombar–
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso…
. . . . . . . . . . . . . . .

Tombei…
E fico só esmagado sobre mim!…

Paris 1913–maio 8.
——–

Fonte:
SÁ-CARNEIRO, Mario de. Dispersão. Doze poesias. Lisboa: Tipografia do Comercio, 1914

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>Trova IV

> Fontes:
– Trovas. RJ: Ed. Plaquette, 2001.
– Imagem = http://imagensbiblicas.wordpress.com

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>Omar Khayyam (Rubayat)

>

Rubaiyat é o plural da palavra persa rubai, e quer dizer quadras, quartetos. O Rubaiyat de Khayaam é composto de 120 quadras.
RUBAYAT
Omar Khayyan
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.

2
O que vale mais? Meditar numa taverna,
ou prosternado na mesquita implorar o Céu?
Não sei se temos um Senhor,
nem que destino me reservou.

3
Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.

4
Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.

5
Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.

6
Não procures muitos amigos, nem busques prolongar
a simpatia que alguém te inspirou;
antes de apertares a mão que te estendem,
considera se um dia ela não se erguerá contra ti.

7
Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.

8
Há muito tempo, esta ânfora foi um amante,
como eu: sofria com a indiferença de uma mulher;
a asa curva no gargalo é o braço que enlaçava
os ombros lisos da bem amada.

9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?

10
Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.

11
É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã… que sabes do amanhã?

12
Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.

13
Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.

14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?

15
Na sombra azulada do jardim
o ar da primavera renova as rosas
e ilumina os meigos olhos da minha amada.
Ontem, amanhã… é tão grande o prazer agora.

16
Bebo, mas não sei quem te fez, ó grande ânfora;
podes conter três medidas de vinho, mas um dia
a Morte te quebrará. Numa outra hora perguntarei
como foste criada, se foste feliz, ou por que serás pó.

17
Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.

18
Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.

19
Khayyam, enquanto erguias a tenda da Sabedoria,
caíste na fogueira da dor; agora és cinzas.
O Anjo Azrail cortou as cordas da tua tenda
e a Morte vendeu-a por uma ninharia.

20
É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.

21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.

22
Na estação das rosas procuro um campo florido
e sento-me à sombra com uma linda mulher;
não cuido da minha salvação: tomo o vinho
que ela me oferece; senão, o que valeria eu?

23
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.

24
Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.

25
Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.

27
Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde irás depois?

28
Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.

29
A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios:
A Dor e a Morte.
Feliz a criança que expirou ao nascer;
mais feliz quem não veio ao mundo.

30
Na feira que atravessas não procures amigos
ou abrigo seguro. Aceita a dor que não tem remédio
e sorri ao infortúnio; não esperes que te sorriam:
Seria tempo perdido.

31
O mundo gira, distraído dos cálculos dos sábios.
Renuncia à vaidade de contar os astros
e lembra-te: vais morrer, não sonharás mais,
e os vermes da terra cuidarão do teu cadáver.

32
Aquele que criou o Universo e as estrelas
exagerou quando inventou a dor.
Lábios vermelhos como rubis, cabelos perfumados,
quantos sois no mundo?

33
Velho mundo sob o passo do cavalo branco e negro
dos dias e das noites, és o palácio triste onde mil Djenchids
sonharam com a glória e mil Bahrams com o amor,
e a cada manhã acordavam chorando.

34
Sono sobre a terra, sono debaixo da terra.
Sobre a terra, sob a terra: homens deitados.
Nada em toda a parte. Deserto.
Homens chegam, outros partem.

35
Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.

36
Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.
————-

Fontes:
KHAYYAM, Omar. Rubaiyat. Tradução de Alfredo Braga.eBookLibris, 2003.
Capa do Livro = http:// http://www.portaldetonando.com.br/

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>Omar Khayyam (18 Maio 1048 – 4 Dezembro 1131)

>

Omar Khayyam (Nishapur, Pérsia, 18 de maio de 1048 — 4 de dezembro de 1131), poeta, matemático e astrônomo iraniano. Seu nome completo era Ghiyath Al Din Abul Fateh Omar Ibn Ibrahim Al Khayyam.

Khayyam significa, em persa, fabricante de tendas; ele adotou esse nome em memória do pai que era fabricante de tendas.

No ocidente, ficou conhecido nos países de língua Inglesa devido à tradução realizada por Edward FitzGerald de sua obra principal, o Rubaiyát, publicado em 1859. Os trabalhos de Khayyám em álgebra foram difundidos na Europa durante a Idade Média; nas ciências astronômicas, ficou conhecido por ter contribuído para a reforma do calendário Persa e numerosas tabelas astronômicas.

O pesquisador Edward B. Cowell cita, no Calcuttá Review No. 59:
Quando Malik Shah determinou a reforma do calendário Persa, Omar era um dos oito homens de ciência designados para fazê-la; o resultado foi a Era Jalali (assim chamada devido a um dos nomes do rei, Jalal-ud-din).
O cômputo realizado, cita outro eminente pesquisador, Edward Gibbon, ultrapassa a precisão do Calendário Juliano, e se aproxima da precisão do Calendário Gregoriano.

Khayyám mediu o comprimento do ano em 365,24211958156 dias. Se levarmos em conta esta medida ter sido feita em plena Idade Média e sem os avançados recursos da tecnologia atual, este valor mostra uma incrível precisão relativamente aos valores atualmente conhecidos. Atualmente sabemos que o comprimento dos dias, durante o período da vida de uma pessoa, varia após a sexta casa decimal. A precisão alcançada por Khayyám é fenomenal: para comparação, devemos citar que o comprimento do ano ao final do século XIX era de 365,242196 dias, sendo hoje de 365, 242190 dias.

Em seu livro de álgebra, Khayyám se refere a outros trabalhos seus que, por infelicidade, estão hoje perdidos. Nestes trabalhos ele discutia o Triângulo de Pascal, mas não foi o primeiro a fazê-lo: já em tempos anteriores, os Chineses o haviam feito. A álgebra de Khayyám é de natureza geométrica, tendo resolvido equações lineares e quadráticas por métodos que estão presentes na Geometria de Euclides. Entretanto, ele descobriu um método para resolução de equações cúbicas, por meio da intersecção de uma parábola com um circulo mas, pelo menos em parte, este método já havia sido descrito por outros autores como Abud al-Jud.

Khayyám contribuiu com importantes resultados no estudo das relações e razões entre raios na Geometria de Euclides, incluindo o problema de sua multiplicação. O nome Khayyám é proveniente do termo “fabricante de tendas”, ofício que aprendeu com seu pai.

Neychabur, sua terra natal, situa-se 115 kms à oeste de Mashad, na província do Khorasan. Esta antiga cidade, além de ter sido a terra natal de Khayyám, foi também onde nasceu outro grande poeta Persa, o místico Attar-e Neyshabury. Neyshabur é conhecida desde a alta antiguidade como um centro mundial exportador de turquesas (Firouz-e). Omar Khayyám recebeu uma boa educação em ciências e filosofia em sua terra natal, Nayshabur, e em Balk, outra cidade do Iran.
Após se formar, seguiu para Samarkand, onde completou importante tratado em álgebra. De tal modo tornou-se conhecido que foi convidado pelo sultão Seljuq Malik-Shah para realizar as observações astronômicas citadas, e para a reforma do calendário. Khayyám foi também comissionado para construir um observatório astronômico na cidade de Esfahan em colaboração com outros astrônomos. Após a morte de seu patrono em 1092, realizou uma peregrinação a Meca. Retornando a Neyshapur, passou a ensinar e dar aulas na corte de tempos em tempos, realizando predições astronômicas e astrológicas.

Entre os campos do conhecimento por ele dominado achavam-se a filosofia, a matemática, astronomia, jurisprudência, história e medicina. De sua prosa, infelizmente sobreviveu muito pouco; de seus trabalhos restam apenas alguns sobre metafísica e sobre os teoremas de Euclides. Khayyám destacou-se por seu extraodinário senso poético, expresso no O Rubaiyát. O lado poético do Persa, desde que foi redescoberto por Edward FitzGerald por volta de 1859, é o mais conhecido hoje em dia, tendo sido objeto de inspiração para muitos poetas de nossa época, dentre os quais Jorge Luiz Borges e Fernando Pessoa. Ao trabalhar com conceitos relacionados às profundezas da alma e da psique humanas, Khayyám escreveu as mais belas páginas da literatura universal.

A filosofia de Omar Khayyám impressiona-nos até hoje, lembrando-nos de Epicuro, sendo no entanto profundamente Persa em sua audácia e resignação. A poesia de Khayyám incorpora opiniões filosóficas que sobrevivem até os nossos dias, e dizem respeito a ontologia, a conceitos universais, ao livre arbítrio, à predestinação e às obrigações morais. Também nela se percebem claras referências às relações do ser humano para com o Criador e deste para com o Homem, em uma reciprocidade de responsabilidades e cuidados. Segundo E. FitzGerald, é interessante notar que o poeta, assim como outros proeminentes pensadores Islâmicos, embora tenha sofrido influências da filosofia Grega, especialmente Aristóteles, não absorveu os aspectos mais abstratos daquele modo de pensar. Khayyám preferiu expressar-se mediante figuras de uma retórica epicureana que, embora audaciosa para o seu tempo, o fez tornar-se obscuro em vida e esquecido, anos após sua morte, em sua própria terra. Concordou com a existência de Deus mas se opôs à noção de que cada acontecimento e fenômeno particular era o resultado de intervenção divina. Em vez disso ele apoiou a visão que leis da natureza explicam todos fenômenos particulares da vida observada.

Como poeta é conhecido pelos Rubaiyat (em português, “quadras” ou “quartetos”), que ficariam famosos no Ocidente a partir da tradução de Edward Fitzgerald, em 1839.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org
http://www.somatematica.com.br/biograf/omar.php

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>Zélia Sell (Lançamento do livro Altdeutschen – Alemães antigos de 1829)

>

(Clique sobre a imagem para visualização ampliada)
A profª. Zélia Maria Sell, é jornalista e radialista de Curitiba, e apresenta o programa Nossa História na rádio educativa do governo paranaense e é sócia do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
————————————-

A Imigração dos Alemães para o Paraná

Embora menos numerosos, o alemães também marcaram forte presença no Paraná. Em Rio Negro, onde existia um pequeno povoado com o nome de “Capela da Estrada da Mata” com 108 moradores em 1828, localizaram-se famílias alemãs, que teriam embarcado no veleiro alemão Charlote Louise em 30 de junho de 1828, portanto de conformidade com os planos do Governo Imperial em atrair imigrantes europeus ao nosso país. Apesar de terem aportado no Rio de Janeiro em 2 de outubro, somente em janeiro de 1829 chegaram em Antonina, e seu destino foi alcançado em 6 de fevereiro de 1829. Foi o início de uma história de lutas, desafios e vitórias.

Houve duas remessas de colonos alemães para Rio Negro, a pedido do Barão de Antonina que, para garantir a subsistência própria, tiveram de derrubar as matas, deslocar terras para revolvê-la e plantar o cereal necessário à vida.

Em 1878, alemães de origem russa vindos da região do Rio Volga, estabeleceram-se nos Campos Gerais, perto das atuais cidades de Ponta Grossa e Lapa. Neste século, colonos vindos de Santa Catarina fundaram a Colônia de Witmarsum, no município de Palmeira, suábios da região do Rio Danúbio criaram Entre Rios, em Guarapuava, e descendentes de imigrantes ocuparam a região de Cambé e Rolândia, no Norte do estado.

Para conseguir que os imigrantes alemães viessem para a região, o Governo Imperial se comprometeu a ajudá-los, de diversas formas, na fase de instalação da colônia, ele prometeu ajuda com as ferramentas e sementes, com prazos de grandes de pagamento das dívidas que fossem contraídas, e também os ajudavam com pagamentos diários de cerca de 160 réis por dia. Mas o Governo Imperial não considerou e também não cumpriu as poucas das promessas feitas aos imigrantes, os alemães arrancavam seu sustento das terras que geralmente erram pouco férteis. Os alemães uniam-se em grupos para preservar as culturas e tradições de seu país de origem.

Causas da imigração

A Imigração, no início do século XIX, passava por novos desenvolvimentos econômicos: a industrialização teve um grande impulso, necessitando de mão-de-obra especializada, o que causou a ruína de muitos artesãos e trabalhadores da indústria doméstica. Sem poderem desenvolver suas atividades artesanais, esses trabalhadores livres começaram a formar um exército de mão-de-obra (barata) assalariada para a indústria que estava nascendo.

Com os novos maquinários, também houve o aumento de produtividade no campo junto à diminuição de mão-de-obra, causando o desemprego de camponeses. Como a Alemanha passava por uma desintegração de sua estrutura feudal, muitos camponeses que eram apenas servos ficaram sem o trabalho e sem o direito de morar nas terras, ao mesmo tempo em que a população aumentava. Sem a terra para viver, migravam para as cidades e somavam ao número de proletariados.

A imigração também não acontecia somente por insatisfação social com as novas perspectivas do século XIX. Nessas mudanças econômicas que agitavam o continente europeu, a indústria desenvolveu as cidades e causou o despovoamento dos campos. À medida que a riqueza aumentava, a saúde e o acesso a novos gêneros alimentícios melhoravam, e a população aumentava. Então a princípio, os governos europeus incentivavam e encorajavam a emigração, como válvula de controle do aumento da população. Com a introdução da máquina a vapor e inovações como o transatlântico com propulsão a hélice, milhões de pessoas se movimentavam entre os continentes, em uma emigração que não obedecia a nenhum planejamento, dependendo somente de decisões pessoais, entre elas a insatisfação, o medo, ou o desejo de uma vida melhor.

O governo alemão também encorajava grupos de empreendedores a conhecer novas terras para conseguir mercado para os produtos alemães. Para algumas colônias, chegou-se a fazer o planejamento, e a contratação de administradores e profissionais liberais para a formação das colônias, que vinham para o Brasil e formavam sua vida aqui. Embora desejadas, as relações comerciais entre as colônias alemãs e sua terra de origem foram modestas, muitas vezes restando somente aos colonos a identificação cultural com a terra de origem, pois não mais tinham contato com ela.

Os alemães que imigraram para o Brasil eram normalmente camponeses insatisfeitos com a perda de suas terras, ex-artesãos, trabalhadores livres e empreendedores desejando exercer livremente suas atividades, perseguidos políticos, pessoas que perderam tudo e estavam em dificuldades, pessoas que eram “contratadas” através de incentivos para administrarem as colônias ou pessoas que eram contratadas pelo governo brasileiro para trabalhos de níveis intelectuais ou participações em combates.

Fontes:
– Valter Martis de Toledo (e-mail sobre o lançamento)
http://www.jusbrasil.com.br/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.terrabrasileira.net/folclore/regioes/7tipos/alemasul.html
http://www.alep.pr.gov.br/
http://bloggeografiaolavo.blogspot.com/2007/12/imigrao-alem-no-sul-do-brasil.html
http://www.clickriomafra.com.br/rionegro/informacoes/index.asp
– Imagem dos camponeses alemães = http:// http://www.passeiweb.com/

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>Falecimento de Mario Benedetti

>

O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje, domingo, 17, em Montevidéu aos 88 anos, informaram à Agência Efe fontes ligadas à família do autor. Benedetti, que tinha um estado de saúde bastante delicado, estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu.
No ano passado, o escritor foi hospitalizado quatro vezes em Montevidéu devido a diversos problemas físicos. A primeira vez foi entre janeiro e fevereiro de 2008, após sofrer uma enterocolite que fez com que ficasse desidratado. Já em março ele foi internado com problemas respiratórios, enquanto a terceira vez se deu em maio do ano passado por causa de um quadro clínico instável geral.

Após a última vez em que Benedetti foi hospitalizado, de 24 de abril até 6 de maio, o escritor recebeu alta e voltou para casa, após 12 dias internado pelo agravamento de uma doença intestinal crônica.

Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Ele já recebeu os prêmios Ibero-americano José Martí (2001) e Internacional Menéndez Pelayo (2005).

A última obra publicada, o poemário “Testigo de uno mismo”, foi apresentada em agosto do ano passado.

Antes da última entrada no hospital, Benedetti estava trabalhando em um novo livro de poesia cujo título provisório é “Biografía para encontrarme”.

Já há algum tempo o famoso escritor não se apresentava em público e concedia poucas entrevistas à imprensa, mas continuava trabalhando em suas obras diretamente de Montevidéu.

No ano passado, publicou “Testemunha de um mesmo”.

Sua carreira literária começou em 1949 e chegou a fama sete anos depois ao publicar “Poemas de escritório”, sobre a rotina de trabalho. Desde 1992, tem lançado quase uma obra por ano.

Fonte:
Estadao. Caderno 2. http://www.estadao.com.br/

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>Mario Benedetti (14 Setembro 1920 – 17 Maio 2009)

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14 de Setembro de 1920 (Paso de Los Toros, Uruguai) – 17 de Maio de 2009 (Montevidéo, Uruguai)

Mario Benedetti foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio. Integrante da Geração de 45, a qual pertencem também Idea Vilariño e Juan Carlos Onetti, entre outros. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar “Poemas de Oficina”, uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.

Filho de Brenno Benedetti e Matilde Farugia, Mario Benedetti nasceu em 14 de Setembro de 1920, em Paso de Los Toros, Tacuarembó, Uruguai.

Aos quatro anos de idade sua família muda-se para Montevidéu. Inicia seus estudos no Celógio Alemão de Montevidéu, onde fica até 1933. Em 1934 ingressa na Escuela Raumsólica de Logosofía. Permanece apenas um ano e em seguida parte para o Liceu Miranda. Mas por problemas financeiros, acaba por seguir seus estudos de maneira auto-didata. Desde os quatorze anos trabalha na empresa Will L. Smith S.A., da Argentina.

Em 1938 muda-se para Buenos Aires, Argentina, onde permanece até 1941.

Em 1945 passa a integrar a equipe de redação do semanário Marcha, de Montevidéu – onde permaneceu até 1974, ano em que o semanário é fechado pelo governo de Juan María Bordaberry. Em 1953 publica Quién De Nosostros. Em 1954 é nomeado diretor literário do semanário.

Em 1946 casa-se com Luz López Alegre. Em 1948 dirige a revista literária Marginalia e publica o volume de ensaios Peripecias y Novela.

Em 1949 torna-se membro do conselho de redação da revista literária Número, uma das revistas mais destacadas na época. Participa ativamente no movimento contra o Tratado Militar com os EUA, sua primeira ação como militante. Ainda nesse ano, ganha o Prêmio do Ministério de Instrução Pública, por sua primeira antologia de contos, Esta Mañana.

Em 1960 publica La Tregua. Romance levado às telas de cinema pelo diretor Sergio Rénan. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1974, perdendo a estatueta para Amarcord, do italiano Fellini.

Em 1964 trabalha como crítico de teatro e co-diretor da página literária semanal Al Pie de Las Letras, do diário La Mañana. Colabora como humorista na revista Peloduro. Escreve crítica de cinema na Tribuna Popular.

De 1968 a 1971 foi diretor do Centro de Pesquisas Literárias da Casa de las Américas, de Havana, Cuba, o qual foi membro fundador.

Em 1971 participa ativamente da vida política uruguaia, como membro do Movimiento 26 de Marzo. É nomeado diretor do Departamento de Literatura Hispanoamericana na Faculdade de Humanidades e Ciencias da Universidade da República, de Montevidéu.

Sob o Golpe de Estado de 27 de Junho de 1973, Mario Benedetti renuncia ao cargo na Universidade. Por suas posições políticas, deve deixar o Uruguai, partindo para o exílio em Buenos Aires, Argentina. Posteriormente, exila-se no Peru, onde foi detido e deportado, indo imediatamente, em 1976, para Cuba.

Volta ao Uruguai em 1983, inciando o autodenominado período de desexílio, motivo de muitas obras. Em 1986 recebe o Prêmio Jristo Botev da Bulgária, por sua obra poética e ensaística.

Desde os anos 50 até hoje a obra de Mario Benedetti foi contemplada com muitos prêmios e homenagens, dentre eles o título de Doutor Honoris Causa, em 1997, pela Universidade de Alicante, Espanha.

Depois do falecimento de sua tão estimada esposa Luz López, em Abril de 2006, vítima de Alzheimer, Mario Benedetti se mudou definitivamente para sua residência no bairro Central de Montevidéu. Em função dessa mudança, dôou parte de sua biblioteca pessoal ao Centro de Estudos IberoAmericanos Mario Benedetti da Universidade de Alicante, Espanha.

Seus livros foram traduzidos para mais 20 idiomas e é considerado um autor do primeiro plano da literatura latino-americana contemporânea.

Em 2008, o escritor foi hospitalizado quatro vezes em Montevidéu devido a diversos problemas físicos.

Morreu aos 88 anos, no dia [17 de Maio de 2009] em Montevidéu. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu. A primeira vez foi entre janeiro e fevereiro de 2008, após sofrer uma enterocolite que fez com que ficasse desidratado. Já em março ele foi internado com problemas respiratórios, enquanto a terceira vez se deu em maio do ano passado por causa de um quadro clínico instável geral. Após a última vez em que Benedetti foi hospitalizado, de 24 de abril até 6 de maio, o escritor recebeu alta e voltou para casa, após 12 dias internado pelo agravamento de uma doença intestinal crônica.

A última obra publicada, o poemário “Testigo de Uno Mismo”, foi apresentada em agosto de 2008. Antes da última entrada no hospital, Benedetti estava trabalhando em um novo livro de poesia cujo título provisório é “Biografía para Encontrarme”.

Prêmios
Recebeu os prêmios Ibero-americano José Martí (2001) e Internacional Menéndez Pelayo (2005).

Obras

Conto
Esta Manhã e Outros Contos, 1949.
Montevideanos, 1959.
Datos para el viudo, 1967.
A Morte e Outras Surpresas, 1968.
Con y sin nostalgia, 1977.
Geografías, 1984.
Recuerdos olvidados, 1988.
Despistes y franquezas, 1989.
Buzón de tiempo, 1999.
El porvenir de mi pasado, 2003.
El otro yo

Drama
El reportaje, 1958.
Ida y vuelta, 1963.
Pedro y el Capitán, 1979.

Novela
Quem De Nós, 1953.
A Trégua, 1960.
Gracias Por El fuego, 1965.
El cumpleaños de Juan Ángel, 1971.
Primavera con una esquina rota, 1982.
A Borra do Café, 1992.
Andamios, 1996.

Poesia
La víspera indeleble, 1945.
Sólo mientras tanto, 1950.
Te quiero, 1956.
Poemas de la oficina, 1956.
Poemas del hoyporhoy, 1961.
Inventario uno, 1963.
Noción de patria, 1963.
Próximo prójimo, 1965.
Contra los puentes levadizos, 1966.
A ras de sueño, 1967.
Quemar las naves, 1969.
Letras de emergencia, 1973.
Poemas de otros, 1974.
La casa y el ladrillo, 1977.
Cotidianas, 1979.
Viento del exilio, 1981.
Preguntas al azar, 1986.
Yesterday y mañana, 1987.
Canciones del más acá, 1988.
Las soledades de Babel, 1991.
Inventario dos, 1994.
El amor, las mujeres y la vida, 1995.
El olvido está lleno de memoria, 1995.
La vida ese paréntesis, 1998.
Rincón de Haikus, 1999.
El mundo que respiro, 2001.
Insomnios y duermevelas, 2002.
Inventario tres, 2003.
Existir todavía, 2003.
Defensa propia. 2004.
Memoria y esperanza, 2004.
Adioses y bienvenidas, 2005.
Canciones del que no canta, 2006.

Ensaio
Peripecia y novela, 1946.
Marcel Proust y otros ensayos, 1951.
El país de la cola de paja, 1960.
Literatura uruguaya del siglo XX. 1963.
Letras del continente mestizo, 1967.
El escritor latinoamericano y la revolución posible, 1974.
Notas sobre algunas formas subsidiarias de la penetración cultural, 1979.
El desexilio y otras conjeturas, 1984.
Cultura entre dos fuegos, 1986.
Subdesarrollo y letras de osadía, 1987.
La cultura, ese blanco móvil, 1989.
La realidad y la palabra, 1991.
Perplejidades de fin de siglo, 1993.
El ejercicio del criterio, 1995.

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/

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>Mário Benedetti (Teia de Poemas)

>

GARRAFA AO MAR

O mar um acaso
Vicente Huidobro

Ponho estes seis versos em minha
garrafa ao ma
com o desígnio secreto de que
algum dia
chegue a uma praia quase deserta
e uma criança a encontre e a
destampe
e no lugar de versos extraia
pedrinhas
e socorros e alertas e caracóis.
===============================

O MAR VEM DO MAR

O mar vem do mar
morre nascendo
simulacro de deus
baba do céu

vem do mar o mar
mar de si mesmo
deserto sem memória
e sem esquecimento

o mar chega ao mar
mas à noite
as ressacas não retornam
para o horizonte
========================

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA DE HERÁCLITO

Não é só o rio que não se repete

tampouco se repetem
a chuva o fogo o vento
as dunas o crepúsculo

não é só o rio
sugeriu o fulano

portanto
nada pode

uma pessoa qualquer
ser contemplado duas vezes
em teus olhos
============================

LIBERTAÇÃO DAS POMBAS

Soltar uma pomba
nem sempre é algo fácil
de imaginar

a pomba é a chave
de tantos sonhos
artesanais

se alguém diz pomba
pensa espírito santo
pensa paz

por isso
soltar uma pomba
é sempre algo difícil
de imaginar

quiçá exista apenas
uma maneira de fazê-lo

soltar realmente
uma pomba
====================

TEORIA DOS CONJUNTOS

Cada corpo tem
sua harmonia e
sua desarmonia

em alguns casos
a soma das harmonias
pode ser quase
enjoativa

em outros
o conjunto
de desarmonias
produz algo melhor
do que a beleza
=========================

SOBREVIVENTES

Quando em um acidente
uma explosão
um terremoto
um atentado
salvam-se quatro ou cinco
cremos
insensatos
que derrotamos a morte

mas a morte nunca
se impacienta
pois, com certeza
sabe melhor do que ninguém
que os sobreviventes
também morrem

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>Trova III

> ————————-

Fontes:
Pintura (Salvador Dali)
Trova (Clube da Simpatia de Portugal)

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>Alfonso Reyes (Poesias Avulsas)

>

SOL DE MONTERREY

Não há dúvida: em menino
o sol me perseguia
andava atrás de mim
como cãozinho dengoso;
despenteado e doce,
claro e amarelo:
esse sol dorminhoco
que segue os meninos.
(O fogo de maio
me armou cavaleiro
eu era o Menino Andante
e o sol, meu escudeiro.)

Todo céu era de anil,
toda casa, de ouro.
Quanto sol entrava
nos meus olhos!
Mar adentro pela frente,
aonde quer que eu vá,
ainda que haja nuvens fechadas,
oh quanto pesa o sol!
Oh quanto dentro me dói,
essa cisterna de sol
que viaja comigo!
Eu não conheci na minha infância
sombra, somente assoalho. -
Cada janela era sol,
cada quarto eram janelas.
Os corredores retesavam
arcos de luz pela casa.
Nas árvores ardiam
as brasas das laranjas
e a horta em lume vivo
se dourava.

Os pavões reais eram
parentes do sol. A garça
começava a arder
a cada passo que dava.
E a mim o sol me despia
para grudar-se comigo,
despenteado e doce,
claro e amarelo
esse sol dorminhoco
que segue os meninos.

Quando saí de casa
de bengala e de terno,
disse a meu coração:
- Já levas o sol no momento! -
É tesouro – e não se acaba:
não se me acaba – e o gasto.
Trago dentro tanto sol
que já tanto sol me cansa. -
Eu não conheci na minha infância
sombra, somente assoalho.
==========================
A.

Tardes assim, já as respirei acaso?
Cabelos soltos, úmidos do banho:
Cheiro de granja, frescor de garganta,
Primavera toda ela flor e água.

Abriu-se a reixa e fomos a cavalo.
O céu era canção, carícia o campo,
E a promessa de chuva andava viva
E alegremente pelos altos cumes.

Tremia cada folha e era bem minha,
E tu também, de medo sacudida
Entre pressentimentos e relâmpagos.

Pulsavam entre nuvens as estrelas,
E o palpitar da terra nos chegava
Pelo tranco ligeiro do cavalo.
————–

Fontes:

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>Alfonso Reyes (17 Maio 1889 – Agosto 1959)

>

Alfonso Reyes nasceu em Monterrey (Estado de Nuevo Leon, México), em 17 de maio de 1889, era o filho do general Bernardo Reyes e Sra. Aurelia Ochoa Reyes. Fez seus primeiros estudos em escolas particulares, em Monterrey, no Liceu Francês de México, o Colégio Civil de Nuevo León, na Escola Nacional Preparatória e na Faculdade de Direito do México, onde obteve o título de advogado a 16 de julho de 1913.

Em 1909 ele fundou, com outros escritores mexicanos o “Ateneo de la Juventud”. Lá, junto com Pedro Henríquez Ureña, Antonio Caso e José Vasconcelos se organizaram para ler os clássicos gregos. Em 1910 ele publicou seu primeiro livro “Questões Estéticas.” Em Agosto de 1912, foi nomeado secretário da Escola Nacional de Estudos Avançados, que professavam a cadeira de “História da Língua Espanhola e Literatura”, de abril a junho de 1913. Dia 17 deste mês foi nomeado segundo secretário da Missão Diplomática da França no México, que ocupou até outubro de 1914. Exilado em Espanha (1914-1924), após a morte do seu pai, general Bernardo Reyes, estudou na escola Menéndez Pidal e depois a estética de Benedeto Croce. Mais tarde publicou vários ensaios sobre a poesia do ciclo de ouro espanhol, incluindo: “Barroco” e “Góngora”, além de ter sido um dos primeiros escritores a estudar Irmã Juana Inês de la Cruz. Desta época são “Cartones Madrid” (1917), o seu curto, mas magistral livro, “Visão de Anahuac” (1917), “O suicídio” (1917) e “O Caçador” (1921).

Em Espanha, foi dedicado à literatura e jornalismo, trabalhou no Centro de Estudos Históricos de Madrid sob a direção de Don Ramón Menéndez Pidal. Em 1919 ele foi nomeado secretário da comissão mexicana Francisco del Paso y Troncoso, também fez este ano a prosificação do poema Meu Cid. Em junho de 1920, foi nomeado segundo secretário da Missão Diplomática da Espanha, no México. Desde então e até fevereiro de 1939, quando ele retornou definitivamente para o México, ele ocupou vários cargos no serviço diplomático, Encarregado de Negócios em Espanha (1922-1924), Ministro da França (1924-1927), Embaixador da Argentina (1927-1930 e 1936-1937) e Brasil (1930-1936). Em Abril de 1939 foi o presidente da Casa de Espanha, no México, que mais tarde tornou-se no Colegio de México, e catedrático fundador do Colégio Nacional. Em 1945 ele ganhou o Prêmio Nacional de Literatura, no México. De 1924 para 1939 se tornou uma figura-chave da Espanha continental, como atesta o próprio Borges.

Sua obra clássica com o mundo não se limita a erudição, é mais uma reinvenção de metáforas poéticas, e mesmo políticas que definem novas perspectivas para articular a realidade do México, como o seu “Discurso de Virgílio” (1931). Em “Ifigenia cruel” (1924), poema dramático, no estilo do cinema clássico, o mito contado por Eurípedes se reinventa e se transforma em uma reflexão sobre a identidade e o passado, uma alegoria de sua própria vida pessoal e também a do México diante de sua própria revolução. O poeta faleceu em agosto de 1959.

(tradução do espanhol por José Feldman)
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Reyes no Brasil

As décadas de 20 e 30 foram conturbadas em toda a América Latina. Os países da região passaram por conflituosos processos de afirmação de suas respectivas identidades nacionais, com farta produção cultural e delicados momentos políticos. O escritor, jornalista e diplomata mexicano Alfonso Reyes é uma personalidade emblemática desse período latino-americano, que viveu ativamente os dilemas de uma época tanto em seu país de origem quanto no Brasil e na Argentina, onde se estabeleceu em função da atividade diplomática.

Reyes foi uma testemunha privilegiada de um momento cultural singular nos países latinos (americanos e europeus). Ele é uma personalidade de suma importância para a integração cultural entre os países da América e as relações políticas entre as diversas nações

A estada de Reyes no Brasil fez parte de um processo até então inédito de aproximação entre Brasil e México, num período em que fatores como a distância geográfica, as dificuldades econômicas e o próprio isolamento político-cultural dificultavam o intercâmbio entre os países da região. Nesses anos, a ação diplomática constituía muitas vezes a única possibilidade de aproximação.

Reyes manteve também uma relação próxima com os pintores Emiliano Di Cavalcanti e Cícero Dias, e com os escritores Graça Aranha, Aníbal Machado, Murilo Mendes, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima. A proximidade com a elite cultural do país rendeu ao escritor a condecoração da “Grande Cruz do Cruzeiro do Sul”, honraria máxima concedida pelo governo brasileiro a um estrangeiro.

Em 1927, quando passou pelo Rio de Janeiro rumo a Buenos Aires, Alfonso Reyes deixou-se seduzir por sua exuberante paisagem. Numa carta ao jovem poeta Carlos Pellicer, que havia estado no País como membro da comitiva de José Vasconcelos, cinco anos antes, Reyes se refere aos seus versos, nos quais as marcas do Brasil são memoráveis.

No Rio de Janeiro Reyes não pôde encontrar — nem apreciar — o peso simbólico de uma arquitetura rica e diversificada, como a da Cidade do México, que refletisse o passar do tempo exatamente como o domínio da Geografia pela História e a preservação da História como prova de tal domínio. Durante seus primeiros tempos de Brasil, em vez de expressar o mesmo entusiasmo de Vasconcelos, Alfonso Reyes foi parco e reticente em suas impressões. Recém chegado da efervescente Buenos Aires, onde havia sido embaixador, e depois de haver vivido muitos anos na Europa, o mexicano teve que se adaptar ao País, e só quando se acostumou ao seu novo ambiente é que pôde ir paulatinamente se envolvendo em aspectos mais profundos da cultura brasileira.

Alfonso Reyes desembarcou no Rio de Janeiro no dia 16 de março de 1930 para assumir o posto de embaixador plenipotenciário do México no Brasil. É interessante analisar a relação de Reyes com o Brasil, pois a partir dela podemos refletir sobre essa espécie de choque ou oposição entre elementos em certa maneira díspares — as forças da natureza e a ação da cultura, o desfrute e o trabalho, o êxtase e a reflexão crítica — que o escritor parece haver sentido.

Reyes sempre procurou inserir-se em sua vida cultural. Em primeiro lugar, dedicou-se a um novo tipo de exercício intelectual: analisar a cultura ibérica em suas duas manifestações lingüísticas —o português e o espanhol— e analisá-la considerando a sua bifurcação inevitável no que se poderia definir como duas Américas distintas, a hispânica e a portuguesa (parentes, mas não irmãs). No que se refere ao primeiro tema, o das línguas, Reyes manifestou um profundo interesse na sua discussão.

Quanto ao segundo tema, o das duas Américas, é necessário considerar o trabalho paciente e tenaz de aproximação que o embaixador soube realizar. Para desempenhar muitas de suas funções diplomáticas, Reyes teve que mergulhar na cultura brasileira, que era nova e desconhecida para ele. Isso significou, entre outras coisas, que teve que buscar compreender e ter paciência para descobrir quais eram os monumentos de cultura dentro de uma paisagem cuja exuberância natural não guardava grandes edifícios que preservassem a tradição ibérica e tampouco escondia ruínas de imponentes civilizações passadas. A constatação de que realmente havia vida intelectual no Brasil e de que a suposta oposição entre vida inteligente e prazer contemplativo podia transformar-se em convivência criadora parece tê-lo tirado, pelo menos em parte, de seu pessimismo inicial.

Como diplomata e escritor, Reyes tinha que se dedicar à interlocução. Se no começo sentia que não havia ninguém que valesse a pena conhecer, aprendeu a construir uma vida intelectual e social importante, da qual participavam não só brasileiros como estrangeiros. À medida que se envolvia nas atividades culturais e políticas do País, Reyes se deu conta de que seu panorama cultural e político era muito mais complexo do que havia pensado e que, por trás do que parecia uma falta de interesse com relação ao exterior, havia um importante movimento nacional de produção cultural e artística. Mais que isso, havia uma preocupação generalizada entre os intelectuais e artistas com os quais passou a conviver em compreender e explicar seu próprio país, o povo brasileiro e sua cultura.

À parte sua intervenção em missões diplomáticas proeminentes, a participação de Reyes na vida cultural e política da capital brasileira foi efetivamente prolífica. O embaixador esteve presente em uma série de eventos culturais importantes junto à comunidade intelectual brasileira e soube contribuir para estimular a discussão de políticas de aproximação entre o Brasil e os países hispano-americanos. Nesse sentido, é importante destacar que Reyes se relacionou com intelectuais, jornalistas, professores e estudantes vinculados a organizações, grupos e partidos políticos dos mais variados matizes ideológicos.

Em 1933, por exemplo, o então estudante Carlos Lacerda (futuro opositor de Vargas, de Kubitschek, e um dos principais articuladores civis do golpe militar de 31 de março de 1964) convidou-o com insistência a dar conferências na associação de estudantes de que participava. A associação planejava nada mais nada menos que criar uma nova base espiritual capaz de apoiar e desenvolver outras concepções dos problemas do País. Lacerda sugeria que Reyes falasse sobre o México e completava o seu convite anunciando: “Isso é um começo. Para continuar, precisamos de auxílio. Esse auxílio é, por exemplo, a sua palavra sempre esperada e sempre aceita e admirada”.

Um ano antes, em 1932, a poeta Cecília Meireles, integrante de um grupo de professores preocupados com a renovação educacional do País, foi enfática em sua admiração por Reyes. Segundo ela, o Brasil precisava estabelecer um intercâmbio espiritual e expandir suas relações com os povos do continente. Sua juventude buscava o universalismo e, para alcançá-lo, necessitava de um guia. Este guia era Alfonso Reyes.

É importante destacar que o campo de interesses do embaixador mexicano era suficientemente amplo para abrigar amigavelmente jovens como Lacerda e poetas como Manuel Bandeira e Ribeiro Couto que, a exemplo de Cecília Meireles, sentiam-se ligados ao mexicano não apenas pelo seu trabalho com as palavras, mas também pelo interesse por temas literários e culturais relacionados à América Latina. A consulta à correspondência do autor comprova que a questão do intercâmbio cultural foi tema constante em suas cartas a Bandeira e a Couto.

Reyes investiu muito trabalho e tempo nas tarefas de difusão e conseguiu um resultado importante nesse campo, com a edição de seu correio literário Monterrey. Com essa publicação, além de divulgar aspectos da literatura e da cultura mexicanas entre os brasileiros, pôde tornar públicas suas próprias preocupações intelectuais e literárias. Em Monterrey, os temas mexicanos se faziam acompanhar pela análise de questões referentes à América Latina e a temas e autores relacionados à literatura ocidental.

A ausência do Brasil em sua publicação poderia servir para relativizar a imagem que se costuma associar a Alfonso Reyes como o construtor de uma sólida ponte cultural e literária entre o México e o Brasil. Nesse sentido, se é certo que o diplomata se preocupou em consolidar uma imagem positiva da cultura mexicana entre os brasileiros, e o intelectual, em estabelecer um círculo importante, conformado por muitas personalidades de peso no mundo da cultura e das artes, pareceria que o escritor se esqueceu de refletir sobre a produção literária brasileira e de oferecer sua pequena publicação às tarefas de intercâmbio. Penso que é necessário analisar a relação de Reyes com o Brasil, considerando que ela se plasmou de maneiras distintas, devido exatamente ao exercício de cada um dos papéis que teve que desempenhar no País: diplomata, intelectual e literato (crítico e escritor). Assim, poderíamos entender por que, paralelamente ao cumprimento de suas tarefas diplomáticas, Reyes pôde cultivar em Monterrey um espaço particular, destinado aos seus interesses culturais e à reflexão de temas especificamente relacionados à sua própria trajetória literária. Por isso, difundiu sua revista entre os brasileiros, mas não falou sobre eles.

Vivendo a dicotomia permanente de ser um escritor dedicado à política, com o passar do tempo Reyes teve que defender sua posição entre os protagonistas do mundo literário mexicano, ainda que a distância. O projeto de regressar ao México depois da carreira diplomática explica, de certa forma, por que Reyes decidiu não incluir em sua revista a discussão de questões que não estivessem intimamente relacionadas com o México, ou, quando muito, com a América Hispânica. Vários anos depois de Vasconcelos haver defendido políticas de integração cultural para a América Latina, Reyes decidiu não ultrapassar as fronteiras lingüísticas e culturais entre o México e o Brasil em seu veículo editorial. Diplomata de prestígio, interlocutor atento e difusor cultural competente, Reyes soube separar todos esses interesses e pôde fazer de Monterrey uma espécie de passaporte intelectual de regresso ao seu país.

Isso não quer dizer, porém, que o Brasil não haja influenciado sua produção especificamente literária. Ao contrário, as marcas do Brasil se registraram de maneira rica e incisiva na obra que escreveu durante sua permanência no País. Poderíamos dividi-la, grosso modo, em crônicas de circunstância e pequenas ficções, algumas dispersas e outras reunidas em História natural das laranjeiras e em Quince presencias, além de vários poemas reunidos pelo autor em sua Constancia poética.

É importante observar que o autor foi incorporando aos seus poemas brasileiros os elementos embriagantes da paisagem tropical e uma certa imagem de sensualidade e erotismo, mesclada a temas populares e folclóricos. Talvez a fusão de todos estes elementos expresse mais sua experiência de vida no Brasil que a própria evolução de sua produção literária. No entanto, estes poemas “brasileiros” contribuem indubitavelmente para dar cor e sabor ao seu disciplinado labor poético.

Em 1934, Reyes foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Na ocasião, o escritor declarou o profundo carinho que o unia ao país: “Amo o Brasil com firme afeto, além, muito além das relações que afortunadamente unem nossos dois Estados”.

Reconhecido americanista, Reyes realizou no Brasil conferências importantes. De sua produção desses anos caberia destacar pelo menos quatro volumes de prosa e poesia: ‘Testimonio de Juan Peña’, ‘Tren de ondas’, ‘Romances del Río de Enero’ e ‘Minuta’, assim como as páginas agrupadas sob o título de ‘História natural das Laranjeiras’

Em 1938, Reyes voltou definitivamente ao México. A partir da reintegração à terra que abandonara havia mais de vinte anos, seus contatos com o Brasil se limitariam às cartas —cada vez mais escassas, para tristeza de Reyes— e à publicação (e republicação) em jornais, livros e revistas mexicanos, dos textos que escreveu sobre a cultura, a economia, a história e o cotidiano do Brasil.

Fontes:
http://www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/hispanicos.htm
http://www.revistafator.com.br/ver_noticia.php?not=33488
http://www.antoniomiranda.com.br/
– Revista Brasileira de História. São Paulo: USP. v.23 n.45, julho 2003

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>Jien (17 Maio 1155 – 28 Outubro 1225)

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(tradução: José Feldman)

Jien (17 de maio de 1155, em Kyoto –28 de outubro de 1225 em Omi (agora Shiga)) poeta japonês, historiador, e monge budista .

Jien nasceu na família de Fujiwara de aristocratas poderosos. Ele se juntou cedo a um monastério budista da seita de Tendai, primeiro levando o nome budista Dokaie, e mudando depois a Jien.

Ele começou a estudar e escrever história japonesa, o seu propósito era iluminar as pessoas que acham difícil de entender as vicissitudes de vida. Sua obra-prima, completada cerca de 1220, era humildemente intitulada, Gukanshô que traduz como Apontamentos de um Bobo. Nisto ele tentou analisar os fatos de história japonesa.

O Gukanshô tinha uma visão pessimista do Período Feudal, e alegou que era um período de declínio religioso e via a desintegração da civilização. Jien sustentou que mudanças na estrutura feudal eram necessárias e defendeu o direito do Poder Shogun .

Fonte:
http://en.wikipedia.org/wiki/Jien

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>Manoel de Barros (O Livro das Ignorãças)

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artigo de Teotônio Marques Filho

INTRODUÇÃO

Não existe, ainda uma biografia sistematizada de Manoel de Barros, sendo os dados biográficos encontrados dispersos em artigos, poucos livros e alguns ensaios. Do que se sabe, algo pode ser dito da seguinte maneira: Manoel de Barros nasceu em 1916, em Cuiabá, Mato Grosso, onde vive atualmente. Ainda na sua infância, mudou-se para Corumbá, também no Mato Grosso, ficando, assim, bem próximo ao Pantanal. Aos oito anos de idade, foi mandado ao Rio de Janeiro, para estudar em um colégio de padres, e, na adolescência, foi a Bolívia e, em seguida, aos Estados Unidos, onde entrou em contato com a vanguarda artística da época. Volta ao Rio, ingressa no curso de Direito, no qual se forma, e inicia sua meteórica carreira na advocacia, que não dura muito. Simpatizante das idéias comunistas, tem seu primeiro livro de sonetos tomado pela polícia da época e nunca mais o tem de volta, tornando-se um livro perdido. Casa-se por volta dos 30 anos de idade e retorna a Cuiabá com sua esposa, com quem tem três filhos, vivendo até hoje. Seus primeiros livros são publicados em decorrência de prêmios recebidos, sendo que, posteriormente a editora Civilização Brasileira, tendo então como editor Ênio da Silveira, resolve publicar seus livros, que hoje são publicados pela editora Record

Sua vida inteira dedicada à poesia rendeu-lhe 14 livros, dando-se a estréia com Poemas concebidos sem pecado, de 1937. A segunda publicação só viria cinco anos mais tarde com Face imóvel, já marcando a boa distância de tempo entre as publicação que viriam depois, já que só quatorze anos mais tarde, em 1956, surgiria seu terceiro trabalho, intitulado simplesmente de Poesias. Destacam-se, ainda, na obra do poeta, livros como Gramática expositiva do chão (1966), livro de pré-coisas (1985), O guardador de águas (1989), O livro das ignorãças (1993) e livro sobre nada (1996), sempre tendo na simplicidade seu ponto de apoio e sua característica principal.

UM PASSEIO PELAS QUESTÕES DO POETA

Um simples olhar sobre alguns títulos dos livros de Manoel de Barros já nos revela algo sobre a sua poesia: o trabalho com a metalinguagem, ou seja, com o falar do próprio fazer poético, do próprio processo de criação. Os títulos já citados, assim como outros (Matéria de Poesia, de 1970, por exemplo), trazem sempre algum termo que nos lança diretamente a questão do fazer poético, do falar da própria poesia ou sobre o livro. Outros títulos, mais relacionados com a música, também esclarecem esse tom metalingüístico: Arranjos para assobio, de 1980, e concerto a céu aberto para solos de ave, 1991. Nota–se, também, Compêndio para uso dos pássaros, de 1960, já que “compêndio” significa a síntese das teses de uma determinada doutrina. Em entrevista a André Luís de Barros, quando perguntado sobre como nasceu seu interesse pelo trabalho com a linguagem reponde:

Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno , os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que tem é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso. (Entrevista concebida a André Luís de Barros. Jornal do Brasil. (Caderno Idéias) ).

Assim, percebemos claramente que, para esse poeta, o trabalho com a própria linguagem é um projeto consciente e uma preocupação constante, surgindo em toda a sua obra poética. Seu projeto, no entanto, não é de uma língua grandiosa, rebuscada, mas de uma língua simples, rasteira, “pobre”, sem ser, contudo, simplória ou simplista (o que é bem diferente de “simples”). Sua linguagem toca o chão, roça o solo das palavras, tirando delas o que elas têm de terra, de mais natural, digamos assim.

Esse trabalho com a simplicidade, com as coisas rateiras do chão, também se configura como um projeto. A preocupação de falar sobre o fazer poético, como dito anteriormente, está ao lado da procura por essa “pobreza” dos temas, “pobreza no sentido de que aquilo que Manoel de Barros escolhe para tratar na sua poesia é sempre algo “pequeno”, “ínfimo”, geralmente descartado pela maioria dos poetas. Na sua poesia, têm lugar privilegiado e seguro os insetos (formigas, principalmente), os pássaros (beija-flor, bem-te-vi, rolinha, andorinha), bichos que rastejam (sapos, lagartos, caranguejos), lembrando as “coisas rasteiras” que ele elege como tema. Em entrevista a Lúcia Castello Branco e Luís Henrique Barbosa, Manoel fala justamente dessas “coisas rasteiras”, dessa “pobreza” que o encanta:

Penso que trago em mim uma pobreza ancestral que me eleva para as coisas rateiras. Disse uma vez: só as coisas rateiras me celestam. Procede que a pobreza é bíblica, procede que o ordinário é sagrado – e a desgrandeza é de DEUS. Com o canto do Sol e das Aves o nosso Francisco fertilizava a sua fé. (…) quero fertilizar os meus cantos com as pobres coisas do chão. Sendo que não sou eu que cristianizo as ordinariedades, mas a minha linguagem.
(Entrevista concedida a Lúcia Castello Branco e Luís Henrique Barbosa. In: CASTELLO BRANCO, Lúcia (org.) Coisa de Louco. Belo Horizonte: Casa Freud, SCE, PBH, 1998. P. 184)

Para o poeta, tratar dessas coisas rateiras o aproxima de uma origem, o lança ao início das coisas, a um tempo mítico, bíblico, primitivo. Essa busca, é também, uma busca pelo tempo anterior à linguagem, em que nada existia além das coisas. Aí é que está o mítico de sua poesia, o primitivo, já que num tempo primordial não há uma linguagem, há simplesmente as coisas. Manoel de Barros parece querer alcançar a coisa em si, em seu estado bruto, em seu estado de coisa mesmo. Como o poeta diz em um poema do Livro sobre nada:

As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber.
A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras.
(BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996. P. 11. (Destaques meus) )

Vemos claramente, nesses versos, o privilégio das coisas, ao invés das palavras e da linguagem. As palavras são transformadas em brinquedos, ou seja, em coisas que se podem manusear. Para isso, entretanto, tem de se utilizar da linguagem, pois não é possível fugir a ela. Por isso, já que na poesia se tem de passar pela linguagem para se chegar à coisa, que a linguagem seja, então, pelo menos, mais próxima à coisa – daí uma linguagem simples, sem rodeios, que fala diretamente das coisas, sem muito intermédio. Como dizem Lúcia Castello Branco e Luís Henrique Barbosa, há, na poesia de Manoel de Barros, “a encenação da busca de uma língua adâmica, que esteja mais próximas às coisas“. Ou seja, o poeta quer chegar a uma língua das origens, de Adão, de um tempo mais remoto possível.

Não é à toa que a poesia de Manoel seja feita basicamente de versos soltos, ou de “frases”, como ele próprio prefere. O poeta chama a si mesmo de um bom “fazedor de frases”, caracterizando seu trabalho como algo mais fragmentado, sem uma continuidade de sentido, sem um “enredo”, sem uma “história” que se conta a partir dos versos. Muitas vezes, seus poemas são frases soltas, sem articulação com a frase anterior ou com a seguinte. Isso também é uma forma de aproximar sua poesia de algo primitivo, original, já que a impressão deixada pela leitura é de algo caótico, sem uma ordem estabelecida pelas frases lançadas no espaço da página. Essa desarticulação da linguagem é um trabalho pensado, como diz o próprio poeta:

(…) poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo. Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem seria mesmal. (…) Prefiro escrever o desanormal.

Desarticulando a linguagem, aproximando-a da linguagem desarticulada das crianças, dos bêbados e dos loucos, o poeta consegue alcançar o ilogismo que procura, a não-lógica de uma linguagem que escapa à mesmice e à utilidade. Para ele, a linguagem não deve servir a um sentido pronto, mas deve enlouquecer o sentido, desarticular a língua que utilizamos todos os dias, confundir a nossa lógica, que encarcera a língua em apenas uma possibilidade de expressão. A tarefa da poesia é justamente tirar a língua de seu lugar comum e dar-lhe outros sentidos, conceder-lhe outras possibilidades das quais não dispomos no nosso dia-a-dia.

É isso o que veremos em O livro das ignorãças, livro em que o poeta prossegue nesse projeto de se aproximar das coisas chãs, das coisas que rastejam e se aproximam da natureza, ou que fazem parte dela.

O Livro das Ignorãças

O livro das ignorãças é dividido em três partes (“Uma didática de invenção”, “Os deslimites da palavra” e “Mundo pequeno”), sendo que cada uma delas tem suas próprias características, o que, no entanto, não impede que vejamos também algumas recorrências e um prosseguimento de questões privilegiadas do autor.

Em “Uma didática da invenção”, surgem várias daquelas questões já apontadas anteriormente, evidenciando a preocupação de Manoel de Barros quanto as idéias específicas de poesia. Assim, já no primeiro poema do livro, temos a idéia do desaprender, da necessidade que o poeta vê de a poesia enlouquecer a língua, tirando-a dos lugares comuns em que se encontra:

Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.”

Invertendo completamente a lógica tradicional, esse verso vê o aprendizado das coisas não no ato de aprender, mas no ato de desaprender. Atente-se para o termo “princípios”, que aponta para a questão da origem de que se falou antes. Desaprender, segundo o poeta, permite-nos alcançar os princípios, as origens, o momento anterior às palavras, em que só existem as coisas. Essa mesma idéia parece reger O livro das ignorãças, já que ela é recorrente em vários poemas e também na obra inteira do poeta. No poema de número XVI, há um verso que diz dessa idéia de que só as frases opacas e obscuras, que fogem da linguagem comum, é que interessam, pois são iluminadas:

Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

Esse trabalho para “desacostumar as palavras”, como diz o próprio poeta, dando-lhe significações novas, inusitadas, antes não concebidas, atravessa todo o livro, resultando em versos que, muitas vezes, nos causam espanto, tal a desconstrução da linguagem, tal o “desacostumamento” da língua que eles acabam por fazer. Já que “desacostumar as palavras” é o trabalho da poesia, e do poeta, Manoel de Barros não hesita em agir assim a todo instante, transformando a sua poesia num jogo de sensações, numa inversão das características dos objetos e num lugar de imagens inesperadas. São vários os exemplos dessas inversões e desse jogo com imagens e sensações:

Como pegar na voz de um peixe (I)
E um sapo engole as auroras. (IV)
Eu escuto a cor dos passarinho. (VII)
Hoje eu desenho o cheiro das árvores. (IX)
Não tem altura o silêncio das pedras. (X)

Poderíamos continuar enumerando ad infinitum exemplos como esse, já que eles elucidam muito da estética de Manoel de Barros. Esses versos alcançam exatamente a sua proposta de poesia, desvestindo as palavras de seus sentidos corriqueiros, de seus significados gastos. Não é à toa a referência, em vários momentos, à linguagem das crianças, já que elas ainda não aprenderam a totalidade da língua. Lembremos o que diz o poeta em entrevista já citada: “atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos“. A criança, por não Ter ainda tanto contato com a língua, não perdeu a capacidade de brincar com as palavras, o que as torna poetas sem que elas saibam. Se a poesia é enlouquecer as palavra, fazendo-as delirar, as crianças fazem poesia ao falar, como mostra o poema de número VII:

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.

Mudar a função das palavras está dentro do conceito de poesia desse poeta, pois é assim que elas podem delirar, enlouquecer, tirar a língua da lógica. A figura da criança surge novamente em outros poemas, sempre ligada a essa idéia de ilogismo que a poesia deve buscar. Mais do que o ilogismo, os versos abaixo trazem a questão de coisas que sequer têm nome, sendo estas as preferidas pelas crianças:

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças. (VI)

Ora, como pronunciar nomes que nem existem? É justamente aí, como já viu anteriormente, que reside a poesia de Barros, já que ele busca exatamente aquilo que ainda não recebeu nomes, que ainda não foi aprisionado por definições, por conceitos. Daí sua idéia de chegar às coisas, sem intermédio da língua, tentando tocar na coisa mesma, em sua origem, sem palavras se interpondo entre o poeta e a matéria de sua poesia. Muitas vezes, Manoel fala mesmo de ser as coisas, que ultrapassa o simples tocar as coisas, ou, ultrapassando mais ainda, o falar das coisas. O poema de número IX trata desse ser a coisa:

Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.

Esse poema é quase um ensinamento de como se tornar uma coisa, nesse caso uma árvore. O processo de ser uma árvore só se completa quando os galhos nascem do próprio corpo, saindo da voz. Isso não é apenas falar da coisa ou tocar a coisa, mas tornar-se a coisa, ser a coisa em seu estado mesmo.

Em O livro das ignorãças, também há a proposta de, além de tornar-se coisa, “desacostumar as coisas”, assim como se deve “desacostumar as palavras”. Do mesmo modo que se deve livrar as palavras de seu estado normal, fazendo-as delirar, há também a necessidade de livrar as coisas de sua utilidade usual, tirando-as do uso que elas têm no dia-a-dia. É o que o poeta chama de “desinventar objetos” (poema II):

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.

Percebe-se que essa necessidade de desacostumar as coisas caminha junto com a de desacostumar as palavras. O último verso, que fala das palavras, vem logo depois dos versos que tratam das coisas, sendo que todos dizem sobre o mesmo ponto: desinventar coisas e palavras, tornado-os novos, sem sentido pronto, sem definição. Não definir é deixar soltar as palavras e as coisas, é deixá-las simplesmente ser, sem que haja nomes para aprisioná-las num mundo de conceitos, que se tornam cada vez mais gastos e pobres.

Essa idéia da não-definição é muito bem trabalhado no belo poema de número XIX, em que se pensa no empobrecimento de uma bela imagem originado por uma definição utilizada para conceituá-la.

O rio que fazia uma volta atrás de nossa cara era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

A substituição de uma bela imagem criada a partir de um rio foi completamente empobrecida por uma definição geográfica. A poesia da imagem foi rompida pela precisão e redução de um conceito, que nada diz sobre a coisa em si. Assim, percebe-se que a poesia nada tem a ver com definições, levando ser vista com olhos menos pragmáticos, menos reduzidos pela prática e pela precisão a que o mundo nos obriga. É o que mostra a poema de número XIII:

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas
razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.

É justamente o olhar de pessoas razoáveis – entenda-se, por pessoas razoáveis, pessoas comuns – que acabam com a poesia das coisas. O olhar comum sobre as coisas não consegue ver nelas qualquer poesia, acabando por enxergar apenas definições e palavras com seus sentidos convencionais, pobres.

Assim, na primeira parte de O livro das ignorãças, há um trajeto claro de fugir à linguagem comum e alcançar uma língua adâmica, original que se aproxime mais da coisa em seu estado bruto, que chegue à “coisidade” da coisa, ao é da coisa, em seu âmago de coisa mesmo.

A Segunda parte, “Os deslimites da palavra”, não foge a esse projeto de linguagem. Nessa parte, o poeta inventa uma lenda e escreve a partir dela: um tal canoeiro Apuleio, que teria passado três dias e três noites navegando sobre as águas de uma enchente ocorrida em 1922, sem comer nem dormir, registra em um caderno, a partir dessa experiência, amontoados de frases desconexas. Tempos depois, o poeta encontra esse caderno e tenta “desarrumar as frases”, de modo que elas se tornem poesia, apesar de, em si, elas já serem poesia, pois, como diz o poeta, “nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa”, provocou “uma ruptura com a normalidade”, ou seja, escreveu fora da língua comum, fazendo poesia.

O resultado do encontro entre as frases do canoeiro, que escreveu fora da normalidade, com o poeta, que também só escreve fora do comum, é uma desarrumação completa dos padrões, um “desacostumamento” radical. Como diz o poema 2.1, primeiro do segundo dia de enchente:

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumar das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.

Novamente, o que se tem é a questão da supremacia da coisa sobre a palavra: “Não oblitero moscas com palavras.” Usar palavras para falar das moscas é uma rasura das moscas, um apagamento, já que se deve chegar à mosca mesmo, e não somente falar dela. A referência às “oralidades” também é uma fuga à normalidade da língua, já que a fala, a língua oral, apresenta uma série de desvios em relação à linguagem padrão, daí o poeta/canoeiro dizer que não é tolo (sandeu) de ficar seguindo gramáticas, de respeitar a língua imposta por elas. Por isso, o que ele escreve não são as palavras, mas o seu rumor: apenas o som, não o sentido. Escrever apenas o rumor das palavras, sem dar-lhes significado, as aproxima de coisas, de objetos que podem ser quase tocados.

O próprio nome dessa Segunda parte do livro já aponta para essas idéias, pois o poeta escreve além dos limites da palavra, ele atinge seus delimites, ele toca o que está fora da linguagem, o que se situa além das fronteiras que a língua nos impõe. Não se deixar submeter pelos limites da língua é o que faz o poeta/canoeiro ao longo de toda essa parte. Um passeio pelos poemas nos mostra isso de forma evidente:

Ontem choveu no futuro. (1.1)
Estas águas não têm lado de lá. (1.1)
Os nomes já vêm com unha? (1.2)
A chuva atravessou um pato pelo meio (1.6)
A chuva deformou a cor das horas. (1.6)
Um besouro se agita no sangue do poente. (2.4)
O acaso me ampliou para formiga. (2.7)
Uma sabiá me aleluia. (3.6)

O efeito de versos como esses é um grande estranhamento, pois eles fazem a língua delirar em todos os sentidos. A sintaxe delira, os termos mudam de categorias, substantivos ganham qualidades inusitadas, gerando um sentido completamente novo, totalmente “desacostumado”.

A questão da origem, de que já se falou anteriormente, surge de maneira marcante. A enchente que leva o canoeiro a navegar três dias seguinte remete evidentemente ao dilúvio bíblico, texto que trata das origens, por excelência. As imagens de origem são semeadas ao longo dessa Segunda parte, sendo as principais o ovo, a água (elemento sempre ligado à origem), o limo (espécie de lama, de lodo, ambiente úmido que sempre remete a uma origem), assim como bichos que lembram as coisas do chão, que se ligam diretamente a um universo mais primitivo, mais telúrico, muitas vezes aquático – lagarto, formiga, coruja, peixe, besouro, vaga-lume, osga (espécie de réptil), aranha, rã, cágado. Todos esses bichos são diretamente ligados a um mesmo universo mais remoto, às vezes “sujo”, viscoso, ou, no mínimo, obscuro, das trevas, silencioso. Essa idéia do “sujo” também surge mais explicitamente, não só na Segunda como também na primeira parte do livro, já que os ambientes úmidos, primitivos, pantanosos têm uma aparência (e só aparência) de imundície, sendo lugares orgânicos por excelência.

A terceira parte, “Mundo pequeno”, traz as mesmas questões eleitas por Manoel de Barros, sendo que o primeiro poema já rompe com a gramática da língua, conforme já vimos em outros poemas. Nos versos seguintes, os substantivos transformam-se em verbos:

Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

Coisa, rã e árvore, que, gramaticalmente, são substantivos, tornam-se verbos, mostrando um desrespeito do poeta pelas regras gramaticais. O verso final aponta para essa inversão de categorias, representada pela figura do velho que, com sua flauta, inverte os ocasos, assim como o poeta inverte a língua.

A busca pela coisa é, mais uma vez, objeto de poesia, propositalmente no poema que encerra o livro (XIV), antes do “Auto-retrato falado”: “Todas as minhas palavras já estavam consagradas de pedras“. Esse verso parece apontar para um fim de trajeto, em que as palavras foram sendo desvestidas de seus significados até chegarem ao estado de coisa, de pedra. Os versos seguintes a esse elucidam ainda mais essa idéia:

Não era mais a denúncia das palavras que me
importava mas a parte selvagem delas, os seus
refolhos, as suas entraduras.
Foi então que comecei a lecionar andorinhas.

A busca do poeta é pela “parte selvagem” das palavras, pelas suas reentrâncias, o que a aproxima de uma árvore, de uma pedra, de um bicho. No fim, não se lecionam palavras, mas andorinhas, ou seja, ao invés de o poeta mostrar as coisas através de palavras, ele as mostra através delas mesmas, alcançando, como já se disse, a “coisidade” da coisa, a coisa em si mesma.

Essas idéias se repetem, mais uma vez, com a imagem da árvore, tão presente na poesia de Barros, fazendo com que as pessoas se transfigurem em árvores: “Bernardo é quase árvore.” (XII), “Estou atravessando um período de árvore.” (XIII), ou o já citado “Ele me árvore.” (I).

A recusa a definições ressurge, como no poema III, em que se fala de um vaqueiro, de um “peão de campo:”

Gostava de desnomear:
Para de falar barranco dizia: lugar onde avestruz esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.

O peão do poema faz poesia sem que saiba. A sua recusa em definir, em conceituar, ou, mais do que recusa, a sua ignorância dos conceitos, faz dele um poeta, no sentido que Manoel de Barros dá à poesia. Ao contrário do homem que chamou de “enseada” a imagem do rio que passa por detrás da casa, o peão não conceitua, ele cria imagens a partir das próprias coisas, não a partir de conceitos, criando, assim, belas imagens poéticas.

Esse é o percurso da poesia de Manoel de Barros: da palavra à coisa, do ser à natureza, do agora ao original, dá página à pedra. O peão do poema pode ser visto como um duplo do poeta, como uma extensão sua, já que é dessa maneira que o poeta tenta fazer poesia: partindo das coisas, dos bichos, das pedras, de um universo primeiro, situado nas origens: Assim é que o poeta pode “voar fora da casa”, pode alcançar os deslimites da palavra, o além da linguagem, o cerne das coisas – sua matéria é, enfim, o que escapa à expressão por meio de palavras.

CONCLUSÃO

A busca de uma língua ainda não maculada pela civilização e a procura por uma maneira de expressão que nos reingresse a um universo primitivo é justamente o projeto de Manoel de Barros com sua poesia. Essa é também a diretriz que alinhava todas as cinco obras, seja em relação às temáticas, seja em relação à linguagem. Manoel de Barros, assim, colabora substancialmente para refletirmos também sobre os inícios do povo brasileiro, ainda que na sua poesia não haja uma referência explícita a essa temática. Mas sua poesia, possuidora de um verbo primitivo, arcaico, coloca-nos a possibilidade do resgate, mesmo que na linguagem, de uma origem rica e necessária.

Fonte:
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/ignoracas

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>Lise Lyng Falkenberg (17 Maio 1962)

>

(tradução: José Feldman)
Lise Lyng Falkenberg (nasceu em 17 de maio de 1962, em Odense, Dinamarca) é escritora dinamarquesa principalmente de ficção e trabalhos de estudos literários.

Desde sua estréia em 1983 foi publicada uma dúzia de seus livros como também centenas de artigos, composições e revisões em filmes, peças teatrais, literatura, arte e música. Ela tem um doutorado em literatura e estudos culturais e mora atualmente na cidade de Odense, Dinamarca onde ela trabalha tanto como escritora como jornalista freelance internacional.

Dois de seus livros foram escritos diretamente para o mercado no idioma inglês, isto é:

- The Monkees – baseado em uma falsa imagem do seriado da Tv Americana da banda pop The Monkwees
- Twisted Tales of Thanatos, uma coleção de contos escrita no gênero realístico mágico.

Desde 2005 Lise trabalhou com a banda de rock britânico Slade, especialmente com seu baterista Don Powell e assim montou blogs relatando a carreira do Slade como também muitos artigos e entrevistas em revistas e documentos. Atualmente Lise e Don Powell estão escrevendo sua biografia.

Fonte:
http://en.wikipedia.org/wiki/Lise_Lyng_Falkenberg

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>Virginie Loveling (17 Maio 1836 – 1 Dezembro 1923)

>

(tradução: José Feldman)
Virginie (Marie) Loveling (17 de maio de 1836, na Bélgica – 1 de dezembro de 1923, na Bélgica) era uma escritora belga de poesia, romances, composições e histórias de crianças. Ela também escreveu com o pseudônimo W.E.C Walter.

Virginie Loveling nasceu em Nevele, Bélgica, e era a irmã mais jovem de Rosalie Loveling, também escritora, com quem ela co-escreveu parte do trabalho dela. Depois da morte do pai Herman Loveling, a família se mudou para Ghent onde as irmãs frequentaram Circulos de Oradores Franceses, principalmente de intelectuais anti-eclesiásticos antes de voltar eventualmente a Nevele.

Junto com a sua irmã ela escreveu poesia realística e descritiva com uma tom meio romântico. Elas também publicaram duas coleções de ensaios sobre a vida nas comunidades rurais como também a burguesia da cidade.

Depois da morte de sua irmã em 1875, ela criou histórias para crianças como também romances e ensaios que pintam um quadro pungente da epoca. Com um notável ângulo intelectual e psicológico, eles tratam – para aquela época – assuntos controversos como a hereditariedade, educação, religião e os direitos de mulheres. Ela também foi coa-autora de Levensleer’ (1912), um humorismo dos discursos de língua francesa dos burgueses de Ghent com o seu sobrinho Cyriel Buysse .

Reconhecimento oficial na literatura holandesa com o romance ‘ Een dure eed’( Um Juramento Caro).

Virginie Loveling morreu em 1923-12-01 em Nevele.

Fonte:
http://en.wikipedia.org/

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>Sorocaba em Destaque

>

Movimento Médico Paulista do Cafezinho Literário homenageia o Prof. Dr. Edgard Steffen no 21 de maio

O MMCL festejará em Sorocaba sua 100a tertúlia literária no dia 21 (5a feira) às 20h00 na Sociedade dos Médicos. Dr. Sérgio Borges Bálsamo, Diretor Cultural, está à testa da organização da festa, durante a qual o Prof. Dr. Edgard Steffen receberá especial homenagem, visto que não pôde se deslocar a Santos onde foi realizado o II Congresso Paulista Comunitário de Letras (1 a 3 de maio) comemorando o quarto aniversário do MMCL. Quase 200 pessoas compareceram ao enclave e mais onze pessoas foram homenageadas.
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Mário Cândido autografa livro sobre a prevenção de doenças

O médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, doutor em Medicina pela PUCSP e ex-professor da Faculdade de Medicina de Sorocaba participa de noite de autógrafos, dia 22, sexta-feira, na Fundec (Rua Brigadeiro Tobias, 73). Na ocasião, quando estará fazendo o lançamento do livro Doenças, conhecer para prevenir.
A obra, em dois volumes que totalizam quase 1.000 páginas, foi publicada pela editora Ottoni, de Itu.
Membro efetivo fundador da Academia Sorocabana de Letras, na qual é titular da Cadeira nº7, que tem como Patrono o poeta santista Martins Fontes, Mário Cândido de Oliveira Gomes é, provavelmente, o profissional com mais longa atuação em nosso país em divulgação científica na área da Medicina.
Sua coluna sobre as características de das mais diversas doenças, sua forma de transmissão e as providências necessárias a evitá-las vem sendo publicada, de maneira praticamente ininterrupta, em diferentes jornais sorocabanos, há mais de quarenta anos.
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Fonte:
Douglas Lara. http://www.sorocaba.com.br/acontece

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>XII Concurso Literário – Algarve- Brasil / 2009

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(Associação Cultural Sem Fins Lucrativos)

REGULAMENTO

O concurso destina-se a todos os cidadãos, maiores de 16 anos, de nacionalidade portuguesa ou brasileira, sócios ou não do Clube da Simpatia, que apresentem trabalhos inéditos escritos em língua portuguesa.

TEMA LIVRE PARA TODAS AS MODALIDADES

MODALIDADES:

POESIA
1 – QUADRA: em redondilha maior, de rima ABAB.
2 – SONETO: de características clássicas, em versos de 10 sílabas.
3 – LÍRICA: sem sujeição a qualquer sistema poético, não podendo, no entanto, exceder trinta linhas.

PROSA
CONTO – O conto não poderá exceder quatro páginas.

APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS

a) – Cada concorrente pode apresentar a concurso um máximo de dois trabalhos de cada modalidade, com pseudônimos diferentes para cada um. As composições devem trazer no cimo da página a indicação da modalidade e, no final do trabalho, o pseudônimo.
b) – Para todas as produções é obrigatório o envio de três exemplares datilografados ou digitados em papel A/4, escritos de um só lado. As margens devem ter pelo menos dois centímetros. O espaço entre linhas será de um e meio e os caracteres de tamanho 12, com letra “Times New Roman” ou idêntica. As quadras também serão apresentadas, uma em cada folha A/4.
c) – Anexo a cada trabalho será enviado um envelope fechado contendo, no exterior, a indicação da modalidade e do pseudônimo e, no interior, a identificação completa do autor: nome, morada, número de telefone e e-mail, se possuir.
d) – Os originais serão enviados sem indicação de remetente, (exceto para o Brasil que será o mesmo do endereço) até ao dia 25 de Agosto de 2009 (carimbo dos correios) para:

CLUBE DA SIMPATIA
XII CONCURSO LITERÁRIO
ALGARVE-BRASIL /2009
Apartado 236
8700-911 Olhão – Portugal

e) – O Júri, constituído por individualidades de idoneidade e competência reconhecidas, deliberará por maioria e, das suas decisões, não haverá recurso, salvo se vier a provar-se que houve plágio ou que os trabalhos não são inéditos.
f) – Não se devolvem os trabalhos não distinguidos.
g) – Para cada modalidade serão atribuídos 1º, 2º, e 3º Prêmios e as Menções Honrosas que o júri entender merecidas.
h) – Os premiados serão avisados com a devida antecedência.
i) – A entrega dos prêmios está marcada para o dia 5 de Outubro de 2009, data do 14.º Aniversário do Clube da Simpatia.

Fonte:
Carmen Pio.

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>Trova II

>

Fonte:
Portal CáEstamosNós

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>Ralf Gunter Rotstein (Poeta da Chuva)

>

SÉCULO XXI

Tantas correntes! Tantos desvarios!
Tão poucas consciências descontentes
E, em tão imensa multidão, as gentes
Riem de dias cada vez mais frios!

Riem felizes, tiritando os dentes,
Riem felizes, não ouvindo os chios
Que aguardam essas águas concorrentes
Que passam por lugares tão sombrios!

E todos, deslizando, vão em paz,
Cada vez com mais frio e cada vez,
Para aquecer-se, se abraçando mais.

Vão todos: e se sai alguém da terna
Turba, dando braçadas para trás,
Levam-no, sorridentes, pela perna.
G G G G G G G G G G

SINFONIA

Em meio à tempestade, o som de algum trovão
Meus ouvidos alcança e, como a voz de um santo,
O corpo me arrepia e me inunda de encanto
E sublime prazer o pasmo coração.

Faz crescer minha mágoa e, enquanto as gotas vão
Por meus poros entrando, encontra em mim um canto
Que jamais recebeu e nem sonhou ter tanto
Sincero acolhimento ou tal consolação.

A chuva, ao meu redor, é intensa sinfonia
E vejo que não mais do que um novo instrumento
Ao vir-me abençoar ela de mim queria.

Tristezas que somar às que já tenho invento.
Já não sou nada mais: sou nota e melodia;
Sou os santos trovões e os sussurros do vento.
G G G G G G G G G G

Ralf Gunter Rotstein, o Poeta da Chuva, nasceu na cidade do Rio de Janeiro – RJ e mora em Curitiba–PR desde pequeno. Também desde cedo teve interesse crescente pela poesia e passou logo a exercitá-la. Publicou seu primeiro livro, Um Dia de Chuva, em 2008, pelo Instituto Memória. Seu segundo livro, Sonhos Pluviais será publicado em 2009 pelo Projeto Cultural Abrali. Em 2008 tornou-se membro do Centro de Letras do Paraná e associado da Academia Paranaense de Poesia e freqüenta as reuniões de ambos, sendo também membro do Projeto Cultural Abrali.
–––––––––––––––––––––
Fonte:
Andréa Motta. http://simultaneidades.blogspot.com

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>Ronald De Carvalho (Caravelas da Poesia)

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O MERCADOR DE PRATA, DE OURO E ESMERALDA

Cheira a mar! cheira a mar!
As redes pesadas batem como asas,
As redes úmidas palpitam no crepúsculo.
A praia lisa é uma cintilação de escamas.
Pulam raias negras no ouro da areia molhada,]
O aço das tainhas faísca em mãos de ébano e bronze.]
Músculos, barbatanas, vozes e estrondos, tudo se mistura,
Tudo se mistura no criar da espuma que ferve nas pedras.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

EPIGRAMA

Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos…
Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,
e como são longas, discretas, as suas mãos…
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

UMA NOITE EM LOS ANDES

“Naquela noite de Los
Andes eu amei como nunca o Brasil.

De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar…

Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.

A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.

Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.

Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais…

Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar…”
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

SABEDORIA

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!

Faze da tua realidade
uma obra de beleza

Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece…
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

BRASIL
A Fernando Haroldo

Nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
faíscas
cintilações

Eu ouço o canto enorme do Brasil!
(…)

Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando,
[vociferando!
Redes que se balançam,
sereias que apitam,
usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam e
[roncam,
tubos que explodem,
guindastes que giram,
rodas que batem,
trilhos que trepidam,
rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos, aboiados
[e mugidos,
repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro-Preto, Bahia,
[Congonhas, Sabará,
vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga no sertão!

Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil.
Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar…
a conversa dos fazendeiros nos cafezais,
a conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
a conversa dos operários nos fornos de aço,
a conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias
a conversa dos coronéis nas varandas das roças…

Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
brilhos
faíscas
cintilações

é o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
[onde dorme, com a boca escorrendo leite,
[moreno, confiante,
o homem de amanhã!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

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>Ronald de Carvalho (16 Maio 1893 – 15 Fevereiro 1935)

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Ronald de Carvalho (Rio de Janeiro, 16 de maio de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 1935), foi um poeta e político brasileiro.

Filho do engenheiro naval Artur Augusto de Carvalho e de Alice Paula e Silva Figueiredo de Carvalho, Ronald de Carvalho nasce na cidade do Rio de Janeiro – RJ no dia 16 de maio de 1893.

No ano de 1899 inicia o curso secundário no Colégio Abílio (Rio de Janeiro), formando-se em 1907. No ano seguinte, ingressa no curso de Direito da Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, formando-se bacharel no ano de 1912. Nessa época já colaborava com a revista A Época e com o jornal “Diário de Notícias”, de Rui Barbosa.

Em 1913 vai para Paris estudar Filosofia e Sociologia. Nessa cidade faz sua estréia literária com a publicação da obra “Luz gloriosa”, que mostra uma a forte influência de Charles Baudelaire e Paul Verlaine.

No ano de 1914 começa a exercer atividades diplomáticas e estabelece-se em Lisboa – Portugal. Conhece então os membros do grupo modernista desse país e, em 1915, já integrado a esse grupo, participa do lançamento da revista “Orpheu”, marco inicial do modernismo português.

De volta ao Brasil, publica, em 1919, a obra “Poemas e Sonetos” que revela um certo contato com a estética parnasiana.

A experiência de fincar o marco inicial modernismo em Portugal parece ter agradado a Ronald de Carvalho, pois em 1922 participa ativamente da SAM (Semana de Arte Moderna), marco inicial do Modernismo no Brasil.

Na noite de 15 de fevereiro, segundo dia da SAM, Ronald de Carvalho causa o maior escândalo ao declamar o poema “Os Sapos”, de autoria de Manuel Bandeira. Isso ocorre porque o poema satiriza violentamente a poesia e, sobretudo os poetas parnasianos, que são comparados a sapos coachando.

Depois da sua participação explosiva na SAM, Ronald dá novos rumos sua poesia: ainda em 1922 publica “Epigramas irônicos e sentimentais”; dois anos depois, é vez de “Toda a América”. Nesta última obra percebe-se que o poeta está sob forte influência de Walt Whitman, pois seus versos agora são amplos e com ritmo livre.

Em 1924, dirigiu a Seção dos Negócios Políticos e Diplomáticos na Europa. Durante a gestão de Félix Pacheco, esteve no México, como hóspede de honra daquele governo.

Em 1926, foi oficial de gabinete do ministro Otávio Mangabeira. Exerceu cargos diplomáticos de relevância, servindo na Embaixada de Paris, com o embaixador Sousa Dantas, por dois anos, e depois em Haia (Países Baixos).

Foi secretário da Presidência da República, cargo que ocupava quando morreu. Em concurso realizado pelo Diário de Notícias, em 1935, foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros, em substituição a Coelho Neto. Colaborou, com destaque, em O Jornal. Casou com Leilah Accioly de Carvalho, com quem teve quatro filhos.

Ronaldo de Carvalho falece a 15 de fevereiro de 1935, no Rio de Janeiro, vítima de um acidente de automóvel, ocorrido em 19 de janeiro

No campo da literatura, além de poesia, Ronald de Carvalho dedicou-se aos ensaios, à crítica literária, e aos estudos de história da literatura.

Obras
Luz Gloriosa (1913)
Pequena História da Literatura Brasileira (1919)
Poemas e Sonetos (1919)
Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922… )
Espelho de Ariel (1923), crítica literária
Toda a América (1926)

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/
http://www.mundocultural.com.br/

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>Mehmet Murat İldan (16 Maio 1965)

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(tradução José Feldman)

Dramaturgo e novelista contemporâneo turco, Mehmet Murat Ildan nasceu no dia 16 de maio, em Elazig, na parte Oriental da Turquia. Devido a ocupação do pai dele, continuou os estudos em Ankara. Em 1982, o diploma de escola secundária, obtendo o primeiro lugar no Ankara Private Yenisehir College . Ele passou um ano na Escola Preparatória Inglesa em Ankara (na Universidade Técnica do Oriente Médio – METU). Então em 1983, fez cursos do Departamento de Eletrônica como um estudante de tempo integral em Gaziantep METU Campus.

Em 1988, obteve grau de bacharelado em Economia com “Certificado de Honra” (na METU). No mesmo ano, obteve também uma Bolsa de estudos do Ministério de Educação do Governo turco para mestre e doutores em Economia da União Européia. Em 1989, ele passou 8 meses em um Curso de francês Intensivo, em Vichy, na França. Em 1990, fez cursos na área de finanças como um estudante de tempo integral na Universidade Louis-Pasteur (ULP) na Estrasburgo-França. No mesmo ano, ocupou cursos avançados em inglês durante 6 meses, ao Centro de Cambridge para Idiomas em Cambridge – a Inglaterra.

Ele obteve o grau de Mestre de Artes em Economias da Universidade de Essex, na Inglaterra em 1991. Em 1994, enquanto fazia o doutorado, fez o serviço militar na Turquia. Em 1997, foi premiado como Doutor de grau de Filosofia em Economias pela Universidade de Essex..

CARREIRA LITERÁRIA

A carreira literária dele começara em 1993 com um livro de poesia chamada Bright Candles (Velas Luminosas); foi escrito em inglês na Inglaterra e publicou na Turquia em 1995. Em 1997, um poema deste livro foi publicado na antologia de poesias Georgian Blue Poetry Anthology . Entre os anos 1993 – 1998, não escreveu nada; escreveu apenas alguns artigos políticos num jornal turco. Em 1998, escreveu histórias durante 6 meses. Em 1999, ele abandonou a ocupação de economia. Ele trabalhou como um tradutor no Turkish Daily News somente durante um dia. Do ano 2000 em diante, se dedicou a literatura, tornando-se um escritor profissional.

Publicou 7 peças teatrais e 25 histórias. Os romances ” Diário do Antiquário Arago”, ” Rosas debaixo de Paris ” e “As Primeiras Tristezas do Jovem Werther ” e seu livro “Amantes da Ilha de Samos”, também foram publicados. Duas de suas peças teatrais , Galileo Galilei & o Diário de Emmanuel Arago, foram aceitos para o repertório do Turkish State National Theatre. Também, a peça “Olhos Mágicos”, a “Profecia do Mendigo” e o “Diário de Emmanuel Arago” foram incluídos no repertório no repertório do Istanbul City Theatre. Seis de suas peças foram traduzidas para o inglês por Yurdanur Salman, lingüista famoso em Istanbul. Sua peça “Os Olhos Mágicos” foi publicada na revista literária Absinthe – New European Writing, nos Estados UNidos. O escritor é sócio da “Associação de Dramaturgos” em Istanbul; “Associação de Autores Turcos (AA)” em Ankara; Associação Profissional de Trabalhos Científicos e Literários”, em Istanbul; e ” International P.E.N, Turkish P.E.N Association” em Istanbul.

PRÊMIOS

Sua peça “Olhos Mágicos” adquiririu o “Melhor Prêmio de Peça Teatral” em Istanbul Kadiköy Municipality National Playwriting Competition, em 2000. A mesma peça ganhou o ” Melhor Prêmio de Enredo” em Istanbul Maltepe University 2004 Interuniversity Theatre Competition. Outra peça, “a Profecia do Mendigo”, se tornou um finalista em ” AQT 2005 Vancouver Canada International Playwriting Competition. Sua história “A Mosca Doméstica” obteve o segundo melhor lugar em Samim Kocagöz National Story Competition. Suas histórias: a Arca de Noé, Ponte Férroviária, Perseguição e Raça Infinita foram consideradas dignas de louvor e publicadas em ” ZOKEV Ahmet Naim Çiladir National Story Competition

Trabalhos Publicados

Peças de Teatro
– Ghosts of Forest, 2000
– Sakyamuni, 2000
– Eyes of Magic, 2000
– Galileo Galilei, 2001
– Beggar’s Prophecy, 2001.
– Mohandas Karamchand Gandhi, 2002.
– William Shakespeare, 2002.

Outros:
– Antiquary Arago’s Diary, 2005 (novela).
– Roses underneath Paris, 2006 (novela).
– Lovers of Samos Island, 2006 (romance)
– The First Sorrows of Young Werther, 2007 (novela).

Fonte:
http://muratildan.webs.com/cv.htm

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>Julián Gustems (Era uma vez)

>

Era uma vez uma princesa muito feia.

Era uma vez um príncipe muito formoso.

A princesa era esperta como a fome.

O príncipe era grosseiro como um urso.

Vocês pensaram que o príncipe e a princesa se conheceram e se amaram. Pensaram que uma princesa tão esperta pudesse conquistar um príncipe tão grosseiro. Vocês pensaram, também, que uma bela e difícil história de amor impediu a bela união. Poderão pensar também que os dois estavam feitos um para o outro. Que a beleza do príncipe compensaria a feiúra da princesa. Ou que a feiúra da princesa se refletiria na beleza do príncipe. Também pensaram que o casamento de semelhantes príncipes ia ser o acontecimento do século, e que a imprensa, o rádio, a televisão iriam brigar pela notícia. Porque se comentava que assim seria. Pois não se deu assim. O formoso príncipe, ao que parece, não é tão idiota para unir seu destino a uma princesa tão pouca favorecida. Não que ela, tão esperta, não houvesse pressentido que um marido tão formoso fosse permanecer casado por mais de dois dias.

Que triste destino se a princesa e o príncipe se enamorassem!

Não seria mais normal que a princesa fosse bela e o príncipe feio?

Por que sou um escritor tão afastado da normalidade? Que me custaria fazer feliz um casal de príncipes tão notáveis? Uns dizem que sou vingativo e que não tenho coração. Porém não creio que assim seja. Na verdade, me sobra sinceridade. E sou realis¬ta. E é por isso que tenho deixado que os príncipes andem aos trancos, sem se encontrarem.

Fonte:
Conto extraído do livro Un poco de locura y otros temas, Barcelona, Espanha, 1997, em tradução de Nilto Maciel.
http://www.jornaldepoesia.jor.br/juliangustems1.html

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>Nilto Maciel (Pode me chamar de anjo mau)

>

– Vamos, Gabriel, que a assembléia já deve ter começado.

– Sim, vamos logo, Rafael.

E saíram, quase a correr.

No salão, todos se voltaram para a porta principal, ao perceberem a chegada dos retardatários. Os da mesa também reprovaram, com olhos duros, o atraso dos dois congressistas, que sentaram-se nas últimas cadeiras e se puseram a ouvir o orador.

– Estranho! – murmurou Rafael.

– O orador ou o ambiente?

– Tudo. Você não percebeu nada, Gabriel? Para mim entramos pela porta errada, ou estou ficando louco.

O orador se inflamava, a platéia aplaudia, ficava de pé, enquanto Gabriel e Rafael cochichavam, sentados.

– Se isto não for a assembléia dos anjos maus, dou minha cara a bofete – dizia Rafael.

– Que anjos maus, que nada! Vamos ouvir a fala do orador.

Rafael irritava-se cada vez mais e só faltava gritar. Haviam sido enganados, sim senhor, ludibriados.

– Cala a boca – aconselhava Gabriel.

– Como calar a boca, seu idiota? Não vê a cara de todos, os gestos, as feições dessa gente? Ou está cego? Repare bem: são anjos maus. Sim, são diabos. Não tenho a menor dúvida.

– Que importam as feições, os gestos, as aparências, meu caro Rafael?

– Você se esquece de que o Belo independe dos nossos sentidos. Se analisarmos a fundo uma forma que à primeira vista nos parece bela ou feia, veremos quão débeis somos, quão pobre é nossa percepção. Seremos capazes então de encontrar a Verdade e descobrir o Belo naquilo que nos pareceu Feio, e vice-versa.

– Então está a concordar comigo: esses anjos são maus para você, que os vê apenas pelos sentidos, superficialmente…

Rafael sorriu, deu uma palmadinha na coxa do companheiro.

– Eu já esperava por essa conclusão sua. Porém cabe a mim mesmo concluir meu pensamento. Antes, quero dar meus parabéns a você. Muito inteligente! Seu raciocínio está corretíssimo.

Gabriel franziu a testa e olhou espantado para seu interlocutor.

– Dá-se que você inverteu tudo. Quem está se deixando levar pelas aparências não sou eu. Você ainda os vê como anjos bons porque não tem senso crítico ou se contaminou da primeira impressão ou da “certeza” trazida de casa de que estávamos entre anjos bons.

Entusiasmado com as próprias palavras, Rafael gesticulava, elevava o tom da voz, como se fosse ele quem devesse ser ouvido pela platéia. E já quase todos os congressistas se mostravam irritados, a reclamar, pedir silêncio. O próprio presidente da mesa interrompeu o orador e quis saber o que ocorria.

Rafael levantou-se e, cheio de gestos, pôs-se a bradar:

– Fomos enganados, vocês nos ludibriaram.

– Queira explicar-se, companheiro – pediu o presidente.

– Pois digo que caímos na arapuca e estamos entre os malditos anjos maus.

A platéia toda se agitou, aos gritos, apupos, vaias.

O presidente pediu calma. Desejava explicar aos presentes e especialmente aos retardatários um mal-entendido.

– Todos sabem, exceção talvez desses dois jovens, da realização deste congresso de anjos maus, como diz a propaganda oficial. Mas quem somos e o que fazemos? Somos aqueles que durante séculos e séculos vimos combatendo os tais anjos bons, os chamados anjos da guarda ou anjos custódios. Combatemos esses lobos vestidos de cordeiros e, até a sua total destruição, nossa luta permanecerá. Sim, temos garras em vez de mãos e braços fortes em vez de asinhas. Inventamos e usamos armas as mais terríveis. Porque a necessidade da guerra impôs-nos essa fisionomia e esse modo de agir. Somos os derrubadores de impérios e, por isso, anjos maus. E eles, os anjos bons, os de asinhas e rostos infantis, o que são? Andorinhas a voar no espaço da metafísica e aves de rapina que bicam e matam às escondidas seus semelhantes.

Rafael, caído na cadeira, espumava de ódio e viam-se as garras por detrás de suas asas apontadas para o pescoço de Gabriel, que aplaudia o presidente, cheio de sorrisos.

– Na essência, Rafael, não nos enganamos. Pode me chamar de anjo mau.

Fontes
http://www.jornaldepoesia.jor.br/nilto6.html
Imagem = http://acertodecontas.blog.br/

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>Eunice Arruda (Divagações ao Sabor das Ondas)

>

PROPÓSITO

Viver pouco mas
viver muito
Ser todo o pensamento
Toda a esperança
Toda a alegria
ou angústia — mas ser

Nunca morrer
enquanto viver
G G G G G G G G G G

OUTRA DÚVIDA

Não sei se é
amor

ou

minha vida que pede
socorro

De Invenções do Desespero (1973)
G G G G G G G G G G

ERRO

Edifiquei minha
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço

De As Pessoas, As Palavras (1976)
G G G G G G G G G G

OBSERVANDO

sim

as horas de trégua

Quando se afiam
as facas
G G G G G G G G G G

UM DIA

um dia eu
morrerei
de sol, de
vida acumulada
na convulsão
das ruas

um dia eu
morrerei e
não
podia:

há poemas
escorregando de meus dedos
e um vinho não
provado

De Os Momentos (1981)
G G G G G G G G G G

DEUS E O DOMINGO

Eu ia ser feliz
domingo
naquele tempo bastava pouco
Não sabia que no
domingo
é fácil chover
e muito difícil viver
Ah, eu ia ser feliz
Mas
domingo Deus descansa
e a gente sofre mais

De O Chão Batido (1963)
G G G G G G G G G G

ENGANO

afinal
construímos prédios
casas jardins rosas
desabrocharam
trêmulas, afinal fomos
submissos às ocupações do dia
às estações do ano
à rotação da terra

Pensávamos ser esta a nossa pátria
G G G G G G G G G G

RISCO

Um poema livre
da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não

De Risco (1998)
G G G G G G G G G G

GEOGRAFIA

estar em
algum lugar

sempre

deixar o
corpo
posto
em algum lugar

porto
onde voltar

(do livro “OS MOMENTOS” – l981)
G G G G G G G G G G

TRANSFORMAÇÃO

Anjo
dá guarda

Eu estou atravessando

Também me empresta
de tuas asas
o vôo

Que eu chegue a nenhum lugar
G G G G G G G G G G

TAREFA

cabe agora
morrer o corpo

dia a
dia ir

me desacostumando
do rosto
que eu chamava
meu

(do livro “RISCO” – 1988)
G G G G G G G G G G

SACIEDADE BIOGRÁFICA

Tenho andado sem pés
voado sem asas
Sou um sonho espalhado

Os rios recebem minhas cartas
com freqüência
facas me apontam o coração

O que poderia dizer
(os pássaros já cantaram)
o que poderia amar
(os amantes se suicidaram)

Os assassinos conhecem o meu nome

(do livro “RISCO” – l988)
G G G G G G G G G G

NOTÍCIAS

As crianças morrem

Em piscinas
lagoas
no centro da cidade
O corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas

As crianças
elas também nos abandonam

(do livro “MUDANÇA DE LUA” – l986)
G G G G G G G G G G

UM VISITANTE

Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

(Mudança de lua, 1986)
——————————-

Fontes
– Carlos Machado. Poesia.net – numero 172 ano 4 – São Paulo, 19 julho 2006. Disponível em http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet172.htm
– Jornal de Poesia. http://www.jornaldepoesia.jor.br/ea.html
– Blog da Eunice Arruda. http://poetaeunicearruda.blogspot.com/

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>Eunice Arruda (15 de agosto de 1939)

>

Nasceu em Santa Rita do Passa Quatro (SP), 15 de agosto de 1939, radicada em São Paulo, Capital.

Pós-graduação em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (1988).

Prêmio no Concurso de Poesia PABLO NERUDA, organizado pela Casa Latinoamericana, Buenos Aires, Argentina, 1974.

Presença em antologias, com poemas publicados no Uruguai, Colômbia, França, Estados Unidos, Canadá.

Fez parte da diretoria da União Brasileira de Escritores e do Clube de Poesia de São Paulo.

Ministra oficinas de criação poética desde l984, em locais como a Biblioteca Mário de Andrade e a Oficina da Palavra (Secretaria de Estado da Cultura).

Coordenou os projetos Tempo de Poesia/Década de 60 em l995 e Poesia 96/97, promovidos pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Por tais iniciativas recebeu o prêmio de Mérito Cultural em 1997 conferido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, RJ.

Foi homenageada com o prêmio Mulheres do Mercado, concedido pela Casa de Cultura de Santo Amaro – São Paulo/SP, 2005.

Em 2006, fez leitura de poemas para o programa Momento do poeta – Instituto Moreira Sales (IMS) – SP, disponível na Rádio IMS: http://www.ims.com.br .

Sobre seus poemas

Em versos breves de poemas quase sempre curtos, Eunice traz sempre um tom de desencanto em sua observação do mundo e dos mistérios da poesia. Mas esse desencanto é marcado por uma atitude de quem enfrenta cada palmo do chão em que precisa pisar. É uma poesia de quem se quer vivo e vívido: “Nunca morrer/ enquanto viver” (Propósito). Ou, então, de quem não desiste diante dos descaminhos: “Edifiquei minha / casa sobre a / areia // Todo dia recomeço” (Erro).

Em sua poesia, Eunice Arruda não mente, nem para si mesma nem para o leitor. Esse traço a poeta parece cultivar desde os primeiros passos. Observe-se, por exemplo, o poema “Deus e o Domingo”, de 1963. Cedo, a escritora deve ter descoberto que não há soluções milagrosas para as nossas dores. Ela sabe que há, sim, pequenas felicidades e encantamentos — que, em seu ponto de vista, são “horas de trégua“. Mas esses momentos só ocorrem “quando se afiam / as facas” (Observando).

Talvez seja exatamente por causa dessa aguda consciência da realidade que a poeta Eunice Arruda sonha com um poema “livre da gramática e do som das palavras“. Um poema tão livre “que traga em si a decisão / de ser escrito ou não“. Drummond também escreveu que o poema ideal seria aquele que se faz sem poeta. Como isso é apenas um sonho, continuamos a precisar dos poetas: Drummonds, Eunices etc.

Obras
- É tempo de noite, 1960.
- O chão batido,1963.
- Outra dúvida , 1963.
- As coisas efêmeras, 1964.
- Invenções do desespero, 1973.
- As pessoas, as palavras, 1976
- Os momentos, 1981.
- Mudança de lua, 1986
- Gabriel:, 1990.
- Risco, 1998 (Prêmio Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores, RJ/RJ).
- À Beira. Rio, 1999.
- Há estações (haicai), 2003.

Fontes:
- Sobre seus poemas. Carlos Machado. Disponível em http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet172.htm
- http://www.ube.org.br/lermais_materias.php?cd_materias=1079
- Jornal de Poesia. Disponível em http:// www.jornaldepoesia.jor.br/ea.html
- www.germinaliteratura.com.br/earruda.htm
-
http://poetaeunicearruda.blogspot.com

Foto = Juan Esteves

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>Trova I

>

Fontes:
XAVIER, Francisco Cândido. Humorismo no Além.
Montagem em cima da imagem da http://picasaweb.google.com/

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>August Strindberg (O Sonho)

>

Drama

Em abril de 1907, O Sonho foi encenado pela primeira vez.

A peça começou a ser escrita no outono de 1901, quando Strindberg casou-se com Harried Bosse. Pouco tempo depois Harried o abandonou, levando consigo o sonho da felicidade matrimonial. Sofrendo sozinho por quarenta dias, Strindberg concluiu que a vida é uma ilusão na qual se é incapaz de realizar os sonhos. A peça foi concluída no final desse mesmo ano.

O título, A Dream Play, traduzido como O Sonho também pode ser entendido como “Uma Peça de Sonho” ou “Uma peça que sonhei”, isto é, o drama que o autor idealizou. Strindberg, inclusive, refere-se à obra como “minha peça mais querida, filha de minha melhor dor”.

O tema inicial da peça girava em torno da história de um homem que esperava por sua noiva num teatro. A espera era em vão, pois ela nunca chegaria. O foco, porém, passou para o que antes era apenas um “sub-enredo”: a personagem principal agora era a filha de Indra, que veio à terra para compartilhar as agonias da existência humana.

O Sonho é talvez o primeiro drama a conter o universo onírico como realidade, como gênero em si. Peças tradicionais já haviam incorporado cenas ilustrando sonhos ou pesadelos, mas nenhuma se baseou inteiramente nisso. Deste modo, Strindberg abandonou a percepção convencional de tempo e espaço. Segundo suas próprias palavras, “o autor atentou para a figura inconseqüente do sonho. Tudo pode acontecer, tudo é possível e provável. Tempo e lugar não existem; numa base insignificante de realidade, a imaginação gira, modelando novos padrões; há a mistura de memórias, experiências, livres fantasias, incongrutitudes e improvisações. As personagens se duplicam, se multiplicam, se separam, evaporam, condensam, dispersam, reúnem. Mas uma percepção governa sobre todas elas : para o sonhador não há segredos, escrúpulos, leis. O sonho não absolve ou justifica condenações, somente as relata. Tal como no sonho é mais freqüente o sofrimento que a felicidade, esse conto bruxuleante é acompanhado de uma dose de melancolia e compaixão por todos os seres humanos.” À frente de seu tempo, Strindberg baseava-se em filosofias orientais para justificar sua crença de que o mundo é apenas ilusão.

Estreando “O sonho” no teatro, o autor fez algumas anotações em seu diário. De acordo com elas, “o amor é um pecado e sua dor é o melhor inferno que existe. Se o mundo existe, existe através do pecado (do amor, das relações carnais, de Maya), e por isso é apenas um sonho, uma ilusão. Assim se justifica a minha peça do sonho (“my dream play”) ser uma fotografia da vida. Esse mundo, o sonho, é um fantasma cuja destruição é a missão dos ascetas (aqueles que negaram a carne e vivem do espírito). Mas tal missão entra em conflito com o instinto do amor, que oscila entre a sensualidade e o sofrimento trazido pelo remorso (a culpa cristã que também se instalou nos ascetas). Isso me parece a resposta para o enigma da vida… Todo dia eu leio o Budismo.”.

Fonte:
http://www.opalco.com.br

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>August Strindberg (22 Janeiro 1849 – 14 Maio 1912)

>

Johan August Strindberg (22 de janeiro de 1849 – 14 de maio de 1912), pintor, escritor e dramaturgo sueco, é autor, entre outros, de O Pelicano. Figura ao lado de Henrik Ibsen, Søren Kierkegaard e Hans Christian Andersen como o maior escritor escandinavo. É um dos pais do teatro moderno. Seus trabalhos são classificados como pertencentes os movimentos literários Naturalismo e Expressionismo.

August Strindberg nasceu em Estocolmo, em 22 de janeiro de 1849, terceiro filho do mercador Carl Strindberg e sua ex-empregada doméstica, Ulrika Norling. Sua infância foi pobre e sua mãe morreu quando ele tinha treze anos. Era um garoto sensível e, ao mesmo tempo rebelde, nunca tendo se ajustado nas escolas que frequentou.

Frequentou a Universidade de Uppsala. Estudou na Universidade de Uppsala, de onde saiu após um semestre. Nessa época, acometido de uma forte depressão, decidiu matar-se em seu pequeno apartamento ingerindo uma pílula de ópio. Não morreu e acordou numa profusão de memórias infantis, de onde obteve em apenas algumas horas sua primeira peça. Foi nomeado em 1874 bibliotecário da Real Biblioteca de Estocolmo o que lhe permitiu assegurar o seu futuro econômico e tentou a vida também como jornalista.

As suas primeiras peças teatrais denotam influências de Ibsen e Kierkegaard e aí transparece uma personalidade amarga e torturada: O Livre Pensador (1869), Hermion (1869), O Mestre Olof (1872), A Viagem de Pedro Afortunado (1882) e A Mulher do Cavaleiro Bent (1882). Sua primeira peça importante, Mestre Olof, de 1872, é um drama sobre a revolta contra as convenções sociais e todos os tipos de poder.

O Quarto Vermelho (1879), uma novela, foi sua estréia no mundo literário, como o primeiro romance naturalista da literatura sueca, com a ajuda de sua primeira esposa, com quem se casou em 1877, a Baronesa Siri von Essen, que estava grávida de sete meses. Este filho, porém, não vingou, mas o casal teve mais três filhos: Karin, Greta e o menino Hans.

As alucinações, visões e neuroses que tem no decorrer da vida não prejudicam sua criatividade, mas dificultam seus relacionamentos.

Casa-se e divorcia-se três vezes. O fracasso do seu primeiro matrimônio com Siri von Essen (1877-1891) deu à sua obra um tom misógino, que está patente, em especial nos contos de Esposos (1884). Revela rancor contra as mulheres em várias peças, especialmente em O Pai (1887), Camaradas (1897) e Senhorita Júlia (1899).

Em 1886, Strindberg termina sua novela biográfica, O Filho de um Empregado (The Son of a Servant). Nessa época, Strindberg escreveu “Miss Julie”, enquanto vivia na Dinamarca. Essa peça foi encenada em 1889, com sua esposa no papel principal, o que “coincidentemente” acabou com o casamento dos dois após 12 anos de convivência. Escreveu também “Em Defesa de um Louco”, em que descreve seu primeiro casamento.

Strindberg muda-se para a Europa Central, vivendo em diversas cidades, convivendo com seus amigos Edvard Munch e Gaughin e acabando por conhecer Frieda Uhl, uma jovem austríaca com quem veio a se casar e divorciar em apenas um ano.

Começa, então, seu período chamado Inferno, em que se interessa por ocultismo e alquimia e lê o filósofo Swedenborg. Nesse período escreve as novelas “Inferno” e “Lendas”. O Inferno não dura muito e Strindberg volta para a Suécia em 1897 onde termina, em 1898, a peça “Para Damasco”, precursora do teatro expressionista, que influencia inúmeros dramaturgos alemães. Nessa época, iniciou um diário, o “Diário Oculto”, que manteve até 1908 e é uma das melhores fontes para se entender o autor e seu trabalho.

No Diário, ele descreve sua relação com sua terceira esposa, Harried Bosse, com quem teve um filho, descasou-se e tornou-se seu amante. Desse divórcio resultou, em parte, sua obra prima expressionista: a peça “O Sonho” (A Dream Play), escrita em 1901.

Finalmente, livrou-se de Bosse e de seu diário oculto e mudou-se para um apartamento onde teve um período muito produtivo, do ponto de vista artístico, tendo escrito as peças “Páscoa” e “A Dança da Morte”, esta última uma obra primas do simbolismo.

Morreu de câncer em Maio de 1912 e em seu túmulo há a singela expressão latina O CRUX AVE SPES UNICA (Salve Ó Cruz, Nossa única Esperança)

Fontes
http://www.algosobre.com.br/
http://pt.wikipedia.org/
http://www.opalco.com.br/

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>Ondjaki (A libélula)

>

[palavras para o dr. carvalho]

se destas pedras uma
anunciasse
o que a faz silêncio:
aqui, muito perto,
[...] isso se abriria, como ferida
em que terias de mergulhar
Paul Celan, A Força da Luz

Um som fluido abandonava a casa, roçava na poeira das trepadeiras no jardim, influenciava as mangas e os mamões no seu processo de maturação, arrepiava uma libélula inebriada que ali adormecera, fazia o sol abrandar e chegava, ainda forte, ainda nítido, ao ouvido da mulher. Depois disto, um sorriso.

Na aparelhagem o som acontecia contínuo, ininterrupto. O doutor solidificara este hábito domingueiro: sentar-se no fresco da sua varanda ouvindo durante extensos momentos a voz de Adriana Calcanhoto. Ora dormitava, ora lia, ora escrevia, ora se quedava simplesmente de olhos rasgados contemplando as nuvens gordas azularem o céu. Para ele não se tratava de beatificar um domingo, mas sim a própria paz. Aliás, «domingo» era, para o doutor, uma palavra muito interna. Fosse um poço.

Pressentindo isto – que o doutor se apresentava em pleno estado de domingo -, a mulher hesitou. Encostou a testa ao ferro do portão e quis acreditar no impossível: que não tinha sede. A testa latejava; os olhos se queriam, de facto, fechar, olvidar o mundo, cessar a prestação dos serviços visuais. O frio do portão trouxe-lhe agrado aos dedos, ao coração também. E a música invadia-lhe os poros. Então, aí sim, ela dividiu uma sensação com o doutor. Ele, no mesmo instante pensava: esta voz, sim, pode ser dividida. A voz de Adriana, empurrando a tarde: “será que a gente é louca, ou lúcida… quando quer que tudo vire música…”

No intervalo de voz, a libélula decidiu acordar, mover-se em zum-zum aberto, e aterrisar junto aos apontamentos do doutor. Rabiscos, memórias recusadas, esquebras de horas mais sensíveis que escusava aceitar como suas. “Eu perco o chão, eu não acho as palavras” – e a libélula conseguiu acordá-lo. Há anos que acertara as contas com os animais e se apaziguara numa relação equilibrada com eles. Mantinha uma relação ainda conflituosa com as baratas e os sardões, mas já não era homem para matar. Em vez disso, usava sorrir. Não raras vezes, pela manhã, sentia saudades de ver correr olongos como vira lá longe, na infância, na província do Namibe; também por vezes, na praia, encontrando cavalos suados se detinha, de olhos a quererem fechar, saboreando o odor forte a pêlo de cavalo suado. Se feliz ou em vésperas de viajar, sonhava com borboletas brancas ou ligeiramente amarelas, e não procurava interpretar o sonhado. Há anos que fizeras as pazes com os animais, incluindo a espécie dengosa dos gatos, à qual ele mesmo infligira uma baixa mortal. Os gatos, essencialmente os gatos, reaproximaram-no dos bichos.

Foi depois da libélula que reparou na mulher encostada ao seu portão, de olhos fechados, pareceu-lhe, a ouvir a música de Adriana,

“Tenho por princípios nunca fechar portas, mas… como mantê-las abertas, o tempo todo…”

Descruzou as pernas; lentamente as desceu da outra cadeira, enfiou as sandálias. Andando, mirava o ar tranquilo da libélula caminhando sobre as suas letras, sobre o cheiro da sua tinta 971 violet. Era tinta um tanto pegajosa, exigia mesmo um ritmo acelerado de escrita pois, em contacto com o ar, era veloz em solidificar. Mas a libélula não é um inseto curioso, o doutor sabia, ela não chegaria ao frasco, não beberia. Um degrau, dois. Está junto ao portão e a mulher, ao contrário do que ele desejava, não abriu os olhos. Mas falou.

- Desculpe interrompê-lo…

Nem foi susto nem foi coisa de se descrever. Simplesmente o doutor não contava com aquela noção de proximidade. Ela sentira-o?

- Reconheço o cheiro da tinta… O senhor escreve com uma pena?

- Não… Isto é… Sim, é uma espécie de pena…

O portão estava destrancado. Ele fez menção de o abrir, ela abriu os olhos, afastou-se ligeiramente das grades.

- Desculpe interrompê-lo, mas estou com muita sede – ela, talvez esperando que o doutor, num qualquer comentário, revelasse se desculpava ou não a intromissão, se se sentira incomodado ao ponto de alterar o seu humor.

O portão foi aberto pela mão certeira do doutor, enquanto a outra executava um gesto afável que a elucidou. Aquele homem não era facilmente perturbável. “Lá mesmo esqueci que o destino, sempre me quis só…”

- Água ou refrigerante? – o doutor.

- Água, por favor.

A mulher viu a libélula ali parada. Tinha a cor demasiado viva para estar morta ou embalsamada, mas era totalmente imune ao vento que balançava as folhas de papel. Aproximou-se da mesa sem se sentar – a mulher. Por curiosidade olhou as letras sobre o branco, não no intuito de ler a composição, mas pelo hábito de apreciação da estética ortográfica masculina. Era, viu depois, uma «espécie de pena», como lhe dissera o doutor, a que havia produzido aqueles gatafunhos encantadores. Não resistiu e chegou a mão perto: parecia cristal.

- É de vidro. Vidro mesmo. Não é bonita?

- Muito… É uma pena muito especial.

A água, num copo normal, chegou-lhe às mãos. O doutor entretanto pousou o jarro semigasto num lado longínquo da mesa, sem perturbar a libélula. Fez menção para que a mulher se sentasse.

- Obrigado… O senhor deve estranhar, não?

- Estranhar?

- Pedirem-lhe água… Já ninguém toca às campainhas para pedir água, não é?

- É… A senhora não é de cá, pois não?

- Não.

A mulher serviu-se novamente. Bebia devagar, como convinha.

- Contava uma avó minha que, certa ocasião, em Silva Porto, um senhor lhe entrou pela casa a dentro cheio de sede e lhe pediu água. Minha avó voltou à sala com um jarro de água muito fresca e assistiu-o beber três copos de água de seguida, sem parar.

- Foi?

- Foi. O senhor só teve tempo de lhe devolver o jarro, pois o copo partiu-se enquanto ele tombava no chão. Morreu ali mesmo, sabe? Desde então a minha avó vivia a contar esta estória, de resto, verdadeira, pois foi-me confirmada pelo meu avô.

- Não me assuste…

- Não foi para assustá-la, desculpe.

- E o que lhe disse o seu avô?

- Sabe, o meu avô era um homem de invulgar humor e sensibilidade. Em criança confirmou-me toda a estória e por fim disse-me: esse homem nem agradeceu a água à tua avó.

A mulher pousou o copo, respirou fundo.

- Sabe porquê que pedi água aqui na sua casa?

- Não.

- Por causa da música… Esta voz tão doce.

- Adriana.

- Como?

- Adriana Calcanhoto, cantora brasileira.

- É poeta?

- Também.

- Não… O senhor. O senhor é poeta?

- Ahn, eu! Não, sou médico. E a senhora?

- Eu estou cá de férias.

A libélula progrediu no terreno, finalmente mexeu-se, mas andando.

Nas expressões de ambos era visível o espanto, como duas crianças que atentas e boquiabertas assistissem, de repente, ao movimento gracioso de uma pedra. A libélula caminhou em direção ao objeto. Num breve sacudir de asas saltou e voltou a estar quieta – uma guerreira demarcando o território conquistado. “E a greve entre as estrelas só para mim”, a cantora progride na varanda, na tarde.

O objeto era uma redoma de vidro, certamente cara, que protegia uma pedra minúscula, cinzenta, banal. Uma pedra pequenina, era o máximo que se poderia dizer. Nem graciosa, nem curiosa, nem mesmo exótica ou atraente. Era uma pedra brutalmente vulgar. A instalação, contudo, valorizava a pedra.

- Julgo que o valor dessa pedra não pode ser medido pela sua aparência. É assim?

- É muito assim, sim.

- Mas esta redoma parece muito bem trabalhada…

O doutor, num gesto resoluto, abanou a libélula. (Uma surpresa para a mulher e para a libélula). O inseto voltou a pousar sobre as letras. A pedra e a sua redoma foram arremessadas ao chão. A mulher não teve tempo de invocar um susto. O objeto bateu ruidosamente no chão por duas vezes e, após rolar alguns centímetros, terminou a digressão. O doutor pegou no objeto e voltou a pousá-lo sobre a mesa, ao pé das letras, dos papéis, da libélula. O inseto, num breve aspergir de asas, realcançou o seu posto.

- Esta redoma é muito boa para proteger objetos valiosos.

A mulher voltou a sentir sede mas não quis incomodar.

- Uma oferta?

- Sim, uma oferta muito especial, muito sincera.

- Os médicos recebem muitas ofertas?

- Algumas, é uma maneira das pessoas expressarem carinho e gratidão.

E calou-se.

A mulher não queria partir mas julgou estar a forçar o momento. O doutor mantivera-se calado por mais de cinco minutos. À mulher pareceu justo que fosse sua a iniciativa de partir. A música parecia terminar e, a voz, era uma voz difícil de recordar no ouvido da memória.

- Adriana, disse?

- Adriana Calcanhoto. Brasileira.

- Muito obrigada pela água.

- De nada. Já sabe, beba sempre devagar…

- E agradeço antes de morrer!

O doutor quase sorriu. Os lábios contorceram-se; apenas uma tentação de sorriso. Talvez, só talvez.

O portão foi aberto. A mulher, pegando propositadamente nas grades reconheceu a sensação daquela frieza na pele.

- Sabe, foi num domingo. Fui chamado à frente de combate e ninguém queria operar o homem: tinha uma espécie de explosivo preso à perna. Era uma operação muito delicada, ainda hoje penso nisso, não deve ter sido coragem… Tive que fazer tudo muito devagar, enquanto o homem sofria com as dores, e ambos tínhamos que ser pacientes. Quase no fim, o soldado disse-me: deixa-me morrer, estou muito cansado já. Eu respondi: já te deixo morrer, mas deixa-me salvar-te primeiro.

- Ele morreu?

- Não. A operação correu bem. Ele, no fim, quis dar-me uma prenda. E não tinha nada. Descalçou a bota e disse: agora já sei porquê que a filha da puta desta pedra anda a me incomodar há dois dias. Toma lá, doutor, só pra não esquecermos esta nossa conversa de hoje. Você ficas com a pedra, eu fico com a cicatriz.

O portão fechou-se. A sede tinha passado. A mulher foi caminhando lentamente pelo passeio. Ouviu passos e a música recomeçou. “Minha música quer estar além do gosto, não quer ter rosto, não quer ser cultura.”

Entre duas folhas acastanhadas – numa janela de poeira – a mulher viu: a libélula, parada, ondulava o corpo. Fosse uma dança. Sob as suas patas, a pedra brutalmente vulgar repousava – entre a memória do homem e a redoma inquebrantável de vidro.
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ONDJAKI nasceu em Luanda, em 1977. Interessa-se pela interpretação teatral e pela pintura (duas exposições individuais, em Angola e no Brasil). Já em Lisboa, fez teatro amador durante dois anos e um curso profissional de interpretação teatral. No ano 2000 recebeu uma menção honrosa no prêmio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia actu sanguíneu. Participou em antologias internacionais (Brasil e Uruguai) e também numa antologia portuguesa. É membro da União dos Escritores Angolanos. É licenciado em Sociologia. Publicou “Actu Sanguíneu” (poesia, 200), “Momentos de aqui”, (contos, 2001), “O Assobiador” (novela, 2002), “Há Prendisajens com o Xão” (poesia, 2003), “Bom Dia Camaradas” (romance, 2003), “Ynari, a menina das cinco tranças” (infanto-juvenil, 2003) e “Quantas Madrugadas Tem a Noite” (romance, 2004).

Fontes:
http://www.bestiario.com.br
Imagem =
http://www.baixaki.com.br

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>Nilto Maciel (Os contos de Oliveira Paiva)

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Reunidas no livro Contos, em 1976, edição patrocinada pela Academia Cearense de Letras, organizada por Braga Montenegro e com introdução de Sânzio de Azevedo, finalmente as narrativas curtas de Oliveira Paiva deixaram as folhas envelhecidas do jornal A Quinzena e, assim, se salvaram do olvido. Os 12 contos coligidos são: “Corda Sensível”, “O Ar do Vento, Ave Maria”, “O Velho Vovô”, “A Melhor Cartada”, “Pobre Moisés que não o Foste!”, “O Ódio”, “A Barata e a Vela (Fábula)”, “Variação Sobre um Tema de Buffon”, “Ao Cair da Tarde”, “De Preto e de Vermelho”, “De Pena Atrás da Orelha” e “A Paixão”. Publicados em 1887 e 1888, podem ser considerados como exercícios para a elaboração dos romances A Afilhada e Dona Guidinha do Poço. Sânzio de Azevedo ensina: “Todos são unânimes em admitir que o escritor ainda não estava em pleno domínio de suas potencialidades criadoras ao compor os contos estampados n’A Quinzena“.

Muitos historiadores desconheciam os contos de Oliveira Paiva, certamente porque não buscaram as fontes, isto é, não pesquisaram jornais e revistas, onde se iniciavam e se iniciam a maioria dos escritores. Em História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, por exemplo, não se refere ao contista Oliveira Paiva, embora o considere “prosador terso, que sabia descrever e narrar com mão certeira e intervir no momento azado com talhos irônicos de inteligência fina e crítica”.

Sânzio de Azevedo, no estudo “Contos de Oliveira Paiva”, editado como apresentação do livro Contos e no livro Aspectos da Literatura Cearense, analisa um a um os 12 contos do criador de A Afilhada e conclui: “Quer-nos parecer que “Corda Sensível”, “O Ar do Vento, Ave-Maria”, “A Melhor Cartada” e “O Ódio” são os melhores contos de quantos escreveu Oliveira Paiva, podendo mesmo redimir o autor de quaisquer falhas porventura encontradas nos demais”. Prossegue: “É interessante observar que nenhum de seus contos se ressente daquela linguagem cientificista que prejudica muita página de nosso Realismo-naturalismo. Seria o caso de se dizer que Oliveira Paiva fugia a esses tiques, tanto assim que tal característica não empana a grandeza de Dona Guidinha do Poço, seu derradeiro trabalho de ficção”.

Oliveira Paiva se vale de variadas técnicas na composição dos contos, a partir do prisma dramático, como na montagem das três cenas da primeira história, no mesmo palco, como se fosse um drama teatral. Na primeira, uma sala e nela um fardão “enfiado sobre o espaldar de uma cadeira de balanço“. Ao fundo, a janela e parte da rua. Como personagens, a menina Maria (protagonista) e a “filha do cabo de ordens“. Na segunda cena, mais curta, no dia seguinte, a mesma sala, o mesmo fardão, e não mais as meninas, mas a criada, que se espanta diante do estrago feito pelos ratos na roupa do coronel. A última cena, a maior, dias depois, se dá em algum cômodo da casa, e nela as personagens das primeiras cenas aparecem de novo e, ao lado delas, outras, sobretudo os ratos, antes somente mencionados. Não se trata, porém, de conto composto de três células dramáticas. Talvez de drama em três atos.

Esta técnica, a de cenas estanques, separadas pelo tempo e pela substituição e apresentação de personagens, aparece em outros contos.

Nem sempre o espaço da ação em Oliveira Paiva se resume a uma sala, como no primeiro conto. No segundo, esse espaço se abre, se amplifica: um cabeço, a mata cavernosa, além do horizonte, o céu, a lua. Em outro, o mar, as embarcações, em perfeita descrição topográfica.

Uma das ferramentas de linguagem mais freqüentes nos contos de Oliveira Paiva é a descrição de ambientes, pessoas e coisas. Não a descrição enfadonha, desnecessária, detalhista, mas aquela capaz de dar ao leitor perfeita visão do objeto descrito. Veja-se a descrição do fardão do coronel, no conto “Corda Sensível”. Ora, a indumentária descrita será como que o objeto principal da narrativa, o alvo dos olhares, dos cuidados de todos, eis que os ratos – personagens fundamentais na história – dele se servirão como objeto de sua sanha.

Um dos pontos culminantes deste livro está em “O Ódio”, onde narração e descrição se mesclam harmoniosamente: a amurada do navio, a gaiola de paus, onde se mantinha aprisionado um tigre, a fera “movendo-se com pés de seda e garbo de mulher“, os marinheiros, o mar – tudo descrito com cores de tempestade, a prenunciar o desfecho trágico – e os homens em movimento, a fera a se debater na gaiola, e, súbito, o entrechoque de embarcações, o tumulto, os olhos do tigre a “bruxulear” nas ondas, a luta do homem com a fera, o fim.

Utiliza Oliveira Paiva, em algumas ocasiões, a narração simultânea de duas ações, como em “A Melhor Cartada”, onde narra uma procissão do Senhor Morto e, ao mesmo tempo, porque se dá no mesmo tempo, a movimentação de uns jogadores de baralho. O sacro e o profano em paralelas, como também no conto “A Paixão”, onde a cerimônia religiosa é narrada enquanto o narrador, apaixonado, se dilacera – drama psicológico – remoendo o seu amor profano.

O mesmo processo de elaboração narrativa se vê em “Variações sobre um Tema de Buffon”. E também alguns momentos de narração em estado de quase perfeição, como neste trecho, em que um capão sai em defesa de uns patinhos pela primeira vez em banho num açude: “Girava, acima e abaixo, já aflito, a percorrer a trincheira que isolava o abismo líquido. Agachava-se para entrar, recuando hidrófobo; olhava por baixo como galo a brigar; açoutava-se com as moles asas; eriçava a penaria do pescoço, ciscava nervosamente e penicava no chão, a chamar aqueles traquinas, cacarejando, gorgolejando, com a sua tocante responsabilidade de educador e aio

Talvez por se tratar de fábula, como a chamou o autor, em “A Barata e a Vela” a narração pura e simples ocorre durante toda a narrativa, não fosse o breve diálogo do narrador com a traça. Esta maneira de escrever não está presente nos demais contos.

Paiva utiliza ora o ponto de vista da terceira pessoa, ora o da primeira. Às vezes esta aparece no plural. Em outras ocasiões a primeira pessoa se oculta na narração, e o leitor tem a impressão de estar lendo sob o foco onisciente. Veja-se “A Paixão”, onde durante quase todo a história a narração parece estar sendo conduzida por narrador onisciente: Uma moça numa varanda a assistir às cerimônias da Paixão de Cristo, a descrição do templo, do ambiente, a multidão de fiéis, as irmãs de caridade, os padres, suas indumentárias, as velas, o tapete, o incenso no ar, o cantochão etc. Durante toda esta narração-descrição não mais aparece a moça, apenas chamada de “ela”, e muito menos o narrador, embora sejam os dois os protagonistas. Somente no final o personagem-narrador ou narrador-testemunha, sem nome também, se apresenta: “Eu ajoelhava prostrado ante a divina figura do Mestre e o meu olhar trespassava-lhe também o coração fonte do amor“. A jovem reaparece furtivamente na narração: “E as duas almas, feitas uma para a outra...” E mais adiante: “E do sudário desaparecera o Jesus sanguinolento, para pintar-se ela com o seu vestidinho preto e as suas pulseiras de ouro, a olhar-me para meu coração soluçante“.

A utilização do ponto de vista em primeira pessoa, seja ela protagonista ou narrador-testemunha, faz de Oliveira Paiva um dos bons elaboradores de dramas psicológicos do seu tempo. Leia-se “Ao Cair da Tarde”: personagens sem nome (um cocheiro, um velho e um moço), uma carruagem a conduzi-los a um cemitério, a descrição minuciosa da estrada, breves diálogos, nada de tragédias, nada de mortes, apesar da visita ao campo santo. Na mesma linha está “De Preto e de Vermelho”, outro drama psicológico. Novamente a descrição se funde à narração, em exemplos de pura arte: “Um sapato pisava na mesa, revirado, entre os livros e os frascos“. O verbo (narração) na mesma frase dos substantivos (descrição).

Um personagem sem nome descreve e narra, como se fosse apenas um observador. Ou, então, o narrador é onisciente, sendo o escritor: “Ele (o personagem) sentia atroar pelos salões a pancadaria da quadrilha pavorosa e danada e louca, vermelha como o sangue vivo, e negra como uns olhos que conheço“. Em “De Pena Atrás da Orelha”, que Sânzio de Azevedo analisa como sendo “a continuação do precedente“, também quase não se vislumbra um enredo, uma trama, e onde se percebem até pedaços de frases constantes do outro conto, como “uma capa de rei“, sem contar o tema: Numa quarta-feira de cinzas um rapaz, entre dormido e acordado, rememora cenas do carnaval. Sem querer desmerecer esta composição, há um quê de crônica nela, mormente a partir do parágrafo assim iniciado: “Um belo dia que se alevantava na rua!”, até “… e cegos mendigos, com a mão no ombro dos guias de roupa suja e rota…”

Braga Montenegro vê nos contos de Oliveira Paiva “originalidade sem alarde, a força sugestiva dos símbolos, o inesperado da expressão valorizando os temas, estes muitas vezes perigosos pelo abuso do cotidiano”.

A manipulação da linguagem nos contos de Oliveira Paiva é admirável, mesmo não tendo alcançado ainda, naquele tempo, a maturidade de narrador que culminaria em Dona Guidinha do Poço. Observador atento, impassível, paciente e imparcial, feito a coruja que pousa no mais alto e firme galho da mais alta e robusta árvore, vê, capta as imagens, os movimentos, as falas, os gestos das personagens, a arquitetura do espaço e dos objetos e, sem olhos de julgador – o Bem o Mal à sua frente -, descreve e narra como artista.

Fonte:
http://www.bestiario.com.br/3_arquivos/Os%20contos%20de%20Oliveira%20Paiva.html

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>Pindamonhangaba em Destaque

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Sergio Meneghetti assume cadeira da Academia Pindamonhangabense de Letras

A APL – Academia Pindamonhangabense de Letras, presidida pela escritora Elisabete Guimarães, realizou no auditório da Santa Casa, na noite de quarta-feira (29 de abril), a reunião plenária solene referente ao mês de abril.

Após as formalidades habituais das reuniões da APL teve início a solenidade de posse do acadêmico Sérgio Antonio Meneghetti. Ele assumiu a cadeira nº 16 do quadro de membros honorários, que tem como patrono Benedito Marques Monteiro, o professor Jairo.
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Comemoração do Dia do Livro em Pindamonhangaba

A programação cultural do evento incluiu uma homenagem ao Dia Internacional do Livro, comemorado em 23 de abril. Foi apresentada ao público, a esquete “A súplica o livro”, interpretada pelos atores Laila e Rafael. Ainda em alusão à data, coube ao professor e museólogo de Taubaté, Carlos Roberto Rodrigues, proferir palestra que teve como tema “Monteiro Lobato”.

Pelo concurso literário realizado pela APL junto às escolas da rede pública e particular do município, foram premiados os alunos do ensino fundamental, quintas séries A e B do Colégio Emílio Ribas (sistema Anglo). Os alunos fizeram poemas sobre o tema “livro”. Os trabalhos premiados foram declamados pelos acadêmicos Ricardo Estevão (professor do colégio Emílio Ribas) e Neila Cardoso, a coordenadora do referido certame cultural.

Na reunião da Academia destaque também para a homenagem em memória da acadêmica e trovadora Aurora Teixeira Mendes. “Dona Aurora”, como era popularmente conhecida, foi relembrada em pronunciamento de sua filha Mitzi Vasques e da acadêmica Neila Cardoso. Livretos (obra póstuma) com as trovas da homenageada foram distribuídos aos acadêmicos presentes, numa gentileza de sua filha.

Para que fosse possível a realização da reunião solene, o auditório da Santa Casa foi gentilmente cedido pelo provedor da entidade, Luiz Carlos Loberto “Cacaio”, também acadêmico e vice-presidente APL.

A apresentação da esquete foi uma participação do Departamento de Cultura da administração municipal ao evento da Academia de Letras.
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Palestra com Modesto Carone abre “Viagem Literária” em Pinda

Pindamonhangaba participa, pelo primeiro ano, do projeto estadual “Viagem Literária”. O evento será aberto em junho com um bate-papo com o autor Modesto Carone, principal tradutor dos textos de Franz Kafka para a língua portuguesa.

O autor Modesto Carone estará na Biblioteca Pública Municipal “Vereador Rômulo Campos D´Arace” (Bosque da Princesa), no dia 23 de junho, às 15 horas. Ele falará sobre “A Metamorfose”, de Franz Kafka, para o público jovem e adulto.

Os módulos “bate-papo com o autor” contam com a participação de autores de diferentes gerações, que são convidados a falar sobre um livro que tenha marcado a sua formação como leitor e escritor. Será uma oportunidade para conhecer ou ampliar o conhecimento sobre um autor e sua obra. E o melhor: o livro escolhido estará à disposição na biblioteca.

Viagem Literária

Lançado em 2008, o programa Viagem Literária consolidou-se, por meio de uma parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura e as Bibliotecas Municipais das cidades participantes, como um dos mais amplos e diversificados projetos voltados ao livro e à leitura no Estado de São Paulo. Em sua primeira edição, levou autores e artistas consagrados a 40 municípios paulistas, atraindo milhares de pessoas às Bibliotecas. Em 2009, o programa cresceu: são 55 as cidades participantes.

De junho a novembro, cada biblioteca receberá uma atração mensal ligada à literatura. Serão 275 atividades, que têm por objetivo estimular o hábito de ler, incentivando o público a se aproximar mais da biblioteca de sua cidade. Bate-papo com autores, contação de estórias e oficinas de criação literária serão o passaporte para uma prazerosa viagem pelo mundo dos livros.

Toda a programação é gratuita e aberta ao público de todas as idades.

Cronograma de atividades

O “Viagem Literária” é realizado em diferentes módulos. No mês de junho, será o bate-papo com o autor: leituras escolhidas. Em agosto, acontecem as contações de estórias para crianças. Em setembro, novamente um bate-papo com o autor: literatura infanto-juvenil. Em outubro, bate-papo com o autor: literatura para todos e em novembro encerra com oficina de criação literária.
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Biblioteca da Vila São Benedito apresenta sarau na sexta-feira, 15 de Maio

A biblioteca pública municipal “Professora Maria do Carmo dos Santos Gomes”, da Vila São Benedito, recebe nesta sexta-feira (15), o projeto “Sarau Professor Augusto César Ribeiro”. O evento tem entrada franca e está marcado para as 20 horas.

Mais de 2 mil pessoas já prestigiaram os saraus realizados pela Prefeitura. Este evento foi criado há cerca de 2 anos, para promover reuniões sociais, despertar o interesse pela literatura, formar público, declamadores e estimular a habilidade de se apresentar em público.

Em cada evento, o sarau é realizado em uma das três bibliotecas públicas municipais: “Professora Maria do Carmo dos Santos Gomes”, da Vila São Benedito, “Vereador Rômulo Campos D´Arace”, no Bosque, e “Professora Bertha César”, em Moreira César.

Essa é uma oportunidade para artistas em início de carreira ou mesmo amantes da literatura expressarem sua arte.
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História da Cidade de Pindamonhangaba

Data do final do século XVI a ocupação da área onde hoje se situa Pindamonhangaba. No local passou a existir uma “paragem”, com ranchos e pastaria. Não se sabe exatamente quando o local passou a ser chamado PINDAMONHANGABA, nome indígena que significa “lugar onde se fazem anzóis”.

A “paragem” estava fadada a se desenvolver rapidamente, já que suas terras eram excelentes; o clima ameno e sua posição a tornavam passagem obrigatória dos viajantes que se deslocavam do Vale do Paraíba para Minas Gerais. Por volta de 1680, Pindamonhangaba já era um povoado, vinculado ao Termo (Município) de Taubaté. Data dessa época a construção do primeiro templo, a capela de São José, erigida por Antonio Bicudo Leme e seu irmão, Braz Esteves Leme. Em 10 de julho de 1705, o povoado recebeu foros de vila, ficando, portanto, politicamente emancipado de Taubaté. Durante o século XVIII desenvolveu-se em Pindamonhangaba uma atividade agropastoril, com predominância da cultura de cana-de-açúcar e a produção de açúcar e aguardente, em engenhos.

Durante o período do café no Brasil, a cidade viveu sua fase de maior brilho e se destacou no cenário Nacional. O ciclo do café floresceu no Município a partir de 1820, e Pindamonhangaba se tornou um grande centro cafeeiro, apoiado em suas terras férteis e na mão-de-obra escrava. Nessa época foram construídos o Palacete 10 de Julho, o Palacete Visconde da Palmeira, o Palacete Tiradentes, a Igreja São José e a Igreja Matriz Nossa Senhora do Bom Sucesso, que ainda hoje são marcos da riqueza produzida pelo café. Pindamonhangaba foi elevada a cidade por lei provincial de 03 de abril de 1849 e ganhou do cronista e poeta Emílio Zaluar o título de “Princesa do Norte”. O ciclo do café extinguiu-se no final da década de 1920, não tendo resistido aos golpes produzidos pela exaustão das terras, a libertação dos escravos e a crise econômica mundial. A partir daí, a economia passou a se apoiar na constituição de uma importante bacia leiteira, em extensas culturas de arroz e na produção de hortigranjeiros. Foi uma época de pequeno crescimento econômico, que se estendeu até o final da década de 1950, quando o Município entrou no ciclo pré-industrial. O período de 1970 a 1985 foi, para Pindamonhangaba, uma fase de crescimento industrial extremamente acelerado, que mudou, profundamente, a face do Município.

Fontes:
http://www.pindamonhangaba.sp.gov.br/
Tribuna do Norte. Cultura e Lazer. 8 de maio de 2009. http://www.tribunadonorte.net/
Tribuna do Norte. Cultura e Lazer. 5 de maio de 2009. http://www.tribunadonorte.net/
Fotomontagem = José Feldman

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>III Festipoema (inscrições abertas até 18 de maio)

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Até o dia 18 de maio, poetas e poetisas das categorias infantil, juvenil e adulto podem se inscrever no III Festipoema – Festival de Poemas de Pindamonhangaba. Evento que envolve a participação do Departamento de Cultura da Prefeitura de Pindamonhangaba, Associação Cultural Cootepi e Academia Pindamonhangabense de Letras.

Com o objetivo de estimular a criação poética, valorizar e divulgar a poesia, bem como incentivar a arte da declamação e estimular no público o interesse pelas manifestações artísticas, o Festipoema é aberto a poetas residentes em Pindamonhangaba ou e em outros municípios, categorias adulto (acima de 18 anos), juvenil (de 12 a 17 anos) e infantil (menores de 12 anos).

Podem concorrer quaisquer poemas de forma fixa ou de forma livre, com qualquer temática, inéditos ou não, com 50 versos no máximo. Cada autor pode inscrever até três obras, sendo que somente uma delas poderá ser selecionada. Os poemas selecionados serão interpretados por autores indicados pela coordenação do concurso, mas os autores que preferirem poderão interpretar suas obras, desde que manifestem esta intenção no ato da inscrição.

Caberá a um júri indicado pela Academia Pindamonhangabenses de Letras selecionar 44 trabalhos (identificados apenas pelo pseudônimo), sendo 18 Adulto, 18 Juvenil e 8 na categoria Infantil, que serão apresentados nos dias 27 e 28 de junho no teatro municipal, a partir das 20 horas.,

Premiação

A solenidade de premiação está marcada para o dia 28 de junho, no teatro municipal, quando serão conhecidos os primeiros, segundos e terceiros melhores trabalhos e seus respectivos autores, categorias Adulto (troféu Balthazar de Godoy Moreira), Juvenil (troféu Juó Bananéri) e Infantil (troféu Bertha Celeste Homem de Mello). Haverá também o troféu Augusto César Ribeiro, para o melhor intérprete.

Interessados devem procurar o Departamento de Cultura (rua Dr. Campos Sales, 530, centro) para retirar o regulamento onde constam todas as informações referentes ao concurso.

Fonte:
Tribuna do Norte. Cultura e Lazer. 5 de maio de 2009. http://www.tribunadonorte.net/

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