A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Maranhão

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 9)

Gato Maestro

Uma Trova do Pessoa

Mesmo que lhe desagrade
dentre os sabores prefira
o amargo de uma verdade
ao doce de uma mentira.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA (CE)

Uma Trova de Porto Alegre

Num encontro repentino,
sem promessas, sem espera,
tu foste meu desatino
e nosso amor foi quimera
CLÊNIO BORGES (RS)

Uma Trova Paranaense

O pranto na mocidade,
qualquer brisa põe em fuga;
E o que restar de umidade,
o toque de um beijo enxuga.
LOURDES STROZZI (PR)

Trova Premiada

1994 – XI Jogos Florais de Ribeirão Preto/SP
Tema Nacional: Brega – 1. Lugar

“Meu bem” – indaga o marido
“O que é brega… que eu não sei?”
“– É aquela saia, querido,
que me deste e eu, nunca usei.
HELOISA ZANCONATO PINTO (MG)

Um Poetrix

oh jardineira
SILVANA GUIMARÃES (MG)

eu vou te contar um caso:
o vaso ruim quebrou,
mas sobrou eu, seja como flor.

Uma Trova da Vânia

O elemento H2O
Fonte de vida e energia,
vale mais do que ouro em pó.
Nossa maior loteria!
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES (PR)

Trovadores que Deixaram Saudade

Vem, palhaço, sem tardança,
com teus trejeitos, teus chistes,
e acorda a alegre criança
que dorme nos homens tristes…
ELTON CARVALHO (RJ)

Élton Carvalho nasceu em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, no dia 29 de agosto de 1916 e faleceu na mesma Cidade, no dia 03 de março de 1994. Foi casado com Maria Nascimento Santos Carvalho.

Élton Carvalho iniciou sua carreira militar na Arma de Infantaria e, graças aos seus esforços e dedicação, pôde encerrá-la como General-de-Divisão do Exército Brasileiro, depois de permanecer na instituição por mais de quatro décadas. Exerceu, por muitos anos, a função de Professor Catedrático de Filosofia, no Colégio Militar do Rio de Janeiro.

A partir de 1970, ingressou, como Professor, na Escola Superior de Guerra, tendo realizado mais de 100 Conferências, em todo o território nacional.

Como era contista e compositor, compôs o dobrado do 13º Batalhão do Exército de Ponta Grossa – PR, em coautoria com o General de Exército Ernani Airosa, ex- ministro da Guerra no governo do General João Figueiredo e Everaldo José da Silva. Este dobrado até hoje é executado nos eventos militares da região.

Em 1983, reformou-se no Exército.

Élton publicou vários livros: “Instantâneos”, 1973 (200 Trovas líricas e filosóficas); “Sogra, Coroa, Bebida e Outras Bombas”,1974 (200 trovas humorísticas); “Ciranda de Sonhos”, 1979, (200 trovas líricas e filosóficas); “Aquarelas”, 1981 (500 trovas líricas e filosóficas); “Rosas na Pedra” 1984 , (com 40 poemas e 25 sonetos) e “Sogra… & Outras Piadas” 1993, (com 250 trovas humorísticas).

Foi o único autor a produzir dois livros exclusivamente com trovas humorísticas. Escreveu um mini romance: “A História do Sapateiro” infanto-juvenil e “Miragens” Sonetos.

Deixou inéditos os livros : Oásis; Ferro Velho; Rosas na Pedra; A Vida em Quatro Versos; Feira de Humor; Piadas sem Sal; Sucata; (todos de trovas) A História do mau Sapateiro; (mini-conto), Miragens; (sonetos) etc

Élton Carvalho, que fazia Trovas de todos os gêneros, apesar de produzir muitas trovas humorísticas brincando com as sogras, as coroas, era um grande admirador das mulheres e um genro excepcional, que demonstrava em cada palavra, em cada gesto, o carinho e o respeito que devotava à sua sogra, à sogra de seus amigos, às pessoas idosas, aos humildes.

Um Haikai

Primavera
EUNICE ARRUDA (SP)

Por entre as flores
procurando pela mãe
Dia de Finados

Uma Trova Do Ademar

Todinho, suco e licor,
ou qualquer outra iguaria,
jamais se iguala ao sabor
do “café que mãe fazia”!
ADEMAR MACEDO (RN)

Uma Fábula em Versos

O Carvalho e o Caniço
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Dizia ao caniço robusto carvalho:
“Sou grande, sou forte;
És débil e deves, com justos motivos,
Queixar-te da sorte!

Inclinas-te ao peso da frágil carriça;
E a leve bafagem.
Que enruga das águas a linha tranqüila
Te averga a folhagem.

Mas minha cimeira tufões assoberba.
Com serras entesta;
Do sol aos fulgores barreiras opondo,
Domina a floresta.

Qual rija lufada, do zéfiro o sopro,
Te soa aos ouvidos,
E a mim se afiguram suaves favônios
Do Norte os bramidos.

Se desta ramagem, que ensombra os contornos,
A abrigo nasceras,
Amparo eu te fora de suis e procelas,
E menos sofreras.

Mas tens como berço brejais e alagados,
Que o vento devasta.
Confesso que sobram razões de acusares
A sorte madrasta.”

Responde o caniço: “Das almas sensíveis
É ter compaixão;
Mas crede que os ventos, não menos que os fracos,
Minazes vos são.

Eu vergo e não quebro. Da luta com o vento
Fazeis grande alarde:
Julgais que heis de sempre zombar das borrascas?
Até ver não é tarde.”

Mal isto dissera, dispara do fundo
Dum céu carregado
O mais formidável dos filhos que o Norte
No seio há gerado.

Ereto o carvalho, faz frente à refrega;
E o frágil arbusto
Vergando, flexível — do vento aos arrancos
Resiste, sem custo.

Mas logo a nortada, dobrando de força,
Por terra lançava
O roble que às nuvens se erguia e as raízes
No chão profundava.

Uma Estória da Trova

Na década de 70, havia no Rio e Janeiro, um “artista”, que se apresentava em boates, restaurantes e bares, dizendo Trovas! Seu nome era Milton e ele se assinava de forma original: “1.000ton”.
Milton Santos Lima, carioca, funcionário aposentado da Prefeitura, fazia sucesso com trovas assim:
Para uma mesa onde não havia mulheres

Quem não bebe, joga ou fuma,
tem o seu valor qualquer.
Mas não vale cousa alguma
quem não gosta de mulher!
(ARAIFE DAVID)

Numa mesa onde havia uma mulher bonita

Ai, Maria Maricota,
que beleza tem você!
Quem vai na frente não nota,
quem vai atrás é que vê!!!
(NELSON LUZ)

Quando sabia que os ocupantes da mesa eram noivos

Lá vem os noivos chegando…
Assisto a festa e… depois…
fico invejoso pensando
na festa só deles dois…
(ADAUTO GONDIM)

Apesar do gosto e do conhecimento de Trovas, ao que se saiba, o Milton nunca fez trovas ou participou de entidades trovadorescas.

Alguma Poesia

Envelhecer Feliz
ROBERTO CALDAS (CE)

Olhar a vida,
depois dos anos passados
é perguntar ao tempo
o que foi feito mesmo
do tempo que nos foi dado.

Sentir que os cabelos embranqueceram,
os filhos, sempre pequenos, cresceram;
apareceram deles outros herdeiros
e que tantos carnavais vividos
é sempre um convite para vivê-los mais.

Viver mais, no limite máximo
que o desígnio do viver permita;
não ser econômico em gostar da vida:
fazer festa, ser a comida, a bebida,
ser espetáculo para ser visto e pedido bis.

Não ter vergonha de ser feliz,
se quadrado, quadrado,
se moderno, moderno… e daí?

Passou o tempo de ter compostura,
mergulhar em alegria pura,
ser, como nunca antes, audaz.

Saber-se obra por Deus construída
e jamais lamentar as feridas,
aos ingratos esboçar perdão,
das saudades fazer um colchão,
pra lembrar das maravilhas fruídas.

Ser idoso é coroamento
de um ciclo que o sol simboliza,
é passar de calor abrasante
que a força da juventude esparge
para o calor plácido e amigo
que, sem ele,
talvez nenhum ser sobreviva.

Envelhecer feliz
é provar que VIVER VALE A PENA!

Uma Trova do Sinésio

Quatro versos: eis a prova,
sim, num texto independente,
da grandeza de uma trova.
Sete sílabas somente.
SINÉSIO CABRAL (CE)

Um Soneto

Auto-Retrato
EDMAR JAPIASSU MAIA (RJ)

Nem sei há quanto tempo que um sorriso
não enfeita o meu rosto macerado
pelas dores que têm me dominado,
pelos árduos caminhos que hoje piso…

Bem sei o quanto tenho me esforçado
para encontrar o amor de que preciso,
e transportar-me em luz ao paraíso
de sonhos que a ilusão me tem negado…

Quando tristonho ao pranto me condeno,
percebo ser no pranto um Ser pequeno,
que na apatia busca o seu abrigo.

E a sorte, nos seus rasgos de avareza,
não deixa que eu me dispa da tristeza,
e possa parecer menos comigo!

Fontes:
seleção por José Feldman
– O Trovadoresco. Natal/RN , outubro de 2006, n. 16.
– Calêndula Literária – UBT Porto Alegre, n. 327. 2005.
– Boletim Informativo Nacional da UBT – junho 2006, n. 455.
– Boletim Informativo Nacional da UBT – 2009, n. 494
– Mensageiro da Poesia, Fortaleza/CE – outubro 2009, n. 275.
– Mensageiro da Poesia, Fortaleza/CE – agosto 2009, n. 273
– Binóculo, Fortaleza/CE – julho 2009, n. 92.

Biografia de Élton por Maria Nascimento Santos Carvalho. in http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/2690883

Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 3

Mãe

A mãe é o ser que confia
em seu filho, a toda prova.
Ora, age e renuncia
para vê-lo em senda nova.

A fórmula da paz caseira

Brigas em casa, à vontade?
Eis a fórmula eficaz:
ouvir com serenidade
+ perdão = a paz.

Família – opção pelo ser

Fama, glória, altas vistas…
Minimiza sempre o ter.
Liberdade tu conquistas
Aperfeiçoando o Ser.

Amor em família

Em família, a vida é feita
de senões, a cada instante.
Não podendo ser perfeita,
tendo o amor… Eis o bastante.

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

Clotilde Tavares (Aconteceu na Caatinga)

Era meio-dia e a caatinga brilhava à luz incandescente do Sol. O pequeno Calango deslizou rápido sobre o solo seco, cheio de gravetos e pedras, parando na frente do majestoso Mandacaru, que apontava para o céu seus espinhos, os grandes braços abertos em cruz.

- Mandacaru! Mandacaru! Eu ouvi os homens conversando lá adiante e eles estavam dizendo que, como a caatinga está muito seca e cor de cinza, vão trazer do estrangeiro umas árvores que ficam sempre verdes quando crescem e estão sempre cheias de folhas.

- Mas que novidade é essa? – falou a Jurema.

- Coisa de gente besta – disse o Cardeiro, fazendo um muxoxo irritado e atirando espinhos para todo lado.

- Eu é que não acredito nessas novidades – sussurrou o pequeno e tímido Preá.

A velha Cobra, cheia de escamas de vidro e da idade do mundo, só fez balançar a cabeça de um lado para o outro e, como se achasse que não valia a pena falar, ficou em silêncio.

E no outro dia, bem cedinho, os homens já haviam plantado centenas de arvorezinhas muito agitadas, serelepes e faceiras, que falavam todas ao mesmo tempo na língua lá delas, reclamando de tudo: do Sol, da poeira, dos bichos e das plantas nativas, que elas achavam pobres, feias e espinhentas. Enquanto falavam, farfalhavam e balançavam os pequenos galhos, que iam crescendo, ganhando folhas e ficando cada vez mais fortes.

Enquanto isso, as plantas da caatinga, acostumadas a viver com pouca água, começaram a notar que essa água estava cada vez mais difícil de encontrar. As raízes do Mandacaru, da Jurema e do Cardeiro cavavam, cavavam e só encontravam a terra seca e esturricada.

O Calango então se reuniu com os outros bichos e plantas para encontrar uma solução. E foi a velha Cobra quem matou a charada:

- Quem está causando a seca são essas plantinhas importadas e metidas a besta! Eu me arrastei por debaixo da terra e vi o que elas fazem: bebem toda a nossa água e não deixam nada para a gente.

- Oxente! – gritou o Calango. – Então vou contar isso aos homens e pedir uma solução.

Mas logo o Calango voltou, triste e decepcionado.

- Os homens não me deram atenção – disse. – Falaram que eu não tenho instrução, não fiz universidade e que eu estou atrapalhando o progresso da caatinga.

E todos os bichos e plantas ficaram tristes, mas estavam com tanta sede que nem sequer puderam chorar: não havia água para fabricar as lágrimas. Por muitos dias ficaram assim e quando estavam à beira da morte houve um movimento: era o Preá, que levantou o narizinho, farejou o ar e, esquecendo a timidez, gritou:

- Estou sentindo cheiro de água!

- É mesmo! – gritaram todos.

- O que será que aconteceu? – perguntou a Jurema.

- Eu vou ver o que foi – e o Calango saiu veloz, espalhando poeira para todos os lados.

O Mandacaru estirou os braços, espreguiçou-se e sorriu:

- Estou recebendo água de novo! Hum… É muito bom! Mas vejam! O Calango está de volta com novidades!

E espichando meio palmo de língua de fora, morto de cansado pela carreira, o Calango contou tudo.

- As pequenas bandidas verdes, depois de beber quase toda a água da caatinga, estavam ameaçando a água dos rios e dos açudes perto das cidades. Os homens então viram o perigo e deram fim a todas elas. Estamos salvos!

E todos ficaram alegres, sentindo a água subir pelas raízes. Olharam para o céu azul da caatinga, aquele céu claro, o Sol brilhante, olharam uns para os outros e viram que eram irmãos, na mesma natureza, no mesmo tempo, na mesma Terra.

E a velha Cobra, desenroscando-se toda lentamente, piscou o olho e concluiu:

- É como dizia minha avó: cada macaco no seu galho!

Fonte:
Revista Nova Escola

Clotilde Tavares (1947)


CLOTILDE TAVARES é paraibana de Campina Grande (dezembro de 1947), filha de Nilo e Cleuza.

Graduou-se em Medicina pela UFRN em 1975, e em 1983 obteve o título de Mestre em Nutrição em Saúde Pública pela UFPE.

Radicou-se em Natal e, como professora da UFRN desde 1976, dedicou-se à pesquisa no campo da Saúde Pública. Especialista em Epidemiologia pela UFRN.

O Teatro, a Literatura e os estudos sobre cultura popular também ocuparam lugar de destaque na sua vida, como atividade paralela.

A partir de 1993 passou a se dedicar exclusivamente às atividades artísticas e intelectuais, transferindo-se do Departamento de Saúde Coletiva e Nutrição da UFRN, onde ensinava desde 1976, para o Departamento de Artes da mesma Universidade.

Mesmo aposentada, continua exercendo intensa atividade cultural. Escreve em jornais, é atriz e diretora de teatro, dramaturga e desenvolve estudos na área da cultura popular, além de promover eventos culturais.

Divide suas atividades entre os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Fontes:
http://www.clotildenews.digi.com.br/eumesma.htm
http://www.skoob.com.br/autor/1543-clotilde-tavares

Clarice Lispector (A Lucidez Perigosa)


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa actual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Fonte:
Portal São Francisco

Rubem Braga (Como se fora um Coração Postiço…)


Nasceu, na doce Budapest, um menino com o coração fora do peito. Porém – diz um dr. Mereje – não foi o primeiro. Em São Paulo, há 7 anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”

Como se fora um coração postiço. . . O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria: a hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. .

Madrugada paulistana. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas – vermelhos, amarelos, verdes – verdes, amarelos, vermelhos – borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.

Vamos andar pelas praças desertas, onde as estátuas molhadas cabeceiam de sono. Menino do coração fora do peito, os primeiros bondes estrondam. Vamos ouvir de perto esses barulhos da madrugada.

6 horas. O coração fora do peito bate docemente. 7 horas – o coração bate… 8 horas- que sol claro, que barulho na rua!- o coração bate…

9 horas- morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem morrer, menino. O dr. Mereje resmunga: “Filho de pais alcoólatras e sifilíticos. . .” Deixe falar o dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os “pais alcoólatras e sifilíticos” fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado!- diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados.

O que é isso, “seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: “o dr. Mereje disse que. . .”- mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. ” Então o menino diz:

– Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse à luz, ao vênto, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança…

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

– Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

– Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:

– E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum… E quando eu nasci, o dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: “parece um coração postiço”. Os homens todos, minha gente, são assim como o dr. Mereje.

Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema, e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, dr. Mereje!

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

J. G. de Araújo Jorge (Começo de História)

Era uma vez, há muito… uma vila bisonha,
nada mais que um humilde e pequeno povoado
na longínqua fazenda de “Morro Queimado”…
- Umas casas na encosta da montanha,
e à frente a floresta, e a descer tal como uma serpente
pelo fundo do vale: a corrente do rio
com seu dorso de prata arrepiado de frio…

Foi no ano e mil oitocentos e dezoito,
(e era um plano talvez aventureiro e afoito)
- que D. João… (há de a História fazer-lhe Justiça!)
trouxe das altas serras dos cantões da Suíça
para colonizar a terra brasileira
100 famílias de gente pacífica e ordeira.

Ampliou-se depois… E as casas de madeira,
- como um trecho da Suíça em terra brasileira -
foram crescendo ao léu, pelo fundo do vale,
aconchegando aos ombros o vermelho xale
dos telhados, – tremendo ao frio e à geada,
sem ter uma lareira na sala apropriada…

Casas avarandadas, rústicas e belas,
com gerânios no friso alegre das janelas,
olhando o panorama claro e matinal
e a pensar que ainda estavam na terra natal!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo, 1961.

Esopo (Fábula 5: O Leão, o Urso e a Raposa)


Um leão e um urso tinham apanhado um veadinho que depressa mataram. Mal o fizeram, começaram os dois a brigar para ficarem com ele. Tão longa e dura foi a batalha que, por fim, ficaram cansados e deitaram-se para ganhar fôlego.

Nesse momento, uma raposa que por ali passara correu como uma seta, agarrou no veado e levou-o. Os dois rivais tinham visto o que se passara, mas estavam muito cansados para interferir.

“Que tolos nós fomos!”, disseram eles. “Em vez de nos contentarmos em dividir a nossa presa, lutámos um com o outro, e agora perdemos tudo por causa da esperta da raposa!”

Moral da história

Quando duas pessoas litigam pelos seus direitos, acontece muitas vezes que um terceiro, mais inteligente, se aproveita da presa.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

IV Prêmio de Literatura Unifor (Classificação Final)


Na noite de 25 de abril, foram conhecidos os vencedores do IV Prêmio de Literatura Unifor, que nesta edição contemplou o gênero poesia. Ao todo foram inscritos cerca de 350 trabalhos de 180 participantes, entre concorrentes do Ceará, Distrito Federal, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em solenidade realizada no Teatro Celina Queiroz, o livro “Cem pequenas poesias do dia a dia”, de autoria do paulista André Kondo, foi anunciado o grande vencedor na categoria Obra Inédita, que recebeu como prêmio uma viagem a Washington, para visitar a Biblioteca Nacional do Congresso Americano, além da publicação da obra.

Na categoria Trabalhos Inéditos, 20 autores foram premiados. O primeiro lugar ganhou uma viagem ao Rio de Janeiro, para visitar a Biblioteca Nacional, e os classificados do 2º ao 20º lugar foram agraciados com a publicação dos trabalhos numa coletânea, sendo disponibilizado 20 exemplares a cada um.

Confira os ganhadores:

Categoria: Obra Inédita

1º lugar – Cem pequenas poesias do dia a dia – André Kondo

Categoria: Trabalhos Inéditos

1º lugar – A menina e o mar – Perpétua Amorim
2º lugar – É melhor que fique assim – Nemésio Dias Silva Filho
3º lugar – Procissão – Maria Lúcia Sales Crisóstomo
4º lugar – Não sei como me sinto – Kalina Grangeiro Landim
5º lugar – Fotografia – José Osterno Campos de Araújo
6º lugar – Vermelho em dois tons – Talita Cavalcante Nogueira
7º lugar – Memórias de Macabéa – Lúcio Flávio Gondim da Silva
8º lugar – Poema de quando tudo é eterno – Valmir Luiz Saldanha
9º lugar – Tradição – Tatiana Alves Soares Caldas
10º lugar – Caminho Azul – Ana Cristina Mendes Gomes
11º lugar – Saudade – Francisco Edmar de Freitas
12º lugar – Ciranda da menina – Vera do Nascimento Alves
13º lugar – Pelas luzes do pé de carambola – Alan Mendonça
14º lugar – Das cores das flores – Ivaíze Rodrigues
15º lugar – O entardecer – Valdemir de Castro Pacheco
16º lugar – Antes da saudade de antes – Silvana Michele Ramos
17º lugar – Estação – André Kondo
18º lugar – Para José Alcides Pinto – Antônio Flávio da Silva
19º lugar – Fundo Infinito – Éder Rodrigues
20º lugar – Ela monta um sorriso – Thiago Fonseca Veras

Fonte:
http://concursos-literarios.blogspot.com

Prêmio São Paulo de Literatura (Prazo até 2 de maio)


Última semana de inscrições para o Prêmio São Paulo de Literatura 2012

Prêmio do Governo do Estado de São Paulo concede R$ 400 mil, no total, para melhor autor e melhor autor estreante com livros publicados em 2011

O Prêmio São Paulo de Literatura entra em sua última semana de inscrições. Como a data final cai num domingo (29 de abril), a entrega da documentação poderá ser feita até 2/5, após o feriado.

Oferecido pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, é a maior premiação do gênero no País, com total de R$ 400 mil para os vencedores das categorias Melhor Livro e Melhor Livro do Ano – Autor Estreante. Podem ser inscritos romances de ficção em língua portuguesa publicados pela primeira vez em 2011.

Criado em 2008, o Prêmio São Paulo de Literatura vem se consolidando na valorização da produção literária e estímulo aos novos autores. No ano passado, o Prêmio consagrou o estreante Marcelo Ferroni com Método prático de guerrilha e também celebrou Rubens Figueiredo com a obra Passageiro do fim do dia.

Até o prazo limite para inscrições, os escritores e editoras podem entregar a documentação necessária pessoalmente ou enviar via correios para a Secretaria de Estado da Cultura / Núcleo de Protocolo e Expedição – Rua Mauá, 51, Luz. São Paulo – SP. CEP 01028-900.

O regulamento completo está disponível no site http://www.cultura.sp.gov.br.

Acesse aqui o edital e inscreva-se.

Fonte:
http://concursos-literarios.blogspot.com

I Concurso Literário de Pedro Leopoldo (Prorrogado até 15 de Maio)

Premiação:

I) Em cada gênero: 1º lugar: troféu e certificado; 2º lugar: medalha e certificado; 3° lugar: medalha e certificado

Prazo: Prorrogado até 15 de Maio de 2012

Organização:
Blog Cultura de Pedro Leopoldo, com a parceria da Padaria Santos
Contato: concursoliterariopl@gmail.com

Regulamento:

Pelo presente Regulamento está aberto o I Concurso Literário de Pedro Leopoldo. O Concurso Literário de Pedro Leopoldo, organizado pelo Blog Cultura de Pedro Leopoldo em parceria com a Padaria Santos. O Concurso Literário tem por finalidades valorizar e divulgar obras literárias produzidas no município, estimular novos talentos, valorizar a expressão literária, incentivar a difusão da produção literária e o gosto pela escrita e leitura em Pedro Leopoldo. Este Concurso objetiva também a difusão da cultura como valor educativo e o fortalecimento de espaços de convivência como ambientes difusores da arte e da literatura.

1. O Concurso Literário de Pedro Leopoldo é aberto a participantes residentes, trabalhadores, estudantes ou nascidos em Pedro Leopoldo, maiores ou menores de idade – os últimos, com autorização expressa do pai, mãe ou responsável.

2. O tema desta primeira edição é HUMOR, podendo o/a autor/a inscrever obras nos seguintes gêneros

1. Poesia
2. Conto ou mini-conto
3. Causo
4. Crônica
5. Peça teatral/ texto de dramaturgia
6. Biografia/ autobiografia
7. Quadrinhos e/ou charge
8. Lendas (rurais e/ou urbanas)

Não serão admitidas obras publicadas em qualquer veículo ou suporte, mantido o ineditismo inclusive durante a vigência do concurso, não admitida obra publicada na íntegra ou parcialmente em qualquer veículo ou suporte, sendo impresso ou virtual incluindo redes sociais, jornais, blogs etc.

Serão admitidas obras compostas por textos e/ou imagens, com ou sem projeto gráfico e escritas na língua portuguesa (para o caso de obras contendo textos), com um ou mais autores. Não há limite de páginas nem especificação de suporte/tamanho para apresentação das obras.

3. Serão eliminadas obras que exprimam quaisquer tipos de preconceitos, sejam religiosos, raciais, sexuais, de gênero, de classe social etc. Serão eliminadas obras que estimulem humilhações e violência.

4. Cada participante poderá inscrever quantas obras quiser, em qualquer gênero previsto no concurso.

5. As obras devem ser enviadas por correio postal. Será exigido: 1 via impressa, em envelope maior, sendo obra com capa com nome do Concurso, pseudônimo(s), acompanhada de CD-ROM com arquivo digital da obra inscrita. Em envelope separado, menor, lacrado, deverá conter a identificação do concorrente: ficha de inscrição (modelo anexo a este Regulamento), Termo de Cessão de direitos autorais (modelo anexo a este Regulamento), nome completo, pseudônimo, título do texto, data de nascimento, grau de escolaridade, CPF, endereço, e-mail, autorização do pai ou responsável (no caso de participante menor de idade – modelo anexo a este Regulamento), telefone, e-mail, documentos pessoais comprovando naturalidade, trabalho, estudo ou residência em Pedro Leopoldo, e breve currículo (aproximadamente cinco linhas). No exterior do envelope menor, que deverá estar lacrado, deverão constar apenas o pseudônimo do autor e o título do texto/obra. Para cada obra inscrita, o autor deverá obedecer a este procedimento.

No caso de autor menor de 18 anos será exigida a Ficha de autorização dos pais ou responsáveis para inscrição no Concurso (Anexo II).

6. As inscrições estão abertas e encerram-se em 15 de maio de 2012, valendo a data da postagem (data de correio) para aferição do cumprimento do prazo. Será eliminada obra encaminhada extemporaneamente ou entregue pessoalmente no endereço previsto. É pré-requisito para participação no Concurso a entrega por correio da obra inscrita, obedecendo-se os critérios de manutenção do sigilo em relação à autoria previstos neste regulamento. A critério exclusivo das entidades promotoras do Concurso, a data do encerramento das inscrições pode ser prorrogada.

7. Será automaticamente eliminado o texto que não satisfizer as exigências prescritas.

8. A obra inscrita deverá ser enviada para o seguinte endereço com destinatário

I Concurso Literário de Pedro Leopoldo 2012
Rua Comendador Antônio Alves, 268
Centro
Pedro Leopoldo/MG
33600-000
Gênero (especificar)

Como remetente, obrigatoriamente, deve contar, no envelope maior, apenas o Pseudônimo do autor e o seu endereço. A identificação de autoria deve constar dentro do envelope de postagem, em envelope menor, conforme orientação deste Regulamento.

9 – Para julgar os textos será nomeada uma Comissão constituída por membros de notória competência literária, mantida em anonimato.

10 – A premiação constará de 1 certificado, 1 troféu para primeiro colocado e medalha e certificado para segundos e terceiros colocados em cada gênero. No caso de haver mais de um autor, a premiação manter-se-á única.

11. Além dos três textos premiados em cada gênero, a comissão julgadora poderá atribuir menções honrosas, mediante concessão de Certificados e/ou Medalhas.

12. Divulgado o resultado e recebido o prêmio, na hipótese de ser apurada alguma fraude, como, por exemplo, o plágio e a paráfrase, o autor responderá por medidas judiciais pertinentes.

13. A entidade promotora do Concurso não arcará com o reembolso de despesas referentes à postagem dos textos, nem com o deslocamento e hospedagem dos ganhadores para comparecerem à cerimônia da entrega dos resultados.

14. Acerca do resultado do Concurso, os vencedores serão comunicados por telefone, por e-mail e pelo Blog Cultura de Pedro Leopoldo, a partir de 08 de junho de 2012. O regulamento e o resultado também ficarão disponíveis em culturadepedroleopoldo.wordpress.com

15. Não haverá, em hipótese alguma, devolução dos textos/das obras concorrentes. Findo o Concurso, e com a óbvia exceção dos textos premiados/selecionados, os demais serão incinerados, juntamente com os envelopes de identificação.

16. A publicação das obras premiadas dependerá de apoio cultural posterior À realização do Concurso, ficando reservados os direitos autorais à Organização do Concurso. Este Concurso Literário não tem finalidade lucrativa.

17. A comissão julgadora poderá deixar de atribuir o prêmio se considerar que a ele nenhum dos textos/obras concorrentes faz jus.

18. As decisões da comissão julgadora são soberanas e irrecorríveis.

19. Os vencedores do Concurso declaram, desde já, serem de suas autorias os textos/obras concorrentes, ao mesmo tempo em que, ao se inscreverem no Concurso, cedem e transferem direitos autorais aos Organizadores para publicação futura em meio digital (e impresso), sem quaisquer ônus, em caráter definitivo, plena e totalmente, com todos os direitos autorais sobre os referidos textos, para qualquer tipo de utilização, publicação ou reprodução.

20. A participação do Concurso implica o conhecimento e aceitação automática do participante a todas as cláusulas do presente regulamento.

21. Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Comissão Julgadora e pelos Organizadores do Concurso. Dúvidas e informações devem ser encaminhadas exclusivamente para o e-mail concursoliterariopl@gmail.com

Anexos I, II e III:
http://culturadepedroleopoldo.wordpress.com/2012/01/26/i-concurso-literario-de-pedro-leopoldo-2012/

Fontes:
http://culturadepedroleopoldo.wordpress.com/2012/01/26/i-concurso-literario-de-pedro-leopoldo-2012/
http://culturadepedroleopoldo.wordpress.com/2012/04/20/prorrogacao-do-prazo-de-inscricao-i-concurso-literario-de-pedro-leopoldo/
http://concursos-literarios.blogspot.com

Concurso Nacional de Verso e Arte (Prazo: 30 de Junho)

Premiação:
I) Exposição, Medalhas e Certificados

Prazo: Os trabalhos serão recebidos até dia 30 de Junho de 2012

Organização:
Movimento Infanto-Juvenil Crescendo com Arte
artmicaversoearte@gmail.com

Regulamento:

I – Elaboração dos trabalhos

1. Proposta: O participante deverá pesquisar sobre o tema e criar uma poesia sobre uma arte ou um artista da natureza e ilustrar a poesia com uma pintura ou um desenho, alusivo à poesia, também de sua autoria. Poesia e ilustração deverão ser do mesmo autor;

2.Tema: A natureza e seus seres animais, vegetais e minerais;

3. Papel para o Trabalho: Folha sulfite (de desenho, canson ou similar) na cor branca ou reciclada no tamanho A4;

4. Planejamento: Dividir imaginariamente a folha de papel A4 em duas partes. Na parte superior ficará a ilustração e na parte inferior a poesia. Veja modelo no blog do MICA http://artmica.blogspot.com/;

5. Ilustração: O desenho ou pintura alusivo à poesia poderá ser feito a grafite, lápis de cor, giz de cera ou com qualquer tipo de tinta e deverá ser realizado na parte superior da folha. O desenho deverá ser feito na mesma folha da poesia e não colado sobre esta;

6. Poesia: A poesia deverá ser escrita abaixo da ilustração Deverá ser digitada na folha A4 em tamanho bem legível (de preferência na fonte arial ou times new roman) ou escrita em letra de forma. Poderá ser soneto, haicai, trova, quadrinha, ou um poema curto de qualquer outro gênero, que não poderá ultrapassar uma folha, onde acima estará a ilustração. A poesia deverá ter um título, colocado acima da poesia. Abaixo da poesia deverá constar apenas o nome completo do autor. Os demais dados, como idade, cidade, escola, serão colocados pela comissão organizadora do concurso em etiqueta na base do papel-cartão;

7. Montagem do trabalho: Após estar pronto o trabalho, a poesia (o verso) e a ilustração (a arte), colar com cola bastão a folha A4 em uma base de papel-cartão ou similar com dimensões de 30 X 40 cm, em cor forte, para contrastar com o branco do sulfite. Poesia e Arte, ou seja, todo o trabalho, será composto por apenas uma folha;

8. Identificação: Será feita na parte de trás da base/moldura de papel-cartão de 30 X40 cm, contendo: título da poesia, nome completo do autor(sem abreviar), idade, nome do professor(sem abreviar), endereço com CEP e e.mail da escola ou instituição. No caso de ser enviado individualmente, os dados do mesmo.

9. Envio dos trabalhos: Será aceito apenas um trabalho por participante com idade entre 6 e 16 anos. Sendo que, cada escola ou instituição poderá enviar quantos trabalhos quiser. Trabalhos realizados e enviados individualmente também serão aceitos.

10. Listagem dos trabalhos: Fica a cargo da escola ou instituição a elaboração de uma lista (solicite o modelo) com todos os títulos, nomes completos dos participantes (sem abreviações) e suas respectivas idades, nomes dos professores (um por lista), nome completo da escola ou instituição, endereço (com CEP) e e.mail (indispensável). Esta lista deve ser anexada aos trabalhos, no envio.

11. Não serão aceitos: Trabalhos que retratarem artes por adestramento de animais de estimação, animais em circo ou em outro tipo de espetáculo ou competição e de elementos da natureza que tenham sofrido a intervenção humana.

II -Envio dos trabalhos
Enviar pelo Correio Postal para o seguinte endereço:

Parque Estadual da Cantareira – Núcleo Pedra Grande
AC. Programa de Uso Público

Rua do Horto, 1799 – Bairro do Horto Florestal
CEP: 02377-000 São Paulo – SP

Data-limite de recebimento
(não de postagem) dos trabalhos:
30 de junho de 2012

III – Seleção dos trabalhos

1. A seleção, que qualificará os trabalhos para uma mostra e a escolha daqueles para os quais serão conferidas premiações será feita por júri formado por profissionais de reconhecido mérito, das áreas de Educação, Psicologia, Artes Plásticas e Cultura. A decisão se baseará nos seguintes critérios: adequação ao tema, materiais discriminados no regulamento, originalidade, técnica e criatividade.

2. Os trabalhos serão separados em 4 faixas etárias para as seleção e premiação.

3. A aceitação deste regulamento implica no reconhecimento da soberania da decisão da comissão julgadora, podendo a mesma, não conferir as seleção e premiação. Das decisões não caberão quaisquer tipos de recursos.

4. Os trabalhos, selecionados ou não, não serão devolvidos e poderão ser usados em outras mostras, independentemente da escolha da primeira seleção.

5. Os trabalhos selecionados serão expostos em mostra a ser realizada em agosto de 2012 no Museu da Pedra Grande.

6. Todos os autores dos trabalhos concordam, assim como seus responsáveis (pais ou tutores) e respectivas instituições/escolas, por força deste regulamento, em ceder sua imagem e de sua obra em divulgações relacionadas ao evento, sendo garantidos os direitos autorais, mas sem receber qualquer remuneração pelo uso dessas imagens.

IV -Premiação

1. Aos melhores trabalhos de cada faixa etária serão conferidas Medalhas para os 1º, 2º e 3º lugares e Menções Honrosas para 4º e 5º lugares

2. Aos trabalhos selecionados para a Mostra e não premiados, serão conferidos Certificados de Participação.

3. Aos professores que orientaram os autores dos trabalhos premiados do 1º ao 5º lugares de cada faixa etária receberão Certificados de Mérito Cultural.

V -Disposições Finais

1. O descumprimento de qualquer item deste regulamento acarretará a imediata eliminação do trabalho concorrente.

2. A inscrição neste concurso implica na plena e total aceitação deste regulamento, cabendo ao participante e aos orientadores seguirem as regras em sua totalidade.

3. Dúvidas quanto à interpretação deste regulamento e resolução do mesmo serão dirimidas junto à Comissão Organizadora.

Fontes:
http://artmica.blogspot.com.br/p/concurso-nacional-de-verso-e-arte.html
http://concursos-literarios.blogspot.com

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Goiás

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 8)


Uma Trova do Edmar

Junto às roseiras formosas,
onde o amor aconteceu,
pairava o frescor das rosas,
mas o perfume…era teu!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA (RJ)

Uma Trova de Nova Friburgo

Quando o orgulho é o timoneiro
das viagens da paixão,
qualquer que seja o roteiro
não encontra direção.
ELISABETH SOUZA CRUZ (RJ)

Uma Trova Paranaense

Os mais ditosos momentos
de toda esta minha vida
foram os dois nascimentos
de minha prole querida!
MARIA ELIANA PALMA (PR)

Trova Premiada

1993 – XVI Jogos Florais de Pouso Alegre/MG
Tema Nacional: ILUSÃO – 3o. Lugar

Sempre a um jovem me assemelho
pois nas horas de sol posto
a ilusão embaça o espelho
e apaga a ruga em meu rosto!
EUGÊNIA MARIA RODRIGUES (MG)

Um Poetrix

perda de tempo
SILVIA MOTA (MG)

de tempos em tempos
enquanto homens resmungam
renova-se o Tempo.

Uma Trova da Carolina

Se eu sinto fugir a calma
e até viver me angustia,
eu abro as janelas da alma
e deixo entrar a Poesia!
CAROLINA RAMOS (SP)

Trovadores que Deixaram Saudade

Quanto mais o tempo avança,
mais eu fico a perceber
que a saudade é uma lembrança
que se esquece de morrer.
MIGUEL RUSSOWSKY (SC)

Miguel Kopstein Russowsky, filho de Jacob Russowsky e de Eva Russowsky, nasceu em 21/06/1923 em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Casou-se com Vitória Toaldo Russowsky e teve quatro filhos.

Cursou o primário na Escola São José, em Jaguari e o secundário no Colégio Estadual Santa Maria (Maristas), entre 1933 e 1940 (pré-médico). Em 1940 entrou na medicina URGS e formou-se em 1946, aos vinte e três anos em Porto Alegre. Exerceu clínica e cirurgia geral durante os últimos 50 anos de profissão, sempre pela medicina livre, sem vínculos empregatícios.

Transferiu-se, posteriormente, para Joaçaba-SC, onde se tornou médico-empresário. Fundador e Diretor do Hospital São Miguel, de Joaçaba-SC, um dos maiores da região. Exerceu com denodo a medicina livre, atuando como clínico e cirurgia geral, até 2006.

Mas, Miguel não era só médico, foi Enxadrista, com passagens nos jogos abertos de Santa Catarina, Empresário e proprietário de Hotéis, Cinemas e, sobretudo, um poeta-literato brilhante. Um campeão em concursos nacionais e internacionais de poesias e trovas. Foi assim que conquistou uma legião de amigos e admiradores pelo Brasil e exterior. Sonetista por excelência e trovador dos mais fluentes.

Nove (9) vezes Primeiro Prêmio em Sonetos, em concursos nacionais, e várias vezes em outras colocações. Onze (11) Primeiros Prêmios em concursos nacionais de poesias.

Ocupou a Cadeira nº 28 da Academia Sul-Brasileira de Letras.
Membro da UBT,
da Casa do Poeta “Lampião de Gás”,
do Movimento Poético, em São Paulo e
outras Entidades Lítero-culturais, além de colaborador de jornais, revistas, como o FANAL, ESTRO, A FIGUEIRA, entre outros alternativos.

O poeta sempre foi um mestre em tudo quanto fez. Fazia elogios e críticas construtivas quando necessário.

Dr. Miguel Russowsky curava as doenças do corpo com sua já consagrada habilidade médica, e as da alma com sua poesia de primeira qualidade, frutos de muito esforço, segundo costumava dizer.

Na primeira noite de outubro de 2009, sofreu um acidente de trânsito no centro de Joaçaba, a poucas quadras de casa. Com ferimentos na cabeça e três costelas fraturadas, foi atendido em seu próprio hospital. Faleceu na tarde de sábado, dia 03 de outubro de 2009, em decorrência de insuficiência renal.

Livros publicados:
Céu de Estrelas – 1951 (reeditado)
O Julgamento de Tiradentes – 1980 (peça teatral)
O Segredo do Pântano – 1983 (peça encenada pelo Grupo
Teatral Eugênio Marcheti, de Herval d´Oeste)
Poesias Melancólicas – 1994
Noite de Lua – 1996
Cadeira de Balanço – 1998
Confeitos de quimera – 2000
Cantares de um vulcão quase extinto – 2005

Um Haikai

Primavera
EDSON KENJI IURA (SP)

Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.

Uma Trova da Dinair

Na esperança verde e bela
há o otimismo de luz!
Se a porta fecha, a janela
se abre em par e o sol reluz!
DINAIR LEITE (PR)

Uma Fábula em Versos

O Galo e a Pérola
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Um galo achou num terreiro
Uma pérola, e ligeiro
Corre a um lapidário e diz:
“Isto é bom, é de valia.
De milho um grão todavia
Era um achado mais feliz”.

Um néscio ficou herdeiro
De um manuscrito, e a um livreiro
Vai à pressa, e fala assim:
“É bom, é livro acabado.
Concordo, mas um ducado
Valia mais para mim!”

Alguma Poesia

Cortesia
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (MG/RJ)

Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
- Este mundo está perdido!

Agora que ninguém porta
nem lembrança do chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.

Uma Trova Do Fabiano

Rouba a loja e logo estaca,
sem remorsos na consciência,
depois de ler numa placa:
“Grato pela preferência”…
JOSÉ FABIANO (MG)

Um Soneto

Em 19 de setembro de 1999, logo após a solenidade de premiação do Concurso de Trovas de Amparo/SP, onde a trovadora Eliana Dagmar deu mais outra prova de como se deve bem receber os irmãos trovadores, alguns trovadores foram desfrutar das alegrias da noite daquela tradicional e aprazível cidade paulista. Entre chopes, salames e queijos, os poetas presentes, após o inusitado atendimento do garçom, decidiram fazer um soneto a oito mãos. O soneto que segue abaixo, leva o nome dos autores abaixo de cada quarteto e terceto.
Um Jantar no Pau de Arara

Quando o garçom chegou desajeitado
servindo a mesa com total descaso,
a sopa que me trouxe em prato raso
esparramou-se, ao chão… por todo lado!
(HELOÍSA ZANCONATO/MG)

Confesso que fiquei bem irritado
e a minha reação foi um “arraso”:
– Chutei cadeiras, destruí um vaso
e botei p’rá correr o desgraçado!
(RENATA PACCOLA/SP)

Depois me arrependi – (pobre garçom!) -
que educado não foi para ser bom
e servir com respeito a freguesia…
(THALMA TAVARES/SP)

Então, deu uma “grana” para o “cara”,
que veio do Pará num “pau de arara”,
e há tempo uma gorjeta merecia!!!
(EDUARDO TOLEDO/MG)

Fontes:
seleção por José Feldman
Biografia de Miguel Russowski
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=10723&cat=Ensaios&vinda=S
http://www.recantodasletras.com.br/homenagens/1855259
http://www.hospitalsaomiguel.com.br/historia.php
Soneto obtido no Boletim Informativo da UBT Nacional, n. 492, p.4.

Wagner Marques Lopes /MG (A FAMÍLIA em trovas), parte 2

A dolorosa roda da herança

Roda de dor, muita antiga,
pesada, que não avança…
Até hoje, o que se briga
pela partilha da herança!…

Amor ao próximo mais próximo

Se aos estranhos dou incenso
e aos da casa só o fel,
onde a paz, o amor imenso,
se o desatino é cruel?…

Quem educa é detentor do futuro

Se corrijo e disciplino
o solo, garanto os grãos:
ao educar o menino
guardo o futuro nas mãos.

Em busca da família perfeita

- Quero a família perfeita,
antecipando o porvir.
Diz o Bem: – Você aceita
ser o primeiro a servir?…

Fonte:
trovas enviadas pelo autor

Marcia Paganini Cavéquia (A Menina e o Sapo)


Nina, menina airosa, formosa como ela só.
Bonito era ver Nina correr.
Ora corria rápido, feito tufão, ora devagar, parecendo brisa.

Nina corria pelo jardim.
Nina caía no gramado.
Nina fazia folia. E ria.

À noite, cansada das travessuras do dia, a menina dormia.

Certa vez, enquanto passeava pelo jardim, Nina viu um sapo.
Sapo também viu Nina.
“Será que, se Nina beijar o sapo, sapo vira príncipe?”
Nina não sabia, mas ficava imaginando como isso seria.

Nina beijou o sapo.
Sapo continuou sapo.
Não virou príncipe.
Mas se apaixonou por Nina.

Agora, onde Nina está, lá se vê o sapo apaixonado suspirando pela menina.

Na cabeça do sapo, Nina é uma princesa-sapa, transformada em menina por uma terrível feiticeira.
—————-
Marcia Paganini Cavéquia, autora deste conto, é pós-graduada em Metodologia do Ensino pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Fonte:
Revista Nova Escola

Esopo (Fábula 4: O Milhafre e os Pombos)


Uns pombos, que tinham sido atacados por um falcão, foram ter com um milhafre e pediram-lhe que os protegesse. O milhafre foi devidamente coroado como rei dos pombos e prometeu solenemente guardar os seus súditos.

Mas, passado pouco tempo, o milhafre disse-lhes que agora era o rei e que tinha o direito de levar e comer um pombo sempre que lhe apetecesse. O resto da família do milhafre fez o mesmo, e os pombos depressa compreenderam que o milhafre estava a causar maior perturbação em poucas semanas do que o falcão causara em muitos meses.

“Não merecemos outra coisa!”, lamentaram-se os pombos. “Não o devíamos ter deixado entrar!”

Moral da história

É perigoso pedir a proteção dum homem perigoso e cheio de ambições. Pode estar unicamente interessado a proteger-se a si próprio.
——

Nota:
Milhafre, também conhecido por milhano ou bilhano, é a designação comum dada às aves do género Milvus e Circus da família Accipitridae. Nos Açores a designação corresponde às aves da espécie Buteo buteo ssp. rothschildi, também chamadas queimado ou águia-de-asa-redonda.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

XVII Jogos Florais de Curitiba (Resultado Final)

– ÂMBITO NACIONAL/INTERNACIONAL – (Língua Portuguesa, exceto Paraná) -

TEMA: JUSTIÇA: (L/F)

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Maria Melinni de Araújo Garcia (Caicó – RN)
2º Lugar: José Ouverney (Pindamonhangaba-SP)
3º Lugar: Alba Christina Campos Netto (São Paulo – SP)
4º Lugar: Sergio Ferreira da Silva (Santo André – SP)
4° Lugar: Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba – SP)
5º Lugar: Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora – MG)

Obs:– Nos vencedores, houve um empate no 4o. lugar

Menções Honrosas: Por ordem de alfabética

Carolina Ramos (Santos – SP)
Darly O. Barros (São Paulo – SP)
José Ouverney (Pindamonhangaba – SP)
José Tavares de Lima (Juiz de Fora – MG)
Manoel Cavalcante de Souza Castro (Pau dos Ferros – RN)
Marina Bruna (São Paulo)
Messias da Rocha (Juiz de Fora – MG)
Wanderley Rodrigues Moreira (Santos – SP)
Menções Especiais: Por ordem de alfabética
Ederson Cardoso de Lima (Niterói- RJ)
Elen de Novais Felix (Niterói – RJ)
Izo Goldman (São Paulo – SP)
José Tavares de Lima (Juiz de Fora – MG) – (duas trovas)
Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba – SP)
Renata Paccola (São Paulo- SP)
Therezinha Dieguez Brisolla (São Paulo – SP)

Comissão Julgadora do Concurso:
Antonio Augusto de Assis
Janske Schlenker
Luíza Nelma Fillus
Olga Agulhon
Vanda Fagundes Queiroz
Coordenação Geral: Andréa Motta.

====

TEMA: TAPA (Humor):

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Wanda de Paula Mourtthé – (Belo Horizonte/MG)
2º Lugar: Pedro Mello (São Paulo/ SP)
3º Lugar: Elen de Novais Felix (Niterói/RJ)
4º Lugar: Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora/MG)
5º Lugar: Djalda Winter Santos (Rio de Janeiro/RJ)

Menções Honrosas:

Campos Sales (São Paulo/SP)
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Juiz de Fora/MG)
José Lucas de Barros (Natal/ RN)
Roberto Tchepelentyky (São Paulo/SP)
Thereza Costa Val (Belo Horizonte/MG)

Menções Especiais:

Edmar Japiassú Maia (Nova Friburgo/RJ)
Eliana Ruiz Jimenez (Balneário Camboriú /SC).
Flávio Roberto Stefani (Porto Alegre /RS)
Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba/SP)
Messias da Rocha (Juiz de Fora/MG)

Comissão Julgadora do Concurso:
Nei Garcez
Roza de Oliveira
Wandira Fagundes Queiroz

Coordenação Geral: Andréa Motta.
======

AMBITO ESTADUAL

TEMA: TESOURO: (L/F)

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Antônio Augusto de Assis
2º Lugar: Roza de Oliveira
3º Lugar: Dari Pereira
4º Lugar: Vanda Fagundes Queiroz
5º Lugar: Antônio Augusto de Assis

Menção Honrosa: Por ordem alfabética

Antonio Augusto de Assis
Maria da Conceição Fagundes
Nei Garcez
Roza de Oliveira
Vanda Fagundes Queiroz

Menção Especial: Por ordem alfabética
Istela Marina Gotelipe Lima
Luiza Nelma Fillus
Maria Aparecida Pires
Maria Helena Oliveira Costa
Nei Garcez

TEMA: TESOURA (Humor):

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1º Lugar: Vanda Fagundes Queiroz
2º Lugar: Antônio Augusto de Assis
3º Lugar: Antônio Augusto de Assis
4º Lugar: Maria Aparecida Pires
5º Lugar: Walneide Fagundes S. Guedes

Menções Honrosas: Por ordem alfabética

Antônio Augusto de Assis
Maria Aparecida Pires
Maria da Conceição Fagundes
Vanda Fagundes Queiroz (duas trovas)

Menções Especiais:

Istela Marina Gotelipe Lima
Nei Garcez (duas trovas)
Roza de Oliveira
Yara Mara de Castro Araújo.

Comissão Julgadora do Concurso:
José Lucas de Barros – Natal-RN
Thalma Tavares – São Simão-SP
Wanda de Paula Mourthé – Belo Horizonte-MG
Coordenação Geral: Professor Garcia.

=====

XVII Juegos Florales –Curitiba -PR-Brasil-2012
LÍNGUA ESPANHOLA

Tema: “Justicia”

Vencedores
– Por ordem de classificação.

1° Lugar: Maria Cristina Fervier (Argentina)
2° Lugar: Rafael Ramos Nápoles (Venezuela)
3° Lugar Cristina Oliveira Chávez (USA)
3° Lugar Martha Alicia Qui Aguirre (México)

Mención Honrosa: (Por orden alfabética)

Cristina Oliveira Chávez (USA)
Martha Alicia Qui Aguirre (México)
Martha Senovia V. Vélez (Colombia)
Miguel Ángel Almada (Argentina)
Ricardo Ducoing ( México)
Teresa de Jesús R. Lara (España Islas Canarias)

Mención Especial: (Por orden alfabética)

Alicia Borgogno (Argentina)
Ángela Desirée Palacios (Venezuela)
Carmen Patiño Fernández (España)
Catalina Margarita Mangione (Argentina)
Freddy Ramos Carmona (México)
Nerina Thomas (Argentina)
Urbano Vilchis Miranda (USA)

Comisión Julgadora:
A. A. de Assis
Eliana Ruiz Jimenez
Francisco Garcia
Lisete Johnson

Coordinadora:
Gislaine Canales

Curitiba, 25 de abril de 2012.
Abraços fraternos,

Andréa Motta
Presidente da UBT-Curitiba

Fonte:
Resultado enviado por A. A. de Assis

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Espírito Santo

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 7)

Uma Trova do Ouverney

Fugir, poeta, não queiras,
do que a vida preceitua:
teu destino é abrir fronteiras
e deixar que o sonho flua!
JOSÉ OUVERNEY (SP)

Uma Trova de Juiz de Fora

No inverno longo e silente,
que atinge a terceira idade,
há um fenômeno envolvente:
não cai neve… cai saudade!
JOSÉ MESSIAS BRAZ (MG)

Uma Trova Paranaense

Se no comer se extasia,
não pense que é o maioral.
Logo depois vem a azia:
“quem passa bem, passa mal”.
CECILIANO ENNES NETO (PR)

Trova Premiada

2010 – Concurso Associados da Seção São Paulo (Veteranos)
Tema- ORVALHO – Vencedor

Uma gotinha de orvalho…
E o poeta percebeu
que era lágrima do galho
chorando a flor que morreu!
CAMPOS SALES (SP)

Um Poetrix

geomética mente
TASSO ROSSI (RO)

tuas curvas,
meus planos…
tangentes.

Uma Trova do De Cápua

Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.
CLÁUDIO DE CAPUA (SP)

Trovadores que Deixaram Saudade

De manhã, se a vista espalho
para olhar coisas mimosas,
vejo pérolas de orvalho
sobre as pétalas de rosas…
ANALICE FEITOZA DE LIMA (SP)

Nasceu na Fazenda Cruz de São Miguel, município de Bom Conselho, estado de Pernambuco, no dia 18 de setembro de 1938 e faleceu em São Paulo, a 13 de janeiro de 2012. Filha de Pedro Feitoza de Lima e de D. Joanira Feitoza de Lima.

Escriturária aposentada, fez o Curso Prático de Comércio, diplomada em acordeon pelo Conservatório Musical Mangione (SP). Fez o curso de Metodologia Intelectual e outros. Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia,Ciências e Letras “Santana”, de São Paulo.

Assídua colaboradora da Imprensa, pertenceu à Casa do Poeta de São Paulo, União Brasileira de Escritores (UBE-SP), União Brasileira de Trovadores (UBT-SP), Clube da Simpatia-Olhão-Portugal, Casa de Francisca Júlia,da cidade de Eldorado (SP), Movimento Poético em São Paulo e outras.

Faz parte de várias coletâneas. Premiada em vários concursos de trova, poesias e haicais. Foi vice-presidente da Casa do Poeta “Lampião de Gás” de São Paulo. Colaborou com poesia em vários programas de Rádio.”Saudade Também tem Hora”, na extinta Rádio Excelsior de São Paulo,do radialista Délio Santos; Rádio Piratininga de São Paulo, e Rádio Mulher, nos de Silvana Aguiar. Na Rádio Cometa, de São Paulo, dizia poesias em um programa que a Casa do Poeta apresentava. Algumas vezes foi ao programa de Valdir Brambila, na Rádio Nacional de São Paulo, atual Rádio Globo. Em inúmeras ocasiões disse poesias no “Cantinho Poético “, de Maria de Lourdes Macedo, poetisa que ficou mais de vinte anos na Rádio São Paulo. Também colaborou no “Velho Realejo” do radialista Salomão Júnior. No programa de Alexandre Nemeth, na Rádio Gazeta de São Paulo. Participou , ainda, de vários programas da radialista Ariana Villar, nas rádios: Boa Nova de Guarulhos-SP; Cumbica; Ponto FM; Nova Tropical FM, etc.

Autora dos livros de poesias: APELOS DO CORAÇÃO, 1989, E CORAÇÃO EM CHAMAS, 2002.

Um Haikai

Orvalho
BENEDITA AZEVEDO (RJ)

Trilha na janela -
Gotas de orvalho escorrem
pela vidraça

Uma Trova da Yedda

Nosso amor, nossos carinhos,
vão conosco na viagem,
pondo flores nos caminhos
e embelezando a paisagem!
YEDDA PATRÍCIO (SP)

Uma Fábula em Versos

A Cigarra e a Formiga
JEAN LA FONTAINE (FRANÇA)

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

– Amiga – diz a cigarra
– Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
– À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora!

Alguma Poesia

Noturno
IALMAR PIO SCHNEIDER (RS)

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Tem paciência,
Diz-me a consciência.
Mas um soluço me corta o fôlego.
Espero o sol como a criança
Fica na esperança
De receber um presente
Do Papai-Noel.

Oh! Como vai distante
O sonho não realizado,
A incerteza do amanhã.

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Sinto a solidão,
Não há perdão.
Oh! Poema caótico,
Confuso poema,
Vive o momento de ansiedade sem alivio,
É teu destino turvo continuar.

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Obstinadamente recebo emanações de luz
Na escuridão.
Quero ser alguém liberto das catástrofes,
Vencer o “Medo à Liberdade”.
Enfrentar meu castigo,
Fugir do perigo.

A noite é longa e muito mais se estenderá…
Lamentar o que?
Eu preciso de você
Nestas horas incoerentes
Que se arrastam devagar.
Aqui junto de mim,
Aguardando amanhecer o dia,
Cheio de alegria
Para uma vida nova;
Enfim, rejuvenescer
E ser capaz de ser audaz, e ser jovial.

A noite é longa e muito mais se estenderá…

Uma Trova da Renata

Que os rumos de meus irmãos
não se percam nas estradas
e as vias de duas mãos
sejam vias de mãos dadas!
RENATA PACCOLA (SP)

Um Soneto

Acesa Chama
A. A. de Assis (PR)

Feliz aquele que aprendeu a amar
amando os filhos e a mulher querida,
e ao lado deles dá sentido à vida
edificando um verdadeiro lar.

Feliz aquele que ao voltar da lida
unida encontra à mesa do jantar
uma família com quem partilhar
os belos frutos da missão cumprida.

Feliz aquele, enfim, cuja energia
concentra-se em levar a quem o ama,
além do pão, a máxima alegria,

assim mantendo em casa acesa a chama
de um bem-querer que no seu dia a dia
a cada dia cresce e mais se inflama.

Fontes:
seleção por José Feldman
Fonte da Biografia de Analice: http://www.haicai.com.br/analicefeitoza.htm

Wagner Marques Lopes (A FAMÍLIA em trovas), parte 1

Família, pedra angular da sociedade
Família – pedra angular
da sociedade e da raça.
Sem ela, esboroa o lar
e a cultura se esfumaça.
Família e renovação
Onde o infiel se renova?…
Luz dos céus, zelo divino!
A família aceita a prova,
reajustando o menino.
Família, estrela inapagável
Família é sol – força e vida -
quem há de obscurecê-la?
A nuvem mais densa é fluida,
de vez não tolda uma estrela.
Opção: família ou egoísmo?
Desde a mais remota era
a família tem valor.
Sem ela, o egoísmo impera
num circo avassalador.
Fonte:
O Autor

Esopo (Fábula 3: O Lobo e o Cordeiro)


Estava um lobo a beber água num rio, quando avistou um cordeiro que também bebia da mesma água, um pouco mais abaixo. Mal viu o cordeiro, o lobo foi ter com ele.

“Que vem a ser isto, seu malandro ?”, disse o lobo. “Que pretendes, turvando a água para que eu não possa bebê-la ?”

“Desculpa”, replicou o cordeiro, “mas, como eu estava a beber mais abaixo, não pensei sujar a água onde tu estavas.”

O lobo estava resolvido a brigar com o cordeiro.

“Pode ser”, disse ele “mas há uns meses disseste mal de mim nas minhas costas, seu malvado.”

“Não pode ser”, disse o cordeiro.”Há seis meses eu ainda nem sequer tinha nascido!”

“O quê?”, disse o lobo. “Não tens vergonha? Toda a tua família sempre odiou a minha. Se não foste tu que disseste mal de mim, foi o teu pai!”

E, dizendo isto, o lobo saltou para cima do pobre cordeiro, despedaçou-o e comeu-o.

Moral da história

Os que são desprovidos de sentimentos humanos raramente darão ouvidos à voz da razão.
Quando o poder é dado à crueldade e à injustiça, é inútil argumentar contra eles, porque o
opressor achará sempre maneira de culpar a sua confiada vítima.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

Fernando Paganatto (Livro de Sonetos)

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SÃO AMORES?

São amores estas ondas que trazes
Vindas de continentes tão distantes,
Que descrevo, agora, em versos e frases,
Em eternos e pequenos instantes?

São? Ora, me contas uma quimera!
E são as ondas como são amores,
Este incessante vai-e-vem? Quem dera,
Seria tão mais fácil aos amadores!

Mas não! Mais amor do que as ondas são
Recifes que na praia ao longe avisto
E misturam-se, ao horizonte, ao mar.

Marés altas e baixas passarão
E estas pedras tão imóveis, insisto,
Ficarão para sempre em nosso olhar.

GAVETA

Sonha nos braços da amada
Viver pra sempre o poeta,
Como uma frase olvidada
No fundo de uma gaveta.

Não que não será usada.
A frase, inda que secreta,
Vive n’alma apaixonada
E por esse amor completa.

E existe no seio amado,
De frases uma gaveta
A espera de seu poeta.

Para que na hora correta
Possa recitar ao lado
Do motivo de seu fado.

SONHO SOBRE UM CAMPO DE CENTEIO

Voando passei por prado de centeio
Vereda abriu sob meu ventre voador
Voltava num vasto devaneio
Vôo d’alma livre como dum condor

E os trigos gritavam: Sim, ele veio!
E me olhavam os ares com pudor
A tudo em volta voava eu alheio
De tal modo a sonhar ser sonhador

As estrelas calam a fala ao meio
Escala o sol a terra com ardor
Cola a noite o horizonte ao seio

Do menino a luz nos olhos é dor
Lembrar-se torna, ao travesseiro, anseio
De um futuro, de sonhos, rimador.

DOCE MEL

Doce mel de vívidos canaviais,
É a baba dos deuses pelos manjares.
Tem, portanto, propriedades vitais
Como a cura para certos pesares.

E estes pesares são os passionais,
Que vivem espreitando nossos lares
Afim de levar um coração mais
Para o umbral das almas que não têm pares.

Sim, amigo etílico, você entende
O que um homem pode, algum dia, passar.
O ruim é que teu consolo mal rende:

Os olhos já começam a pesar,
O som já quase não mais se compreende
E tudo que se deseja é acordar.

DA TRISTEZA D’MAR

Triste é o mar que é só mar
E milhas à frente nada,
A não ser o alvo luar
E minha rota ignorada.

Triste, então, é meu pensar
Na breve vida passada,
E dirijo ao mar o olhar,
Ao desejar ser tocada

Minh’alma por belas mãos,
Que acariciam, ao vento,
Em farta imaginação,

O bom de haver sofrimento.
Mas, teus olhos voltarão,
Quando não houver mais tempo.

SONETO DO TEU PARTIR

O que restou, somente, foi teu lenço
Largado, na partida, sobre o cais.
Acompanhando-o está meu silêncio
E essa dor que não se despede mais.

Queria que na brisa do oceano
Eu sentisse de novo teu perfume
E tornassem, com ventos assoprando
As lembranças da razão que nos une.

Só assim poderei virar de costas
Para o mar onde agora tu te encontras
E caminhar com o espírito leve.

E a cada atracar de uma nova frota
Uma esperança em meu coração brota:
A de ler, para sempre, quem escreve.

CORAÇÃO SELETIVO

Ao notar o arriar das velas,
Percebi que breve iria
Deixar lembranças mui belas,
Neste porto da alegria.

Sei que nada fiz por elas.
A mente, conservei fria.
Reparei nas caravelas
Que atracavam na baía,

E de todas me esqueci
Quando, de manhã, parti
Somente vendo uma imagem.

E durante toda a viagem,
Acompanhou-me a miragem,
Que, um dia, pude ter de ti.

SONETO DO ETERNO NAVEGAR

É longínquo o horizonte buscado
Como teu semblante, é cálido e firme,
E quanto mais as ondas eu domine
Fica distante o som do teu pecado.

Mas não pretendo, em falso, redimir-me
Pois sei o que me faz ter navegado
Tantas milhas ao mar, desesperado
A alcançar a imaginação sublime.

Se no horizonte não pude atracar
Em muitos portos fui bem recebido
Mas sempre terminei por navegar.

Posso estar sendo marujo atrevido
Porém, é meu destino sempre o mar
E sei, nunca serei bem sucedido.
Fonte:

Fernando Paganatto (1985)

Nasceu em 13 de fevereiro de 1985.
 Escritor profissional.
Estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo.
Possui diversos cursos na área de Comunicação Institucional, Redação, Escrita Criativa e Marketing, principalmente Marketing Político.
Poeta e cronista, com publicações em diversas antologias e sites da internet.
Foi colunista de “Variedades” do site 40graus.com e colaborador de “Crônicas de Viagens” do site literário Blocos on line.
Redator de diversos blogs (literatura, comportamento, juventude, política, movimentos sociais, etc.).
Atuante em direitos humanos.
Publicações de matérias em sites como: Diário Liberdade, Correio da Cidadania, Caros Amigos, entre outros.
Prêmios:
Primeiro colocado no IV Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, 2008.
2º colocado no I Concurso Nacional de Poesia do GASP, 2009.
Finalista no X Concurso de Poesia Agostinho Gomes, Biblioteca Municipal Ferreira de Castro, Portugal, 2009.
Finalista Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro, edição 2009/Contos.
Classificado para publicação no Concurso Nacional Novos Poetas – Prêmio Poetize, 2012.
Fonte:

Angela Lago (Tampinha)


Era uma vez uma menina tão pequena que, cada vez que espirravam por perto, ela voava. Seu nome era Tampinha. Ela usava uma tampinha de garrafa na cabeça para ficar mais pesada e aterrissar mais depressa quando voava.

Tampinha vivia com sua avó numa casa à margem do Rio do Mato Perdido. Essa avó era quem cuidava dos doentes da região. Ela sabia o chá certo para tudo, menos para a pequenez da menina.

Perto morava um rapaz… que eu esqueci o nome. Era um rapaz muito simpático e, para facilitar esta história, vou chamá-lo de Bonito.

Um dia Bonito ficou doente.

- Para salvar o Bonito só um chá da flor preta da árvore do Curupira – disse a avó.

- Mas onde vou arranjar alguém com coragem para buscar essa flor!

Na hora Tampinha respondeu:

- Eu vou.

- Imagina! Logo você, desse tamanhico!

Que tamanhico que nada! A menina entestou que iria de qualquer jeito e danou a falar que ia, porque ia, até a avó ficar desesperada:

- Então vai.

Mas, antes de a menina ir embora, a avó apanhou uma pimenta-malagueta bem forte. Amarrou a pimenta no pescoço de Tampinha e lhe ensinou umas palavras mágicas para ela falar nas horas de perigo.

E lá foi ela no seu barquinho de papel, com uma agulha servindo de espada, uma colherzinha de café como remo e a pimenta dependurada no pescoço.

Enquanto ela remava, ia recitando as palavras mágicas. Tinha medo de esquecer alguma na hora do perigo:

Pimentum, pimentom, pimentém, pimentim;
peixe quer água, eu quero atchim.
Pimentur, pimentor, pimenter, pimentir;
e quero voltar de onde eu quero ir.

Pois muito bem. De repente Tampinha deu de cara com Cobra Grande cantando:

Você tem avó, eu tenho um tio.
Venha comigo pro fundo do rio.
Você tem agulha, eu tenho um fio.
Venha calada sem dar nem um pio.

As palavras mágicas sumiram da cabeça da menina. Com muito custo, saiu, num fiapinho de voz:

- Pimentim, eu quero atchim…

A Cobra Grande se curvou para escutá-la, sentiu o cheiro forte da pimenta, teve uma coceira no nariz e acabou espirrando:

- A… A… Atchim!

Era o que era preciso. Lá se foi nossa heroína voando pelos ares.

Mas, como ela não tinha se lembrado de todas as palavras, a mágica funcionou um pouco errada, e ela aterrissou justo na praia da Onça-Pintada.

A Onça-Pintada viu aquela menina apetitosa, lambeu o beiço e veio andando com suas patas macias.

Tampinha ficou branca de medo e nada de lembrar os versos mágicos. Ela só conseguiu enrolar a língua de qualquer jeito:

- Pimentrim… primentrum…

A Onça espichou o ouvido para tentar entender e aí sentiu aquele cheiro desgraçado de pimenta. Seu nariz danou a coçar e veio o espirro:

- A… A… A… A… Atchim!

Tampinha voou pelos ares.

Mas, como ela tinha se atrapalhado com as palavras, a mágica também ficou meio atrapalhada. Ela logo caiu, como uma geringonça qualquer; por pouco não quebra a perna. De qualquer forma já estava livre da Onça. Na sua frente o que via era uma árvore enorme.

- Céus! A árvore do Curupira! Será que o Curupira…

Tampinha olhou para todos os lados:

- Que sorte! Parece que o Curupira não está por perto! A árvore era belíssima, sem nenhum exagero; alta, imensa. E lá, no último galho, estava a flor preta. O problema era que Tampinha não dava conta de subir nem no primeiro galho! Ela, então, sentou-se num canto, sem saber o que fazer.

Come esta frutinha
e cresça bonitinha.

A árvore farfalhou e deixou cair um fruto.

Tampinha provou, mas achou a fruta muito doce e não terminou de comer. Seus braços cresceram, mas o resto continuou do mesmo tamanho.

Ô filhote louco,
come mais um pouco.

A árvore farfalhou de novo e deixou cair mais um fruto.

Na segunda dentada, Tampinha jogou o fruto longe. Estava muito amargo. Pois muito bem: dessa vez, só suas pernas cresceram. Ela ficou horrível com as pernas e os braços compridos e o resto todo do mesmo tamanho.

Come de uma vez!
Um… dois… três!

Era a árvore jogando mais um fruto. Dessa vez Tampinha comeu tudo.

Quando terminou, estava moça feita. Alta, como qualquer moça, se vocês me acreditam. E o melhor: deu conta de apanhar a flor.

Mas, justo no momento em que ela estava apanhando a flor, alguém apareceu entre as folhas dos galhos… Era o Curupira!

- Com que direito você entrou no meu mato, subiu na minha árvore, apanhou a minha flor?!?

Tampinha ficou branca de novo, e tratou de recitar:

Peixe quer água, eu quero atchim.
Me esperam de volta, de onde eu vim.

Curupira se curvou para ouvir melhor a moça e sentiu o cheiro da pimenta. Seu nariz desandou a coçar e aconteceu o maior espirro que já houve no mundo.

ATCHIM!!!

E mais outro:

ATCHIM!!!

E mais outro:

ATCHIM!!!

A nossa moça, mesmo grande como estava, voou pelos ares, acima das árvores, sobre o rio…

Aterrissou direto na casa do moço Bonito. O chá foi feito imediatamente. Bem, o final vocês já sabem, a avó ficou feliz de ver a neta grande, Bonito sarou e…

- Vocês têm alguma coisa contra casamento?

Fonte:
Historinhas pescadas : antologia de contistas brasileiros / [coordenação editorial Maristela Petrili de Almeida Leite, Pascoal Soto].- São Paulo : Moderna, 2001. – (Literatura em minha casa ; v. 2)

Ângela Lago (1945)


Ângela Maria Cardoso Lago (Belo Horizonte, 1945) é uma escritora e ilustradora brasileira.

A maior parte de sua obra é dedicada às crianças. Em alguns de seus livros não usa palavras, apenas imagens.

Entre suas obras destaca-se Cena de Rua, premiado na França e na Bienal de Bratislava. Cena de Rua foi publicado no México, na França, nos Estados Unidos da América e no Brasil.

Escritora e ilustradora, mineira, nascida em Belo Horizonte, em 1945, Angela Lago, inicia sua formação superior na Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais. Freqüentou o atelier do escultor Bitter, com um grupo de artistas plásticos.

Em 1969, leciona na Escola de Serviço Social e trabalha como assistente no Instituto Psico-Pedagógico, para crianças com dificuldades psico-pedagógicas e psiquiátricas.

Tendo recebido bolsa de estudos, passa três meses em Denver, Colorado, Estados Unidos, para um curso de psicopedagogia infantil. Vive fora do país durante a década de 1970, em razão do trabalho do marido.

Na Venezuela, onde permanece de 1970 a 1973, trabalha como professora da escola de Serviço Social da cidade de Puerto Ordaz. Em seguida, e após alguns meses em Londres, transfere-se para Edimburgo, onde frequenta o curso de artes gráficas no Napier College de 1973 a 1975.

De volta ao Brasil, começa a se dedicar à literatura infantil, atividade em que reúne sua experiência com crianças e a produção literária, iniciada com poemas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião (1916 – 1991).

Em 1980, são lançados os dois primeiros livros com texto e ilustrações de sua autoria: O Fio do Riso e Sangue de Barata.

Em 1985, depois de dez anos de atividade, fecha seu ateliê de programação visual para publicidade.

Ainda no fim da década de 1980, incorpora o computador a seu processo de criação, diversificando as técnicas usadas na produção de ilustrações, que incluem bico de pena e tinta acrílica.

Nos anos 1990, quando lança mais de dez livros – entre os quais Festa no Céu (1995) e ABC Doido (1999) -, trabalha como artista convidada em faculdades da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Desde então, dedica-se com exclusividade à literatura, tendo publicado cerca de trinta títulos, além aqueles em que atua apenas como ilustradora.

Algumas de suas obras são lançadas primeiramente no exterior, como é o caso de João Felizardo e o Rei dos Negócios, editado em 2006 no Brasil após ter sido publicado no México em 2003.

Comentário critico
Dialogando com artistas plásticos consagrados e compondo narrativas inspiradas na tradição popular brasileira, Angela Lago produz livros, sobretudo a partir de 1986, em que as ilustrações não se limitam a explicar o texto: a superposição dos elementos gráficos ultrapassa a temporalidade e a espacialização sugeridas pela palavra, ampliando as possibilidades interpretativas.

O diálogo com a cultura tradicional estrutura a obra de Lago desde O Fio do Riso (1980), sua estreia, em que a ilustração está ainda a serviço do texto. Nesse título, Nina, a protagonista, sozinha e entediada em sua casa, decide telefonar para um número aleatório. É atendida pela fada Plimpinar, que transporta a menina para o seu fantástico mundo, sob única condição: que não ria do que ali encontrar, ou a viagem se encerrará. Trata-se da mesma restrição imposta a Orfeu, que para resgatar a amada Eurídice do reino de Hades não pode ceder à tentação de encará-la durante a viagem.

A garota, contudo, ri – passando a ocupar, aos olhos da cozinheira Maria, a posição de quem é vítima da risada: “Que menina engraçada,/ esta que sonha acordada.’/ Nina ficou zangada:/ ‘Não me faça de piada’”. O aprendizado implicado no desfecho revela outra característica estruturante do trabalho de Lago: a combinação entre espaço real e onírico que amplia os limites da narrativa.

As fontes eruditas estarão sempre ao lado das populares – sendo estas patentemente presentes em Uni, Duni e Tê (1982). Trata-se, desde o título, de uma retomada de textos infantis. A narrativa apresenta a procura de uma comunidade por um assaltante que invade as casas para comer salame e sorvete, deixando um bilhete em código: “Uni duni e tê/ Salamê minguê/ um sorvete colorê/ uni duni e tê”. As personagens são todas extraídas de fontes semelhantes: Zé do Cravo, que briga com a namorada Rosa; Dona Xica, em cujo gato um pau é atirado; Samba Lelê, apelido do delegado Lelevaldo, que fica doente e com a cabeça “quebrada”.

O jogo metalinguístico vai além da presença do intertexto, passando a determinar também o comportamento do narrador. Embora se trate de um observador, e não de alguém que participa da trama, ele invade a história e dialoga com as personagens. A certa altura, por exemplo, uma das moradoras da vizinhança, durante discussões sobre a autoria do crime, diz às personagens: “Espera aí”. O subtítulo que inaugura o trecho seguinte da narrativa se chamará “Vamos esperar”.

Em 1986, a autora publica Chiquita Bacana e Outras Pequetitas. Nesse livro, uma garota recebe visitas noturnas das personagens-título, que lhe roubam objetos diversos, e por isso decide aprisioná-las. Chiquita, entretanto, não é capturada: à medida que se desenvolve a busca por ela, dentro da casa, outros elementos narrativos vão sendo revelados.

Na profusão de detalhes, o próprio tempo indicado – “uma noite de lua cheia” – é posto em questão: há pinturas na parede do quarto que, de uma página para a outra, se modificam, compondo narrativas paralelas e baseadas em andamento temporal particular. Uma delas retoma a fábula “João e o Pé de Feijão”, ilustrando o crescimento da planta. Outra, inspirada na sequência L’enfant au pigeon, de Pablo Picasso, mostra uma menina camponesa que, observando a liberdade dos pássaros, começa a voar. Há ainda, entre outros, imagens que retomam Chapeuzinho Vermelho.

A soberania da narrativa verbal é também posta em xeque, pois as estrofes em que se conta a história são impressas em páginas de livros trazidas pelas pequetitas. Os versos se tornam, dessa maneira, fio condutor para a leitura dos detalhes.

Os procedimentos serão intensificados em O Cântico dos Cânticos (1992), versão ilustrada de Angela Lago para o poema bíblico. Inspirada nos quadros do holandês Maurits Cornelis Escher (1898 – 1972), a artista transpõe a narrativa dos encontros e desencontros entre os amantes para figuras labirínticas em que não há orientação espacial ou linear.

O livro pode ser percorrido da primeira página à última ou da última à primeira: o encontro entre o casal ocorre nas imagens centrais, de modo a fundir o labirinto da amante, retratado sempre nas páginas pares, ao labirinto do amado, nas ímpares. O júbilo da realização amorosa é simbolizado pela irradiação, a partir de um centro onde está o casal, de luminosidade intensa e de uma força que faz sacudir páginas fictícias contidas dentro das páginas de fato.

A adaptação inclui ainda a transformação do cenário descrito nos versos da Bíblia em elementos que compõem as molduras das imagens. Pássaros, árvores, fontes tornam-se detalhes das bordas, que trazem ainda detalhes referentes ao Oriente Médio, como parreiras e arabescos, em uma retomada da atmosfera predominante no texto original.

Os exemplos ilustram a intrincada estrutura das obras de Angela Lago. Os abundantes elementos secundários – sejam detalhes gráficos ou personagens distantes da trama central – atuam na valorização e amplificação dos elementos centrais, inaugurando percursos diversos para a leitura.

Alguns Livros de Angela-Lago

Cena de Rua, Editora RHJ, Belo Horizonte, 1994
Tampinha, Editora Moderna, São Paulo, 1994
A festa no céu, Editora Melhoramentos, São Paulo, 1995
Uma palavra só, Editora Moderna, São Paulo, 1996
Um ano novo danado de bom, Editora Moderna, São Paulo, 1997
A novela da panela, Editora Moderna, São Paulo, 1999
Indo não sei aonde buscar não sei o quê, Editora RHJ, Belo Horizonte, 2000
Sete histórias para sacudir o esqueleto, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2002
A banguelinha, Editora Moderna, São Paulo, 2002
Muito capeta, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2004
A raça perfeita, Angela-Lago e Gisele Lotufo, Editora Projeto, Rio Grande do Sul, 2004
A casa da onça e do bode, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
A flauta do tatu, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
O bicho folharal, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
João felizardo, o rei dos negócios, Cosac-Naif, São Paulo, 2006
Um livro de horas, Editora Scipione, São Paulo, 2008

Fontes:
COELHO, Nely Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil / juvenil brasileira: 1882-1982. 2. ed. São Paulo: Quíron / Brasília, 1984. Disponível na wikipedia
Enciclopédia Itaú Cultural

J. G. de Araújo Jorge (Catedral de Eucaliptos)

(À Praça 15, hoje Praça Getúlio Vargas)

I
Coração de Friburgo a pulsar cada dia
desde que o céu se tinge ao rubor matinal,
para mim, não és a praça somente, eu diria
que és, a um só tempo, praça, e imensa catedral.

Catedral de eucaliptos… Verde catedral
cuja cúpula é a densa e inquieta ramaria
que tem em cada copa um rendado vitral
tecido pela luz do luar na noite fria!

Templo leigo do povo aberto a toda gente:
- aos da terra e aos de longe, ao sadio e ao doente,
aos que crêem no belo, mesmo sendo ateus.

Com seu domo de ogivas vegetais, frondosas,
ampla, imensa, soberba, esplêndida, radiosa,
és, – na altura da serra, – a morada de Deus!

II
Catedral de eucaliptos, verdes, farfalhantes,
onde se esgueira o sol pelas manhãs douradas
em mil jatos de luz, nos mais belos cambiantes,
descendo entre os vitrais das mais altas ramadas!

Brincam a sua sombra as crianças confiantes,
e ao seu canto infantil – como em contos de fadas, -
os verdes tinhorões, em gestos cativantes
namoram, lado a lado, as rosas encarnadas…

Imensa catedral de belezas pagãs!
O sol, vem, como um Deus, em seu fulvo esplendor
rezar nos teus altares todas as manhãs…

E eu também, como o sol, ergo um canto feliz,
e rezo ao céu e à terra uma oração de amor
igual a que rezou São Francisco de Assis!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo,1961.

Eça de Queiróz (A Ilustre Casa de Ramires)

Análise da obra

O romance simbólico, A Ilustre Casa de Ramires, é fruto da maturidade intelectual de Eça de Oueirós, revela o reencontro do autor com os temas e aspirações nacionais. A aproximação entre o protagonista, Gonçalo Mendes Ramires, e Portugal é explicitada no final, na comparação do amigo João Gouveia, que esboça com nitidez, no retrato que faz de Gonçalo, o caráter nacional português. Leia nas palavras de João Gouveia a síntese de um modo de ser português que o romance ilustrou fartamente:

     ”- Pois eu tenho estudado muito o nono amigo Gonçalo Mondes. E sabem vocês, sabe o senhor Padre Soeiro quem ele me lembra?

     - Quem?

    – Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro… Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia. A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, sentimentos de multa honra, uns escrúpulos quase pueris, não verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre alento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão pairador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

    –  Quem?…

    -  Portugal.

    Os três amigos retornaram o caminho de Vila-Clara. No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu à torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas ave-marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras“.

O caráter paradoxal do protagonista, volúvel e persistente; desleixado e escrupuloso; sonhador e pragmático; vaidoso e despojado; melancólico e falador; medroso e afoito; covarde e heróico; apegado ao passado, mas que, num arroubo visionário, arremete-se à aventura africana; bom e mau; — todo esse jogo de contradições impõe a antítese como o elemento estrutural do romance, a partir da engenhosa solução de embutir no romance realista do sáculo XIX uma novela histórica, ambientada no sáculo XIII, e de entrelaçá­las como um jogo de antíteses, em torno do eixo fundamental: presente (a decadência) x passado (o heroismo, a glória).

Essa estrutura antitética permitiu a Eça exprimir sua dúbia natureza: a do observador crítico do seu mundo e de lírico visionário, através da composição de duas histórias distintas e contudo integradas, vazadas em dois estilos literários, o realista e o romântico, que dialogam incessantemente, em contraponto, constituindo uma unidade coerente, complexa e artisticamente bem realizada.

A construção e a fusão da história principal de Gonçalo e da novela inserida de Tructesindo exemplificam a mestria do escritor. Ao comparar as duas versões da obra, a publicada em folhetins, na Revista Moderna (1897 / 1898), e a definitiva, ampliada, editada em livro, no ano da morte de Eça, em 1900, Álvaro Lins. observa que, se ao escrever a novela histórica sobre Tructesindo Metidas Ramires, Eça pretendeu satirizar o gênero que consagrou Alexandre Herculano, Garrett e Rebelo da Silva, fazendo um “pastiche”, ou um paródia irônica, acabou por construir uma pequena obra-prima da história portuguesa, uma reabilitação do romance histórico.

Horneni Cidade observa que: “Nenhum romance histórico, de meu conhecimento, é, como este, adequado à demonstração da eficácia, do gênero para a ressurreição de uma alma amortecida, por insinuação das energias evocadas de antepassados históricos. Pode, talvez, admitir-se como possível de Eça a tese da ineficiência da novela histórica no fortalecimento das energias coletivas. Mas seria bem estranho que, para provar tal ineficiência, se pusesse tão poderosamente evidente a transformação, por uma novela, duma vida individual.” (Colóquio-Letras, nº 23, Janeiro de 1975)

Ao analisar o romance, João Medina destaca uma passagem na qual os vizinhos e amigos do fidalgo, sabendo do rasgo de Gonçalo ao castigar o valentia que o desrespeitara, “sorriam para a velha Torre, escura e rígida, na doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do herói, o secular fundamento de seu heroísmo”.

Para esse crítico, “todo o romance se condensa nesta frase simbólica: para Gonçalo, confesso retrato-símbolo do país, a questão é, como para Hamlet no palácio pestilencial de Elsenor, a do resgate da comunidade: conto agir? como quebrar o circulo do mal e nele inserir uma ação justa e libertadora? Como salvar-se e, ao fazê-lo, salvar a Dinamarca inteira? A resposta parece ser uma só: pelo recurso aos fundamentos mesmos da nacionalidade, ou seja, reacordando as forças da uma nação prostrada, mas ainda capaz de grandeza e vida.” (Colóquio-Letras, nº 14, julho de 1973)

O domínio que o autor exerce sobre o leitor é mais forte na versão do livro por causa do seu emprego maia vasto da narração e da descrição subjetivas, assim como da maior quantidade de diálogos dramáticos. Os ângulos ambíguos da narrativa e do diálogo unem mais o autor, o narrador, a personagem e o leitor na mesma projeção física e emocional. Muitas vezes o leitor não é capaz de dizer quem é que está a conduzir o fio da narrativa, ou quem está a falar em estilo indireto-livre, se é a personagem ou o narrador subjetivo. Essa ambigüidade do ângulo da narrativa e a mudança constante da narração objetiva para a subjetiva fazem parte da visão impressionista que Eça tinha da composição literária. Uma confusão ainda maior do foco narrativo é causada pelos múltiplos planos literários da ficção em A ilustre Casa da Ramires. A história principal (o romance realista-impressionista A Ilustre Casa de Ramires); a história inserida (a novela histórica romântica, ambientada na Idade Média, A Torre de D. Ramires, poemeto épico do tio Duarte, O Castelo de Santa lrinéia e o Fado dos Ramires, trovado pelo violeiro Videirinha; alternam no foco da narrativa e confundem ainda mais o leitor.

Foco narrativo / Tempo

Narrado em terceira pessoa, por narrador onisciente, que não se identifica na trama, o romance realista, ambientado na segunda metade do século XIX, tem a duração cronológica de cinco anos; do início da escritura da novela histórica, A Torre dos Ramires, em junho de, presumivelmente, 1696, até a conclusão da novela e quatro anos após, o regresso de Gonçalo de sua bem-sucedida aventura africana. Assim, o período em que o protagonista Gonçalo escreve a sua novela sobre o avoengo Tructesindo é o mesmo em que Eça escreve o romance realista, que tem como centro exatamente o Gonçalo, narrador de A Torre de Ramires. É o que se pode concluir do seguinte fato: Gonçalo, ao escrever a sua novela histórica, aclimatada no século XIII, tem como fonte um poemeto épico, O Castelo de Santa Irinéia, escrito pelo tio materno Duarte, em 1846. Gonçalo supõe que o poerneto do tio já tivesse sido esquecido, e que seria fácil transpor as formas fluídas do Romantismo de 1846 para a sua prosa máscula (como confessava o Pinheiro), de uma densidade de mármore (maneira lapidária de Salambô”.

Ao apontar a dois períodos literários que seriam comparados (o Romantismo de Tio Duarte, ou de Herculano, Garrett e Rebelo da Silva, e o Realismo de Gustavo Flaubert, autor de Salambô, Eça situa claramente a história no seu tempo, cerca de cinqüenta anos depois de 1846, ou seja, em 1896. Quanto à idade do protagonista, quando Gonçalo inicia seu empreendimento literário, pode ser determinada a partir de informações que constam do flash back inicial: Gonçalo encontrou Pinheiro, no Rossio, no mês anterior ao do começo da história – em julho, e isto aconteceu um ano depois de Gonçalo ter se formado em Coimbra. O pai do fidalgo morrera quando ele cursava, com 22 anos, o 3º ano da faculdade. Assim, 22 anos + 2 anos até a formatura + 1 ano depois de formado = 25 anos, quando o romance começa.

Enredo

No primeiro capítulo, o fidalgo aparece trabalhando o seu projeto literário, na livraria do solar de Santa Irinéia, tendo vista para a inspiradora de sua novela, a antiquíssima Torre dos Ramires, que remontava ao século X.

Depois de determinar o tempo imediato e o lugar da história, Eça recua no tempo para narrar a origem e evoluçãoda nobre linha dos Mendes Ramires, a começar com o casamento de Ordonho Mendes, em 987, com Dona Elduara, filha de Bermudo, o Gotoso, rei de Leão. Isto é feito, primeiro imediatamente, por intermédio da voz narrativa do genealogista dos Ramires, em estilo indireto livre: Gonçalo Mandes Rentes (como confessava esse severo genealogista, o barão de S. Prudêncio) era, talvez, o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal.

Desde os tempos de D. Ordonho Mendes que a família Ramires se notabilizara pelos seus feitos heróicos: “E assim, em cada lance da história de Portugal se encontra um Mendes Ramires.” O genealogista dá-nos, deste modo, a história dos Ramires, até o presente real. As intenções satíricasde Eça começam a transparecer através de um véu de semi-seriedade. Lourenço Ramires toma parte da batalha de Ourique e testemunha o aparecimento de Jesus Cristo;  Martim Ramires toma parte do cerco de Tavira; Egas Ramires recusa-se a deixar entrar Dona Leonor Teles na torre; Diogo Ramires mostra sua coragem em Aljubarrota; Fernão Ramiree e seu filho ganham fama em Alcácova; Baltazar Ramires deixa-se deliberadamente afundar com seu navio; Paulo RamiIres sacrifica-se em Alcácer-Quibir; Vicente Ramires ajuda na restauração de D. João IV na batalha contra o domínio espanhol.

O Ultimato Britânico de 1890, que exigia a retirada das forças portuguesas de uma de suas possessões africanas, que o governo humilhantemente acatou, e a virtual bancarrota que se seguiu ao duro abalo da ameaça inglesa acenderam os brios nacionais. Foi o que aconteceu também a Gonçalo: depois de ter chicoteado o valentão de suiças loiras, superando suas dúvidas e sua covardia, o fidalgo confessa: “Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejávamos urna guerra em Portugal, e nós, cercados na torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos espanhóis.

O passado imediato do pai de Gonçalo é narrado pela voz do narrador original, onisciente, que substitui o genealogista. O pai do protagonista é descrito como oscilando de partido em partido ora regenerador, ora histórico, vivendo constantemente endividado em Lisboa, até ser nomeado Governador Civil de Oliveira pelo Ministro, cuja amante ele costumava, respeitosameente, acompanhar a S. Carlos. Neste mesmo ano Gonçalo é reprovado no 3º ano de Coimbra. O fracasso do protagonista, na linha do tempo, é colocado em paralelo com as manobrar políticas do pai (semelhantes às que o filho protagonizará mais tarde). O narrador prepara o leitor para o modus operandi de Gonçalo.

O problema central de Gonçalo é a falta de dinheiro. Deve ainda seiscentos mil-réis do último ano da faculdade. O arrendamento de suas terras mal dá para manter o solar, com o Bento, velho criado, e Rosa, a cozinheira. Assim, a política pareceu o caminho mais fácil para a reabilitação econômica e social. Mas havia dois obstáculos: os históricos estavam no poder, e Gonçalo era do Partido Regenerador, e a cadeira de deputado, representante da sua circunscrição eleitoral, estava preenchida pelo velho e poderoso Sanches de Lucena, marido do D. Ana de Lucena, mulher formosa e mal-falada, vulgar, que, mais tarde, já viúva, será incorporada aos planos (frustrados) do fidalgo de arranjar-se economicamente.

Assim, a curto prazo, seus projetos políticos são inviáveis e resta a Gonçalo semear o seu nome através da glória literária, explorando o passado heróico dos ancestrais e associando as glórias dos Ramires à sua própria imagem. É o  que se chamaria hoje de um golpe de “marketing eleitoral”.

Não lhe faltava alguma experiência literária. Nos tempos de estudante havia publicado uma novela histórica, Dona Guiomar, no semanário A Pátria, dirigido pelo amigo José Lúcio Castanheiro. Essa mosmo Castanheiro, patriota assumido, tinha agora um projeto mais ambicioso: a edição dos Annaes de Literatura e de História, visando à “ressurreição do sentimento português”. Num encontro casual com Gonçalo, em Lisboa, Castanheiro cobrou o antigo projeto do ex-colega de escrever uma novela histórica, A Torre dos Ramires, acerca de Tructesindo Ramires, um antepassado dos tempos dos primeiros reis de Portugal, os Borgonhas, dos séculos XII e XIII. Gonçalo compreendeu que era a ocasião de implementar o seu projeto, esperando capitalizar algum dividendo eleitoral e social.

Com esses propósitos, na sua livraria, cercado da bibliografia necessária, em sua cadeira de couro, contemplando o grande símbolo de sua estirpe, a torre, principia o seu trabalho de escritor. Tem como base um poema heróico, escrito cinqüenta anos antes, por Tio Duarte - O Castelo de Santa Irinéia, de escassa repercussão na época, e agora certamente desconhecido. Assim, a matéria histórica e mesmo sugestões literárias poderiam ser livremente manipuladas, sem o risco de acusação de plágio. Urgia apenas refazer a linguagem heróica, enfática e romântica dos versos de Tio Duarte, colocando­os em prosa, ao gosto de sua época, o Realismo, e adaptar algumas situações, a principiar dos primeiros versos.

A partir da Restauração, em 1640, inicia-se a narração do declínio da linhagem histórica: Já, porém, como a nação, a raça forte enfraquece. Aqui Eça estabelece um contraste deliberado com o passado glorioso e o elemento humorístico toma-se predominate, à medida que o plano histérico e o contemporâneo convergem para mostrar a degenerescência da nação e da nobre linhagem. Álvaro Ramires, favorito de D. Pedro II, foge para Sevilha com a mulher de um inspetor de finanças que mandara açoitar até a morte, por escravos. E, nesta veia irônica e humorista, continua a enumerar a deterioração de cada menbro da família Ramires, até chegar ao avó de Gonçalo, Damião Ramires, doutor liberal, dado às musas, que desembarca com D. Pedro no Mindelo; compõe as empoladas proclamações do partido, funda um jornal, o Antifrade, e depois das guerras civis arrasta uma existência reumática em Santa Irinéia, embrulhado no seu capotão de briche, traduzindo para o vernáculo, com um léxicon e um pacote de simonte, as obras de Valério Flaco.

Mas as obrigações de proprietário rural desviam as atenções do fidalgo para o cotidiano. Manuel Relho, arrendatário da quinta, por oitocentos mil­réis, numa de suas bebedeiras habituais, começou a atirar pedras contra o solar de Gonçalo, atingindo a livraria. Acovardado, tranca-se no quarto, defendendo a porta com uma cômoda arrastada às pressas. No dia seguinte, vai ao regedor dar queixa do arrendatário, e obtém justa causa para despedi-lo, com a família. Um outro lavrador, José Casco, interessou-se pelo arrendamento e, após algumas negociações, aceita pagar novecentos e cinqüenta mil-réis ao fidalgo. Um aperto de mão sela o compromisso entre ambos, era o que bastava nos antigos códigos de honra.

Retoma a escritura das primeiras linhas da novela A Torre dos Ramires, mas encalacra logo no inicio. Adormece, entediado.

No capitulo segundo o fidalgo recebe a visita do Titó (Antônio Vilalobos), amigo velho, admirado por sua franqueza, pela força física, pela independência, e por una especialização no estudo das bastardias e crimes das famílias nobres de Portugal. Vinha convidar o Ramires para um jantar, no Gago, em companhia de dois outros amigos, o violeiro Videirinha e o João Gouveia. Gonçalo aceita o convite, e dispensa o caldo de galinha que Rosa preparava num rasgo de generosidade, manda levar a canja a uma viúva pobre, a Críspola, adoentada e cheia de filhos. Manda também dar algum dinheiro à viúva, além das suas recomendações. A atitude do fidalgo oscila entre a generosidade, o paternalismo e o populismo eleitoreiro que já se insinua. Atitude idêntica toma, por ocasião de sua visita ao deputado Sanches de Lucena, ao ceder sua montaria ao camponês Manuel Solha, que mal podia andar, ajudando o pobre a subir na sua égua, ainda que tivesse de sujar as luvas impecáveis para erguer o camponês. Sanches de Lucena ironizou Gonçalo a conduzir o trabalhador, comparando o fidalgo ao Bom Samaritano, da tradição bíblica.

André Cavaleiro, que funciona corno antagonista de Gonçalo, é apresentado ao leitor no fiash back expositivo de narrador onisciente, quando ele se detém no quinto ano do protagonista em Coimbra. Inimigo de André, que acabara de ser nomeado Governador Civil de Olveira, o narrador só mais tarde revelará as razões da inimizade do fidalgo. Alude, inicialmente, aos dois artigos ofensivos ao novo Governador Civil, que Gonçalo escrevera na Gazeta do Povo, sob o pseudônimo de Juvenal. Simbolizado pelos bigodes, André Cavaleiro seria atirado abaixo de seu cavalo, diz Gonçalo, fazendo um trocadilho óbvio. Só mais tarde, depois do jantar na estalagem do Gago, é que, através do discurso indireto livre o leitor fica sabendo da razão real do ódio que o fidalgo devotava a André Cavaleiro. Nos tempos de estudante, o agora Governador Civil cortejara Gracinha, irmã de Gonçalo, e freqüentara o solar dos Ramires, estimulado pela tolerância de Miss Rodhes, a governanta inglesa, e do próprio pai. Mas, sem explicação, ao entrar na política, abandonou a Irmã de Gonçalo. Graça acabou se consolando; casou-se com um ricaço apaixonado por ela, o ingênuo José Barrolo, apelidado o Bacoco (= tolo, ignorante, presunçoso), que desconhecia o antigo namoro, não de todo debelado. A proximidade de André, tido como mulherengo, era um perigo que Gonçalo temia, e que se tomou iminente, quando o Governador Civil começou a pavonear-se em frente à Casa dos Cunhaes, palacete em que viviam José Barrolo e Graça; daí o artigo de Gonçalo contra André, com o título apelativo de Monstruoso Atentado.

Vários motivos prenderam o fidalgo em Oliveira: o aniversário da irmã e a escritura de arrendamento da quinta a um outro pretendente, Manuel Pereira, ao preço acertado de um mil e cinqüenta réis, ou um conto e cinqüenta, como se dizia então. O fidalgo rompia, dessa forma, o acordo anterior com José Casco, apalavrado e formalizado com um aperto de mão. Mas as necessidades financeiras do fidalgo eram, momentaneamente, mais fortes que os resíduos de  sua fidalguia.

A essa altura, Gonçalo havia concluído o capitulo segundo da novela histórica A Torre dos Ramires. A escritura da novela e seu desenrolar são entremeados ao dia-a-dia do fidalgo, funcionando como uma espécie de contraponto heróico às contingências tão mesquinhas de seu narrador. No século XIII, Tructesindo, protagonista da novela histórica, assume os riscos de se opor ao novo rei de Portugal, D. Afonso II, por um juramento que fez ao seu pai, D. Sancho, de que seria o protetor de sua filha, D. Sancha. Vai à guerra em desvantagem, pela palavra empenhada. No século XIX, Gonçalo muda de partido, do Regenerador para o Histórico por simples oportunismo eleitoral (como também o fizera seu pai); rompe o compromisso assumido com José Casco, por alguma vantagem financeira, e acovarda-se diante das ameaças dos camponeses. O narrador onisciente diverte-se com o jogo de oposições passado x presente e com o emaranhado de ações e personagens.

Somando-se o romance à novela contabilizam-se noventa e quatro personagem atuantes, que são vistas” em ação; cento e cinqüenta personagens referidas, em diversas circunstância, pelas personagens atuantes; além de trinta e quatro mencionadas na árvore genealógica dos Ramires e da monarquia lusitana, sob a Dinastia de Borgonha (reis, heróis, guerreiros etc.).

José Casco dos Bravaes, enfurecido com a falta de palavra de Gonçalo quanto ao arrendamento das terras, põe o fidalgo a correr, com ameaças. Escoltado por empregados, vai a Vila Clara dar queixa do camponês. Aí as coisas começam a mudar de direção: em Vila Clara, o administrador e amigo, João Gouveia, dá noticia de Sanches de Lucena, o deputado da região: estava morto. Com isso, ficava aberta uma cadeira na Assembléia e ficava disponível a viúva. D. Ana, mulher bonita, rica e vulgar. Superando dois obstáculos: o fato de pertencer à oposição e ter de mudar de partido e, o mais grave, ter de se reconciliar com o inimigo, André Cavaleiro, de quem dependia a indicação partidária, Gonçalo, por sugestão de Gouveia, vale-se do episódio de José Casco para se reaproximar do Governador Civil, dando a ele queixa do camponês.

A reaproximação se concretizou, mesmo pondo em risco a honrada irmã do fidalgo, que ficaria exposta ao assédio de André Cavaleiro. O narrador onisciente, através do discurso indireto livre, reproduz o drama de consciência de Gonçalo, entre a ambição política e a honra familiar. Prevaleceu a ambição e, racionalizando cinicamente, o fidalgo supõe que Graça, volúvel e fútil como toda a mulher queirosiana, saberia defender sua própria honra.

Obtém a nomeação; marca um jantar de confratemização com André no palacete de Barrolo e Graça; participa aos amigos a candidatura; retoma sua novela histórica; ampara a mulher e o filho de José Casco (preso por ordem de André e solto, mais tarde, por pedido de Gonçalo); inicia a campanha política e, auxiliado pela “prima” Maria Mendonça, começa a se aproximar da víúva, D. Ana de Lucena e dos duzentos contos de sua herança, que falavam mais forte que as conhecidas origens da pretendida: filha de um açougueiro e irmã de um criminoso. Tudo parece correr bem para o fidalgo, apesar de alguns contratempos: Gonçalo recebe uma carta anônima insinuando que ele facilitara a aproximação de André e Graça e, numa vendinha de beira de estrada, foi Insultado por um valentão e fugiu, rapidinho, sem reagir: era o Ernesto de Nacejas.

A novela histórica prosperava, já que o José Lúcio Castanheiro, diretor dos Annaes de Literatura e de História, começava a pressionar o fidalgo quanto aos prazos para a publicação de A Torre dos Ramires. Concluído o terceiro capitulo, Gonçalo vai a Oliveira mostrar sua obra literária à irmã e ao Padre Soeiro, espécie de arquivista dos feitos dos Ramires do presente e do passado. De saída para Oliveira, recebe o apoio político do Visconde de Rio-Manso.

Na seqüência, deu-se o previsível. Chegando ao palacete não encontra o cunhado, mas, passeando pelo jardim, surpreende, sem ser visto, um diálogo amoroso (um pouco mais que isso) entre André Cavaleiro e Graça. Volta para Santa Irinéia arrasado, amargando a má consciência de ter facilitado o adultério, e um ódio difuso de todos: Graça, André, Barrolo e de si mesmo. Na verdade, o que temia era a repercussão do escândalo na sua campanha política.

Vive, a seguir, uma fase de profunda depressão. Sem dinheiro, com dívidas vencidas, ausentes os amigos de sempre (Videirinha, Titó e Gouvela), entrega-se ao capitulo final da novela e à projetada união com Dona Ana de Lucena,  com a diligente intermediação da onipresente “prima” Maria Mendonça. Após várias manobras de aproximação, o fidalgo desiste da viúva, quando Titó revela que D. Ana Lucena tinha a um amante (presumivelmente ele mesmo, Titó), além de lazer objeções à conduta da viúva Lucena.

Gonçalo passa a noite a remoer seus insucessos, sente-se medroso, dependente, fraco e exala “um suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro”. Adormece sonhando com os antigos Ramires. Escuta dos avoengos exortações como — “Neto, doce neto, toma minha lança nunca partida!…” — “oh neto, toma as nossas armas e vence a sorte inimiga…” Mas Gonçalo, mergulhado nos seus fracassos, responde: — “Oh avós, de que me servem as vossas armas — se me falta a vossa alma?…

Estamos já no décimo capitulo, no qual se opera uma mudança no rumo dos acontecimentos. Aqui começa a redenção de Gonçalo e dos valores que simboliza. A descoberta, pelo velho criado Bento, de um antiqüíssimo Chicote, com o castão de prata, perdido no sótão do solar, e que o fidalgo instituiu como seu chicote de guerra, antecipa a retomada das virtudes viris da família. Após o pesadelo com os antepassados, após suas exortações, Gonçalo acordou excepcionalmente implicante. Começou por libertar-se da tutela que Bento vinha exercendo, sorrateiramente, sobre sua vida, tratando o criado com rispidez. Armou-se do chicote de cavalo-marinho e saiu pela estrada, montado na sua égua. Pretendia visitar o Visconde de Rio-Manso, na quinta da Varandinha. Ao interpelar um rapaz, pedindo a indicação do melhor caminho para a Varandinha, Gonçalo topou pela terceira vez com o valentão que o injuriou novamente: — “oh Manuel, que estás tu aí a ensinar o caminho, homem! Este caminho aqui não é para os asnos!” O fidalgo reagiu e o valentão, Emesto de Nacejas, saiu-se com outro insulto: — “…E para diante é que vocêjá não passa, seu Ramires de Merd…”

E começou a redenção: o fidalgo investiu furioso sobre o valentão, a golpes de chicotadas, prostrando-o no chão, quase morto. Arremeteu-se aos berros contra o rapaz, que, em defesa do valentão, atirara de espingarda contra Gonçalo, errando o alvo. O chicote arrancou sangue do pescoço do Jovem Manuel, que caiu inerte, dando com a cabeça num pilar. O pai do rapaz quis interferir para salvar o filho, mas Gonçalo dominou-o e fê-lo correr diante de sua montaria, apesar das súplicas do velho. Sentia-se um verdadeiro Ramires, enfim, era um homem! A noticia da valentia do fidalgo propagou­se rapidamente.

A redenção da honra familiar dá-se na seqüência: Barrolo recebera uma carta anônima. insinuando irônica e maldosamente a relação entre Gracinha e André Cavaleiro, e fora mostrá-la ao fidalgo. Gonçalo guardou a carta e tranqüilizou o cunhado, atribuindo a denúncia às Lousadas, conhecidas maledicentes. Barrolo acatou a idéia de Gonçalo e desconsiderou as insinuações. O fidalgo, em seguida, exibe a carta à irmã e exige dela que ponha fim à relação com André. Obtém mais uma vitória, agora no front interno, na trincheira familiar.

Os jornais da capital noticiaram o feito de Gonçalo, Videirinha compôs mais duas trovas do seu Fado dos Ramires, alusivas à bravura do amigo: 

“Os Ramires doutras eras

venciam com grandes lanças,

este vence com um chicote, 

vede que estranhas mudanças!

É que os Ramires famosos,

da passada geração,

tinham a força nas armas

e este a tem no coração!”

Em meio a cartas de felicitações e homenagens, Gonçalo concluiu sua novela. A campanha eleitoral ia de vento em popa. O rei, por sugestão de André, outorga a Gonçalo o título de Marquês de Treixedo. Títulos de nobreza não faltavam a Gonçalo, fina-flor da nobiliarquia portuguesa. A comenda não o comoveu.

A eleição de Gonçalo deu-se por esmagadora maioria. Finalmente, era deputado. O sucesso literário não foi menos retumbante: a novela A Torre dos Ramires, publicada no primeiro número dos Annaes de Literatura e de História, foi um êxito completo, de critica e de público.

Em janeiro, por ocasião do início do ano legislativo, o fidalgo instala-se como deputado em Lisboa. Freqüenta com desenvoltura a alta roda, e torna-se conhecido na capital.

Mas eis que surge nova reviravolta. Quatro meses depois de instalado em Lisboa, Gonçalo consegue uma concessão de terra em Macheque, na Zambézia, possessão portuguesa na África. Hipoteca suas terras para obter capital e, em junho, acompanhado por Bento, parte para sua aventura africana, embarcado no paquete sugestivamente chamado Portugal. Já no segundo capítulo Gonçalo tivera um sonho em que se viu sobre as selvas profundas de África, debaixo de coqueiros sussurrantes…” No quarto capítulo confessara à sua irmã que andava com a idéia de ir para a África, romântica e ingênua idéia que extraiu da leitura do romance As Minas do Rei Salomão (do qual Eça fizera uma ‘tradução’ para a língua portuguesa).

Quatro anos depois, tendo plantado dois mil coqueiros, muito cacau e muita borracha, Gonçalo regressa a Portugal já abastado, a saúde revigorada e o moral retemperado. O último capitulo ocupa-se dos preparativos para o seu regresso triunfal à Santa Irinéa. Em carta à Graça, Maria Mendonça, a “prima” que se avistara como fidalgo em Lisboa, informa de seu estado de saúde e de espírito, e antecipa a notícia de seu casamento, em breve, com a Rosa, a neta do Visconde do Rio-Manso.

O livro termina com o paralelo entre Gonçalo e Portugal, transcrito e comentado no segundo parágrafo desta análise.

A novela histórica A Torre dos Ramires

Inserido na história principal, a novela escrita por Gonçalo sobre seus antepassados do século XII, sobre Tructesindo Mendes Ramires, pode ser lida em três planos:

1. No plano histórico, focaliza o estabelecimento do território português a consolidação da autoridade real durante o período do século XII. São referidas as figura históricas de D. Afonso Henriques, D. Tereza, D. Sancho I, D. Afonso II e os Infantes. As disputas incluem não só as discórdia entre a família afonsina, mas também a rivalidade entre a nobreza e o clero. A lealdade ao rei é disputada pelas Infantas, que são apoiadas pelas classes superiores do clero, incluindo o Papa. A questão da luta pelo poder – o rei, os nobres e o clero – passa também pela disputa dos direitos de propriedade, dentro da ordem feudal.

A questão da vassalagem e da lealdade, fundamental na Idade Média, a desencadeadora da novela. Tructesindo Mendes Ramires havia jurado lealdade a D. Sancho I, comprometendo-se a servir e proteger a sua filha D. Sancha. Morto o rei, assume o trono o primogênito, Afonso II, que entra em desavença com os irmãos sobre o testamento. Os infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam pela França e pelo Reino de Leão. D. Sancha, através do Alcaide de Aveiras (disfarçado em beduíno), pede o auxílio de Tructesindo. Eis o nó da questão: a quem se deve primeiro lealdade? Ao novo rei, D. Afonso II? A D. Sancho I e ao juramento anterior? Ao Papa o aos chefes da Igreja? Para Tructesindo a lealdade ao juramento transforma-se numa questão de honra, mesmo contra o novo rei, contra os conselhos do genro, Mendo Paes e contra os interesses mais imediatos.

“De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e comigo!” sentencia Tructesindo.

O sistema medieval de resolver as disputas era a guerra, e o protagonista da novela despacha seu filho Lourenço, com quinze cavaleiros e noventa homens de infantaria, para socorrer as infantas D. Sancha e D. Teresa. Em todos os passos da ação de Tructesindo, Lourenço e do antagonista, Lopo de Baião, se fazem presentes os códigos da cavalaria medieval, que admitia armadilhas, espionagem, ataques imprevistos e até a morte infamante, por vingança.

2. No plano humano, estão presentes os temas relacionados à grandeza e virilidade dos bárbaros cristianizados do século XII, especialmente o da vingança. A fortaleza de Tructesindo, na vingança da morte do filho o no cumprimento da palavra, a coragem diante da morto, o orgulho acima do amor, a superação de medo são temas que se entrelaçam na exaltação das virtudes do pai e do filho.

A autoridade de Tructesindo sobre sua família e seus vassalos é incontrastável: ele decide o destino de Lourenço e da filha Violante sem qualquer contestação.

3. No plano literário, que se sobrepõe a qualquer outro na novela inserida, Gonçalo comenta freqüentemente a sua narrativa e as suas personagem, na tentativa de fazer reviver a ficção histórica à maneira realista de Gustavo Flaubert, emSalambô. Seu objetivo é evocar os tempos medievais de maneira lapidar e não no tom melancólico e brando dos românticos. Para isso ele desenha suas personagens de acordo com o rígido código guerreiro, numa linguagem que lembra esses tempos rudes e primitivos. À medida que sua própria história progride, Gonçalo comenta seu estilo, pondo-o em contraste os seus métodos e técnicas com os do poema de Tio Duarte. O tema da oposição entre a ficção histórica romântica e a ficção histórica realista revela, na insistência com que é projetado, o gosto de Eça pela narrativa fantasista, na forma e nos moldes em que, como autor realista, admitia e admirava: “um manto diáfano de fantasia”.

Os elementos simbólicos harmonizam-se com os propósitos do romance e da novela. A torre é o principal símbolo de ligação entre Gonçalo e Tructesindo, no tempo e no espaço. Representando Portugal – passado, presente e futuro – através de Gonçalo e de seus antepassados que nela viveram, a torre é a figura dominante do passado coletivo de Portugal, assim como de seu futuro não realizado.

O brasão dos Ramires, o escudo de Tructesindo e a sua espada, herdada dos antepassados godos, sugerem a imagem de força e violência, das qualidades sublimes e bárbaras do mundo feudal do século XII, em contraste com o mundo de Gonçalo: Portugal do século XIX.

No capítulo cinco do romance, Gonçalo insere a batalha do Canta-Pedra, primeiro cometimento heróico da novela. Lourenço, mandado pelo pai em socorro às infantas, é interceptado pela forças do Lopo de Baião, o bastardo, que se aliara ao rei. Lopo havia sido recusado por Tructesindo corno pretendente à mão de D. Violante, filha mais nova do cavaleiro de Santa Irinéia. Havia entre ambos também uma questão familiar. Lourenço foi capturado e conduzido prisioneiro por Lopo de Baião, que pretendia trocar a liberdade e a vida do filho de Tructesindo pela mão da filha: D. Violanle. O filho, antes do pai, recusa a proposta. Lopo ameaça matar Lourenço com o punhal e Tructesindo atira sua espada no bastardo para que seu filho não fosse morto pelo vil punhal de Baião, mas pela sua nobre espada. O Bastardo se enfurece e enterra o punhal na garganta de Lourenço, abandona o corpo do morto e foge. Tructesindo vocifera seu juramento de vingança: — Muros de Santa Irinéia, não vos torne eu a ver, se em três dias, de sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de Baião!

Na perseguição do Bastardo, Tructesindo conta com um estrategista, D. Garcia de Viegas, que, prevendo os passos do inimigo, planeja sua captura. D. Pedro de Castro, também aliado, acolhe os cavaleiros de Santa Irinéia e oferece reforços a Tructesindo.

Surpreendidos, os cavaleIros de Lopo de Baião são massacrados e o Bastardo é feito prisioneiro e condenado à morte vil. 

Desnudado, amarrado a um poste, com o corpo imerso na água até a virilha, as sanguessugas começam a cobrir o corpo do condenado. Tructesindo saboreia, impávido, sua vingança, vendo o suplício do assassino de seu filho. Morto, depois de lenta agonia, Baião é apedrejado pelos cavaleiros de Santa Irinéia e tem seu rosto recoberto de estrume. Estava concluída a vingança e a novela, com a vitória do protagonista, nas armas, e de seu descendente, o narrador, nas letras.


Fonte:

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Ceará

José Feldman (Devaneios Poéticos n. 6)


Uma Trova da Olga

Quando o amor fica em ruína,
sem chão, paredes… ou teto,
o alicerce nos ensina
que só o carinho é concreto.
OLGA AGULHON (PR)

Uma Trova Sanfidelense

A verdade nos maltrata
nesta lição contundente:
saudade que não se mata,
aos pouquinhos mata a gente.
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG (RJ)

Uma Trova Paranaense

Bem pior que a dor de dente
a de rins costuma sê-lo.
Não, porém, mais deprimente
do que a dor de cotovelo…
OSVALDO REIS (PR)

Trova Premiada

1960 – I Jogos Florais de Nova Friburgo
Tema Nacional- AMOR- Vencedor

Não me chames de senhor
que eu não sou tão velho assim,
e ao teu lado, meu amor,
não sou senhor…nem de mim!
RODRIGUES CRESPO (MG)

Um Poetrix

Pluvius
LÍLIAN MAIAL/RJ

tons de gris
na paleta do dia
desmancha teu olhar

Uma Trova do Francisco

Uma estrada, uma esperança,
uma mesma direção….
Sonho livre de criança
nas asas do coração!
FRANCISCO MACEDO (RN)

Trovadores que Deixaram Saudade

Da multidão dos enfermos
Que sempre busco rever
O doente mais doente
É o que não sabe sofrer.
CORNÉLIO PIRES (SP)

Cornélio Pires nasceu na cidade de Tietê, Estado de São Paulo, no dia 13 de julho de 1884, e faleceu na cidade de S. Paulo, no dia 17 de fevereiro de 1958.

Homem de personalidade inconfundível, tornou-se figura popular e de bastante destaque em todo o Brasil, graças ao trabalho, por ele encetado, de viajar pelas cidades do Interior do Estado de S. Paulo e outros Estados, estreando na condição de caipira humorista. Em 1910, Cornélio Pires, apresentou no Colégio Mackenzie hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, um espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros, e duplas de cantadores do interior.

Dedicou-se ao jornalismo, passando a trabalhar na redação do jornal O Comércio de São Paulo. Posteriormente passou a exercer atividades nos jornais O São Paulo e O Estado de São Paulo, onde desempenhou a função de revisor e, finalmente, no ano de 1914, passou a dar a sua contribuição ao órgão O Pirralho.

Pelos idos de 1910, Cornélio Pires lançou o livro Musa Caipira, obra que foi largamente saudada pela crítica, graças ao seu conteúdo tipicamente brasileiro.

Foi autor de mais de vinte livros, nos quais procurou registrar o vocabulário, as músicas, os termos e expressões usadas pelos caipiras. No livro “Conversas ao Pé do Fogo”, Cornélio Pires faz uma descrição detalhada dos diversos tipos de caipiras e, ainda no mesmo livro, ele publica o seu “Dicionário do Caipira”. Na obra “Sambas e Cateretês” recolhe inúmeras letras de composições populares, muitas das quais hoje teriam caído no esquecimento se não tivessem sido registradas nesse livro.

Foi o primeiro a conseguir que a indústria fonográfica brasileira lançasse, em 1928, em discos de 78 Rpm, a música caipira. Segundo José de Souza Martins, Cornélio Pires foi o criador da música sertaneja, mediante a adaptação da música caipira ao formato fonográfico e à natureza do espetáculo circense, já que a música caipira é originalmente música litúrgica do catolicismo popular, presente nas folias do Divino, no cateretê e na catira (dança ritual indígena, durante muito tempo vedada às mulheres, catolicizada no século XVI pelos padres jesuítas), no cururu (dança indígena que os missionários transformaram na dança de Santa Cruz, ainda hoje dançada no terreiro da igreja da Aldeia de Carapicuíba, em São Paulo, por descendentes dos antigos índios aldeados, nos primeiros dias de maio, na Festa da Santa Cruz, a mais caipira das festas rurais de São Paulo).

De sua vasta bibliografia destacamos: Musa Caipira, Versos Velhos, Cenas e Paisagens de minha Terra, Monturo, Quem conta um conto, Conversas ao Pé do Fogo, Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho – O Queima Campo, Tragédia Cabocla, Patacoadas, Seleta Caipira, Almanaque do Saci, Mixórdias, Meu Samburá, Sambas e Cateretês, Tarrafas, Chorando e Rindo, De Roupa Nova, Só Rindo, Ta no Bocó, Quem conta um Conto e outros Contos…, Enciclopédia de anedotas e Curiosidades, além dos dois livros espíritas.

Pouco antes de sua morte, Cornélio Pires, voltou para a cidade do Tietê e ali comprou uma chácara, onde fundou a ” Granja de Jesus”, lar destinado a crianças desamparadas. Infelizmente ele não chegou a ver a conclusão da obra.

Cornélio Pires chegou a organizar o ” Teatro Ambulante Cornélio Pires” perambulando de cidade em cidade, sendo aplaudido por toda a população brasileira por onde passava. Esse intento foi concretizado após ter abandonado a carreira jornalística.

Um Haikai

Santos
REGINA ALONSO (SP)

Parece mistério…
Ao vislumbre da tarde
silhuetas no mar.

Uma Trova do Ialmar

São Jorge, Santo Guerreiro,
Venha matar o Dragão
Da saudade, o tempo inteiro
Ferindo meu coração !
IALMAR PIO SCHNEIDER (RS)

Uma Fábula em Versos

O Porco e o Burro
TRILUSSA (CARLOS ALBERTO SALUSTRI) (ITALIA)

Um pobre Burro vendo para o prédio
do matadouro um porco amigo ir,
chorando disse: – Irmão, deves partir,
não nos veremos mais, não há remédio.
Precisas suportar esta medonha
sorte – lhe disse o Porco: – Não choremos,
talvez um dia nos reencontraremos
nalguma mortadela de Bolonha.

Alguma Poesia

Poeta, Poesia
LUCIA CONSTANTINO (PR)

No sagrado linho da vida,
bordas a pauta dos instantese
e te doas em melodias
a tantos caminhantes.

Enquanto espreitam e coabitam
tristezas e bem aventuranças,
são tuas linhas que refazem
o caminho da esperança.

Talvez sejamos, de uma aquarela,
cores que uma mão desconhecida
pintou em luz eterna
no mesmo manto da vida.

Tudo está certo no universo.
Somos parte de um divino plano.
É no fino linho dos teus versos
que bordam os anjos.

Uma Trova do Arlindo

Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada
que uma rosa com sereno
é só uma rosa molhada!
ARLINDO TADEU HAGEN (MG)

Soneto do Dia

Trova – Irmã Dileta
CECIL CALIXTO (PR)

Veio a virada e a trova entrou na frente
de roupas simples, liderando o meio.
Brincou, dançou a reluzir a mente,
clareando espaço, sem nenhum receio.

Tal emoção logo tornou-se ardente
ante este encanto de pureza cheio.
E o mestre da arte com razão consente
todo incentivo ao divinal anseio.

Eis que o soneto com orgulho abraça
a irmã humilde de fulgor e graça,
no festival das requintadas flores.

Assim, eu creio, que a paixão perdura,
disseminando no florais cultura,
sementes e pétalas com seus olores.

Fonte:
seleção por José Feldman

Bartolomeu Campos Queirós (Onde tem bruxa tem fada…)


Ela foi para o azul.

Fez nuvem com seu vestido, colou sua estrela perto das que lá brilhavam.

Seu chapéu, ela deu de presente para menino que por ali passeava… (só em sonho) E virou idéia.

Isso faz tantos anos!…

Um dia, Maria do Céu cansou de ser idéia.

Com as nuvens, costurou um vestido.

Pediu emprestados os sapatos de um anjo.

Arrancou sua estrela e colou na ponta de um pedaço de raio de Sol.

Com retalhos de papel de seda – resto de papagaio solto de linha – construiu seu chapéu.

E Maria, idéia no céu, virou fada!

Isso faz poucos dias…

Maria do Céu escorregou pelo brilho da Lua até a Terra.

Era um momento em que todos dormiam – até as ruas.

Ninguém, nem mesmo as folhas ou os ventos, viu a fada chegar.

Pela manhã, Maria do Céu acordou com o Sol. Saiu só e cedo para saber em que cidade estava. Percorreu ruas e praças entre o povo.

Maria confundia a todos.

Uns diziam:

é bailarina
é artista de circo que anda em arame
é moça de novela
é visita de outras terras.

Outros teimavam que ela era resto de Carnaval garota-propaganda cigana que tira a sorte.

“O mundo mudou”, pensou Maria, idéia vinda do céu. “Nem mesmo os meninos conhecem as fadas e seus poderes.”

Maria do Céu, agora fada sem trabalho na Terra, passeando pelas calçadas, pensava em coisas simples de fazer:

sorvete de sonho
algodão-doce de nuvem
sapo virar príncipe
vestido com finos fios de ouro e prata
carruagem de abóbora
bicicleta para passeios aéreos
jardins com flores e falas.

Mas Maria do Céu, que tudo podia, nada fazia. É que as fadas só realizam encantamentos quando pedimos. E ninguém pedia coisa alguma…

Maria era uma fada que olhava e gostava de saber das coisas. Assim, escutando, ela descobriu que outros mágicos tinham invadido a Terra e faziam coisas incríveis:

bicicleta com trote de cavalo
chicletes com vitaminas do super-homem
refrigerantes com sabor de vitória
televisão com poeira de guerra
petróleo com gosto de sangue
míssil mais feroz que a ambição.

Eles diziam onde as pessoas deveriam guardar seu dinheiro. Então o dinheiro crescia, crescia, crescia e ficava tão forte que os homens podiam comprar tudo: casa, carro, viagem, roupa, voto, poder, glória “sem entrada e sem mais nada”.

A fada do céu sentiu que não tinha tamanhos poderes. Seus encantamentos só eram coisas de alegrar coração…

Maria, fada na Terra, adormeceu pensando em retornar ao azul e ser novamente idéia. Ela estava segura de que na Terra não havia mais lugar para fada especializada em produzir alegrias.

Os mágicos – prometendo o céu na Terra – davam tantas tarefas aos homens que eles não tinham tempo para saber que faltava tempo para a alegria nascer.

Maria do Céu, triste como o poente, amanheceu pronta para partir no último raio de Sol, ao entardecer.

Mas justo nesse dia ela encontrou um amigo. Menino que lhe pediu para aprender a ler e escrever sem ir à escola. Coisa muito fácil para uma fada vinda do azul.

Com um gesto breve e leve, Maria encostou uma ponta da estrela na cabeça do menino.

A alegria do menino foi tão grande que aprendeu ainda geografia, história, astronomia e política.

Maria do Céu não partiu no pôr-da-noite. “Ficarei mais um dia”, pensou ela, “para usar mais a minha vara de condão.”

Acordou pela manhã, feliz como aluno em recreio, e saiu só, sem rumo, rua adiante. E ao primeiro menino ofereceu os seus poderes.

- Não – disse o menino. – Quero aprender a ler e a escrever na escola. Ontem – continuou ele – um colega aprendeu sozinho e foi levado pelos doutores para tratamento em hospital. Eles disseram que ele sabia mais do que devia. Não sei o que farão com ele! Talvez tome injeção de esquecimento. Com isso, eu fiquei com medo de saber.

O coração da fada disparou e só à noite conseguiu organizar esta idéia:

- Menino só pode saber das coisas que já foram testadas pelos adultos. Na Terra não se pode aprender nada pelo coração. Ah!, os mágicos! – exclamou Maria.

Maria não gostou de seu pensamento. Ela tinha certeza de que todos podemos saber muitas coisas só olhando o mundo. E menino aprende muito mais. Menino tem olhos novos e coração descansado.

Naquela noite, o silêncio não deixou Maria dormir. Com o pensamento livre, ela pensou o mundo secretamente. Pensou e viu que só se pode ser fada na Terra. Ser idéia no céu não adianta nada. É como ser homem sem corpo na Terra.

O silêncio de Maria pensou ainda sobre os mágicos que moravam na Terra. Eles só fabricavam magias convenientes para eles. E, para facilitar a produção, eles enchiam o coração dos meninos de esperanças. Quando uma esperança começava a morrer, eles fabricavam uma nova.

A esperança passou a ser uma certa doçura que sossegava a todos.

Assim, Maria do Céu resolveu morar na Terra e se fazer fada definitivamente.

Maria, sabendo agora das manhas dos mágicos, tinha no rosto um riso quase de raiva.

Desceu para a praça, lugar onde o povo parava para pensar a esperança, vendo nas vitrines desejos de todas as cores, reuniu em roda os meninos e disse:

- Sou fada. Vivi antigamente na Terra, fazendo virar verdade todos os sonhos dos homens. Teci cobertores com cantos de passarinho, para menino dormir um sono de floresta. Construí cidade de doce. Eram ruas cobertas de chocolates e casa de amor-em-pedaços. Dos chuveiros caíam fios-de-ovos ou eram cheias de mel as piscinas. Viajei com amigos para o fundo do mar, escutando canto de sereias ou montando em cavalo-marinho. Dei poderes aos sapateiros para costurarem botas-de-sete-léguas para menino correr o mundo. Casei príncipes e princesas em casas de anões ou em palácios reais. Um dia, saí da Terra para um repouso. Hoje voltei e posso atender a qualquer pedido. Peçam!

Mas menino algum abriu a boca.

Eles estavam misturados – assustados e encantados com os poderes da fada Maria do Céu.

De repente, um gritou:

- Quanto custa, quanto?

- Nada – respondeu a fada.

- De graça? – perguntou outro.

- Sim, falou a fada. – Eu trabalho pelo prazer de trabalhar. Enquanto trabalho e vocês ficam contentes vou aumentando a minha alegria. Alegria ninguém seqüestra. Eu durmo tranqüila e sem guarda para vigiar a minha casa. Alegria só aumenta e nem precisa depositar. Ela rende juros no coração.

Os meninos estavam gostando da fada, mas não sabiam o que pedir. Viviam tão acostumados a ter só esperança que a idéia de ter uma coisa de verdade fazia o coração ficar aflito.

Mas a fada não desanimava. Ela sabia que menino tem tanto desejo adormecido!

E continuava:

- Peçam viagens ao centro das sementes para ver a árvore antes de nascer. Peçam ruas cobertas de música para o caminho ser canção. Ou, quem sabe, livros com folhas brancas para os olhos inventarem as histórias! Peçam passarinho ensinado que dorme na palma da mão… Peçam luz de luar com gosto de suspiro para que se tenha sonho doce…

Enquanto falava, a fada lia paisagens nos olhos dos meninos.

De repente, uma voz de menina murmurou com medo:

- Eu quero uma cama para dormir. Sem cama não posso pedir sonhos.

Os meninos calaram…

A fada, assustada, olhou no coração da menina e viu a esperança balançando.

Com gesto preciso, fez surgir, no centro da praça, uma cama de madeira polida e mais um colchão de algodão macio.

- É sua – disse a fada.

A menina, olhando de longe e com medo daquela verdade, respondeu:

- Não quero mais. Não tenho casa para guardar a cama.

A fada, sem vacilar, continuou seu trabalho, fazendo nascer, no meio da praça, uma casa, com janelas para os quatro cantos do mundo! E, dentro da casa, a cama.

A alegria engoliu os meninos, que dançavam roda em volta da casa, olhavam pelas janelas, subiam no telhado, fingiam sono sobre a cama.

“A alegria é também uma maneira de menino organizar o coração”, pensou a fada.

No meio da brincadeira que os meninos viviam, na praça, foram aparecendo magicamente o banqueiro o industrial o economista o arquiteto o deputado o professor o padre o delegado.

Sem reparar na alegria dos meninos, o prefeito discursou:

- Senhores, a praça foi feita para o povo pensar a esperança. Não posso deixar esta casa plantada no meio dela. Como representante legítimo do povo, mandarei destruí-la.

O banqueiro perguntou ao industrial:

- Como a casa foi construída, se ninguém me pediu dinheiro emprestado?

O industrial respondeu:

- Seu material de construção não foi comprado na minha indústria. É contrabando.

O economista disse:

- Não fui consultado sobre os preços da construção.

O político discursou:

- Minha gente, eu não usei minhas Medidas Provisórias.

O arquiteto contou que não recebeu nenhuma encomenda do projeto e o professor lamentou a falta de cultura do povo.

O padre apenas rezou:

- Santo Deus!

E o delegado, que tudo ouviu, apenas ordenou aos soldados:

- Prendam imediatamente a pessoa que desobedeceu à lei.

O grito do delegado fez a tristeza visitar a cara dos meninos. Então Maria, fada presa na Terra, falou com os olhos um segredo no pensamento de cada um deles.

Eles entenderam tão bem que o sorriso tomou conta do corpo inteiro deles, menos do ódio dos soldados. Mas a fada olhou para todos, na praça, de maneira tão desarmada que desarmou até os guardas.

Ela partiu rua acima, carregando um coração muito livre mais um policial de cada lado.

Maria, deixada numa cela com janela quadriculada, passou em revista o mundo. Um pensamento quadrado entrou pelas grades:

“O mundo pertence agora aos mágicos e só eles pensam poder modificá-lo.”

A fada compreendeu por que era importante, para os mágicos, os meninos terem esperança. A esperança é uma coisa que sempre espera e nada faz.

Enquanto Maria pensava, os meninos dormiam e sonhavam verdades que só eles e a fada podem sonhar. Nem o barulho das máquinas derrubando a casa da praça incomodava o sono.

No outro dia, os meninos acordaram mais donos do segredo. Saíram cedo para os seus deveres, evitando passar pela praça. Não era mais preciso pensar a esperança nem ver a casa destruída.

Maria foi levada para a sala de interrogatório. Assentou-se diante do delegado e ouviu a seguinte sentença:

- Fada não é nome nem sobrenome. Entrou na cidade sem passaporte, sem carteira de identidade, sem carteira profissional, sem título de eleitor, sem cartão de crédito e CPF. Não tem endereço de residência nem CEP e diz ter como profissão realizar desejos. Não é filiada a nenhum sindicato e ensinou menino a ler e escrever sem técnica de professor. Construiu casa sem empréstimo, avalista e projeto, em lugar proibido. Falou mal da esperança. Contou segredo no coração dos meninos. Sorriu no momento da prisão, desrespeitando as autoridades. Com certeza não foi informada de que vivemos em uma democracia. Por tudo, Maria do Céu é culpada e permanecerá presa até que se prove o contrário.

A fada não entendeu nada. Era a primeira vez que escutava um adulto. Apenas pensou: “São mágicos e ainda falam uma outra língua”.

Maria, idéia condenada, usou, naquela noite, os seus poderes de fada. Virou vagalume. Passou pelas grades e sobrevoou a cidade. Visitou cada menino e entrou em seu sonho. Viu que todos sonhavam com cidades onde a fantasia era possível e necessária. Cidades onde as fadas moravam sem causar medo. Lugares onde a esperança não durava mais que meio-dia. Cidades sem mágicos e magias, mas cheias de encantamentos.

O sonho dos meninos alegrou a fada-madrinha, que naquela madrugada partiu para outra parte do mundo. Se exilou, talvez, em outras terras.

O certo é que Maria do Céu passou pela Terra em forma de fada e vestida de anjo, mas só alguns viram. Passou breve, deixando com os meninos uma idéia que trouxe do azul. Chegou como um arco-íris, sem aviso.

Desde a manhã do dia seguinte até hoje, todos da cidade procuram a fada. Alguns acreditam que ela trocou de nome, vestiu-se com outros panos e vive na cidade. Outros afirmam que ela virou professora e ensina às crianças como se defender dos mágicos.

Mas as crianças, que sabem do segredo, reparam na procura dos adultos e sorriem. Quando alguém, impaciente e ameaçado com o desaparecimento da fada, pergunta a um menino qual é o segredo que ela soprou, ele responde:

- Amanhã eu falo. Amanhã eu falo.

Eu penso que Maria do Céu poderá voltar a qualquer momento, sem aviso, e que só os mais atentos a verão. Mas os meninos não confirmam a minha idéia.

Fonte:
Historinhas pescadas : antologia de contistas brasileiros / [coordenação editorial Maristela Petrili de Almeida Leite, Pascoal Soto].- São Paulo : Moderna, 2001. – (Literatura em minha casa ; v. 2)

J. G. de Araújo Jorge (Montanhas de Friburgo)


I
Gosto destas montanhas verdes, revestidas
com o tapete felpudo das matas fechadas,
estampadas no roxo e amarelo, estampadas
de acácias e quaresmas, em buquês, floridas.

Gosto destas montanhas azuis, musicadas
pelas águas que rolam frias, esquecidas,
sussurrando cantigas infantis, perdidas
por entre os tinhorões e as sombras das ramadas.

Montanhas que parecem grandes ametistas
ou ondas gigantescas de um estranho oceano
espumantes e mais puro… e mais perto dos céus!

II
Diante destas montanhas, fiel, eu me prosterno,
sacerdote que sou da “Ordem da Natureza”,
deslumbrado e submisso ante tanta beleza
na humildade do efêmero aos pés do que é eterno.

Diante delas me sinto insignificante e pequeno
como o córrego humilde a sangrar nas encostas
e a minha alma, impregnada de poeira e veneno
leve e pura se ajoelha, a rezar, de mãos postas.

São meu altar de fé, de amor, de sonho e paz,
modelando no espaço órgãos e castiçais
nos seus gestos de pedra e nas altas arestas

e sobre elas, o céu azul, descomunal,
é a cúpula sem fim de imensa catedral
onde Deus pontifica em luz e canta em festas!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge.”Canto à Friburgo”, 1961.

Esopo (Fábula 2: A Gralha e os Pavões)


Era uma gralha muito orgulhosa e vaidosa que, como estava descontente com a vida, apanhou umas penas de pavão que tinham caído no chão. Espetou-as no meio das suas próprias penas e foi ter com os pavões. Mas em breve as penas começaram a cair, e os pavões atacaram-na com os seus bicos aguçados.

Muito triste, a gralha procurou as suas antigas companheiras, desejosa de tornar a viver com elas. Mas as outras gralhas, lembrando-se do modo como ela se comportara, ignoraram-na.

“Amiga”, disseram-lhe, “podias ter ficado conosco e estar contente, mas preferiste trocar-nos por uma companhia mais brilhante. Nessa altura não precisaste de nós, agora somos nós que não precisamos de ti.”

Moral da história

Nós roubamo-nos uns aos outros de muitas formas e por muitas razões, mas o orgulho e a ignorância só tornam as pessoas ridículas.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Brasília

José Feldman (Devaneios Poéticos n.5)


Uma Trova do Fregadolli

Chorar tua mocidade,
pois o tempo a sepultou,
é recordar com saudade
o que a vida nos roubou.
JORGE FREGADOLLI (PR)

Uma Trova Mineira

– Alô, quem fala? – É o Germano!
– Diga-me, o hospício é aí?
– Não senhora, houve um engano…
nem há telefone aqui!!!
CÉLIA G. SANTANA (MG)

Uma Trova Paranaense

Seu Zé, servindo a bebida,
deixou-me um tanto intrigado:
Pôs açucar na batida,
mas o preço…foi salgado!
VANDA FAGUNDES QUEIROZ (PR)

Trova Premiada

1998 – XXVIII Jogos Florais de Niterói
Tema Nacional- AGRADO – Vencedor

Cansei de crer totalmente
nos meus sonhos de menino.
Nem sempre o que agrada a gente
também agrada ao Dstino!
ARLINDO TADEU HAGEN (MG)

Um Poetrix

melancolia
THOMAZ RAMALHO (ANGOLA)

Os cotovelos no parapeito da sacada
e o pensamento apoiado
na linha do horizonte..

Uma Trova do Abbud

Em tudo o que já vivi
nesta passagem terrena,
se um pecado eu cometi,
com ela, valeu a pena!…
RODOLPHO ABBUD (RJ)

Trovadores que Deixaram Saudade

Se de barro fomos feitos
nesta olaria divina,
somos dois corpos perfeitos
partilhando a mesma sina.
ANTONIO FACCI (PR)

O escritor Antonio Facci é natural de Cedral, Estado de São Paulo, nasceu no dia 15 de fevereiro de 1941 e faleceu em Maringá, PR, a 10 de março de 2008. É o sétimo filho de Vergílio Facci e de Maria Morroni, o qual, somado aos três que vieram após seu nascimento, faz parte da prole de dez descendentes de colonos italianos.

Serventuário da Justiça, cidadão benemérito de Maringá, cidadão honorário de Floresta e Sarandi e menção de homenagem do Estado do Paraná. Vereador (Maringá). Deputado estadual (Paraná) Presidente da Academia de Letras de Maringá.

· Membro fundador da Academia de Letras de Maringá, titular da Cadeira nº 20, que tem como patrono Humberto de Campos.
· Titular da Cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Leonismo.
· Titular da Cadeira nº 20 da Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias.
· Patrono da Cadeira nº 8 da Academia Umuaramense de Letras e Artes.
· Sócio da UBT – seção de Maringá.
· Medalha de Ouro – Concurso Nacional de Contos, promovido pela Revista Brasília, com o texto “Alípio e Isabel”.
· Medalha de Prata – Concurso Nacional de Poesia, promovido pela Revista Brasília, com o poema “Poros”.
· Diploma de Honra ao Mérito, pelos serviços prestados à literatura nacional, outorgado pela Academia Goiânia de Letras.
· Medalha de Mérito Acadêmico, pelos serviços prestados à literatura, outorgada pela Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias.
· Medalha Juscelino Kubstchek de Oliveira, outorgada pela Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias.
· Medalha de Mérito Cultural Arcádico – Euclides Pery Rodrigues, outorgado pela Arcádia de Artes e Ciências Estéticas do Rio de Janeiro.

Publicou 14 obras. Secretário do Distrito LD-6 do Lions Internacional. Autor de Mantenha acesa a chama da vida, Ex-passos, Do cio ao sombrio, Alento, Governadores 30 anos, O soldado, Memórias de prata, Queixas, Grafiteiro, Sem palavras, Parlamentar e Meus passos no leonismo.

Um Haikai

Cuidado
CARLOS SEABRA(SP)

olhos felinos
e um corpo de mulher -
cuidado meninos!

Uma Trova do Nemésio

Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO (CE)

Uma Fábula em Versos

O Palhaço
TRILUSSA (CARLOS ALBERTO SALUSTRI) (ITALIA)

O rei Leão, vencido pelo tédio,
lembrou-se, enfim, como último recurso,
de que um bufão seria um bom remédio,
e lançou entre os bichos um concurso.

Para o cargo alcançar, o porco, nédio,
toca uma flauta; dança um tango um urso;
pula e grita o macaco, e o rei despede-o:
– Que faça o papagaio o seu discurso!

Vem o gato, o cavalo, o asno, o carneiro…
– Basta! – grita o leão. Pára o berreiro!
Vamos deixar de farsas e mistérios

Ser capaz do grotesco – eis o embaraço:
o homem, só ele, pode ser palhaço…
Nós, bichos, somos demasiado sérios.

(esta fábula foi traduzida por Lemos Filho e deu-lhe a forma de soneto. O original são versos soltos)

Alguma Poesia

O Poema do Homem Quadrado
J. F. BUENO MENDONÇA (RJ)

O poema do homem quadrado
só poderá ser escrito
por um homem bem gordo
bem gordo
bem gordo
pois somente um homem gordo
rolando quadrado
poderá quadrangular
o poema do homem quadrado.

Uma Trova do Assis

Sorria, amigo, sorria!
Pois, neste tempo de tédio,
qualquer sinal de alegria
é sempre um santo remédio!
A. A. de ASSIS(PR)

Um Soneto

Imagens
VIDAL IDONY STOCKLER (PR)

O botão suspira…cala
Nasce a rosa no lugar.
Em suave perfume exala
Sua doçura pelo ar!

Vislumbram encantamentos
As cascatas, as floradas
Onde voam, por momentos,
Borboletas agitadas.

E nas transparentes águas
Imagens a refletir
Num espaço de luzir.

Dissolvem-se todas mágoas
Na fortaleza do amor!
E o mundo ressurge em flor!

Fonte:
seleção por José Feldman

Esopo (Fábula 1: O galo e a jóia)


Um galo novo, junto dumas galinhas, esgravetava o chão perto duma quinta, quando desenterrou um diamante. É claro que sabia o que aquilo era, porque brilhava á luz do sol. Olhou duvidoso para a bela pedra, pôs a cabeça á banda e disse:

“És mesmo bonita! Se aqui estivesse um joalheiro para te ver, ficaria muito feliz, mas para mim, não vales nada. Na verdade preferia um grão de cevada a todas as jóias deste mundo!”

Moral da história

Quem sabe o que realmente quer encontrará sempre satisfação. Sábio é aquele que prefere as coisas necessárias aos enfeites cintilantes, que só servem o orgulho e a vaidade.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

Esopo e suas Fábulas


Pensa-se que o presumível autor destas fábulas, Esopo, viveu entre 620 a.C. e 560 a.C., mas não há a certeza quanto ao local onde nasceu. Não se sabe se veio da Trácia, da Frígia, da Etiópia, de Samos, Atenas ou Sárdis, mas dizem antigos autores que ele era escravo de um cidadão chamado Idamon, em Samos, na atual Grécia.

Segundo Heródoto, que escreveu cerca de duzentos anos mais tarde, Esopo teve morte violenta, tendo sido lançado num precípicio pelo povo de Delfos. Desconhece-se contudo a ofensa que teria praticado. Um autor diz que foi o sarcasmo mordaz das fábulas, outro conta que ele se apropriou de dinheiros que o rei Creso, da Lídia, lhe confiara; diz ainda outra versão que Esopo roubou uma taça de prata.

Esopo foi indubitavelmente, libertado pelo seu senhor, Idamon, porque veio a viver na corte do rei Creso, onde conheceu o grande estadista e sábio ateniense Sólon. Pisístrato, governador de Atenas, era parente de Sólon, e Esopo visitou a sua corte, na qual conseguiu convencer os cidadãos a permitirem que o seu governador conservasse o trono. Fê-lo contando-lhe a fábula “As rãs que queriam ter um rei” (fábula 16), e tão grande era a eloquência de Esopo que Pisístrato conseguiu manter-se como ditador.

Alguns escritores negam a existência de Esopo, e a verdade é que possuímos poucos pormenores da sua vida e do seu trabalho. Até o seu aspecto físico é discutível. Segundo um monge de Constantinopla, Máximo Planudes, que escreveu no século XIV, Esopo era um anão feio e disforme, e é assim que a famosa estátua de mármore da Villa Albani, em Roma, o representa. Mas Plutarco, escrevendo cerca de mil e trezentos anos antes, não nos diz nada acerca do seu aspecto físico. Consta que os Atenienses erigiram uma magnífica estátua em honra de Esopo.

Atualmente considera-se que, embora Esopo tivesse existido, ele não foi o autor das famosas fábulas que lhe são atribuídas. Eram-lhe familiares, mas não escreveu nenhuma, limitando-se a contar as histórias aos outros.

Na Grécia as fábulas eram populares, como em todo o mundo antigo. Foram-no, certamente, centenas de anos antes do tempo de Esopo.

De fato veio a provar-se que muitas das fábulas são muito antigas. “O leão e o rato” (fábula 13), por exemplo, foi encontrada num antigo papiro egípcio com milhares de anos e a fábula “O rato do campo e o rato da cidade” (fábula 9) encontra-se nas Sátiras de Horácio.

Certos estudiosos crêem que todas as fábulas são de origem indiana, árabe ou persa e que Esopo se limitava a espalhar as fábulas que ouvira contar ou que conhecia há muito tempo. Nenhuma das fábulas foi descoberta em grego original e só passadas algumas centenas de anos foram compiladas. Demétrio de Falerno publicou um conjunto de fábulas nos finais do século IV a.C., que veio a perder-se.

Se houvéssemos de atribuir a autoria das fábulas a alguém, seria talvez a Bábrio, que viveu durante o século III d.C., na Síria, que então fazia parte do Império Romano. Bábrio escreveu em Grego, mas a sua obra só foi conhecida através de citações de outros escritores até 1842. Nesse ano descobriram-se num convento no monte Atos fragmentos de papiros contendo mais de duzentas fábulas, a maior parte das quais, certamente, da sua autoria. Mais tarde, descobriram-se outras seis num manuscrito existente no Vaticano.

Cerca de cem fábulas também foram escritas em latim por um escravo macedonico chamado Fedro, trazido para Roma no tempo de Augusto, o primeiro imperador romano. Ao chegar a Roma, Fedro foi libertado pelo imperador, mas não usou a sua liberdade com sabedoria. Numa fábula ridicularizou o grande soldado romano Sejano e foi condenado á prisão. Também cometeu erros nas suas narrativas. Por exemplo, na fábula “O cão e a sombra” (fábula 6), o original contava que o cão via o seu reflexo ao passar numa ponte; Fedro fê-lo ver o seu reflexo enquanto ‘nadava na água.

Tanto Fedro como Bábrio inspiraram-se largamente nas histórias Jataka da literatura budista, originais da Índia durante o século IV a.C. ou mesmo antes. Estas e outras fábulas sânscritas tinham-se espalhado da Índia á China, ao Tibete, á Pérsia e à Arábia, tendo chegado á Grécia em tempos remotos e incertos.

Na Idade Média existiam três coletâneas das chamadas “Fábulas de Esopo”; uma compilada pelo monge Máximo Planudes no século XIV, outra publicada em Heidelberga em 1610 e um manuscrito descoberto em Florença, datando provavelmente do século XIII. A coletânea grega de Máximo Planudes foi publicada em Milão em 1840, com uma tradução latina de um estudioso italiano chamado Ranuzio.

Atualmente, as fábulas de Esopo podem ser lidas em mais de duzentas e cinquenta línguas.

Fonte:
Fábulas de Esopo. Coleção Recontar. Ed. Escala, 2004.

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Bahia

Benedetto Caetani (Livro de Sonetos)


Benedetto Caetani, é o nome literário de Renato Sakate, de Botucatu/SP

O Cego Oriente

Distante paisagem, meu cego oriente
procuro teu ar nos cortantes lábios,
vendo meu soldo a favor de teus gládios
e busco meu abrigo ao sabor do vento.

Tira-me deste inconseqüente páreo,
tira-me deste previsto acidente!
Luto contra a rendição decadente
e a indução que enche meu cálice diário.

Mas perduro entre as grades deste templo
nas dores inúteis de meu salário,
nas obras miseráveis que sustento

para fugir deste parco cenário
onde reina o servo-mor do dinheiro,
onde vem do amor um mal necessário.

O Bem, o Mal e o Impasse

Suave paisagem de meus sonhos lindos
em ti selei o meu destino ideal
em ti sonhei ser verdadeiro o irreal
e assim guardei o que era lindo em mim.

Ah! Infortúnio que me tem por leal
sob o seu manto encerrei meus vestígios
sob o seu mando vesti-me em silício
e assim paguei, porque não quis ser mau.

Mas quando o céu estiver sob a terra
e a minha ruína fundar teu palácio,
o meu suplício em ti será duas férias.

Porque não quis o que seria tão fácil,
temi teu suor e a nossa própria guerra…
Busquei a paz e encontrei só, impasse.

Soneto da Desventura

Ah, desventura que me traz ventura…
O olhar castanho, tal mercúrio em ouro,
é esta razão que se desnuda em louros
neste meu fel que turva a mente impura.

Ah, negro véu de meus instintos loucos!
Já sinto dores onde havia ternura,
pressinto viés onde prescindia a cura
E nada enxergo… E nada sei, nada ouço.

Parta de mim, flor inocente e bela!
Teu doce caule me deprime a tarde
e o teu perfume me desfoca a tela!

Mas sei tão bem que tudo vêm desta arte
que, numa vez, faz chover aquarelas
e noutras tantas me faz doer de enfarte.

Soneto da Esperança

Como amar-te, mulher que não existe?
Como seguir teus passos? Não há sombra…
És qual mar que se afoga, um cais sem onda
Um bramido funesto, um berço triste.

Como amar-te, donzela de meus sonhos?
Como saber o que achas? Sem palpites…
Sou qual vivaz bandeira sem limites
Um trôpego ladrão, um vão risonho.

Ademais, como sofro por manter-te
em sonhos meus, só meus! Sonhos idosos…
E como dói sofrer por não sofrer.

Vê que sou andarilho em trilhos novos
Vê que sou alambrado a ti, mulher…
Lê… Pois se num dia a vi, a perdi noutro.

O arredio e os ufanos

Detentor das sabedorias do mundo
tudo sabe, do seu universo o inverso
Quantas letras, se caberão em meu verso
(que também é cego e de resto é mudo).

No palácio do desconforto imerso
cheiro o cinza e vejo o cinzeiro imundo
nado em poças de água salobra, é absurdo
que as pessoas sintam mais prazer que adverso.

Mas voltando a falar do Pai celeste,
das antigas lendas do Oriente Médio,
me recordo em cada sorriso humano

quanto o Sol, que desponta quente ao leste,
nos remiu no colo paterno o assédio
que reclama e clama o arredio e os ufanos.

Quem o coração te move

Pavio que explode e implode. Explode… e implode…
Este amor frio aos teus olhos quase queima
Não! Não consigo negar o que teima
em me voltar e partir de trégua e ódio.

Sofro distante, demais quando um imã
se faz em nossas almas e, nessa ordem,
não posso tê-la… então que me discordem
que encerra a dama os ais tal como rima…

E as repetidas palavras se anulam
nesta semente que a si mesma come
e se alimenta aumentando a sua gula.

Mas até quando, se isto me consome
os teus olhares que hoje me desnudam…
Se não sou Quem o coração te move?!

Nos olhos que vêem dentro

Bem sinto que nas horas mais escuras
tão claro quanto o véu e os teus ideais
se nesta vida pálida são irreais
na túnica dos sonhos que me curas…

Unidas nossas almas não têm de ais
o tanto que em distância, em desventuras
nos forçam novamente à esta aventura:
amor nos teus e meus encontros diários.

Se Deus nos tornou gêmeos no momento
da vida, se as feridas desferidas
são breves, que infinito sentimento!

Ah! Te amo tanto adocicada vida
alegre sou nos olhos que vêem dentro
tão dentro que não há medo, se é vivida!

Nesta nau de palha

Eterno quis de algo que não mais terno
tal brilho lúcido ante a vil morada…
Ah que pensei, que imortal namorada!
Que nem Moraes ousaria de pôr termo.

Tanto que a amava fora demorada
a dança trêmula como se inverno
fosse o verão, o outono e as três primaveras
últimas; qual pastagem devorada.

Mas se de culpas levo meu cesto oco
também de amores a inspiração falha
e de tormentos o coração troco…

Ah se não fosse Aquele que me calha
se não fosse Este a me salvar, tampouco
valeria a chama nesta nau de palha.

Oferendas

A humanidade se mantém repleta
de meias verdades, de melancolias…
A frondosa árvore onde se colhia
hoje é matéria póstuma e incompleta!

Quantos Davids se tornaram Golias?
E quando os véus ocultaram mazelas?
Parte extinguiu-se à luz, funesta cela,
numa negra era tal como se lia…

E na pesada tarefa terrena
(onde o machado é a vil palavra viva)
sobrevivemos por entre estas sendas?

Mas vencer como, se a voz nunca é ouvida,
se o nosso sangue é usado em oferendas…
Se a nossa carne nos transforma em Midas?

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=18&x=23&y=5

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 543)

O nosso irmão Ademar comunica que terá que fazer um repouso após a cirurgia, afinal, ele merece, se até Deus descansou no 7. dia. Enquanto ele estiver convalescente, terão que “suportar” meus devaneios poéticos.
Que este guerreiro retorne com toda sua energia como sempre.
J.Feldman

Uma Trova de Ademar

Quem pôs o brilho e as cores
nesses olhos que são meus,
não foi nenhum dos doutores,
foi a santa mão de Deus!…
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional

A tua volta eu aguardo
sem censuras, satisfeita,
como quem carrega o fardo
na fartura da colheita.
–DOMITILLA BORGES BELTRAME/SP–

Uma Trova Potiguar

Cada tropeço me ensina
que a vida é eterno sonhar.
Na vida nada termina,
muda de forma e lugar.
–PROF. GARCIA/RN–

Uma Trova Premiada

2011 – Nova Friburgo/RJ
Tema: RECADO – 3º Lugar

Em meu olhar recatado,
teu olhar viu, mas não leu,
a ternura de um recado
que o meu amor escreveu.
–MARINA BRUNA/SP–

…E Suas Trovas Ficaram

Gostaria que os teus olhos,
entrassem nos olhos meus,
- quero enfrentar os abrolhos,
com a “luz” dos olhos teus!
–FRANCISCO MACEDO/RN–

U m a P o e s i a

Poeta repouse bem
Após essa cirurgia
Para que retorne logo
A nos dá essa alegria,
De amanhecermos felizes
Nos lumes da poesia.
Que Deus com sua magia
Esteja segurando a mão
Guiando e orientando
Aquele cirurgião,
Pra que seja só sucesso
Essa sua operação.
Meu poeta, meu irmão,
Encare de fronte erguida,
Essas coisas fazem parte
Da trajetória da vida;
E pra que tudo dê certo
Estaremos na torcida.
–CARLOS AIRES/PE–

Soneto do Dia

Voltando a Casa
–PE. ANTÔNIO TOMÁS/CE–

Passei um mês, um mês inteiro, fora
do meu lar, sem ouvir meus passarinhos,
sem ver o louro bando de amiguinhos
que aí deixei! Cruel, longa demora!

Mas, afinal, eis-me de volta agora,
e na ânsia de ver os coitadinhos,
que suspiram talvez por meus carinhos,
fustigo o meu corcel, que o chão devora.

Avisto a casa além, dobro a tortura
que dela me separa… Oh! que ventura
eu sinto na alma ao ir-me aproximando!

Chego ao portal, puxo o ferrolho e entro,
e me recebem pela sala a dentro
crianças rindo e pássaros cantando.

Eliana Ruiz Jimenez (Trova-Legenda: Farol)


Brilha sempre em nossa vida
alguma luz: a do sol
ou no mínimo a emitida
por um mínimo farol.
A. A. de Assis – Maringá/PR

O fanal dirige o barco
não se fira nos escolhos;
modestamente me abarco
na meiga luz dos teus olhos.
Adamo Pasquarelli – S. J. dos Campos/SP

Nas trilhas da minha vida
és um sol a chamejar
tal qual a luz refletida
por um farol sobre o mar.
Agostinho Rodrigues – Campos/RJ

Enfrentando o mar bravio,
o audaz capitão conduz
seu imponente navio,
do Farol, seguindo a luz!
Alberto Paco – Maringá/PR

Entre glórias e fracassos,
carregando minha cruz,
um farol guia meus passos
ao encontro de Jesus.
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Morre o sol em seu poente,
segue a morte igual, assim:
tristes luzes vêm à mente
e velam o próprio fim.
Ari Santos de Campos – Itajaí/SC

A tempestade mais feia
ao crente não intimida.
Deus é o farol que clareia
o mar escuro da vida.
Arlindo Tadeu Hagen – Belo Horizonte/MG

Nem recife nem atol,
nem iceberg ou rochedo…
Tendo você por farol,
a tudo enfrento, sem medo!
Bruno P. Torres – Niterói/RJ

Farol altivo que guia
o meu barco, a navegar,
rasgue o véu da nostalgia,
faça o meu amor voltar!
Dáguima Verônica – Santa Juliana/MG

Farol, liga o pisca-pisca
que, ao longe, em meio à procela,
o meu pescador se arrisca,
num frágil barquinho à vela!..
Darly O. Barros – São Paulo/SP

O Sol ilumina a Terra
e o farol põe luz no mar.
A luz, que ambos encerra,
nos leva a viver e amar!
Delcy Canalles/ RS

Farol aceso no monte
faz da noite quase dia.
Espalha luz no horizonte,
servindo aos nautas de guia.
Diamantino Ferreira – Campos/RJ

Ignorando o crepúsculo,
o farol posicionado,
focou ao longe um minúsculo
ponto onde eu estava ancorado!…
Dilva Moraes – Nova Friburgo/RJ

Mostrando-me ao longe o porto,
a luz de um farol me anima,
e o meu poema… quase morto,
navega em busca da rima.
Dorothy Jansson Moretti – Sorocaba/SP

Nenhum barco… o mar parado…
noite… silêncio… abandono…
E o velho farol, cansado,
parece piscar de sono.
Durval Mendonça (enviada por Tadeu Hagen)

Sua luz, como um farol,
me guiou na tempestade:
fez surgir um lindo sol,
que selou nossa amizade.
Eliana Jimenez – Balneário Camboriú/SC

Terminou o expediente
sob as cores do arrebol…
a luz do sol já poente
nasce no velho farol!
Francisco José Pessoa – Fortaleza/CE

Dia e noite navegando,
eu busco a felicidade…
céu e mar vou contemplando,
vendo você com saudade!
Glória Tabet Marson – S. J. dos Campos/SP

Tens a missão importante
num mar sereno ou escuro,
indicando ao navegante
aquele porto seguro.
Haroldo Lyra – Fortaleza/CE

Facho de luz sobre o mar,
à noite, suprindo o sol,
mostra o clarão, a brilhar,
todo o valor de um farol!…
Hermoclydes Siqueira Franco – Rio de Janeiro/RJ

Lá no horizoante reluz
com tal majestade o sol
que emite a última luz,
quase humilhado, o farol.
Jaime Pina – São Paulo/SP

A luz tênue do farol
reflete o fim da jornada,
pois o cintilar do sol
fortalece a alvorada!
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP

Esse farol que ilumina,
noites de mar turbulento,
lançou sua luz tão fina,
tentando mostrar o vento.
José Marins – Curitiba/PR

Cual faro alto del vigía
son los ojos de mi Dios
brillan en noche sombría
y yo quiero ir de el en pos.
Libia Beatriz Carciofetti – Argentina

Grande é a cultura que ensina
e acende a luz da razão;
a mente obscura ilumina
qual farol na escuridão.
Marina Valente – Bragança Paulista/SP

O tempo nos ensinou:
finda a tarde, vai-se o sol…
Para quem não aportou,
reserva a noite um farol.
Mário A. J. Zamataro – Curitiba/PR

Você é o farol que ilumina,
que guia o meu caminhar;
desde que era pequenina,
quando comecei a andar.
Mifori – São José dos Campos/SP

O amor é como um farol
que clareia o mar escuro;
nos enche a vida de sol,
nos guia a um porto seguro!
Myrthes Masiero – Atibaia/SP

Eu vejo um farol brilhar
e contemplo a natureza…
Somente no teu olhar
já encontrei tanta beleza!
Neiva de Souza Fernandes – Campos/RJ

Quando vejo o teu lampejo,
meu “farol” apaixonado,
logo me acende o desejo
de voltar para o teu lado!
Nemésio Prata – Fortaleza/CE

Na escuridão, o farol
os bons caminhos ensina;
assim como a luz do sol
a nossa vida ilumina.
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/MG

Tendo ao norte o farol guia,
no rumo de outros amores,
busca alegre companhia,
ao doce aroma das flores
Olga Maria Dias Ferreira – Pelotas/RS

Iluminando o caminho
do nauta na escuridão,
o farol velho, sozinho,
é fantasma e solidão!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Quem tem fé vê a luz de um sol
ao longo da caminhada…
Há sempre um velho farol
que ilumina sua estrada!
Rodolpho Abbud – Nova Friburgo/RJ

Ao ver o farol, querida,
ao teu amor o comparo
porque no mar desta vida
és minha luz, meu amparo.
Thalma Tavares – São Simão/SP

O barco, pede passagem
quando a terra descortina
e o farol troca mensagem
piscando a luz na surdina…
Vanda Alves da Silva – Curitiba/PR

Compensando a escuridão
de uma noite sem luar,
o farol pinta um clarão
na tela verde do mar.
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

Minha alma segue… Mareia…
Toda amizade reluz:
se há temor, a noite é cheia,
um farol explode em luz!
Wagner Marques Lopes – Pedro Leopoldo/MG

Cumpre a lua a sua meta
de “musa” da inspiração,
no momento em que o poeta
transforma luar em canção.
Wandira Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

Fonte:
http://poesiaemtrovas.blogspot.com.br

Eva Furnari (Lolo Barnabé)


No tempo em que as pessoas moravam em cavernas, existiu um homem muito criativo e inteligente chamado Lolo Barnabé.

Aos vinte anos, Lolo casou-se com Brisa. Ela também era como ele, criativa e inteligente. Casaram-se por amor. Muito amor.

Depois da lua-de-mel, escolheram a melhor caverna da região para morar e, logo no primeiro ano de casamento, tiveram um filho, o Finfo Barnabé, também criativo e inteligente.

Todos os dias, Lolo saía para caçar e colher frutas.

À noite, sentavam-se todos em volta da fogueira, assavam a carne, cantavam canções e agradeciam a Deus pela beleza da vida.

Eram muito felizes.

Eram muito felizes… mas nem tanto.

A caverna era úmida.

Por essa razão, Lolo e Brisa acharam melhor construir uma casa no alto do morro.

Teriam mais conforto e poderiam viver melhor.

Lolo, que era muito habilidoso, fez uma casa linda, e a família, animada, mudou-se para lá. Brisa queria que a casa fosse amarela e Lolo, que amava a esposa e lhe fazia todas as vontades, pintou a casa de amarelo.

O tempo passou e eles estavam felizes… mas nem tanto.

Brisa não gostava de vestir aquela pele de animal. Sentia frio.

Então eles tiveram a idéia de fazer roupas mais adequadas. E, como ela também era muito habilidosa, inventou o vestido.

Ficou animada e, em seguida, inventou o sutiã, a calcinha, a cueca, a camisa, a calça, a bermuda e o pijama. E Lolo inventou sapatos que combinassem.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Brisa achou que faltava uma coisa e falou para Lolo:

- Amor, não podemos deixar nossas belas roupas pelo chão. Você não acha que poderíamos fazer assim uma espécie de móvel para guardar a roupa?

Lolo achou que era uma excelente idéia, tudo ia ficar mais limpo, e inventou o guarda-roupa. Como era muito habilidoso, fez um grande armário de cerejeira, cheio de gavetas, portas e puxadores cromados.

Finfo adorou, já tinha um lugar para se esconder quando brincasse de esconde-esconde com o pai.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Lolo tinha feito uma bagunça danada para construir o armário e Brisa ficou irritada.

Lolo, então, para acalmar a mulher, inventou a vassoura e achou que era melhor já fazer uma oficina longe de casa para não atrapalhar a felicidade do lar. E fez.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

No lar havia problemas. Finfo acordava sempre com o pijama sujo depois de dormir no chão.

Brisa discutiu a questão com Lolo e eles acharam que podiam construir uma espécie de coisa assim, de madeira, com quatro pés, macia por cima. Ia ser muito mais confortável e a vida deles ia melhorar.

Lolo pensou bastante, trabalhou muito e inventou a cama. Como todos sabem, Lolo era caprichoso, e já inventou a cama com colchão, lençol, cobertor e travesseiro.

Brisa ficou encantada, principalmente com o travesseiro, que era a coisa mais macia do mundo.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Como eles almoçavam e jantavam em cima da coisa macia, a cama, estavam sujando muito os lençóis.

Lolo, então, inventou a mesa.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Acharam muito desconfortável comer em pé.

Lolo trabalhou bastante e inventou a cadeira. Muito confortável, muito confortável mesmo, bem melhor que comer em pé. Aproveitou para ficar sentado por mais de uma hora, pois ele estava cansado de tanto inventar e construir coisas, além de caçar e colher frutas, é claro.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Lolo e Brisa estavam achando que cozinhar na fogueira dava muito trabalho e eles não queriam trabalhar tanto. Se inventassem algo mais prático, teriam mais tempo para ficar juntos, se divertir e descansar. Inventaram, então, o fogão a gás.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Lavar a roupa lá no rio também era coisa dura. Brisa e Lolo queriam facilitar essa tarefa. Pensaram muito e inventaram a água encanada e o tanque. E, já que tinham inventado a água encanada, inventaram logo o banheiro para não ter que ir no mato, à noite, no frio.

Deu trabalho, Lolo já trabalhava oito horas por dia, inventando e construindo coisas e, apesar do cansaço, o resultado compensava.

O banheiro ficou maravilhoso.

Fizeram uma festa com o sabonete, o xampu, o condicionador, o creme hidratante, a esponja de banho, o talco, o papel higiênico, o perfume, o mercurocromo, o algodão, a gaze, o esparadrapo, o cotonete, etc.

Lolo adorou o creme, a lâmina de barbear, a loção pós-barba, o barbeador elétrico, o desodorante, etc.

Ficaram encantados com a escova de dentes, o creme dental, o protetor solar, o colírio, etc.

Divertiram-se muito com o pente, a escova, o grampo, o secador de cabelo, etc.

E enlouqueceram de alegria com o espelho.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Lolo tinha tanto trabalho e passava tantas horas por dia fora de casa, inventando coisas para dar conforto e facilitar a vida, que ficava estressado e com saudades do filho, que sempre estava dormindo quando ele chegava. Então Lolo inventou o telefone, para que eles pudessem se falar diversas vezes por dia.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Pelo telefone não dava para abraçar, nem beijar. Então tiveram a idéia de Brisa ajudá-lo na oficina, assim Lolo poderia chegar mais cedo do trabalho para abraçar e beijar o filho.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Brisa e Lolo, à noite, quando chegavam do trabalho, depois de abraçar e beijar o filho Finfo, ainda tinham que lavar a louça, a roupa, fazer o jantar, passar pano no chão e ficavam cansados, irritados, briguentos e enjoados de fazer todos os dias aquilo tudo. Naquele tempo ainda não tinham inventado a pizza “delivery”.

Acharam que a solução era facilitar as tarefas. Pensaram tanto que quase fritaram o cérebro quando inventaram, de uma só vez:

O liquidificador, a batedeira, a centrífuga, a cafeteira, o espremedor, a garrafa térmica, etc.

O microondas, a torradeira, a sanduicheira, etc.

A máquina de lavar roupa, o sabão em pó, o detergente, o amaciante, o alvejante, o desinfetante, etc.

A geladeira, o “freezer”, a despensa, etc.

A máquina de lavar louça, a secadora, o balde, o esfregão, a lata de lixo, etc.

O carpete, o aspirador de pó, o tira-manchas, etc. E, finalmente, inventaram o fim de semana, que ninguém é de ferro.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Sempre tinha algum aparelho que encrencava e isso era uma dor de cabeça danada.

Eles tinham que levar para a oficina para consertar e, como já estavam acostumados com o conforto, ficavam extremamente irritados e impacientes de fazer as coisas na mão. Coisinhas como lavar a louça, a roupa, bater ovos…

Além do mais, a família Barnabé, agora, era chique.

Lolo, Brisa e Finfo passaram a achar importante estarem sempre bonitos e elegantes. Não queriam mais andar de qualquer jeito, com a roupa amarrotada.

Não ficava bem.

Lolo inventou, então, o ferro de passar.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Dava um trabalho danado passar a roupa. E Brisa não tinha mais tempo, afinal ela trabalhava fora.

E Lolo, dessa vez, não se sabe por quê, não conseguiu inventar uma máquina de passar roupa. Deve ter dado um “tilt” nas idéias dele.

Mas é compreensível, porque, afinal, ele também era humano e às vezes falhava.

Lolo ficou muito deprimido e pensativo, mas a mulher foi compreensiva e arranjou uma solução: chamou sua prima para vir todos os dias passar a roupa.

Era uma ótima idéia, porque ela poderia fazer também as outras tarefas da casa. Assim Brisa teria tempo para inventar e fazer coisas na oficina.

A prima queria alguma recompensa por trabalhar na casa e então eles inventaram o dinheiro e deram para ela um salário. Como era pouquinho, chamaram de “salário mínimo”.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Finfo ficava sozinho o dia inteiro sem a mãe nem o pai por perto. Sentia-se infeliz, não tinha com quem brincar, já que a prima de Brisa também só ficava cuidando da casa.

Então Lolo e Brisa inventaram a televisão, o sofá e o controle remoto.

Todos ficaram felizes… mas nem tanto.

Eles chegavam à noite tão cansados do trabalho e o Finfo querendo brincar e eles querendo descansar que acabavam brigando. Depois, também, cansados de brigar, sentavam-se todos na frente da televisão e ficavam hipnotizados e mudos como sacos de batata.

A família Barnabé sentia que aquilo não estava bom. Havia alguma coisa errada naquela história, mas era difícil, bem difícil, entender o que é que estava errado. A situação parecia um grande nó.

Lolo e Brisa pensaram logo em inventar mais alguma coisa, mas pela primeira vez não sabiam o que fazer. E, na verdade, pela primeira vez também perceberam que não era o caso de inventar mais nada.

Então eles foram para o quintal, acenderam uma fogueira e sentaram-se em volta dela, muito tristes, buscando uma saída.

Olhando para o fogo, entenderam que eles mesmos tinham criado aquela situação.

Era como uma armadilha.

Ficaram muito infelizes… mas nem tanto.

Lolo contou uma história e Finfo contou outra. Brisa entoou uma canção e lembrou-se de fazer algo que havia muito tempo não fazia: agradecer a Deus pela beleza da vida.

Finalmente entenderam que, se eles mesmos tinham feito aquela armadilha, eles mesmos poderiam desfazê-la.

Eles eram bem criativos e inteligentes.

Fonte:
Historinhas pescadas : antologia de contistas brasileiros / [coordenação editorial Maristela Petrili de Almeida Leite, Pascoal Soto].- São Paulo : Moderna, 2001. – (Literatura em minha casa ; v. 2)

Eva Furnari (1948)


Eva Furnari (Roma, Itália 1948). Autora de literatura infantil, ilustradora, professora e arquiteta. Em 1950, a família muda-se para o Brasil, radicando-se em São Paulo. Forma-se em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU/USP.

Participa de diversas exposições de desenhos e pinturas. Torna-se professora no Atelier de Artes Plásticas do Museu Lasar Segall, em São Paulo.

O desenho é seu primeiro meio de expressão artistica – mas, aos poucos, introduz o texto em seus trabalhos, como na tira da Bruxinha que publica semanalmente, durante sete anos, no suplemento infantil do jornal Folha de S. Paulo. Essa mudança ocorre lentamente, com brincadeiras de rimas e travalínguas, evoluindo, mais tarde, para valorizar igualmente ilustração e texto.

Em 2002 foi escolhida para ilustrar a reedição de seis livros da obra infantil de Érico Veríssimo.

Sua obra, composta de mais de 50 títulos, com importantes premiações, compõe-se de pequenos livros que, com uma linguagem lúdica construída com lápis de cor, tintas e crayon, discute conflitos, problemas e questões da experiência humana. Tem livros publicados na Itália, México, Equador, Guatemala, Colômbia e Bolívia.

CRONOLOGIA

1948 – Nasce em Roma, Itália, filha de Francesco Furnari e Irma Steinfatt Furnari

1951 – A família muda-se para o Brasil, radicando-se em São Paulo

1971 – Expõe desenhos na Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna – Aamam, em São Paulo

1972 – Participa de exposição coletiva de pinturas a óleo no Aamam

1973 – Expõe no Salão Jovem Arte Contemporânea e na mostra coletiva de pinturas a óleo no Aamam, e em Salão de São Caetano e Santo André

1974 – Organiza e participa da ExpoFau 25. Integra a Exposição Coletiva no Museu Lasar Segall de São Paulo, no Salão de Santo André e no 9º Salão de Artes de Campinas, e é premiada nos dois últimos. Ministra aulas de desenho, pintura, escultura e gravura no Atelier de Artes Plásticas do Museu Lasar Segall até 1979

1975/1992 – Colabora como ilustradora nas revistas Doçura, Viva Vida, Nova, Claudia, Nova Escola, Destino, Saúde

1976 – Participa do 3º Salão de Humor de Piracicaba. Forma-se em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU/USP

1978 – Expõe desenhos e aquarelas no Pod Minoga Studio em São Paulo

1980 – Publica, durante sete anos, pequenas histórias semanais da personagem Bruxinha no suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo. Lança seu primeiro livro para o público infantil, Cabra-Cega, que inaugura a coleção Peixe Vivo, premiada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ. Expõe desenhos no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – Masp

1981 – Recebe o prêmio melhor livro de imagem da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – da FNLIJ pela coleção Peixe Vivo

1982 – Recebe o prêmio de melhor livro de imagem, da FNLIJ, pelo livro A Bruxinha Atrapalhada

1983 – Participa da exposição de Bonecos e Cenas na Tenda Galeria e São Paulo. O livro Filó e Marieta é premiado como melhor livro de imagem pela FNLIJ

1987 – Recebe o prêmio Orígenes Lessa, da FNLIJ, para a coleção Ping-Pong; o da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, pelo conjunto da obra; e o Prêmio Abril de ilustração por colaboração como ilustradora em diversas revistas

1990 – O livro A Menina e o Dragão recebe o Prêmio Luís Jardim, da FNLIJ

1992 – Ganha os prêmios hors concours e o melhor para criança da FNLIJ, pelo livro O Problema do Clóvis, e o melhor livro de imagem, com Truks. Recebe o Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores – UBE, com o livro Assim Assado

1993 – Recebe o Prêmio Jabuti de melhor ilustração infantil com o livro Truks

1994 – Recebe o Prêmio Mambembe pela peça de teatro Truks

1995 – Participa da 15ª Bienal de Ilustração de Bratislava, Eslováquia. A Bruxa Zelda e os Oitenta Docinhos ganha o Prêmio Jabuti de melhor ilustração infantil

1996 – Participa da Honour List of International Board on Book for Young People – IBBY, órgão consultivo da Unesco para o livro infantil, com O Feitiço do Sapo

1998 – O Anjinho recebe o Prêmio Jabuti de melhor ilustração

2000 – Vence o concurso promovido pela Rede Globo de Televisão para a caracterização dos personagens do programa O Sítio do Pica-Pau Amarelo, adaptado da obra de Monteiro Lobato (1882 – 1948)

2004 – Recebe o Prêmio Jabuti pelo livro Circo da Lua

2005 – Premiada pela FNLIJ com o livro Cacoete

2006 – O livro Cacoete ganha dois Prêmios Jabuti, de melhor ilustração e melhor texto

Fonte:
Wikipedia
Itau Cultural

J. G. de Araújo Jorge (O Céu de Friburgo)


Olho o céu de Friburgo sobre mim! Reparo
nos detalhes desta obra perfeita de Deus!
Na manhã de ouro e azul, o dia é belo e claro,
nem um lenço de nuvem branca, acena adeus…

Olho o céu… e a outros céus mentalmente comparo!
Não viram outro igual no mundo os olhos meus!
Parece que se curva e vem a nós, num raro
gesto, sem distinguir entre cristãos e ateus!

Hei-lo para o meu culto: catedral imensa
sobre as cristas das altas montanhas suspensa,
templo de sol, e estrelas para o amor e a fé…

E ao vê-lo perto assim… chego a ter a impressão
de que, se erguer o braço sou capaz de até
poder tocar o imenso azul com a própria mão!

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Canto à Friburgo. 1961

Paulo Mendes Campos (Marido e mulher)


– Arnaldo, você é o fino: aqui em casa não tem uma gota d’água há cinco dias e você está uma pilha. Acho perfeitamente normal, meu bem, que você estej a nervoso. . Mas você está com raiva é de mim, você está agindo como se fosse eu a responsável pelo fato de não ter água no Rio de Janeiro.

– Teresa, vou ser franco com você: você é a responsável pelo fato de não ter água no Rio de Janeiro, tá bem?

– Não morei na piada.

– Não tem piada nenhuma. Estou falando português claro: você é a culpada pela falta d’água aqui em casa.

– Essa, não!

– Mas é claro que você é a culpada: toda mulher é culpada quando falta água em casa.

– Essa é a maior!

– Pois fique sabendo dum princípio banal: a mulher é a responsável pelas coisas que acontecem dentro de casa. Ela é a secretária administrativa, a gerente do lar!

– Mas o caso é que a água não acontece dentro de casa: a água vem lá de fora dentro dum cano. tá?

– Teresa: quando um marido chega e as torneiras estão secas, a culpa é exclusivamente da mulher. Você não tenha sobre isso a menor dúvida.

– Mas isso é uma injustiça que clama aos céus: o que que eu posso fazer?

– Não sei: o problema é seu.

– Você hoje está muito engraçadinho.

– Escute, minha filha: a humanidade é dividida em homens e mulheres, é ou não é? Tanto numa tribo do Araguaia como no Rio, os homens cuidam dumas tantas coisas, as mulheres de outras. Na civilização cristã, a mulher toma conta da casa, o homem em geral trabalha fora. Estou certo ou errado? Logo…

– Mas espera ai…

– Logo, as mulheres são as responsáveis pela falta d’água.

– Francamente, você como sociólogo não fazia nem para o café. Que culpa tenho eu, a pobre Teresa, pelo fato dos prefeitos do Rio terem politicado o tempo todo?

– Que culpa? Uma parte da culpa, claro.

– Que parte?

- A parte que afeta a vida de casa. Os homens têm a outra parte. Morou? Falta d’água: culpa das mulheres; bagunça dos transportes: culpa dos homens.

– Estou começando a entender seu ponto de vista.

– Não é ponto de vista nenhum: é um fato trivial.

– Só não admito que as mulheres sejam culpadas pela falta d’água. Eu não entendo de água! Como é que eu, tomando conta de casa o dia inteiro, vou saber se o Governo fez ou não fez a adutora do Sandu?

– Do Guandu… Já disse que o problema é seu. Por que você não saiu em praça pública, não protestou, não botou fogo na Prefeitura ou no prefeito? O que você devia ter feito eu não sei.

– Venha cá: não seria mais lógico que os homens ficassem encarregados dessa parte do abastecimento d’água? O que eu não me conformo é com a água…

– Seria se os homens é que ficassem em casa. Aliás, nisso você tem inteira razão: sempre achei que os homens deviam tomar conta de casa e que as mulheres deveriam sair para trabalhar. Perfeito.

– Eu não estou dizendo isto…

– Mas eu estou. Não estou brincando, não. A mulher tem muito mais capacidade de trabalhar do que o homem. Sempre admirei a ordem e a eficiência com que trabalham. Mulher exatamente só não tem vocação é para tomar conta de casa. São umas caóticas totais. Você vê um homem no escritório ou na repartição: trabalha chateado, reclamando, esquece as coisas, confunde tudo. E vê a mulher: mulher trabalha de bom humor! Agora, voce quer ver um homem feliz: manda, por exemplo, ele organizar um almoço. Como é que ele faz tudo direitinho, muito satisfeito, não se esquece de nada, sai tudo uma beleza! Olhe aqui: um homem dentro duma cozinha é a imagem da felicidade! Mas a mulher vai para a cozinha como se fosse para o inferno.

– Você está ficando biruta.

– Biruta é a minha querida sogra. Estou dizendo uma coisa simples, uma coisa que a gente pode ver a toda hora. Primeiro: mulher se realiza no emprego; o homem uiva para ganhar a vida. Segundo: o homem é um frustrado porque gosta e tem jeito para cuidar de casa; mulher não sabe cuidar de casa, mulher detesta cuidar de casa! Isso ninguém me tira da cabeça.

– Pois para mim esta sua idéia é novidade.

– Novidade ou não, é a pura verdade. Você já olhou bem a cara dum homem quando ele lá um dia resolve encerar a casa? É uma cara de absoluta plenitude. E como os homens enceram bem! Agora, você reparou na cara duma mulher que vai trocar uma lâmpada? É a cara da vítima! A cara do casamento fracassado! Ela distorce a lâmpada queimada como se estivesse na cadeira elétrica!

– Ah, não, meu filho, isso é porque mulher tem medo de choque.

– Pois é: medo de choque… Mulher tem medo de choque mesmo com a eletricidade desligada… Não, minha filha, as coisas estão erradas, mas um ponto é indiscutível: o homem é um animal doméstico e a mulher é um animal social; o homem gostaria de organizar a casa e a mulher gostaria de organizar as coisas públicas; trabalho em casa devia ser para os homens; trabalho fora, para as mulheres. É claro.

– Queria ver você lavando as fraldas do Antônio Henrique…

– Lavaria, por que não? Lavar fralda é uma coisa chata para qualquer sexo, é um ônus… Mas isso não tem nada a ver com a história.

– Eu ficaria convencida se você fosse lá dentro e me preparasse uma laranjada bem geladinha, com pouco açúcar.

– Com o maior prazer!

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

Visconde de Taunay (Inocência)


ENREDO DE INOCÊNCIA

O acaso no meio do caminho

Cirino não tinha um destino certo quando enveredou pela estrada que ligava a vila de Santana do Parnaíba aos campos de Camapuã, sul da província de Mato Grosso, fronteira de Goiás, Minas Geris e São Paulo. Sua única certeza é que devia seguir “curando maleitas e feridas brabas”(p.22)2, em lugares esquecidos, no sertão. Era igualmente levado pelo desejo de conhecer terras novas, lugares perdidos nos mais diversos pontos do interior da província. Por isso, não hesitou em acompanhar o falante Sr.

Pereira, que, seguindo o mesmo caminho, voltava para casa depois da frustrada tentativa de conseguir remédio para a filha doente. O encontro casual com Cirino lhe trouxe não apenas um parceiro de prosa, mas também o remédio que procurava.

Apesar da gravidade da doença, o Sr. Pereira demorou-se em conduzir o médico até o quarto da filha. Hospitaleiro, ofereceu a Cirino comida farta e pouso. Depois, com muita hesitação, dirigiu-se ao médico em sinal de alerta:

- Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, muito amigo de todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto…

- Por certo, concordou o outro.

- Pois bem, mas… tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior da minha casa e… deve portar-se como… (p.35)

Martinho dos Santos Pereira vivIa só, com a filha, no mais calado sertão. Guardava a jovem dos olhos dos viajantes, pois já havia dado sua palavra que Inocência seria mulher do tropeiro Manecão, que viajava negociando gado e cuidado dos papéis para o casamento. Era grande a responsabilidade de Pereira, já que, no seu entender, as mulheres eram frágeis, inconstantes e incapazes de seguir leis da razão. Para ele, todos os homens representavam um grande risco à sua doce e bela Nocência. Seus cuidados faziam-se ainda maiores porque Inocência era dotada de beleza incomum. Por isso, Pereira dividia com Tico, um anão mudo, a tarefa de guardar a filha. Orgulhava-se o homúnculo de ser “uma espécie de cachorro de Nocência” (p.41).

Contudo, quando Cirino entra no quarto escuro para examinar Inocência e, com a ajuda de uma vela, vê a moça, fica profundamente desconcertado. Mesmo doente, a jovem demonstrava uma beleza impressionante.

Na mesma noite da chegada de Cirino, um naturalista alemão, Meyer, e seu camarada, pedem abrigo na fazenda de Pereira. O entomologista trazia uma coleção de insetos e muitas cartas de recomendação. Entre elas, uma, assinada por Francisco dos Santos Pereira, irmão esquecido do Sr. Pereira. Esse feliz acaso foi suficiente para o bom matuto perder a cabeça de alegria e se colocar totalmente à disposição do alemão. “Esta carta vale, para mim, mais que uma letra do Imperador que governa o Brasil” (p.59), diz, emocionado, o matuto. Como prova de sua satisfação, promete apresentar-lhe a filha Inocência assim que ela se recupere.

Os remédios de Cirino logo trazem a saúde de volta ao corpo de Inocência e, com ela, os traços vitais de sua beleza.

Um dia, após o almoço na casa de Pereira, Inocência é apresentada a Meyer. Diferentemente de Cirino, Meyer não consegue se controlar e faz muitos elogios a Inocência. Enquanto o alemão fala, enrolando a língua, Pereira e Cirino não conseguem disfarçar o mal-estar causado pelo discurso de Meyer. Um momento patético, que abala a todos.

Tornou-se Pereira pálido [...]; Inocência enrubesceu quem nem uma romã; Cirino sentiu um movimento impetuoso, misturado de estranheza e desespero, e, lá da sua pele de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão. (p.65)

Sem poder voltar atrás com sua palavra, Pereira enfiou na cabeça que Meyer queria se aproveitar de Inocência. Passa a vigiar e a controlar os mínimos gestos e palavras de Meyer, deixando a filha aos cuidados de Tico e do doutor.

Doutor enfeitiçado sem remédio para seu mal

Cirino percebe rapidamente que, à medida que cura Inocência, torna-se ele enfermo, acometido pelo mal grave e incurável da paixão. Resolve retomar seu caminho, mas o bom Pereira protesta. É que, quanto mais Pereira suspeitava de Meyer, mais confiava em Cirino. Em nenhum momento percebe que o doutor está perdidamente apaixonado por sua filha, embora o ache meio abatido às vezes. Para evitar que Cirino vá embora, Pereira arranja-lhe muitos doentes. Quanto mais Cirino cura os males alheios, mais se conscientiza de seu triste destino. Pereira jamais voltará atrás com a palavra dada a Manecão e, para isso, gasta todo o seu tempo embrenhado na mata com o naturalista, que vai aumentando, a cada dia, sua coleção de espécies raras de insetos.

Num desses dias, como fosse sair muito cedo com Meyer e Juca para a mata, Pereira encarrega Cirino de medicar Inocência na hora certa. O doutor passa a manhã contando todos os segundo até a hora de poder ver a moça.

Enquanto Tico vai chamar a criada para preparar café, Cirino conversa apaixonadamente com Inocência. Ainda que não se declare abertamente, dá mostras mais que evidentes de seu sentimento. Inocência demonstra igualmente um certo envolvimento. Depois disso, torna-se cada vez mais difícil para Cirino encontrar-se com ela.

Apesar do cerco fechado em que vive a moça, Cirino, tomado pelo desespero, bate a sua janela numa noite de luar e dá voz a sua paixão. Conversam os dois quase num sussurro e, sem muito esforço, descobre que é amado por Inocência. A paixão já não é mais segredo para eles.

O perigo está muito perto

A ira de Pereira atinge o grau máximo no dia em que Meyer, vasculhando a mata perto de seu roçado, cai em grande euforia ao descobrir uma borboleta de uma espécie totalmente desconhecida. Pulando “como um cabrito” (p.103), anuncia que dará o nome de Inocência a seu achado. Pereira recebe a notícia como uma grande ofensa: “Vejam só… o nome de Nocência numa bicharada!… Até parece mangação…” (p.104).

Depois do grande achado, Meyer, exultante e vitorioso, decide partir, deixando Pereira duvidoso quanto ao excesso de suas desconfianças:

- [...] Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola? [...] Hoje estou convencido que o tal alamão era bom e sincero… Olhou para a menina… achou-a bonitinha… e disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal… Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar… Às vezes o perigo vem donde nunca se esperou… (p.111-2).

E a vida de Pereira retoma seu curso.

Sem nenhuma esperança, Inocência e Cirno se encontram mais uma vez às escondidas. No laranjal, numa noite de luar, pensam numa solução para suas vidas. Cirino propõe-lhe fuga. Inocência recusa com medo de tornar uma mulher perdida, amaldiçoada pelo pai. Diante do pranto de Cirino, Inocência lembra de seu padrinho Antônio Cesário. Seu pai lhe devia dinheiro e respeitava sua vontade; se Cirino conseguisse convencê-lo a falar com Pereira, talvez eles estivessem salvos. Enquanto se abraçavam felizes e esperançosos, ouvem um assobio seguido de uma gargalhada. Cirino pega Inocência nos braços e a leva para casa. Ao voltar ao laranjal, sente algo cair sobre seus pés, pensa ser assombração. Aterrorizado, ouve um tiro disparado por ordem de Pereira, que vistoriava o pomar junto com um escravo. Cirino corre de volta para seu alojamento, aonde consegue chegar antes de Pereira. Finge não saber de nada. Nesse mesmo dia, parte em busca da ajuda de Antônio Cesário.

Manecão retorna com os documentos prontos para o casamento. Inocência se assusta quando o encontra. Enfrenta o pai e noivo, desafia a palavra que tinha força de lei.

- Eu?… Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!… Não quero… não quero… Nunca… Nunca…

Manecão bambaleou.

Pereira quis pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.

- Está doida, balbuciou, está doida.

E segurando-se à mesa, ergueu-se terrível

- Então, você não quer? Perguntou com os queixos a bater de raiva.

- Não, disse a moça com desespero, quero antes…

Não pode terminar. (p.138)

Com a ajuda de Tico, que tudo sabia, o grande equívoco de Pereira é desfeito. Fulminado, mas não liquidado. Pereira autoriza Manecão a lavar a honra de sua casa. O tropeiro parte imediatamente.

Desfecho

Cirino, por sua vez, encontra Cesário e, com muita dificuldade, expõe a ele sua situação. Cesário, desconfiado, lhe faz muitas perguntas e, por fim, pede-lhe que faça um juramento. Cirino aceita imediatamente, e Cesário, impressionado com o caráter e os sentimentos nobres do moço, que jurara sem saber o quê, promete-lhe pensar durante oito dias. Se resolvesse ajudá-los, apareceria até o final desse período; caso contrário, valeria o juramento: Cirino deveria desaparecer de suas terras e da vida de Inocência.

No último dia do prazo combinado, Cirino espera ansiosamente ver Cesário quando depara com Manecão. Este lhe dirige algumas palavras desaforadas e, em seguida, pega sua arma e atira impiedosamente no rival. Cesário aparece. Cirino ainda tem tempo de perdoar seu algoz e de agradecer Cesário. Morre murmurando o nome de Inocência.

O destino de Inocência é revelado no último momento da história, quando Meyer apresenta sua coleção com a espécie rara de borboleta à sociedade científica de seu país. Enquanto o naturalista alemão fala euforicamente da jovem que dera o nome a seu achado, o narrador comenta ironicamente que, havia dois anos, Inocência não existia mais.

Crônica de costumes

Uma das características marcantes do regionalismo é a valorização dos costumes típicos do mundo rural, bem como das particularidades do meio natural. O tempo e o lugar são decisivos para a definição dos acontecimentos.

Dentre os costumes regionais típicos, apresentados no romance de Taunay, podemos destacar:

hospitalidade: o sertanejo tem sempre um espaço reservado para os viajantes que pedem pousada. Há também farta oferta de comida, incluindo-se os frutos da região.

privacidade: os viajantes jamais se aproximam da casa do proprietário, nem penetram em seu interior.

preservação da honra: existe uma preocupação em garantir a harmonia entre as ações e as normas do código social, sobretudo com relação à família.

casamento como acordo entre famílias: apesar disso e embora não haja namoro, o casamento é o único meio de a filha se libertar da tirania do pai.

analfabetismo: leitura como um mal, sobretudo para a mulher.

exercício da vingança individual: as pessoas acham que podem fazer justiça com as próprias mãos.

curiosidade: nas cidades, todos participam da vida de cada um.

crendice: as crenças se revelam sobretudo no que se refere às doenças.

juramentos: a impossibilidade de reversão das regras sociais levam as pessoas a jurar por tudo, tendo cada um seu santo protetor.

Em Inocência, a crônica de costumes focaliza não apenas os hábitos e costumes da família, mas também os costumes decorrentes do modo de exploração da terra e dos produtos naturais e, finalmente, os hábitos políticos da nação. Nesse contexto é que a figura do viajante é importante, inclusive como elemento do mundo romanesco apresentado no limite entre documentário e ficção. É através de dois viajantes, Girino e Meyer, colocados pelo acaso no caminho do Sr. Pereira, que se dá a conhecer a família que vivia escondida no sertão.

Esquema fabular das aventuras amorosas

Casamento como resultado de jogo de interesses:

Inocência estava prometida a Manecão.

Constituição do triângulo amoroso:

Aparece Cirino

Amor impossível:

Morte como salvação

Cirino é assassinado por Manecão e Inocência definha-se, morre de amor, a exemplo de Teresa, personagem de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco.

Ao se construir a partir desse esquema da fabulação amorosa, o romance Inocência cria um vínculo com os clássicos universais. Contudo, a necessidade de publicar o romance em folhetins, ou seja, em capítulos separados nos jornais diários, obrigou o autor a utilizar uma técnica narrativa extremamente moderna para a época. O desenvolvimento dessa técnica de composição trouxe algumas modificações ao gênero romanesco.

Foco narrativo

O ponto de vista externo define o narrador de Inocência como um narrador onisciente, que é tendência dominante na narrativa romanesca do século XIX. É o modelo clássico, que confere plenos poderes a uma só focalização: tudo é apresentado a partir de um único ponto, com onisciência e onipresença. Esse é, sem dúvida, um modelo narrativo que atende às necessidades do romance regionalista, que focaliza a vida, os costumes, os valores sociais a partir de um único ponto de vista.

Personagens

PEREIRA, O FANÁTICO INGÊNUO

Pereira é o personagem principal, o fio condutor da história, ou melhor, a história é narrada a partir do ponto de vista que ele representa. E o que representa Pereira?

Em primeiro lugar, o patriarca, o pater familias, que dispõe de plenos poderes em sua terra e em sua casa, fazendo valer suas leis e direitos. Em segundo lugar, o sertanejo totalmente comprometido com os valores da sociedade agrária de origem colonial imposta pelos portugueses. Nesse sentido, ele é apenas uma peça desse mecanismo maior. Finalmente,

Pereira é representante de nossa cultura oral. Sem contato com o mundo da escrita, a expressão cultural do sertanejo oscila entre o rigor dos valores e a ingenuidade de quem se formou com aquilo que lhe chegou pelos olhos, pelos ouvidos e pela boca. Pereira fala através de frases feitas e proverbiais — o grande legado da cultura preservado e transmitido oralmente por séculos. Essa é sua sabedoria.

Como os valores da sociedade patriarcal não correspondem necessariamente aos valores da cultura oral, percebe-se nitidamente que o sertanejo fica em desvantagem. Sua ingenuidade, naturalidade e franqueza fazem dele um bruto e um ser atrasado. Sua postura autoritária é a de um bárbaro. Custe o que custar precisa fazer valer o sistema de valores da sociedade patriarcal.

Todavia, a autoridade não se associa muito bem à austeridade na pele de Pereira. Por isso, o exagero em sua perseguição ao alemão, na proteção à filha em nome da honra e da palavra empenhada, faz com que Pereira apresente traços já bem delineados de um fanatismo selvagem, que levou sertanejos do Nordeste ao cangaço e a lutas sangrentas. Pereira reproduz a imagem de um fanatismo ainda romântico, porque atua em nome de interesses individuais.

Como os demais personagens românticos, o comportamento de Pereira se movimenta em torno de um único traço, e isso acaba definindo os tipos estereotipados de personagens que não mudam ao longo da história, as chamadas personagens planas.

INOCÊNCIA

Inocência é filha dos sertões(capítulo XIX), como ela própria se define, mas todos, até seu pai, vêem nela feições de moça da cidade. Para o pai, ela é uma menina, apesar dos 18 anos, bonita, arisca, carinhosa, feiticeira, esquisita. Criada sem mãe, relacionava-se muito bem com as graúnas e os bichos da fazenda. Quando criança, pediu ao pai para aprender a ler.

Inocência é uma sertaneja, mas não aquela sertaneja envolvida com o mundo produtivo da vida rural: não é camponesa, nem pastora, nem doméstica. É apenas uma sertaneja romântica, bela, frágil, doente.

Atravessa a narrativa consumida por duas chamas: a da maleita e a da paixão (Moraes, 1971, p. 96). Aí reside grande parte do mistério que envolve essa personagem, que não é apenas a heroína romântica apaixonada. Inocência é mais uma metáfora calada do que uma personagem: dentro dela se escondem aspectos fundamentais das idéias do romance.

Durante grande parte da narrativa, Inocência é apenas discurso de outro: o que sabemos dela é aquilo que o seu pai nos conta.

CIRINO, O HERÓICO BOM RAPAZ

Cirino é moço da cidade que, antes de se aventurar a percorrer o sertão curando doenças, enfrentou o desafio de transformar suas experiências Farmacêuticas em conhecimento médico. Daí sua disposição em desbravar lugares distantes e perdidos no sertão.

Quando a ação se inicia, conta aproximadamente 25 anos e apresenta-se distintamente: traja-se bem, tem ar circunspecto e decidido. Cirino herdara do pai a facilidade no manejo das ervas e das drogas curativas. Curioso mais que estudioso, enveredara pelo sertão munido de mezinhas e de um livro de medicina, sem, contudo, ter licença para medicar. Graças ao amor que dedicava à profissão, era uma pessoa de nobre caráter.

MEYER, O CIENTISTA BURLESCO

O viajante alemão é uma figura que excede os personagens românticos, criando um contraste com eles. Meyer é um personagem funcional: sua função é criar circunstâncias de ação para outros personagens. Criou a grande armadilha para Pereira, deixando livre o espaço para a atuação de Cirino; criou também condições para que surgisse um outro sentido para Inocência. É em tomo de sua figura que podemos interpretar a grande metáfora do romance, como situaremos mais adiante.

Desde o início, Meyer exprime um comportamento diferenciado. Enquanto o camarada, um homem vulgar, não poupava energia para açoitar o animal que resistia a seguir pelo caminho que trilhavam, Meyer fala calmamente:

— Juque, disse ele de repente com acento fortemente gutural e que denunciava a origem teu-tônica, se porretada chove assim no seu lombo, vóce gosta? (p. 44)

A capacidade de compreensão do cientista se sobrepõe às ações desmedidas do camarada. Levanta hipóteses sobre a conduta do animal. Através de um sinal na estrada, um ramo quebrado, descobre um outro caminho que o leva, junto com seu camarada às terras de Pereira. E era de um lugar para passar a noite que precisavam naquele momento. E conclui ironicamente:

— Eu não disse a vóce, replicou o cavaleiro com voz até certo ponto triunfante. Asno tem razão: para diante há alguma coisa. (p. 44)

Meyer representa um outro olhar sobre a paisagem, diferente até do olhar do doutor Cirino. Para ele a natureza e seus elementos são objeto de conhecimento, guardam os segredos que desafiam sua mente inquieta.

TICO, O ANTAGONISTA GROTESCO

Como cão de guarda de Inocência, Tico investe-se de um poder inacreditável: tudo sabe, tudo vê e é capaz de estar nos mais variados lugares numa fração de segundos. Tico é um olho onipresente e onisciente, mas nada pode dizer.

Quando Cirino vai medicar Inocência ao meio-dia, ele resiste a abrir-lhe a porta; só o faz porque Inocência manda. Mesmo assim, através de gestos grosseiros, manda o doutor permanecer fora da casa enquanto ele vai chamar a cozinheira para fazer café. Desde o início revela-se antagonista de Cirino.

Na primeira noite em que os namorados se encontram no pomar, seu idílio amoroso é interrompido:

Soou [...] um assobio prolongado, agudíssimo, e uma pedra, arremessada por mão misteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veio bater na parede com surda pancada, passando rente à cabeça de Girino. (p. 98)

Ainda que os namorados pensassem ser assombração, somente um indivíduo podia ser autor dessa façanha: ninguém mais do que Tico. Embora não tivesse voz, era capaz de produzir ruídos assustadores.

Não é só a condição de ser cidadão que é negada a Tico, mas também sua condição humana. Por ser anão e mudo, portanto, um ser que jamais poderia chegar à possibilidade de disputar Inocência, Pereira confiou-lhe cegamente a guarda da filha. Para Pereira, Tico era apenas um bicho de estimação, sem masculinidade. Tico é um ser desprezível e sua imagem lembra o Quasímodo de Victor Hugo (1802-1885).

MANECÃO, O VILÃO AUSENTE

É muito curioso que o homem a quem Pereira promete sua filha querida em casamento seja o grande ausente da história. Sabemos que ele viajara para negociar gado e para providenciar os documentos do casamento. Nada mais.

Durante a história é impossível fazer qualquer tipo de avaliação sobre sua pessoa que já não esteja carregada pela visão dos outros personagens. Ao mesmo tempo é estranho que uma pessoa sem nenhuma referência, imagem ou personalidade tenha poder de decisão sobre a vida de Inocência e de Cirino. A própria Inocência não tem nada a dizer sobre o homem com quem vai dividir o resto de seus dias.

Manecão é, sem dúvida, um personagem que tem um único papel na narrativa: a ele foi reservada a tarefa de fazer valer a honra da palavra empenhada. Exatamente por estar distante dos episódios, pôde fazer justiça com suas próprias mãos, matando impiedosamente Cirino. Como Pereira, um homem generoso, bem-humorado e de bom coração, poderia cumprir uma missão tão cruel? Afinal, apesar de toda sua aparência autoritária, Pereira é um homem cativante, que conquista simpatias. O contrário de Manecão, que, mesmo ausente, consegue ser antipático. Visto por essa ótica, Manecão é o vilão da história, age em nome próprio e cuida tão-somente de seus interesses. Manecão é, assim, a mais “visível” representação dos valores que dominam na história: os valores invisíveis que decidem sobre a vida das pessoas. Ele não aparece na história, mas aquilo que ele representa não se ausenta um instante sequer.

O sertão de Mato Grosso como cenário de intimidade

O ESPAÇO DA AVENTURA

No romance regionalista, falar do espaço é tratar de tudo que entra para a definição do próprio gênero. A começar pelos personagens, que vivem de tal modo ligados à terra, que muitas vezes suas ações são orientadas pelos elementos naturais, pois nesse tipo de romance há uma interação entre o homem e seu espaço vivencial. No romance regionalista, o espaço natural — campos, estradas, pomares, florestas, bosques, cachoeiras, rios, lagos — é a mais precisa expressão do locus amoenus da tradição clássica, o lugar ideal, harmonioso, pacífico, onde vive o homem natural, puro, sem o mínimo contato com o mundo urbano. Esse “lugar» é o cenário da intimidade dos personagens; tudo o que nele ocorre permanece no âmbito do mais recôndito mundo privado. É como se a vida pública não existisse. O espaço imenso, grandioso e ameno do sertão é o único lugar capaz de abrigar os grandes conflitos do homem.

O leitor de Inocência é introduzido nesse espaço privilegiado desde o primeiro capítulo, sintetizado de modo notável pela epígrafe do escritor francês JeanJacques Rousseau (1712-1778), cujas obras tiveram importância decisiva para o Romantismo, sobretudo no que se refere ao mundo do idílio e da natureza de modo geral. A epígrafe que introduz o capítulo 1 do romance diz o seguinte:

Então com passo tranqüilo metia-me eu por algum recanto da floresta algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e a natureza.

J.-J. Rousseau — O encanto da solidão. (p. 11)

TEMPO CONVENCIONAL E TEMPO HISTÓRICO

Existem duas datas que definem a duração do conjunto de episódios que constituem a narrativa de Inocência o dia 15 de julho de 1860 e o dia 18 de agosto de 1863. O primeiro é o dia do encontro de Cirino com Pereira; o segundo, o dia em que Meyer apresenta à comunidade científica alemã — a Sociedade Geral Entomológica — seu grande achado em terras brasileiras. Após anunciar o noticiário do evento no jornal local, O Tempo (Die Zeit), o narrador nos informa:

Exatamente nesse dia fazia dois anos que o seu gentil corpo fora entregue à terra, no imenso sertão de Sant’Ana do Paranaíba, para aí dormir o sono da eternidade. (p. 148)

Tais referências temporais são os termos da equação para que possamos chegar à noção do tempo e da duração dos acontecimentos narrados; presume-se, portanto, que tais fatos tenham ocorrido entre os anos de 1860 e 1861. Os dois anos que se seguiram constituem um espaço vazio. Entendemos que tal foi o tempo necessário para Meyer vencer a distância que separava seu país das terras brasileiras. Mas é esse tempo “morto” que nos surpreende no final da história e nos leva a refletir sobre os temas centrais da narrativa. É preciso uma reflexão mais aprofundada sobre ele.

ELEMENTOS TEMÁTICOS

Se tivéssemos de encerrar o romance num único módulo temático, fundamental para a definição de conjunto, o tema da aventura seria o grande privilegiado. Em nome da aventura se consagrou o próprio Romantismo. Seguindo a tradição das clássicas histórias de jovens apaixonados, o esquema de motivos e de representação temporal segue a mesma fórmula: encontro inesperado, conflitos familiares, final trágico.

Para que essa estrutura garanta a aventura como a grande unidade temática, há que se considerar os temas que gravitam em torno dela como elementos fundamentais. Dentre eles destacamos:

ACASO

Tudo no romance acontece por acaso, como vimos anteriormente, sobretudo os encontros. Por acaso Pereira se encontra com Cirino; Meyer encontra o obstáculo na estrada; Cirino encontra Inocência; Pereira recebe carta do irmão; Meyer encontra a espécie rara.

A série dos acasos, no romance romântico, insere os acontecimentos dentro de uma outra lógica, que tem a ver com o destino. Graças ao acaso os destinos mudam bruscamente, causando os maiores problemas dentro das vidas estruturadas para perpetuar a tradição. Como força de desestabiização, de questionamento e de riscos, o acaso se constitui num impulso no sentido de colocar os direitos do coração como base para se falar dos demais direitos do homem.

AMOR IMPOSSÍVEL

Sendo as paixões humanas guiadas pelas leis do acaso e não da vontade, o amor que desperta as emoções dos jovens nunca corresponde à vontade dos pais, tornando-se um amor impossível, típica manifestação do amor cortês medieval.

Inicialmente, é importante considerar o amor impossível como um acontecimento inesperado e, por isso mesmo, um agente de desequilíbrio das situações. Enquanto perdura a situação conflituosa, o amor impossível exprime uma situação de impasse que se traduz através da constituição dos triângulos amorosos: o amor não encontra seu par. Daí o desencontro. No romance de Taunay, temos vários triângulos amorosos, dependendo dos elementos que o constituem. Os elementos mudam segundo o ponto de vista em questão:

1. do ponto de vista dos namorados: Inocência, Cirino e Manecão

2. do ponto de vista de Pereira e do ponto de vista de Cirino: Inocência, Meyer, Manecão.

Amor diante da razão social e, conseqüentemente, permanência do statu quo. É uma questão de honra: o pai prefere ver sua filha morta a ter seu nome desonrado. Que nome?… O importante é que a morte garante a pureza, do nome e da filha.

Para Inocência, a morte é a única saída para o impasse a que sua vida foi encaminhada. É a única forma de escapar do compromisso assumido e de não se casar com Manecão; e seria também a única forma de não cair em desgraça se atendesse ao pedido de fuga de Cirino. A morte de Inocência é uma daquelas mortes românticas provocadas pelo acaso. Morte de amor: Inocência livrou-se da febre da maleita, mas não escapou da febre da paixão.

A morte de Cirino é fruto de uma vingança, por isso ele se torna um herói. Morre honestamente, enfrentando seu rival. Ambas são mortes românticas, morte que ataca jovens apaixonados. É a única forma de conservar o encantamento da paixão.

A CIÉNCIA E A PAIXÃO

O grande tema do Romantismo é o confronto entre sentimento e razão. No romance de Taunay, tal problemática foi explorada de modo particular.

De um lado, temos a paixão, que vence a razão de um médico curandeiro. O herói romanesco, diferentemente dos heróis do nosso Romantismo, não é um jovem improdutivo, que pode se entregar as vinte e quatro horas de seu dia às vivências da paixão. O Dr. Cirino amarga seus sentimentos em meio a seus doentes, o que não deixa de ser uma forma de respirar no mesmo lugar onde mora sua amada.

De outro, temos o encantamento do naturalista diante das belezas de Inocência. Ele pode não ter se apaixonado pela moça, mas certamente se encantou com sua beleza a ponto de consagrar seu sentimento num nome científico. De acordo com o ponto de vista narrativo isso significa que

[...] também os sábios possuem coração tangível e podem, por vezes, usar da ciência como meio de demonstrar impressões sentimentais de que muitos não os julgam suscetíveis. (p. 148)

Tal é a sentença de honra ao mérito que foi dedicada a Meyer pelo jornal de sua cidade. O que nos leva a pensar que todo o trabalho de Pereira fora em vão e que Meyer foi, de fato, o único vitorioso. Ele foi o único capaz de consagrar a paixão num evento científico, colocando-se acima dos valores autoritários de Pereira. Nesse caso, o estrangeiro, homem da cidade, soube dar a volta por cima. Foi a vitória da inteligência. Dela estava muito distante o conhecimento prático do doutor, que só entendia das moléstias do sertão.

É preciso considerar também que a ciência, apesar de vitoriosa, está a serviço da paixão. Graças à medicina popular de Cirino, Inocência se salva da moléstia; graças à ciência de Meyer, ela vive eternamente numa outra esfera de existência.

Em vez de oposição, a ciência e a paixão traduzem uma só manifestação: o entusiasmo de Meyer pelas coisas naturais. Borboleta e Inocência são dois lados de um mesmo fenômeno para o cientista. Meyer, que fora ridicularizado por Pereira, confirma para nós a máxima: ri melhor quem ri no fim.

A MULHER COMO CAMPO DE BATALHA

Se levarmos em conta os vários fragmentos em que os personagens e também o narrador exprimem suas idéias a respeito da condição feminina, diríamos que os confrontos de todos esses juízos formam um verdadeiro campo de batalha. Em nome da proteção da tão falada condição feminina, Inocência é praticamente escravizada. Mas essa mesma condição leva os homens a perder a cabeça. Pereira como pai, Cimo como jovem apaixonado, Tico como protetor, Meyer como viajante admirador de espécies raras e excêntricas.

A mulher passa de ser sublime, inocente, guardado numa redoma de vidro, a ser desprezível, ameaçador, inocente, gerador da duplicidade de nomeação da personagem. No final, a duplicidade permanece: como ser inocente, Inocência foi consagrada pela ciência, entrou gloriosa para a alta eternidade; como ser nocivo, foi castigada, queimada pela febre.

A morte de Inocência acaba fazendo valer a superioridade da honra, dos valores, e a inferioridade do amor e das paixões. O par amoroso é liquidado, e a honra de Pereira e de Manecão estão salvas.

Porém, pensando na morte de Inocência, que não nos parece ter sido provocada por nenhuma causa externa, somos levados a pensar em termos simbólicos. Quer dizer, a morte de Inocência pode ser pensada como eliminação da figura feminina submissa, escrava. Nesse contexto, ganha sentido sua resistência de corça: ela disse que não se casaria com Manecão e, de fato, não se casou, o que não deixa de ser uma vitória.

Olhando por esse viés, mudamos sensivelmente o modo de ver Inocência. Se até agora ela era “uma sonâmbula”, um fantoche sem vontade própria, podemos agora vê-la como um ser superior. Se, inicialmente, ela dividia com Cirino o primeiro plano da narrativa, em que o médico parecia ser seu suporte, ao fazer valer sua vontade e não se deixar abater nem por Manecão nem por Pereira, ela se impõe como a verdadeira heroína e personagem principal de toda a trama. A todos ela enfrenta sem a ajuda de Cirino.

A luta que se desencadeou em torno desse tema teve como objeto o corpo; no corpo reside a honra. Com o fim do corpo, deixa de existir o valor e tudo o que nele está implicado. O que resta, então? A liberdade, sem dúvida alguma; visto que em nome dela se fazem muitas batalhas. O que não deixa de ser uma grande ironia.

Fonte:
Irene A. Machado. Roteiro de Leitura: Inocência, de Visconde de Taunay, Editora Ática. Disponível em Resumos de Livros

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Amazonas

José Feldman (Devaneios Poéticos n.4)


Uma Trova do Feldman

Minha vida era tão triste,
era um pântano a céu aberto.
O farol que conduziste,
mostrou um oásis no deserto.
-JOSÉ FELDMAN/PR-

Uma Trova Nacional

Vagando em brandos festejos,
antes que a brisa se amoite,
os vagalumes são beijos
que os anjos trocam de noite.
–Humberto del Maestro/ES–

Uma Trova Paranaense

No escrínio do coração,
há um círio flamejante.
Nele há ressurreição,
nova luz contagiante.
– CONEGO BENEDITO TELLES/PR-

Uma Trova Premiada

1988 – Certame de Trovas Adelmar Tavares/UBT RJ
Tema Municipal – ESCRAVO – Menção Honrosa

Escravo do teu olhar
e do teu sorrir, brejeiro,
não me importo de passar
cem anos de cativeiro
– HERMOCLYDES S. FRANCO/RJ-

Um Poetrix

Caminho do Sertão
– ARGEMIRO GARCIA/ SP

Levanta-se pó na estrada,
rodando: será saci?
canta longe um bem-te-vi.

Uma Trova do Ademar

Do fogo no matagal,
na fumaça que irradia,
vejo um câncer terminal
no pulmão da ecologia!…
-ADEMAR MACEDO/RN-

..E Suas Trovas Ficaram

Quem dera que minhas trovas
andassem pelos caminhos,
consolando os desgraçados,
dando pão para os ceguinhos …
–ADELMAR TAVARES/RJ–

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti nasceu no Recife em 16 de fevereiro de 1888. Filho de Francisco Tavares da Silva Cavalcanti e de Maria Cândida Tavares.

Ainda como estudante de Direito pela Faculdade de Direito do Recife manifestou interesse pela imprensa colaborando como redator no Jornal Pequeno. Formou-se no ano de 1909. No ano seguinte mudou-se para o Rio de Janeiro, que na época era a capital do Brasil, onde veio a ocupar importantes cargos, como os de professor de Direito Penal na Faculdade de Direito do Estado do Rio de Janeiro, de promotor público adjunto (1910), de curador de resíduos e testamentos (1918), de curador de órfãos (1918 a 1940), de advogado do Banco do Brasil (1925 a 1930), de desembargador da Corte de Apelação do Distrito Federal (1940) e finalmente o de presidente do Tribunal de Justiça (1948 a 1950).

Mesmo exercendo a magistratura, Adelmar Tavares sempre colaborou com a imprensa, tornando-se conhecido em todo o país por suas trovas. É considerado, até hoje, aquele que mais se dedicou a esse gênero poético no Brasil. Suas trovas sempre mereceram referência na história literária brasileira. Sua obra poética caracteriza-se pelo romantismo, lirismo e sensibilidade. Os temas mais comuns estão relacionados à saudade e à vida simples junto à natureza.

Participou da Sociedade Brasileira de Criminologia, do Instituto dos Advogados, da Academia Brasileira de Belas Artes. Escreveu obras jurídicas, entre elas: A história do fideicomisso, Do homicídio eutanásico ou suplicado, Do direito criminal, O desajustamento do delinquente à profissão.

Foi membro e patrono da Academia Brasileira de Trovas.

Em 4 de setembro de 1926 foi empossado na cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras pelas mãos do acadêmico Laudelino Freire, alcançando a presidência da Academia em 1948.

Era considerado o Príncipe dos Trovadores Brasileiros.

Faleceu no Rio de Janeiro, 20 de junho de 1963.

Obras
Descantes – trovas (1907)
Trovas e trovadores – conferência (1910)
Luz dos meus olhos, Myriam – poesia (1912)
A poesia das violas – poesia (1921)
Noite cheia de estrelas – poesia (1923)
A linda mentira – prosa (1926)
Poesias (1929)
Trovas (1931)
O caminho enluarado – poesia (1932)
A luz do altar – poesia (1934)
Poesias escolhidas (1946)
Poesias completas (1958)

Um Haikai

Praia do Meio
– JOÃO DE DEUS SOUTO FILHO/MA-
(haikai homenageando a cidade de Natal)

Recifes em linha,
Muralhas verde-musgo
Emoldurando o mar.

Uma Poesia

Sonhos Sertanejo
– UBIRATAN LUSTOSA/PR-

Cabocla de olhar tão lindo
quando a vejo, assim, sorrindo,
me sinto mais cantador.
Cabocla escute o desejo
nos versos do sertanejo
que por você tem amor.

Ah! Cabocla, quem me dera,
nesse mundo quem pudera
ser mais feliz do que eu
se eu fosse a colcha macia
que o seu corpo acaricia
depois que ocê adormeceu.

Se eu fosse a renda bonita
do seu vestido de chita
usado só pra passear…
fosse a lua sertaneja
que esse seu rostinho beija
e, depois, torna a beijar.

Se eu fosse aquele regato
que parece o seu retrato
quando você ali se espelha.
Se eu fosse o laço de fita
que de alegria palpita
quando o seu cabelo enleia.

Ah! Cabocla, quem me dera,
nesse mundo quem pudera
ser mais feliz do que eu…
Quem me dera que eu sonhasse
beijar seu rosto e acordasse
com você beijando o meu.

Quem me dera ser as aves
de quem os cantos suaves
você imita com carinho.
Quem me dera que eu pudesse
ser essa flor que floresce
pra enfeitar o seu caminho.

Ah! Cabocla, quem me dera,
nesse mundo quem pudera
ser mais feliz do que eu,
se esse seu rosto mimoso,
esse corpo tão gracioso,
isso tudo fosse meu.

Uma Trova da Amália

Foi como em cristal impressa
tua palavra de então;
não só quebraste a promessa,
jogaste os cacos no chão!
– AMÁLIA MAX/PR-

Soneto do Dia

Fugaz Enlevo
-MAMED ZAUÍTH/PR-

“Oh flor do céu! oh! flor cândida e pura!”
inesquecível deusa da beleza,
com uma auréola de formosura
e um ar esplêndido de realeza.

Tens o condão de transmitir ventura
com tua voz eivada de lhaneza;
consegues sublimar toda candura
à fronte erguida, plena de nobreza!

Qual zéfiro fugaz entre a ramagem,
teus lábios guardam a secreta calma,
sublime enlevo de eternal miragem!

Partiste! E me legaste esta mortalha,
o rosto em lágrimas, prendi tua alma:
“Perde-se a vida, ganha-se a batalha!”

Fonte:
seleção por José Feldman

Biografia do Adelmar obtida em Wikipedia

Ubiratan Lustosa (Livro de Trovas)

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Quando eu a vejo sorrindo
fico contente porque
foi esse sorriso lindo
que me fez amar você.

Saudade é flor venenosa
que tem perfume no espinho;
acaricia zelosa
pra nos matar de mansinho.

Aonde vou vai comigo
tua imagem me seguindo
a me lembrar que onde sigo
teu amor também vai indo.

Amor com amor se paga,
diz o refrão a ensinar,
mas tem gente que se gaba
de dever e não pagar.

Enfrente a vida sorrindo,
e sem ter medo de grito;
não ouça leão rugindo
quando é berro de cabrito.

Bonaparte, previdente,
dizia em sábias propostas:
“Prefiro um leão de frente
do que vento pelas costas”.

Aplauso não me faz falta,
a boa amizade sim;
vai-se a glória da ribalta,
a amizade fica em mim.

Peço a Deus Onipotente:
- Meus amigos abençoa!
Só posso viver contente
ao ver todos numa boa.

Passa o tempo e nas andanças
a gente segue também;
do tempo ficam lembranças,
da gente o que fez de bem.

De vez em quando me invade
uma ideia que tonteia:
é sair pela cidade
dando tapa em gente feia.

É ditado popular:
“A ocasião faz o ladrão”.
Você resolveu provar
e roubou meu coração.

Quando a noite vai chegando
em minha casa já espero
só pra ver passar gritando
um bando de quero-quero.

Cuidado você que ensaia
seu par de botas achar:
amor que nasce na praia
na areia vai desmanchar.

É coisa da mocidade
cometer um desatino;
depois, na adversidade,
bota a culpa no destino.

Perante Deus, acredito
no que por santo foi dito:
“Faz muito aquele que faz
o pouco de que é capaz”.

Quisera que meu presente
de Natal fosse a mudança:
deter o que vem pra frente
e voltar a ser criança.

Ano Novo, vida nova,
diz o dito popular.
A esperança se renova
e a gente volta a sonhar.

Existe tanta ternura
nas festas de fim de ano,
que a gente, com alma pura,
esquece até o desengano.

Já fui caçador, fui caça,
fui peixe, fui pescador.
Fiz o que dizem “não faça”
só pra sentir o sabor.

Subi morros por pirraça,
rolei ladeiras de dor,
do perigo achando graça
mergulhei no mar do amor.

O amor mudou minha sina
de teimoso valentão;
a meiguice feminina
me escravizou na paixão.

Esse é destino do macho
que numa saia faz ninho:
o mandão vira capacho,
o tigre vira gatinho.

Fonte:
Vânia Ennes

Ubiratan Lustosa (1929)


artigo por Vânia M. S. Ennes

Ubiratan Lustosa nasceu em Curitiba, em 1929. Formado em direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Ubiratan Lustosa, admirável radialista, poeta, trovador, escritor, letrista, contista e historiador é um dos nomes mais destacados da história do rádio curitibano, paranaense e brasileiro e autor de vários livros.

Cativante e comunicativo, desde menino desejava ser locutor e assim iniciou muito cedo sua gloriosa carreira, nos alto falantes dos circos, parques de diversão, quermesses de igreja, festas juninas e campanhas políticas.

De extraordinária capacidade profissional, muito cedo Ubiratan Lustosa tornou-se diretor das Rádios Marumbi e Rádio Clube Paranaense – B 2, então a mais importante e possante emissora do Estado.

Através de sua voz sonora de locutor e dotado de um cérebro privilegiado Ubiratan transmitia credibilidade, confiança e respeito aos milhares de ouvintes.

Um predestinado! Grande incentivador da cultura escrita e falada e um dos fundadores da União Brasileira de Trovadores – UBT Seção de Curitiba!

Por tão marcante personalidade e pela forma serena e educada de agir, Ubiratan vem conquistando uma legião de amigos ao longo da brilhante carreira, através da sua simpatia e alto astral!

Site do Ubiratan Lustosa: http: ww.ulustosa.com/historiaradiomais,info.locutores.htm

Fonte:
Texto enviado por Vânia Ennes

Ialmar Pio Schneider (Soneto a Tiradentes – In Memoriam)


Nós estamos em pleno mês de abril,
quando reverenciamos com sapiência,
nosso Mártir maior da Independência,
o heróico Tiradentes varonil…

E demonstrando um forte amor febril,
não temeu entregar sua existência,
com denodo cabal e paciência,
querendo a liberdade do Brasil…

Há de permanecer sua memória,
com respeito de todas as nações,
porque jamais se apagará da História…

Exemplo de coragem inaudita,
representa às futuras gerações,
a imagem que será sempre bendita…

Fonte:
Soneto enviado pelo autor

Mia Couto (A Menina sem Palavra)


(- segunda estória para a Rita- )

A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialeto pessoal e intransmitivel? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta atual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.

Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:

- Fala comigo, filha!-

Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:

- mar- …

O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. – _Vês, tu falas, ela fala, ela fala!- Gritava para que se ouvisse. – _Disse mar, ela disse mar- , repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.

O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.

A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.

- Venha, minha filha!-

Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?

- Vamos filha! Senão as ondas nos vão engolir- .

O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?

Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:

Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.

Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:

- Pai!-

Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.

Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:

- Agora, é que nunca- .

A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fratura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?

- Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor- …

Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e o conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.

- Viu, pai? Eu acabei a sua história!-

E os dois, enluarados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

Leme Franco (A Caixa)


Apareceu abruptamente uma caixa cúbica como muitas. De papelão como quase todas. Cheia, posto que não era leve, não se sabia de quê.

Impossível levantá-la com as mãos, não pelo tamanho, que era pequena, mas pelo seu peso.

Arrastá-la, nem com o esforço conjunto de todas as pessoas a quem se pediu auxílio.

Estava naquele canto do barracão que se usa como despensa e não se sabe como foi levada para lá.

Ninguém se alegou responsável por ela e por levá-la até aquele cômodo escuro meio isolado do resto da fábrica, por um longo corredor.

No dia anterior ninguém a vira por lá, embora poucos iam até esta dispensa almoxarifado.

Neste dia , logo pela manhã a primeira pessoa a chegar para bater ponto na máquina que não ficava muito longe deste quarto, notou-a e estranhou, pois fora ela o último funcionário a sair da empresa na noite que se passou.

Nada comentou, mas outros empregados também a visualizaram e foram até ele, sabendo do horário que o secretário de compras abandonou o local.

Todos da fábrica tentaram abri-la sem sucesso e não conseguiram movê-la para um local mais apropriado, já que ficara no meio da sala.

O empresário foi avisado e toda a empresa foi até o cubículo ver a nova aquisição não programada do expediente.

Também, sem sucesso todos tentaram afastá-la do meio do cômodo. E não conseguiram abri-la.

A conversa do dia foi sobre esta caixa verde escura de origem obscura. Hipóteses para sua existência não faltaram. Piadas também não. Sugestões para se tentar abri-la e movê-la idem.

Tentaram com tesouronas, alicates de vários tamanhos, serras variadas, infrutiferamente. Várias pessoas juntas tentaram tirá-la do lugar. Nada. Experimentaram até um pequeno guindaste. Puxaram, empurraram. Tentaram ouvir algo dentro dela ,a pensar em bomba. A caixa simplesmente resistiu a tudo e todos.

Ficaram lidando com aquele recipiente dias e dias: pediram ajuda dos vizinhos, um dos quais usou uma furadeira, também infrutiferamente. Outro, uma facona longa, mesmo correndo o risco de estragar o conteúdo desconhecido, tudo sem conseguir o que intentaram- abrir o receptáculo.

Quanto a transportá-la para outro espaço desistiram havia tempo.

Com o passar dos dias o mistério saiu do âmbito da vizinhança e ganhou as ruas e os jornais da cidade grande. Foi um auê e prejuízo enorme para os trabalhos daqueles funcionários e para os negócios da empresa e da vida dos circunvizinhos. Até as pessoas comuns dos arrebaldes distantes juntaram-se para conhecer o tal invólucro verde e misterioso.

Nada, nem ninguém – até a polícia fora acionada – mudou o status quo da fábrica de embalagens, embora os que ali trabalhavam estivessem acostumados com caixas e pacotes.

Hipotesaram que alguém da concorrência queria pregar-lhes peça, que algum cliente mal intencionado ou descontente com algum atendimento, poderia ter querido algazarrar para prejudicá-los, mas não atinavam como aquela embalagem chegara ali. Criaram até sensação de desconfiança com a firma de segurança eletrônica do local que também estava no rol dos que queriam solução rápida para o impasse. Não importava mais saber como a caixa lá ficou e nem que continha. Queriam tirá-la de lá e fim.

Com os dias passando, o movimento à fabrica de embalagens aumentou , apareceram mais clientes, muitos vindo pela curiosidade do sítio, e o faturamento dela aumentou muito, ultrapassando os valores anteriores ao encontro daquela estranha caixa, que não mais se sabia se ainda queriam ainda ficar livre daquele trambolho.

Aí, num belo dia de chuva, os funcionários chegaram de manhã e não mais a viram. A peça cúbica desaparecera tão misteriosamente como surgiu. A surpresa veio para todos, e as conversas sobre aquele episódio recomeçaram, com pontos semelhantes a antes: como a caixa desapareceu dali? Os autores da façanha perceberam que queriam dar prejuízos, mas proporcionaram lucros e desfizeram o malfeito? Quem fez a peripécia já se deu por satisfeita e resolveu tirar o incômodo dali? Como conseguiu botar e tirar aquela caixona sem que vissem? E os curiosos de antes voltaram para ver o sumiço.

Episódio até hoje não resolvido e tudo voltou ao normal em Caixolândia

Fonte:
O Autor

Ubiratan Lustosa (Eu Vi Minha Mãe Rezando)


Lá pelos anos 60, certo dia apareceu na Rádio Clube Paranaense, emissora onde eu trabalhava, o meu amigo Orlando Woczikosky, grande poeta curitibano, hoje Presidente de Honra da União Brasileira de Trovadores do Paraná.

Eu apresentava as trovas do Orlando em meus programas radiofônicos colhendo-as de um manuscrito que ele me dera e que até hoje guardo como relíquia.

Naquela visita Orlando levou consigo outro poeta, do qual eu achava linda uma trova conhecida em todo o Brasil, mas que até então não sabia quem era o autor. A trova, vocês devem lembrar, diz assim:

Eu vi minha mãe rezando
aos pés da Virgem Maria;
era uma Santa escutando
o que outra santa dizia”.

Eu acho linda essa trova. Vocês sabem quem é o autor? O saudoso poeta Barreto Coutinho, o homem que o Orlando Woczikosky levou para me visitar nos estúdios da veterana Bedois. Seu nome completo é Ermírio Barreto Coutinho da Silveira.

Nascido em Limoeiro, Pernambuco, Barreto Coutinho era médico, jornalista e professor universitário no Rio de Janeiro e vindo para a capital paranaense foi presidente da União Brasileira de Trovadores – seção de Curitiba.

Naquela visita, em meio a um bate-papo gostoso, o poeta pernambucano me contou uma curiosidade: a sua famosa quadra originalmente era um pouco diferente. Quando começou a correr o Brasil, alguém modificou um pouco os versos do poeta, deixando a trova como até hoje é conhecida. Não se sabe quem fez isso.

A trova original, a quinta de um poema de oito quadras, antes era assim:
Uma vez vi-a rezando
aos pés da Virgem Maria…
…era uma santa escutando
o que outra santa dizia.

O primeiro verso foi alterado.

Eu perguntei ao Barreto se ele não ficou aborrecido por terem modificado seus versos e ele me respondeu:

- Que nada. Quem modificou deixou melhor!

Barreto Coutinho, com simplicidade, dizia que lamentava não saber o autor da alteração, pois desejava agradecer por ter aperfeiçoado a sua trova que se tornou imortal.

O poeta tinha a modéstia de reconhecer que alguém no anonimato o ajudara.

Fonte:
http://www.ulustosa.com/Cronicas/EU_VI_MINHA_MAE_REZANDO.htm

Herbert de Souza (A Lista de Alice)


Era uma vez Bocaiúva e seus habitantes… Esta poderia ser a maneira de ler o livro de Herbert de Souza, o Betinho, que retorna à cidade onde nasceu através de uma lista de nomes preparados a seu pedido pela prima Ailce. Só que teríamos de aumentar a frase : Era uma vez Bocaiúva e seus habitantes… que morreram. Os nomes listados dão origem a pequenos necrológios, só que diferentes das notícias de morte publicadas nos jornais que tratam de gente ilustre. Os necrológios de A lista de Ailce contam breves e saborosas histórias de vidas de homens e mulheres que habitaram a infância de Betinho na pequena cidade mineira. Uma galeria de figuras ímpares, que inclui o tio colecionador de tudo e chefe do correio local, os casais perfeitos e os imperfeitos, o médico que errava diagnósticos, o primo suicida, os mendigos e os padres, as mulheres avançadas para o seu tempo.

E outra galeria: a dos tipos mineiramente chamados de sistemáticos, os loucos internados na casa da própria família, além da mulher opiniática, que toma decisões à revelia do marido, e do apaixonado, o homem desiludido que adoece de frustração. Até o político famoso – José Maria Alkimin – ganha seu necrológio, em que se destaca a capacidade de fazer promessas e nunca cumpri-las. A genealogia familiar comparece em peso: José Maria, o primeiro irmão hemofílico a morrer, a avó Dona Mariquinha – a mãe-grande e controladora de todos os movimentos da família -, as tias, a irmã, os irmãos mortos pela AIDS, o pai Henrique e a mãe, Dona Maria, destinatária das famosas cartas para a mãe escritas por Henfil para a imprensa e para a TV nos anos 70. De cada personagem se narra um pedacinho da vida, aquele que melhor define uma fragilidade ou uma grandeza.

Afinal, quase todos, antes de morrerem, viveram muito. Fazendo a crônica dos mortos de Bocaiúva, Betinho vai reunindo lembranças: as namoradas encantadas da infância, o quarto de menino tuberculoso nos fundos da casa, a iniciação na militância política ainda na juventude e, ao final, desenha um esboço de auto-retrato. Narrando histórias de cidades do interior, que se repetem em qualquer parte do mundo, Betinho cria uma família literária para si mesmo: a família dos escritores Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Marques. Mais do que isso, aprende com Genesco, o grande contador de histórias de Bocaiúva, que é possível avisar às pessoas que se vai morrer, mas que a hora ainda pode demorar a chegar. Enquanto isso há tempo de descobrir a razão de se estar vivo.

Fonte:
Resumos de Livros

Dicionário Aulete (Sabugo – Visconde de Sabugosa)


O Visconde de Sabugosa é um sabugo que ganhou vida. Feito pelas mãos de tia Nastácia, o sabugo, que é uma espiga de milho sem os grãos, foi dotado de uma cabeça, braços e pernas. A única indicação física da sua nobreza é a cartola que usa. É um sábio que adquiriu conhecimento lendo todos os livros da estante de Dona Benta.

Visconde já morreu várias vezes, ao longo das histórias de Monteiro Lobato sobre o sítio, mas sempre voltou à vida. Bastava que tia Nastácia pegasse outro sabugo de milho e fizesse outro visconde, ainda melhor que o anterior.

A boneca Emília sempre explora o sabugo, fazendo-o carregar a canastra com seus pertences e obrigando-o a realizar as tarefas mais perigosas, já que é ‘renovável’.

(sa.bu.go)
sm.
1 Parte do dedo onde se prende a unha
2 Agr. Espiga de milho sem os grãos
3 Bot. Medula dos caules e ramos de certas árvores, esp. do sabugueiro
4 Zool. Parte interior, pouco resistente, dos chifres dos animais
5 Zool. Base em que se assenta a cauda dos animais
6 Art.gr. O eixo central dos rolos de impressão
7 Bot. O mesmo que sabugueiro
[F.: Do lat. sabucus, i.]
Não valer um sabugo
1 RS Não ter valor, préstimo ou importância.

Fonte:
e-mail enviado por Caudas Aulete Digital

Paulo Vinheiro (Flóridas)


Avenca, folha mínima, pequenina, sutil
Girassol mancha o jardim de amarelo
Roseira rubra delicada espinha meus olhos
Pêssego macio brota lá no pomar

Que bom saber de coisas certas que acontecem
Daquelas que existem há tantos tempos
Em todas as eras que se repetem iguais
Folhas, flores e frutos que sabem seus lugares

As naturezas de cada uma das coisas se sabem
Aplicam as suas manifestações seus odores
Repetem suas cores e cada sabor em sabores
Ual! Quem lhes ensina e regula nesta rotina?

O bom de ser humano é que não há regras
Ou há, mas nossa rotina é a sua quebra, não?
Para mal certeiro ou para esperança do bem
Como para quem ignora ou para quem sabe

A poesia é sim a arte da interpretação do vão
Daquilo que está entre coisas e despercebido
Não basta escrevê-la se não há o decifrador
Não pode ser sempre ingênua e nem só realista

Entre avencas, folhas, rosas, vermelhos, pomar
Em jardins de amarelos, de eras, de homens
Na natureza das coisas humanas, das cores
No sabor da poesia que não pode ser sempre

Ufa! Disso o que sobra? O que tenho pra levar?

Fonte:
O autor

Fernando Sabino (Negócio de Ocasião)


Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: às oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!

– Está bem, está bem- concordou ele, acalmando o vizinho:- Vou mandar começar mais tarde.

Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:

– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!

– Mas é só por uns dias- argumentou ele:- O senhor vai ter paciência…

E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir de dez horas. Com isso pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar e desta vez furibundo, armado de revólver:

– Ou o senhor pára com esse barulho ou eu faço um estrago louco.

Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:

- Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias… Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?

– Trinta e dois.

– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom… Que marca?

– Smith-Wesson.

– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola.. . Quanto o senhor pagou por ele?

– Cinqüenta.

– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?

– Não vim aqui para vender revólver- explodiu o outro – mas para lhe avisar que esse barulho…

– Não haverá mais barulho, esteja tranqüilo. Agora, quanto ao revólver… Quer vender?

- O senhor está brincando…

– Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou cem por ele. Sempre tive vontade. . . Vamos, aceite! Cem, ali na bucha, pago na hora.

O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: cem era um bom preço. Já pensara mesmo em vendê-lo… Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:

– Toma: é seu- decidiu-se.

Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro buscar o dinheiro e estendeu-o ao vizinho. Depois empunhou o revólver e chegou-lhe aos peitos:

– Bem, agora ponha-se daqui para fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

J. G. de Araujo Jorge (A Geladeira)

Os capitalistas, os donos do mundo
não conhecerão esta pura alegria.

Esperar a geladeira nova
e a geladeira nova chegar.

O caminhão que para, o vulto branco que desce,
o cuidado do homem rude que nunca a possuirá,
uma faísca de sol nos metais de fecho de abrir,
os meninos que param em roda do caminhão, assistindo,
e eu, de camarote, da sacada do apartamento
assistindo.

Os capitalistas não conhecerão esta pura alegria:
esperar a geladeira
a geladeira de sete pés, branca e iluminada
que afinal chegou.

Agora haverá coca-cola, crush, e água gelada pra visita
e pavê de chocolate, e quanta coisa gostosa
que o frio preservará com seu sopro imortal.

O dial da geladeira não faz jorrar música
mas fala inglês: “defrost, fast, freese, box”;

Gosto de abrir a geladeira, ela se acende toda quando eu a toco,
fica festiva, bela e alegre, na sua brancura imaculada
e nos seus metais rebrilhando.

Sinto o hálito frio que me envolve o rosto
me apanha as mãos,
e uma emoção primária de conforto me dissolve
quando ela se abre para mim, feliz e sortida
nas suas entranhas burguesas.

Esta pura alegria, esta higiênica alegria
não sentirão os capitalistas,
é privilégio dos que vem de baixo, escalando a vida como alpinistas,
para encontrar a neve e o frio das alturas
na sua geladeira branca e cheia de sol!

Fonte:
JG de Araujo Jorge. A Outra Face. 1949.

22º Concurso de Contos Paulo Leminski – 2011-2012 (Resultado Final)


Parceria entre UNIOESTE/CAMPUS DE TOLEDO e PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE TOLEDO através da SECRETARIA DA EDUCAÇÃO – BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL

1º Lugar:
ELISABETE CARVALHO PEIRUQUE – Porto Alegre/RS
Conto: O Nome do Pai
Pseudônimo: Clara

2º Lugar:
JULIANA LA SALVIA BUENO – Bragança Paulista/SP
Conto: Trem de Ferro
Pseudônimo: Angel Braga

3º Lugar:
GIOVANNA ARTIGIANI – Florianópolis/SC
Conto: Carolina e o Rouxinol
Pseudônimo: Marina Millefiori

Melhor Conto Toledano

AMANDA SEMARIAH DE SOUZA SALVADOR
Conto: O quid pro quo de Analícia
Pseudônimo: Rondon de Sachola

MENÇÃO HONROSA

GUSTAVO FECHUS MONTEIRO – Pouso Alegre/MG
Conto: A história de J. Pinto Fernandes
Pseudônimo: 14 Bis

JOSÉ RIBAMAR EWERTON NETO – São Luís/MA
Conto: Pequeno dicionário de paixões cruzadas
Pseudônimo: Sarávio Barco

JOSÉ HUMBERTO DA SILVA HENRIQUES – Uberaba/MG
Conto: Os três lados do quadrado
Pseudônimo: Querosen

BEN-HUR DEMENECK – Blumenau/SC
Conto: Manual de instruções da chave
Pseudônimo: Áureo Pagítico

OSWALDO PULLEN PARENTE – Brasília/DF
Conto: A Noite das Cabaças
Pseudônimo: Metrominondas Paquetel

OSWALDO DE VASCONCELOS VILELLA – Rio de Janeiro/RJ
Conto: Centenário da grande obra
Pseudônimo: Bentinho

RODRIGO PEREIRA RICARDO – Niterói/RJ
Conto: A bicicleta
Pseudônimo: Luís Vinícius Barreto

PAULO CESAR PASCHOALINI – Piracicaba/SP
Conto: Escultores de sombras
Pseudônimo: Peregrino

MARCIA DE OLIVEIRA GOMES – Rio de Janeiro/RJ
Conto: Os olhos do touro
Pseudônimo: Salustiana

MENÇÃO HONROSA DE TOLEDO/PR

VALDINEI JOSÉ ARBOLEYA
Conto: Retrovisor
Pseudônimo: Mutante B

ALINE KARIN DA SILVA
Conto: Estava embaixo da minha cama
Pseudônimo: SmartGirl

Fonte:
Organizadores

Prêmio Tatiana Belinky de Limeriques – 2012 (Prazo: 2 de Junho de 2012)


Organização:
Iniciativa da escritora Viviane Veiga Távora em parceria com a Cooperativa Cultural do Brasil e apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, através do PROAC – Programa de Ação Cultural – 2011
E-mail: premio@portalpanapana.com.br

Regulamento:

1 – OBJETIVO:

1.1 – O Prêmio Tatiana Belinky de Limeriques – 2012 tem por objetivo difundir a Literatura através da produção textual, bem como estimular e valorizar a criação literária na Região Metropolitana da Baixada Santista do Estado de São Paulo, abrangendo crianças na faixa etária de 6 a 11 anos, estudantes da Rede Pública ou Particular de ensino da região.

2 – INSCRIÇÕES:

2.1 – As inscrições são gratuitas e serão efetuadas no período de 18 (dezoito) de abril às 23h59m do dia 2 (dois) de junho de 2012;

2.2 – A inscrição deverá ser efetuada no site do prêmio www.portalpanapana.com.br/premio em formulário próprio online;

2.3 – Não serão aceitas inscrições por Correios, e-mail ou de qualquer outro modo diverso do constante no item 2.2, sob pena de desclassificação;

2.4 – A inscrição só poderá ser feita por maiores de 18 anos que se responsabilizarão pela veracidade e pelo conteúdo das informações inseridas no formulário online;

2.5 – A inscrição conforme item 2.2 implicará no pleno conhecimento e aceite deste Regulamento;

2.6 – Cada participante poderá concorrer com número ilimitado de limeriques. Devendo, porém, ser realizada uma inscrição diferente para cada poema;

2.7 – Pais e responsáveis poderão inscrever poemas escritos por crianças que se enquadram no Regulamento do prêmio, quando deverão mencionar o nome do professor da criança e a escola onde estuda.

3 – TRABALHOS:

3.1 – Se algum poema já tiver sido divulgado por meio de comunicação ou caracterizar plágio, implicará na sua imediata desclassificação.

3.2 – Os poemas deverão obedecer à regra básica do limerique: um poema de 5 versos, sendo que o primeiro, o segundo e o quinto versos possuem 8 sílabas poéticas que rimam entre si; e o terceiro e o quarto com 5 sílabas poéticas que também rimam entre si;

3.3 – Serão aceitas variações mínimas na métrica e na rima;

3.4 – Não poderão concorrer obras plagiadas, criadas em parceria ou que já tenham sido inscritas em outros concursos.

3.5 – Será permitido o uso de escriba para as crianças com 6 e 7 anos ou com necessidades especiais. Esta informação deverá ser assinalada no momento da inscrição em campo específico.

4 – JULGAMENTO:

4.1 – A Comissão Julgadora será formada por escritores de Literatura, e suas decisões se basearão na adesão à regra básica do limerique, bem como no valor poético e literário dos trabalhos.

4.2 – O julgamento ocorrerá em duas fases:

4.2.1 – Fase 1: escolha pela escritora Viviane Veiga Távora dos 100 (cem) melhores limeriques inscritos e posterior encaminhamento das obras à Comissão Julgadora;

4.2.2 – Fase 2: escolha dos 5 (cinco) melhores limeriques entre os 100 (cem) pré-escolhidos, que deverão obedecer a ordem de 1º, 2º, 3º, 4º e 5º lugar;

4.3 – A decisão da Comissão Julgadora será irrecorrível e ela está dispensada de apresentar parecer por escrito.

4.4 – Nenhum concorrente poderá receber mais de uma classificação ou premiação.

5 – OUTRAS DISPOSIÇÕES:

5.1 – Os participantes que produzirem os 100 (cem) melhores limeriques receberão um exemplar do livro MARELIQUES DA PRAIA-LOUCA, de autoria da escritora Viviane Veiga Távora, e serão convidadas para participarem do evento de premiação, que acontecerá no segundo semestre de 2012, acompanhados de um responsável e de um professor;

5.2 – Todos os participantes inscritos no Prêmio Tatiana Belinky de Limeriques – 2012 receberão um botton “EU AMO LIMERIQUES”, como forma de estímulo e reconhecimento pelo trabalho realizado.

6 – PREMIAÇÃO:

6.1 -Serão premiados os cinco melhores limeriques com kits de livros e certificados para o participante, seu professor e sua escola, do 1° ao 5° colocado e premiação específica para os participantes, conforme abaixo:

1o. Lugar = Computador Desktop + Troféu
2o. Lugar = Notebook + Troféu
3o. Lugar = Netbook + Troféu

6.2 – O evento de premiação acontecerá no segundo semestre de 2012.

7 – MAIORES INFORMAÇÕES:

7.1 – Email: premio@portalpanapana.com.br;

7.2 – Site: www.portalpanapana.com.br/premio;

8 – CASOS OMISSOS:

Os casos que não se enquadrarem neste regulamento, serão resolvidos pela Comissão Organizadora, cuja decisão é irrevogável.

Fonte:
http://portalpanapana.com.br/premio/site/?page_id=2
http://concursos-literarios.blogspot.com

Concurso Internacional UBE – RJ (Prazo: 18 de Maio de 2012)

Organização:
UBE – RJ
Telefone: (21) 2594-7739
E-mail: marilzaalbuquerque@yahoo.com.br

Regulamento:

I – Dos Prêmios

Art. 1° – A União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) concederá, em 2012, os seguintes prêmios literários para livros editados em 2011, nas seguintes categorias:

* Conto – PRÊMIO HUMBERTO DE CAMPOS;
* Crônica – PRÊMIO ALEJANDRO CABASSA;
* Ensaio – PRÊMIO VIANNA MOOG;
* Literatura Infantil e Juvenil – PRÊMIO GANYMEDES JOSÉ;
* Poesia – PRÊMIO VICENTE DE CARVALHO;
* Romance – PRÊMIO JOSÉ DE ALENCAR;
* Teatro – PRÊMIO MARTINS PENA.

Parágrafo Único – Para livro de contos será entregue também a Medalha Harry Laus, apenas para o primeiro colocado.

Art. 2° – A critério das Comissões Julgadoras poderão ser concedidas às obras concorrentes a qualquer dos prêmios uma menção especial e uma menção honrosa, exceto a Medalha Harry Laus que terá somente um ganhador.

II – Da Apresentação das Obras Concorrentes

Art. 3° – Poderão concorrer autores de quaisquer nacionalidades, desde que se expressem em Língua Portuguesa e tenham sido editados no ano de 2011. Enviar três exemplares de cada obra concorrente.

§ 1° – Para cada conjunto de livros, o respectivo autor deverá anexar o envelope contendo: título da obra, nome e endereço completo (legível) do autor, telefone e e-mail (se houver) e sucinto curriculum vitae.

§ 2° – Não haverá devolução dos livros concorrentes.

III – Das Inscrições e dos Prazos

Art. 4° – Não há limitação quanto ao número de obras por autor, observadas as disposições do Art. 3° e seus respectivos parágrafos.

Art. 5° – As inscrições das obras deverão ser feitas de 09 de janeiro a 18 de maio de 2012, considerando-se, no caso de remessa pelo correio, a respectiva data da postagem.

Art. 6° – As obras concorrentes a prêmios devem ser remetidas, em separado por categoria, para o seguinte endereço: Rua Teixeira de Freitas, 5, sala 303 – Lapa, CEP 20021-350 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Solicita-se a gentileza de colocar no envelope ou na embalagem o nome do prêmio a que se destina(m) a(s) obra(s) I

Art. 7° – Cada prêmio poderá ser concedido apenas uma vez ao mesmo autor, vedada a concessão aos membros da Diretoria da UBE – RJ.

IV – Das Comissões Julgadoras e Aceitação dos Concorrentes

Art. 8° – As Comissões Julgadoras serão constituídas, cada uma, por três integrantes, indicados pela Diretoria da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), sendo irrecorríveis as decisões

Art. 9° – A participação no concurso implica a aceitação, por parte do concorrente, de todas as exigências regulamentares, resultando em desclassficação o não-cumprlmento de quaisquer destas.

Art. 10° – O resultado do concurso será tornado público até 40 dias antes da data da solenidade de premiação. A entrega dos prêmios será em data e local previamente anunciados.

Art. 11° – Qualquer informação será por mensagem eletrônica, contato telefônico ou através de carta, desde que os interessados enviem envelope selado para resposta.

Art. 12° – Os casos omissos no presente Regulamento serão resolvidos pela Diretoria da UBE – RJ.

Iinformações:
Marilza Albuquerque de Castro
Rua das Oficinas, 211 – Engenho de Dentro Rio de Janeiro – CEP 20770-010
Telefone: (21) 2594-7739
E-mail: marilzaalbuquerque@yahoo.com.br

Fonte:
http://www.uberj.org.br/uberj/ube/concurso.lit.2012.pdf
http://concursos-literarios.blogspot.com

Nelson Jacintho (Palestra e Lançamento do Livro “Postura é Fundamental”)


A ACADIL – Academia Ituana de Letras tem a honra de convidar Vossa Senhoria para uma palestra de palpitante atualidade a ser proferida pelo médico

Dr. Nelson Jacintho,

membro da SOBRAMES, entidade que congrega médicos escritores.
***************

Na mesma oportunidade acontece o lançamento de sua notável obra

Postura é Fundamental.

Data: 27 de abril de 2012 (sexta-feira)

Horário: 20hs

Local: Auditório do SINCOMÉRCIO

Endereço: Rua Maestro José Victorio, 137 – Centro – Itu/SP

Fonte:
ACADIL

LihBooks (Os 100 Melhores Poemas do Brasil – Inscrição até 30 de Abril)


A antologia Os 100 Melhores Poemas do Brasil tem como finalidade selecionar e publicar poemas contemporâneos, que traduzam de forma representativa e original o que é a poesia de hoje.

Quem pode se escrever: escritores brasileiros maiores de 18 anos.

Lançamento: dia 7 de julho, na Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, durante o encontro do Fórum de Escritores.

Direitos Autorais: todos os Direitos Autorais permanecerão com os autores.

Tiragem: será de 300 exemplares apenas para comercialização. Os livros serão vendidos em nossa loja virtual e também na Livraria da Vila e o dividendo das arrecadações será inteiramente pago aos autores de forma igual, semestralmente.

Material do livro: Formato: 14x21cm; capa colorida, laminação fosca, orelhas de 7cm. Miolo em papel Soft Polen 80g (amarelado).

Aprovação das obras: nosso conselho editorial irá ler e avaliar as obras que comporão a antologia.

Prazo para inscrição: até 30 de Abril

A LihBooks fará também um eBook com o livro, e os autores também receberão os dividendos das vendas.

Escreva-se agora: http://livros.himpeto.in/antologia-os-100-melhores-poemas-do-brasil

A LihBooks nasceu da ideia de ser uma editora de livros de qualidade exatamente, só que para ebooks e voltada não só para o conteúdo mas para a forma com a qual este conteúdo é apresentado ao leitor durante a leitura.

Nosso trabalho é magnificar a experiência de leitura de livros nos formatos digitais.
Somos especializados em edições e publicações digitais.

Uma editora brasileira de ebooks.

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Aproveite nossa promoção de inauguração para publicar em formato digital todos os livros da sua gaveta!

1 eBooks = R$ 200,00
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Acesse e saiba mais: www.lihbooks.com/publique/1-ebook-200-reais

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Amapá

José Feldman (Devaneios Poéticos n.3)


Uma Trova da Vânia

Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!
-VÃNIA M. S. ENNES/PR-

Uma Trova Nacional

Nos lençóis brancos, macios,
de nossa cama deserta,
o tempo desmancha os fios
da minha pobre coberta.
–GISLAINE CANALES/SC–

Uma Trova Paranaense

O namoro é uma viagem
que nos leva ao paraíso;
mas quem for comprar passagem…
na bagagem leve juízo.
– NEI GARCEZ/PR-

Uma Trova Premiada

1994 – XI Jogos Florais de Ribeirão Preto/SP
Tema Municipal – FONTE – Vencedora

A sonhar com loura trança,
à sombra do nosso ipê,
imito esta fonte mansa
que soluça por você.
– JOSUÉ VARGAS FERREIRA/SP-

Uma Trova de Ademar

Fiquei comigo a pensar
quando quis ser trovador:
se tem Deus pra me ensinar,
pra que pagar professor?
–ADEMAR MACEDO/RN–

..E Suas Trovas Ficaram

Na gaveta da memória
lições eu guardo da vida,
que serão a minha glória
no instante da despedida.
–CARLOS RIBEIRO ROCHA/BA–

Um dos mais notáveis poetas do Brasil. Nascido na cidade de Ipupiara, Bahia, próximo à Chapada Diamantina, em 4 de novembro de 1923, faleceu em 27 de novemrbo de 2011, em Salvador, Bahia.

Carlos Ribeiro Rocha é no dizer do sociólogo e crítico literário, Mário Ribeiro Martins, “o poeta da natureza, para quem a oportunidade não sorriu, mas cuja poesia é um sorriso eterno.”

Filho de Manoel Ribeiro dos Santos e de Maria Ribeiro. Nascido em Ipupiara, foi registrado em Gentio do Ouro, Bahia. Foi criado pelo seu pai adotivo Herculano Rocha e dona Bibi. Durante muito tempo viveu em Santo Inácio, Bahia. Mudou-se para Xiquexique, tornando-se contador. Transferiu-se para Salvador e depois para Itamaraju, Bahia, onde um de seus filhos é Juiz do Trabalho. Em 2002, retornou a Xiquexique, residindo ao lado de suas filhas Maria Luiza e Eunice. Em 2010 foi residir em Salvador.

Autodidata, o poeta baiano, com o apoio da comunidade, fundou em Santo Inácio, o Ginásio Diamantino (CNEC), do qual foi professor de Português durante dois anos seguidos. No início de sua carreira também fora professor municipal e particular em Ibitunane, Ibipeba e Ipupiara.

Por concurso público, tornou-se Coletor Federal, tendo residido em Santo Inácio, Xique-Xique, Itamaraju e Salvador, mas foi no interior da Bahia, onde teceu a maioria dos seus versos.

Cronista, sonetista e trovador fluente, aprendeu com a natureza e com os livros, sem freqüentar, contudo, as salas de um Colégio, como ele mesmo afirma em suas trovas:

“Colégio sem endereço/é o que me fez bacharel…/Nas trovas que sempre teço/é que brilha o meu anel.” “Sem Colégio, encontro tudo/ no livro da Natureza,/e como não tive estudo,/sou ave no visgo presa.” “O nome do meu Colégio?/Ninguém suas letras soma:/Nunca tive o privilégio/de receber um diploma.”

Editou alguns livros, entre outros: “HARPA SERTANEJA”, “PINGOS DE MIM”, “MEDITAÇÕES, LIÇÕES”, “CAFÉ REQUENTADO”, “28 SONS” e “COROA DE SONETOS”.

O poeta não se prendeu a formas e a nenhuma corrente literária, por isso sua poesia é gostosa de ser lida, é harmônica e livre, como ele mesmo diz: “Não sou parnasiano, não pertenço/a escola alguma da arte modernista,/porquanto escrevo como sinto e penso… Se anel não tenho, mesmo de ametista,/ nas maravilhas desse livro imenso/ hei de encontrar a glória da conquista.”

Sensível aos problemas brasileiros, especialmente do trabalhador simples e desvalido do Nordeste, empunha sua pena e diz: “ Pega da enxada – seu fuzil sagrado, e as ervas más fulmina do roçado, cantando sempre a chula da vitória. Eu te amo, lavrador abandonado… Se não podes por mim ser amparado, quero, ao menos, contar a tua história!”

Não esqueceu, porém, das crianças abandonadas: “Cheirando cola, sem comida, sem escola, sem um barraco ao menos como lar, dá pena ver meninos a cumprir duros destinos, só aprendendo a roubar!… Faz vergonha aos Presidentes ver meninos nas vielas, com as bocas cheias de dentes e sem nada nas panelas”…

Com um toque de mestre, ele fala dos garimpeiros: “Ousado e firme, o garimpeiro busca,/no seio virginal do solo amado,/ a gema rara, que deslumbra e ofusca,/apagando as agruras do passado… Aquela jóia pondo sobre a palma,/o altivo garimpeiro sente na alma/a brisa da ventura, tão serena! Também o bardo, com valor e calma,/um verso vai buscar no fundo da alma,/coberto ainda de saudade e pena!”

Muito mais se poderia dizer da poesia de Carlos Ribeiro Rocha, que, não obstante ter participado do Anuário de Poetas do Brasil, Rio de Janeiro, organizado pelo saudoso APARÍCIO FERNANDES, em 1978, volume 1, página 105 e 1979, volume 4, página 63, infelizmente só é conhecido na Bahia e nos meios alternativos, onde goza de prestígio e do merecido respeito, mas seu nome consta no DICIONÁRIO BIO BIBLIOGRÁFICO REGIONAL DO BRASIL, do escritor Mário Ribeiro Martins, no site usinadeletras.com.br em ENSAIOS ou no www.mariomartins.com.br.

Membro de diferentes entidades sociais, culturais e de classe, entre as quais, Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras, Ordem Brasileira de Poetas Sonetistas, Clube Baiano de Trovas, Academia Brasileira de Trova. Fundou, juntamente com outros confrades, a Academia de Letras de Xiquexique, onde ocupa a Cadeira 01, sendo seu Presidente.


Alguma Poesia

Amor Maior
– ADÉLIA MARIA WOELLNER/PR-

Eu queria, eu pedia,
Ah, como eu sonhava
o Amor Maior imenso, pleno de encanto…
Amor total que prende
mas não faz a alma escrava,
Amor que vê na luz, na cor, no canto…
Amor que se vê
até nesse nó que entrava
a voz,
que machuca, que desperta o pranto.
Amor que queima,
tal qual ardente lava;
amor que dói, fere e que alegra, no entanto.

Tantos vibraram de amor,
tantos cantaram…
Tantos sofreram de amor,
tantos choraram…
Tantos o amor renegaram…
E, contudo,
cantando ou chorando
o Amor todos louvaram.

Só eu não canto, não choro, fico mudo
porque este meu amor
é maior que tudo.

Uma Trova do Izo

Nós somos duas trapaças
usando a mesma altivez:
– eu finjo que tu não passas…
– tu funges que não me vês…
-IZO GOLDMAN/SP-

Um Soneto

Soneto Montanhês
-CARLOS RIBEIRO ROCHA/BA-

Neste soneto montanhês que faço
quero lembrar queridos companheiros
caminhos sinuosos onde passo
ouvindo o linguajar dos garimpeiros.

Falam eles das glórias, dos fracassos
dos seus momentos mais alvissareiros
das “corredeiras” feitas por seus braços,
para ali batear meses inteiros…

Mas, uma cena me ficou na mente
que considero a foto permanente
da vida campesina do Sertão:

Enquanto a fonte chora na vertente,
um sabiá gorjeia bem contente
sobre o velho ingazeiro do grotão.


Excerto da Biografia de Carlos Ribeiro Rocha, por Filemon F. Martins, na Usina das Letras.

Goulart Gomes (501 Poetrix)

Recebi o livro de Goulart Gomes, 501 Poetrix: para ler antes do amanhecer. Em suas 242 páginas, desfilam 84 autores, de Brasil e Portugal selecionados por Goulart, comemorando o décimo aniversário da criação do Poetrix. Abaixo selecionei alguns poetrixtas e 2 poetrix de cada um:

ALVARO POSSELT (PR)

um terço de culpa

com prosa não me meto
quando quero confessar
eu rezo um terceto

download do além

Noite de espanto
Fui baixar um arquivo
bashô-me um santo

ÂNGELA TOGEIRO (MG)

solidão

Pela janela espio
O vazio do escuro da solidão da noite sem lua.
Minha companhia.

das (in)certezas

Tanta desigualdade entre os homens…
Deus nos pôs no mundo
sem manual de instruções.

ANÍSIO LAGE

ventania

aos tristes, o vento geme
aos alegres, assobia
aos marujos, desafia

epitáfio

sou na vida um opróbio
escrevam em minha lápide:
finalmente sóbrio!

BETO QUELHAS

arteiro

o vento brinca escondendo
na cortina dos seus cabelos
os seus olhos em venenos

águas do rio

passam com rapidez
como o amor que partiu
e a dor que se fez

DJALMA FILHO

sol a pino

de barriga vazia,
o meio dia
almoçou um ponteiro.

folia

Dispo-te
e visto-te
com fantasia!

GOULART GOMES (BA)

pessoix

um terço de mim delira
um terço de mim pondera
outro terço: ah! quem dera!

a travessia

cruzo um mar de lágrimas
a terra prometida
um saara

ISIARA CARUSO (RS)

terremoto

dormiu seguro,
despertou tremendo,
morreu no escuro.

queimada

na mata o fogo corre
a floresta extingue
a terra morre.

LUCIANE LOPES

pacíficos

Daqui mesmo espio:
eu, gotejando um mar.
Você, latejando um rio.

que venha o voyeur

faço por gosto,
não por pirraça
poesia na vidraça.

ODETE RONCHI BALTAZAR (SC)

primavera

Arco-íris
caído
no meu jardim.

mosaico

Cacos mil para colar,
peças díspares,
monto a vida sem par.

TÂNIA SOUZA (MS)

veraneios

Entre lírios e nuvens
A pipa passareava.
Eu era verão

vitrine

Confeitos coloridos!
Nos olhos do menino
A fome chora.
-

Fonte:
GOMES, Goulart (organização). 501 Poetrix: para ler antes do amanhecer. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2011.

Luis Fernando Veríssimo (O Homem Trocado)


O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

— Tudo perfeito — diz a enfermeira, sorrindo.

— Eu estava com medo desta operação…

— Por quê? Não havia risco nenhum.

— Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos…

E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

— E o meu nome? Outro engano.

— Seu nome não é Lírio?

— Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e…

Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

— Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.

— O senhor não faz chamadas interurbanas?

— Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

— Por quê?

— Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:

— O senhor está desenganado.

— Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

— Se você diz que a operação foi bem…

A enfermeira parou de sorrir.

— Apendicite? — perguntou, hesitante.

— É. A operação era para tirar o apêndice.

— Não era para trocar de sexo?

Fonte:
VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola.

Luis Fernando Veríssimo (Comédias da Vida Privada)

São 101 crônicas – pequenas estórias sobre as ironias do cotidiano- humor – piada crônicas divididas em 6 capítulos, a saber:
1. Fidelidade e infidelidades – 14 crônicas
2. Encontros e desencontros – 16 crônicas.
3. Eles e ou Elas – 41 crônicas.
4. Família – 13 crônicas.
5. Pais e Filhos – 5 crônicas.
6. Metafísicas – 8 crônicas.
1. Fidelidades e Infidelidades

A fidelidade

Em plena terça-feira, mulher e filhos descansavam na praia. Chegou o marido e contou que recebera um telefonema anônimo revelando que a esposa tinha um amante surfista. Ela negou e pediu que ele nunca desconfiasse da fidelidade dela. Ele voltou para Porto Alegre, pois teria um compromisso no dia seguinte. Mas o compromisso era naquela noite mesmo: ela se chamava Maitê. Na verdade, com toda essa história, conseguira um habeas-corpus preventivo.

Zona Norte, Zona Sul

Depois de muito tempo, Vânia aceitou encontrar-se com Rogério, seu amante, no apartamento dele. Saiu de casa dizendo que ia a Copacabana fazer compras. Quando os dois já estavam tirando a roupa, ouviram um rebuliço no corredor. Em seguida, batidas na porta. Era a polícia procurando Gatão, um famoso bandido que morava no apartamento vizinho e que conseguira fugir. No quarto, os policiais encontram Vânia seminua. Ela corre para a cozinha onde Gatão a agarra. Ele exigia um carro para a fuga. Nesta altura, já havia repórteres e câmeras de TV por todo lado. Gatão consegue fugir levando Vânia. Quando ele a liberta, ela pensa no marido, nos filhos e nos amigos naquele momento já deveriam estar sabendo de tudo. Então, pede ao bandido que a leve junto. Hoje, vive com Gatão em Rezende e jamais o trai. Outro final: Vânia chega em casa preparada para tudo, mas se surpreende com a animação da família por terem visto-a na televisão.

Infidelidade

Um homem conta a seu médico que para conseguir fazer sexo com a sua mulher tinha que pensar em outras mulheres, alguns objetos … E passado algum tempo, isso já não adiantava mais. Ele agora só se excitava quando pensava numa mulher madura, com o cabelo começando a ficar grisalho, olhos castanhos…E esta era a sua própria mulher.

O encontro

Um casal que havia se separado há pouco tempo, reencontra-se por acaso num supermercado. Era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Os dois estavam embaraçados. Ele perguntou se ela costumava fazer compras de madrugada. Ela respondeu que estava lá aquela hora porque tinha alguns amigos em casa. Ele usou a mesma desculpa quando ela perguntou sobre ele. Na verdade os dois estavam sozinhos.

Sala de espera

Uma mulher jovem e muito bonita e um homem com seus quarenta anos encontram-se na sala de espera do dentista. Os dois interessam-se um pelo outro. Pensam em falar muita coisa. Mas no fim acabam não dizendo nada. Aí a enfermeira abre a porta e diz: – O próximo. E eles nunca mais se vêem.

Cantada

Um homem e uma mulher tentam “desvendar o mistério” de onde já se conheciam. Ambos mentem dizendo que poderia ser em Nice, Nova York, Londres, Paris… Depois de passarem a noite juntos eles confessam que nunca estiveram nesses lugares. Na verdade, eles já haviam se conhecido, mas na praia de Guarapari.

Lixo

Um casal se encontrava-se na área de serviço do prédio onde morava. Cada um trazia o seu pacote de lixo. Depois de alguma conversa descobrem que, já há algum tempo, um analisava o lixo do outro. Sabiam muitas coisas a respeito do outro através do lixo. Ela o convida para jantar camarões. Ele não quer dar trabalho. Ela diz que rapidamente limpa tudo e põe os restos fora. No seu lixo ou no meu?

02) Eles &/ou Elas

A comadre

Aquele veraneio terminou mal. Tudo porque o Itaborá tinha soltado um omnahnmon! ao ver a comadre Mirna de biquíni fio-dental. Isamara, a esposa exigiu explicações. O compadre Adélio, deixou passar. Afinal, eram amigos demais e o aluguel da casa já estava pago para um mês. Mas até o fim ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos olhavam desconfiados.

Mendoncinha

Um casal estava tendo uma conversa durante o ato sexual. Falavam que parecia haver outras pessoas ali com eles naquele momento: pai, mãe, o analista, o superego de cada um… Ela diz que parecia que Mendoncinha, o seu primeiro namorado, também estava ali. A reação dele foi imediata: Bota o Mendoncinha para fora desta cama. (…) Ou sai o Mendoncinha, ou saímos eu e a minha turma!

O brinco

Maurão, às três horas da manhã, liga para a casa do Russo, querendo falar com a sua esposa, Moira. Russo responde que ela não está com ele. Maurão insiste. Não acredita. tinha visto o Russo comprar um brinco e este apareceu na orelha de Moira. Na verdade, quem tinha recebido os brincos era Roberto. E era ele que estava deitado com Russo. Quem fica intrigado, agora, é o próprio Russo. Como os brincos foram parar nas orelhas de Moira? Roberto explica que dera os brincos a Lise, sua esposa. E concluindo: Lise deu-os a Moira. – Você acha que a Lise e a Moira…

Flagrante de praia

Uma mulher bonita está na praia passando óleo para bronzear. Faltavam as costas. Perto dela, um homem lia jornal. De repente, ela pergunta por que ele estava olhando. Ela diz que nem olhou para os lados. Ele continua a conversa perguntando se ele não estava pensando em propor-lhe um programa ou caisa parecida. Ele responde que não. Não queria nenhum envolvimento emocional naquele momento. Perfeito. Ela levantou-se, caminhou até onde ele estava, sentou ao seu lado e pediu: – Me passa óleo nas costas?

O homem trocado

O homem acorda da anestesia e pergunta à enfermeira se foi tudo bem na operação. Esta dá resposta positiva. Ele estranha, pois a sua vida sempre fora rodeada de trocas. Trocaram-no na maternidade; no cartório, ao invés de Lauro, escreveram Lírio; na escola pagava por aquilo que não tinha feito; passara no vestibular, mas o computador se enganara e seu nome não aparecera na lista; contas telefônicas astronômicas para pagar e ele nem tinha telefone; fora preso por engano. E agora a sua operação de apendicite tinha sido um sucesso. A enfermeira parou de sorrir. – Apendicite? – perguntou, hesitante. – É. A operação era para tirar o apêndice. – Não era para trocar de sexo?

03) Família

A rocha

Dona Mimosa, aos 100 anos, adquirira uma sólida autoridade moral sobre a família. Todos vinham pedir conselhos a ela, sobreeducação, aplicação de dinheiro, etc, e tudo era resolvido por ela. Mas certo dia Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. – A Berenice vai sair de casa. – Não deixa. – Não adianta. Ela vai juntar. – O quê? – Com a Valdirene. – Ah, bom. Vai morar com uma amiga. – Não. Vão formar um casal. Silêncio. – O que a senhora acha? Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. Seu nariz não lhe diz mais nada. Era preciso, no entanto, resguardar a autoridade. Com um esforço, recompôs-se e perguntou: – E essa Valdirene, tem uma posição?

Reencontro

Frederico encontra, no elevador, o amigo Parra que não via há vinte anos. Leva-o para seu apartamento e apresenta-o à mulher. Começam a conversar sobre os velhos tempos. No meio da conversa, Frederico diz que está velho, que a Sandra, já tinha noivo. Parra disse que sabia. Frederico pergunta se ele conhece a sua filha. Parra disse que ele era o noivo de Sandra. Os dois começam a discutir e Parra vai embora. A mulher que pegara a conversa pela metade, não entende nada.

Tios

A primeira história é sobre tio Paulito. Era um homem quieto que sempre almoçava com a família de sua irmã. Certo dia, a filha mais moça foi à conferência do Prestes no PT e encontrou o tio Paulito, que se mostrava íntimo do político. No outro dia, tio Paulito foi o centro da admiração de todos na mesa do almoço. Já tio Dedé fazia questão de contar a sua vida. Era muito falador. Sempre falava que tinha feito um filme em Hollywood, aparecia numa cena do filme “Island of Love”. Certo dia, o filme passou na televisão; juntou-se muita gente na casa da família, todos ansiosos para verem o tio Dedé. Mas ele não apareceu. Então, ele pulou da cadeira e bradou aos céus: Cortaram! Cortaram!

Férias

A família está discutindo sobre onde passar as férias. O pai tenta uma proposta que não seja muito cara. Decidem passar uma semana na praia e outra na serra. Vão a um hotel numa praia ainda não desenvolvida, pois é mais barato. O pai fica o dia inteiro lendo Agatha Christie e falando mal do general. Em seguida, viajam para a serra. O pai permanece no hotel, mas descobre que o general também está hospedado ali. Então anuncia para a família: Vamos passear no mato!

04) Pais e Filhos

Pai não entende nada

A filha pede um biquíni novo para o pai. Este lhe pergunta se ela não tinha comprado um no ano passado. Ela diz que cresceu, que passou de 14 para 15 anos. Enfim, ele deixa a filha comprar um maior. Maior não, pai. Menor!

Suflê de chuchu

Duda viajara para a França sozinha. Os pais estavam aflitos, aqui no Brasil, pois ela nunca fizera nada em casa. Lá, começou a trabalhar de empregada e, às vezes, ligava para seus pais para pedir alguma receita de comida. Duda estava indo bem. Certo dia, a mãe deu a receita errada de um suflê de chuchu, com esperança do fracasso da filha por lá que assim voltaria ao Brasil. Provavelmente Duda foi despedida da casa. Mas dias depois ligou para pedir a letra de uma música ao pai. O pai foi categórico: Diz pra essa menina voltar pra casa. Já.

A bola

Um pai dá uma bola de presente ao filho e esse não se entusiasma muito. Outro dia, o pai vê o menino com um jogo de bola no video game. O pai ainda tenta animar o filho com a bola que lhe dera de presente fazendo embaixadas, mas este mal desvia os olhos da tela. Talvez um manual de instrução fosse uma boa idéia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

A descoberta

O pai chega de surpresa no apartamento do filho que mora em outra cidade. Este sempre mandava cartas dizendo que precisava de dinheiro para gastar em bebida, som e mulheres. O pai orgulha-se do filho por causa disso. Mas tem uma decepção quando descobre que o filho gastava tudo em materiais para pesquisa, livros e material didático.

O mundo restaurado

Um pai de família adora brincar com os brinquedos das crianças e lembrar da sua infância. Mas os adultos não o entendem; falam e agem num tom muito sério. Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.

05) No Bar

Dezesseis chopes

Estão cinco amigos num bar conversando e bebendo chope. Nos primeiros copos a conversa é normal. Depois passam por vários assuntos diferentes, alguns, já sem qualquer nexo. Nos últimos copos, começam a falar de coisas nostálgicas. Um deles afirma não ser feliz porque nunca teve um canivete decente. Outro levanta-se e diz que teve um bom canivete. Ali está o melhor dos homens, o homem completo, e eles não sabiam.

Conversas de bar

Dois amigos, sentados num bar, conversam. Era um reencontro e eles relembravam as coisas boas da juventude. Reconhecem que o garçom também tinha sido um grande amigo deles, mas não falam nada.De tudo que Mafra falava Tarol duvidava. Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Mafra contava histórias absurdas, impossíveis. Certo dia, os dois foram viajar. Quando voltaram, Mafra contou para a turma que tinha um apito de chamar mulheres e para não desmerecer o amigo, Tarol confirmou, mas revelou que só chamava bagulho.A mesa Cinco amigos, cada um com sua família, iam todos os dias a um bar para um chope, mas logo voltavam para casa. Certo dia, um deles jantou lá. Com o tempo os outros foram jantando também. Passado mais um tempo, Gordo (o primeiro que tinha jantado no bar) resolveu dormir por lá. Decidiu, ainda, não sair mais do bar. Os outros gostaram da idéia e também resolveram viver lá, comendo, bebendo e conversando. Os familiares tentam convencê-los a ir para casa, mas estes não dão bola. Já perderam os empregos e certamente não terão dinheiro para pagar a conta, mas é pouco provável que peçam a conta num futuro próximo. O papo está cada vez mais animado.

06) Metafísicas

Borgianas

O narrador estava jogando “xadrez” com Jorge Luís Borges, no escuro. Este ficava contando várias histórias. Ouvia barulho na rua e inventava mais coisas. Também falou do Antigo Egito. Outra vez, jogava xadrez com peças invisíveis e tabuleiro imaginário. Conversavam sobre a importância da experiência para o escritor. Borges não achava importante. Soubera da história de um tigre que tinha entrado na biblioteca de um escritor e que nunca mais saiu de lá. Esse escritor não poderia escrever de maneira convincente sobre o tigre, pois teria que voltar à biblioteca para pesquisar e isso ele não pode fazer pois tem um tigre na sua biblioteca.

Contículos

Jorge Luís Borges está sonhando, mas pensa que está acordado, pois até fala com dois homens que já tinham morrido. Tinham avisado Sandrinha sobre o mau comportamento do rapaz. Mesmo assim Sandrinha se aproximou. Depois pôde perceber que todos tinham razão.O desejo da Madre de começar um conto com um palavrão. Um dia o pai saiu de casa, afirmando que voltaria muito rico e os buscaria. Ele voltou amarrado na balsa todo ensangüentado com uma tabuleta no peito. O filho tem curiosidade de saber o que estava escrito na tabuleta. Dois fatos que não se relacionam: Marisa abrindo uma lata de pêssego e o desmoronamento do Himalaia.Encontraram-se 25 anos depois. Um deles chamou o outro de kid. Este diz que não era o kid. O primeiro tem certeza de que ele era o Kid. Agora não é mais. Maria José casou com José Maria por uma certa fascinação intelectual. Foram muito felizes.

Gravações

No fim do dia, um homem escuta todas as conversas que foram gravadas no seu telefone durante o dia. Espera ansioso pela última. E ouve: Alô, aqui é o Mário. Algum recado para mim?

Conto Erótico

O chefe tenta fazer uma ligação, mas não consegue porque instalaram um novo sistema telefônico. No começo ele pensa que é a secretária falando. Mais tarde descobre que é uma gravação. Tem pensamentos eróticos com a “gravação”, pois acha a voz linda.

Fonte:
http://www.resumosdelivros.com.br/l/luis-fernando-verissimo/comedias-da-vida-privada/

Alice Áurea Penteado Martha (Monteiro Lobato e as Fábulas: adaptação à brasileira)


O intuito neste texto é o de tecermos alguns comentários acerca de aspectos inovadores da literatura de Monteiro Lobato para crianças, tratando, em especial, da importância da fábula em suas produções e do modo como o escritor adaptou o gênero à recepção dos pequenos leitores. Falar dos traços renovadores da obra lobatiana nunca é demais, notadamente, no caso de sua produção infantil, pois, como sabemos, no final do século XIX e nas primeiras décadas deste que se finda, a literatura brasileira destinada à infância era totalmente dependente da européia e, o que é mais relevante e problemático, responsável pela difusão de uma visão conservadora de seus receptores e absolutamente preocupada em veicular noções didáticas e pedagógicas, fossem elas ligadas a questões religiosas, morais, educacionais ou de civismo.

Mesmo antes da publicação de A menina do Narizinho arrebitado, Lobato manifestava sua preocupação com as leituras destinadas às crianças, arquitetando, inclusive, um modo diferente de levar a fantasia aos pequenos leitores, posicionando-se decisivamente contra o pensamento literário da época. Se, por exemplo, em 1912, Francisca Júlia e Júlio César da Silva escreviam no prefácio de seu livro, Alma infantil, que nenhum dos textos apresentados ali era supérfluo, já que todos continham além de um flagrante interesse anedótico, uma edificante lição de moral e concluíam que o livro satisfazia a todas as exigências, pois, além de didático, era, ao mesmo tempo, uma obra de arte, Lobato, por sua vez, discordava de semelhante postura. Em correspondência a Godofredo Rangel, datada de 1916, o escritor relatava suas inquietações literárias, revelando um pensamento extremamente arrojado para a época:

Ando com várias idéias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. Veio-me da atenção curiosa com que meus pequenos ouvem as fábulas que Purezinha lhes conta. Guardam-nas de memória e vão recontá-las aos amigos – sem, entretanto, prestarem nenhuma atenção à moralidade, como é natural. A moralidade nos fica no subconsciente para ir-se revelando mais tarde, à medida que progredimos em compreensão. Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. (Lobato, 1972, p.245-46)

Suas palavras ao amigo Godofredo Rangel indicam uma consciência atenta aos interesses e necessidades dos pequenos leitores. Cioso da necessidade de adaptação, antecipa, na produção infantil, o processo antropofágico que caracterizaria mais tarde o Modernismo brasileiro:

As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora no mato – espinhentas e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto é habilidade por talento, ando com idéia de iniciar a coisa. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos. Mais tarde só poderei dar-lhes o Coração de Amicis – um livro tendente a formar italianinhos… (Lobato, 1972, p. 246)

Como podemos notar, suas preocupações com a leitura da garotada começam em casa, mas não se esgotam aí e vão, depois, muito além do plano de adaptação das fábulas. Em 1921, em A onda verde: jornalismo, livro publicado pela Editora Monteiro Lobato e Cia, a partir da recolha de artigos, ensaios e crônicas em jornais e revistas, o escritor aborda também aspectos relativos à leitura, procurando explicar a aversão dos brasileiros pelos livros. Trata acidamente do que denomina de uniformização dos cérebros, pois não se respeita a individualidade ou o gosto pessoal: a leitura de um poeta, de um romancista ou de um filósofo, no Brasil de então, segundo ele, é questão de moda. A seleção do repertório de leitura se dá pelos mesmos critérios com que as pessoas escolhem gravatas ou chapéus. Entretanto, Lobato discorda em gênero e grau com essa postura, como se pode observar pelo olhar crítico que o escritor lança sobre a função da leitura na escola:

O menino aprende a ler na escola e lê em aula, à força, os horrorosos livros de leituras didáticas que os industriais do gênero impingem nos governos. Coisas soporíferas, leituras cívicas, fastidiosas patriotices. Tiradentes, bandeirantes, Henrique Dias, etc. Aprende assim a detestar a pátria, sinônimo de seca, e a considerar a leitura como um instrumento de suplício. (Lobato, 1969, p. 84)

E, da idéia passa à ação, publicando, em 1921, Narizinho Arrebitado (Segundo livro de leitura para uso das escolas primárias), livro com o qual pretende modificar o que considera como tortura das crianças na escola e, em 1922, as Fábulas, pensadas e trabalhadas conforme relatara ao amigo Godofredo Rangel, entre tantas outras obras a partir de então.

Em um plano geral e sumariando o pensamento de estudiosos de Lobato, especialmente, Lígia Cadermatori (1982), Regina Zilberman (1982), Marisa Lajolo (1983), Ana Maria Filipouski (1983), o ideal reformador do escritor, latente em suas manifestações acerca da leitura oferecida às crianças, concretiza-se, notadamente em produções de cunho ficcional, pela valorização da voz e da visão infantis, pelo desgaste das velhas fórmulas do conto infantil bem como pelo interesse em divertir e não em transmitir conceitos pedagógicos e moralizadores e que pode ser observado tanto no plano retórico como no ideológico. No primeiro, o retórico, a renovação pode ser observada pela preocupação em despir a língua dos rebuscamentos literários; pela valorização da linguagem afetiva e da sintaxe proposta pela oralidade; pelo emprego da linguagem infantil como recurso para suplantar a elegância da frase literária; pela recuperação de elementos e expressões da linguagem popular, no âmbito do vocabulário, propiciando a criação de um fabulário nacional; pelo enriquecimento do vocabulário com a soma de expressões populares e neologismos, privilegiando, inclusive, a afetividade da mensagem; pela incorporação de onomatopéias como recurso revelador da desconstrução lingüística do texto e valorizador da expressividade e, finalmente, pela inauguração de nova relação com o leitor, transformando-o em interlocutor. No plano ideológico, o desejo renovador incita o senso crítico do leitor, levando-o a rejeitar idéias pré-concebidas; propicia a discussão entre personagens adultas e crianças, permitindo o levantamento de problemas sociais, políticos, econômicos e culturais do país; enfatiza, ao longo das obras, valores como verdade e liberdade; provoca, através da valorização da liberdade e da verdade, o estabelecimento de uma nova moral, distinta daquela que caracteriza os contos clássicos; propicia a relativização do maniqueísmo advindo da moral absoluta; leva à aceitação de uma moral pragmática e racionalista e instaura, ao apontar erros às crianças para torná-los passíveis de correção, uma moral de situação, alterando a visão tradicional de valores como liberdade e verdade.

Neste caminho que nos leva a um breve olhar sobre a fábula em Lobato, devemos pensar na adaptação como processo característico da produção literária do escritor, não só no caso específico do reaproveitamento das narrativas de Esopo e La Fontaine como também na reciclagem de elementos do folclore e da tradição popular, cujos exemplos podem ser dados pelas presenças da Cuca e do Saci, principalmente, nas narrativas do Sítio; pela adaptação de obras destinadas, na sua origem, ao público adulto, como o D. Quixote ou, ainda, nas modificações mais acentuadas, através de cortes, explicações e simplificações, como se pode ver em Peter Pan.

Fábulas adaptadas: amoras sem espinhos…
Antes de discorrermos sobre os aspectos da adaptação das fábulas em Lobato, parece interessante que conheçamos um pouco o gênero, observando aspectos relativos ao seu conceito e estrutura.

Forma literária específica, a fábula constitui-se como narrativa curta, onde as personagens, via de regra, são animais, cujas ações, alegóricas, encerram um princípio moral, ético ou político. Segundo La Fontaine (s/d), compõe-se de corpo e alma, ou seja, da narrativa e da verdade geral que a encerra. Sua estrutura peculiar justifica a dificuldade de propor, hoje, a leitura desse tipo de narrativa para a criança e para o adolescente. Como no drama, observamos o predomínio da unidade de tempo, lugar e ação, uma vez que o gênero pede apenas um conflito, resultando uma narrativa concisa e sóbria. Além disso, possui um esquema geral que se resume em ação/reação ou discurso/contra-discurso, ou ainda um mais amplo como situação-ação/reação-resultado.

No que se refere à linguagem, a fábula deve primar pela objetividade, o que explica a ausência da descrição, com o predomínio do diálogo, seja direto, indireto ou misto, podendo, inclusive, ocorrer o monólogo. A importância do narrador deve ser ressaltada, uma vez que tanto a situação quanto o resultado são apresentados por ele, ficando a ação e a reação por conta das personagens, por meio do diálogo. As personagens, em número reduzido, caracterizam-se sempre como estáticas ou planas, pois não crescem aos olhos do leitor, não passam por um aprendizado. São preferencialmente animais porque, entre outras razões, as ações estabelecidas entre o comportamento humano e o animal são mais facilmente reconhecidas como, por exemplo, a astúcia da raposa e a ingenuidade do cordeiro.

Isto posto, passamos a considerar o que fez Lobato com o gênero. Para tanto, tomamos a fábula A cigarra e a formiga, de La Fontaine, bastante conhecida por todos e A cigarra e as formigas, de Monteiro Lobato que, já no título, indicia novidades. A fábula de La Fontaine, composição em versos, traduzidos por Bocage, revela, através do esquema Situação/Ação/Reação/Reação/Resultado, a postura valorizadora do trabalho e da produção capitalista e mercantilista do momento, uma vez que o trabalho dos operários era de suma importância para o crescimento das manufaturas no mundo de então. O narrador, com uma visão depreciativa da cigarra – penúria extrema, a tagarela, narra a fala do inseto – Rogou-lhe que lhe emprestasse/Pois tinha riqueza e brio/ Algum grão com que manter-se/Té voltar o aceso estio – mas concede voz à formiga que, em discurso direto, difunde os valores mais importantes do relato, ou seja, a moral da fábula: – OH! bravo! – torna a formiga – Cantavas? Pois dança agora! Exalta como valor a avareza da formiga que nunca empresta, / Nunca dá, por isso junta.

O tempo possui papel de destaque na exígua narrativa, pois tem a função de exasperar a aspereza da situação e enfatizar a negligência da formiga. Polarizado entre dois momentos opostos da natureza, Verão-Fartura/Inverno-Penúria, corrobora o maniqueísmo da visão utilitarista da sociedade que castiga todo aquele que se afasta dos padrões estabelecidos, premiando os que seguem os moldes propostos.

Na adaptação de Lobato, além do título que já revela um desmonte do maniqueísmo com que era vista a espécie em La Fontaine, a fábula é dividida em duas partes: a primeira relata a participação da formiga boa e, a segunda, a da formiga má. Todavia, em ambas, devemos ressaltar a figura do narrador do texto. A voz narradora nas fábulas de Lobato é a de Dona Benta que, como avó das crianças, privilegia o contar fantasioso e lúdico em detrimento da preocupação moralizadora como, aliás, almejava Lobato. Ao iniciar o relato, focaliza também a cigarra, à semelhança do que ocorre em La Fontaine, mas o faz com um olhar carinhoso e valorizador das peculiaridades do comportamento do inseto:

Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha… (Lobato, 1970, p.1)

E assim, até o final da narrativa, a cigarra merece o olhar amigo do narrador que, aos poucos vai tentando conquistar, como podemos ver pelas marcas formais do discurso, a atenção e a simpatia do leitor: pobre cigarra, em seu galhinho, manquitolando, com uma asa a arrastar, triste mendiga, a tossir. Além disso, nessa narrativa, a cigarra não é inativa e dependente, ela pensa e pode ser responsabilizada por sua própria recuperação, pois ela mesma procura e encontra uma saída para a situação difícil: deliberou socorrer-se de alguém. Mas não é somente a cigarra que é construída de modo diferente; a formiga também quebra a expectativa, causando o estranhamento no leitor, já que, ao recordar-se de que a outra cantava enquanto ela trabalhava, reconhece o valor de seu canto e procura recompensá-la pelas alegrias que aquela música, cantada pela cigarra nos momentos mais duros de seu trabalho, lhe proporcionava. Ao final da fábula, há o reconhecimento, inclusive, da atividade da cigarra como profissão: voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

Já no segundo relato, há como que um acirramento das agruras da cigarra, o que pode ser observado principalmente pelo ambiente que, ao contrário da narrativa anterior, é claramente marcado pela distância e dificuldade: os fatos ocorrem na Europa, em pleno inverno. A focalização inicial do narrador incide sobre a formiga má, carregando nos aspectos negativos de sua construção: Não soube compreender a cigarra, com dureza a repeliu de sua porta. O posicionamento da voz narrativa, francamente contrária às atitudes da formiga, revela simpatia pela cantora, o que pode ser observado também pelo modo como o narrador chama a atenção do leitor para a maldade da usurária:

Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou – emprestado, notem! – uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimos, logo que o tempo o permitisse.(Lobato, 1970, p. 4)

A situação da pobre cigarra mexe tanto com os sentimentos do narrador, no caso Dona Benta, que ela não se contém e chama diretamente, à moda de Machado de Assis, a atenção de seu leitor. Além disso, focalizando internamente a formiga, não se furta a emitir um juízo extremamente negativo a respeito de seu caráter, ressaltando atitudes decorrentes dos mais mesquinhos sentimentos:

Mas a formiga era uma usurária sem entranhas. Além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres. (Lobato, 1970, p. 4)

Assim, embora o resultado desta narrativa de Lobato seja semelhante ao da fábula de La Fontaine, uma vez que a pobre cigarra tem o mesmo fim trágico, há entre essas narrativas uma profunda diferença no modo de narrar. Isto porque a focalização do narrador, francamente crítica em relação às atitudes da formiga, acaba formando a opinião do leitor, levando-o a refletir sobre as relações humanas representadas na narrativa e adotando uma atitude simpática à cigarra:

Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; e quando voltou a primavera o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra morta por causa da avareza da formiga. Mas se a usurária morresse, quem daria pela falta dela? (Lobato, 1970, p. 4)

Finalmente, as duas narrativas se fecham com uma máxima, que não se apresenta como uma sentença moral, mas como uma metáfora valorizadora da arte: Os artistas – poetas, pintores, músicos – são as cigarras da humanidade.

Devemos ressaltar, ainda, outro aspecto interessante na adaptação da fábula por Lobato. Como Dona Benta conta as histórias às crianças e estas têm liberdade de opinião, as atitudes dos insetos são questionadas pelas personagens e aí, justamente nessa recepção crítica, reside o fator de maior responsabilidade pelo caráter emancipador da narrativa lobatiana. Desse modo, tanto a intromissão de Emília, de Narizinho ou de Pedrinho quanto o ponto de vista do narrador, no caso a avó das crianças, podem ser considerados aspectos inovadores na fábula lobatiana:

–Esta fábula está errada! –gritou Narizinho. Vovó nos leu aquele livro do Maeterlinck sobre a vida das formigas – e lá a gente vê que as formigas são os únicos insetos caridosos que existem. Formiga má como essa nunca houve. (Lobato, 1970, p.4)

A hora e a vez da cigarra…

Além desses aspectos inovadores na estrutura das fábulas tradicionais, consideramos outro modo de adaptação do gênero, levado a efeito por Lobato. Se nas fábulas, ao término da narrativa, as crianças do Sítio falam, comentam e criticam a atitude da formiga má, desmanchando esquemas maniqueístas propostos pelos textos de La Fontaine, em Reinações de Narizinho, com o auxílio do menino invisível e do pó de pirlimpimpim, elas chegam ao país das fábulas para observar in loco, e com o acompanhamento do escritor francês, o desenrolar das desventuras da cigarra. Mas se ao ouvirem a fábula contada por Dona Benta as crianças apenas opinam, ali, no mundo das fábulas, a ação é que vai fazer a diferença. Também a estrutura desta narrativa é mais elaborada, uma vez que, num processo de “bricolage”, duas histórias caminham intercaladas: as aventuras das crianças fora do Sítio e os fatos da fábula tradicional. Desde o início, porém, há dois pontos de vista contrastantes: o do fabulista, agora personagem lobateana, visivelmente favorável à formiga e ao modelo produtivo que ela representa e o do narrador, colado ao das demais personagens, especialmente ao modo de olhar de Emília. A visão de La Fontaine continua a mesma, pois, para ele, enquanto os artistas, boêmios, vivem em lazer permanente (bom tempo, sol quente, verão) as formigas têm sua admiração já que simbolizam o trabalho incessante e a moral positivista predominante:

– Gosto do canto das cigarras – disse ele. – Dá-me idéia de bom tempo, sol quente, verão. Este inseto é um pouco boêmio como em geral todos os cantores.
[...]
[...] Já escrevi uma fábula sobre a cigarra e a formiga, que é outro inseto muito curioso, símbolo do trabalho incessante.
[...] São insetos [as formigas] de alta inteligência. A muitos respeitos a formiga está mais adiantada que nós, homens. Há mais ordem e governo na sociedade delas. São mais felizes. (Lobato, 1984, p. 262)

Para desfazer a ótica utilitarista de La Fontaine, o narrador conta, como
sempre, com a espevitada Emília e sua canastrinha de idéias: – Felizes! –
exclamou Emília com carinha incrédula. – Bem se vê que o senhor nunca sentiu o horrível cheiro da bebida que Dona Benta costuma dar a elas lá no sítio, um tal formicida… (Lobato, 1984, p. 262)

Acompanhadas do senhor de La Fontaine, os netos de Dona Benta
observam as cenas por ele descritas anteriormente, carregadas, agora, dos
sentimentos e da afetividade da visão infantil em favor da pobre e sofredora
cigarra. Se os fatos continuam os mesmos; muda, entretanto, a focalização. A cena se apresenta, então, sob a visão das crianças, francamente favorável à cigarra:

Todos se calaram, imóveis em roda do formigueiro. A célebre cigarra tuberculosa, que tossia, tossia, tossia, vinha chegando, embrulhada no seu xalinho esfarrapado. Vinha de rastos, como quem está nas últimas, a morrer de fome e de frio.
[...]
A cigarra bateu e ficou esperando, toda encolhida. Instantes depois apareceu uma formiga coroca, sem dentes, com ares de ter mais de mil anos. Era a porteira da casa e rabugenta como ela só. Abriu a porta e disse, na sua voz rouca de séculos:
– Que é que a senhora deseja? (Lobato, 1984, p. 263)

Podemos perceber, inclusive, que, ao intensificar as agruras da cigarra e a rabugice da formiga, o narrador, mais que expor o estado lamentável das personagens, pretende veicular uma nota crítica às tais histórias emboloradas, ressaltando a antigüidade da fábula. Nesse sentido, vale apontar o humor com que narrador trata a questão da dependêndia feminina quando, a formiga, negando-se a atender ao pedido da cigarra, sugere-lhe como solução a casa do sogro, numa clara referência à visão do casamento como muleta para a mulher, que não é capaz de andar pelas próprias pernas: Se está doente, vá para a casa de seu sogro. A cigarra lobateana, muito emancipada para os padrões vigentes à época de La Fontaine – cantadeira e sem marido –, sofre, justamente, as conseqüências dessa autonomia. E é em função do caráter passadista da narrativa que o narrador altera, através da ação de Emília, o resultado da fábula, começando pelo fato de que a cigarra assume sua independência, reconhece e valoriza sua função artística:

– Perdão – disse a triste mendiga. – É que não tenho casa, nem sogro, e estou morrendo de fome e de frio. Se a senhora não me dá uma folhinha para comer e um cantinho para me abrigar, certo que morrerei à mingua.
– É o melhor que tem a fazer – respondeu a formiga. – Que fazia no bom tempo?
– Eu? Eu cantava, Senhora Formiga. Sou cantadeira de nascença. (Lobato, 1984, p. 263)

Ao levar literalmente a porta no nariz, a cigarra ia pendendo para trás para morrer quando Emília a segurou e, após ajudá-la a refazer-se fisicamente, exortou-a a preparar uma boa forra para a formiga. E a cigarra não ficou à espera, também fez sua parte, agindo: comeu as folhinhas; aqueceu o corpo na fogueirinha e sarou da tísica. A boneca pediu ao inseto que batesse novamente na porta da formiga e, quando a pobre já ia levando outra sova, puxou a antipática pela perna seca, dizendo:

– Chegou tua vez, malvada! Há mil anos que a senhora me anda a dar com essa porcaria de porta no focinho das cigarras, mas chegou o dia da vingança. Quem vai levar porta no nariz és tu, sua cara de coruja seca!
E, voltando-se para a cigarra:
– Amor com amor se paga. Eu seguro a bruxa e você malha com a porta no nariz dela. Vamos! A cigarra cumpriu a ordem, e tantas portadas arrumou no nariz da formiga, que a pobre acabou pedindo socorro ao Senhor de La Fontaine, seu conhecido de longo tempo. (Lobato, 1984, p. 265)

Entretanto, se as crianças agem radicalmente em defesa da cigarra, no momento certo, o narrador, numa atitude muito clara de valorização do gênero, intervém e, procurando preservar a narrativa original, dá voz ao fabulista francês, que reconhece, inclusive, o merecimento do castigo aplicado à formiga. Parece evidente que, para o narrador, para que a narrativa adaptada tenha sentido, é preciso conservar e difundir também sua matriz:

– Basta, bonequinha! – disse ele. – A formiga já sofreu a sova merecida. Pare, senão ela morre e estraga-me a fábula. (Lobato, 1984, p. 265)

Como vimos, o que era apenas um projeto em 1916, torna-se realidade. Lobato, empenhado em apanhar as amoras na moitas espinhentas e fazer com elas uma deliciosa geléia, em transformar a literatura consumida pelos pequenos leitores brasileiros, retoma as fábulas emboloradas e, com pitadas de irreverência, humor e ludismo, revigora o gênero, adaptando-o de duas maneiras. No primeiro caso, a fábula é narrada às crianças pela voz de Dona Benta que, com uma visão francamente favorável ao inseto oprimido, procura desmanchar os esquemas maniqueístas da narrativa tradicional; além disso, as crianças, ao final do relato, opinam sobre a possibilidade de alteração da história e criticam as atitudes que consideram errôneas. No segundo modo, além da voz, as crianças se deslocam até o mundo das fábulas para, através da ação, modificar as atitudes das personagens e, conseqüentemente, o resultado do esquema moralista proposto pela narrativa de La Fontaine. Enfim, em ambos os casos, e no confronto com a fábula tradicional, o leitor infantil pode não só se reconhecer nas atitudes das personagens como apreender, de modo produtivo, crítico e, sobretudo, prazeroso, os mundos engendrados pela genialidade de Monteiro Lobato.

Referências bibliográficas
CADERMATORI, Lígia. Literatura infantil brasileira em formação. In: ZILBERMAN, Regina (org.) Literatura infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982.
FILIPOUSKI, Ana Maria. Monteiro Lobato e a literatura infantil brasileira contemporânea. In: ZILBERMAN, Regina (org.). Atualidade de Monteiro Lobato: uma revisão crítica. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.
LA FONTAINE. Fábulas. São Paulo: Edigraf, s/d.
LAJOLO, Marisa. A modernidade em Monteiro Lobato. In: ZILBERMAN, Regina (org.) Atualidade de Monteiro Lobato: uma revisão crítica. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.
LOBATO, José Bento Monteiro. A onda verde. São Paulo: Brasiliense, 1969.
______. Fábulas e histórias diversas. 16.ed. São Paulo: Brasiliense, 1970.
______. A barca de Gleyre. São Paulo: Brasiliense, 1972)
______. Reinações de Narizinho. São Paulo: Círculo do Livro, 1984.
ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 2.ed. São Paulo: Global, 1982.

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Alice Áurea Penteado Martha é professora da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná. Doutora em Letras, na área de Literatura Brasileira. Coordenadora do Programa de Posgraduação. Mestre em Lingüística Aplicada. Membro do Grupo Acadêmico Proleitura.

Fonte:
Cuatrogatos revista de literatura infantil n° 7, julio-septiembre 2001

J. G. de Araújo Jorge (A Cantiga Do Só) Auto-Retrato

A fronte larga como larga pista
para as idéias levantarem vôo…
Os olhos verdes: – sinal sempre aberto
para a vida passar, sem obstáculos…

E estas narinas dilatadas, como
se fossem feitas para grandes haustos
saborear o mais simples dos prazeres:
- o de encher os pulmões… e respirar!

Um coração desordenado e boêmio,
e um sentimento de justiça, intenso,
como traço marcante do caráter.

A humildade de ser, para os pequenos,
o orgulho de enfrentar os poderosos
e a alegria de amar sem ter limites!

Fonte:
JORGE, J.G. de Araújo. Cantiga do Só. 2. ed. 1968.

Dicionário Aulete (Boneca)


Emília, a boneca de pano da pequena Narizinho, é, provavelmente, a boneca mais conhecida da literatura nacional. Feita por tia Nastácia, ganhou vida, mas era muda até tomar uma pílula falante (feita pelo Dr. Caramujo) e começar a falar sem parar. A primeira frase de Emília foi ‘Estou com um horrível gosto de sapo na boca!’. Emília se tornou uma boneca atrevida, respondona e mandona. Por ser boneca, ao invés de gente, não tem papas na língua, às vezes sendo tirana e malcriada.

Alguns estudiosos dizem que Emília era o alter ego de Monteiro Lobato, que, não podendo expressar algumas opiniões controversas, fazia que as frases saíssem da boca de Emília. Em vários momentos, Monteiro Lobato confessa que Emília ganhou vida, de fato, tornando-se maior do que ele próprio. ‘Quando estou batendo o teclado, ela posta-se ao lado da máquina e quem diz que eu digo o que eu penso?’, disse o autor.

O Visconde de Sabugosa, uma vez, perguntou a Emília que criatura ela era. A resposta: ‘Sou independência ou morte!’

(bo.ne.ca)
sf.
1 Figura tridimensional que representa uma mulher ou criança, us. como brinquedo infantil, objeto de decoração ou para outros fins.
2 Fig. Mulher ou menina bonita ou bem arrumada.
3 Chumaço de algodão envolto em tecido e amarrado, us. para espalhar substância líquida (óleo, verniz, tinta etc.) sobre uma superfície.
4 Bras. Espiga de milho ainda nova, em formação.
5 Art.gr. Projeto gráfico em forma brochura de uma publicação, us. para demonstrar como se apresentará quando impressa; BONECO.
6 Bras. Pej. Homem efeminado.
7 Bras. Gír. Travesti.
8 Cons. Ressalto em parede de alvenaria, no qual se encaixam os marcos de portas e janelas
9 Arm. Espécie de bucha de madeira com que se veda cano de arma de fogo para evitar que nele penetre umidade
10 Cons. Reforço na parte inferior central de viga para aumentar-lhe a resistência à flexão sob peso
11 Peça junto à boleía de coches, carruagens etc., na qual se prenderm rédeas e tirantes dos cavalos
[F.: De or. contrv., posv. pré-romana]

Fonte:
Texto enviado pelo Aulete Digital

Ana Lucia Santana (A Morte na Literatura de Vampiros)


À primeira vista parece surpreendente que a recente onda de vampiros na literatura faça tanto sucesso e conquiste um número cada vez maior de adeptos. Algo que chama a atenção, porém, nesta leitura, é a questão da presença consistente do que se entende por sobrenatural.

O mundo contemporâneo avançou, sem dúvida, no campo das descobertas científicas, do avanço tecnológico, das explicações racionais, da sociedade esclarecida e asséptica; o Homem parece caminhar na direção de um universo semelhante ao previsto pelo escritor Aldous Huxley, em sua obra Admirável Mundo Novo, no qual não há mais lugar para a dor, o sofrimento e a morte, sanados e exilados da vida humana através de pílulas desenvolvidas para esse fim.

Deste cosmos humano foi expulso também o encantamento, mas não sem um alto preço a se pagar por esta exclusão. Todas as eras e civilizações conviveram sem problemas com mitos, lendas, histórias e ‘causos folclóricos’; pode-se dizer que nossa era é uma exceção a esta regra implícita. Isto, sem dúvida, abala o emocional do ser humano, pois um elemento fundamental de sua psique está sendo extirpado gradualmente, com a ajuda do entorpecimento provocado pelo consumismo desenfreado.

Porém, nenhuma conquista tecnológica substitui o encanto mítico, a presença de uma esfera que transcende a realidade e ajuda o Homem a trabalhar suas emoções e, principalmente, suas perdas. Vivemos em uma sociedade que tenta, a todo custo, eliminar até mesmo a presença da morte, inevitável na jornada humana, e passa a acreditar que é indestrutível, eterna e imortal, ignorando inclusive a própria História – testemunha de impérios e civilizações que desmoronaram e jazem sepultadas há milênios, vítimas da passagem implacável do tempo.

Mas o ser humano necessita de uma dose de fantasia na sua existência, como defende, entre outros, o Professor Antonio Cândido. Daí o inegável sucesso das novelas e tramas cinematográficas, assim como da literatura. Por esta razão, talvez não seja tão assombroso o impacto provocado pela saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, e de outra série que consta nas listas dos mais vendidos, A Morada da Noite, de P. C. Cast e Kristin Cast, entre outras obras que têm como protagonistas os ancestrais vampiros.

Embora ela encontre adeptos em todas as faixas etárias e gêneros, é inegável que a maior parte dos leitores é composta por adolescentes. Este público é o que se encontra mais imune à alienação desencadeada pelos mecanismos que regem a era pós-moderna e, portanto, o mais acessível às questões existenciais, tão bem trabalhadas por estas autoras em seus livros.

Temas como a vida humana, o seu valor, a eternidade, a existência em um outro plano, e a morte, vista principalmente como um fator de transformação, não de finitude, são discutidos amplamente nestas obras. É curioso perceber que nem mesmo o vampiro é visto como um ser indestrutível e imortal nesta literatura; apesar de, em famílias adeptas de um vampirismo mais ‘clean’, ou seja, vegetariano, como na série Crepúsculo, eles viverem até mesmo por centenas de anos, esta entidade sobrenatural jamais é descrita como um ser destinado à eternidade.

Se até mesmo um vampiro, como Edward, de Crepúsculo, se preocupa com o destino de sua alma, acreditando que está condenado por ter se transformado nesta criatura, o que há de errado com o ser humano, que, em muitos casos, nem mesmo acredita que em seu interior habita uma essência semelhante a esta? È uma das questões que o adolescente pode, mesmo inconscientemente, despertar em sua mente.

E quanto à morte, tão presente nestes livros, principalmente em A Breve Segunda Vida de Bree Tanner, de Meyer, e nos volumes que compõem a Morada da Noite? Nesta série esta imagem é onipresente, pois nem todos os novatos marcados pela deusa Nyx para serem futuros vampiros, passarão realmente pela transformação. Alguns deles não conseguem atravessar este limiar; mas, curioso, há vários tipos de morte, e nem todos os aspirantes a vamps morrem de verdade, e sim passam a viver em uma espécie de limbo, ou de semivida.

Na saga Morada da Noite os vampiros, ou seja, os que concretizaram a passagem, também não são definidos como seres imortais; alguns podem viver centenas de anos, outros encontram o fim da existência de forma precoce e violenta. Aqui, mais do que nos outros livros, é frisada a importância do livre-arbítrio concedido a cada ser, a escolha que pode determinar a luz ou as sombras, a redenção ou a destruição.

Questões como estas, e tantas outras presentes na literatura de vampiros, preenchem, pelo menos parcialmente, a carência do ser humano, que desconhece, hoje, o significado da vida e da morte, as implicações das decisões adotadas por cada um, os valores morais, a importância dos mitos e do sobrenatural na compreensão da própria trajetória humana.

É preciso, porém, um trabalho mais profundo em torno destes temas, por meio de educadores e outros pensadores, em um esforço interdisciplinar e inter-religioso, no sentido de orientar os leitores destes livros na compreensão do potencial oculto nas suas entrelinhas, com o objetivo de resgatar o encantamento de outras eras e a própria imagem da morte, em sua antiga face de fenômeno natural. Talvez, assim, o Homem consiga eliminar um mal maior, a violência, comum, principalmente, entre esses mesmos adolescentes.

Fonte:
Infoescola

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Alagoas

José Feldman (Devaneios Poéticos n.2)

Uma Trova de Ademar

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca faz chover prantos
nos olhos dos nordestinos…
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional

Quando a saudade me guia
pelas noites do passado,
qualquer luz eu trocaria
pela penumbra ao teu lado!
–CAROLINA RAMOS/SP–

Uma Trova Potiguar

Cada flor tem seu perfume,
cada rosa seu aroma,
coração que tem ciúme
é amor que está em coma.
– BONIFÁCIO SANTOS/RN

Uma Trova Premiada

1999 – XIV Concurso de Trovas Rio Novo/MG
Tema – POENTE – Vencedora

Em nossas carícias quentes,
não pesa a idade, nem nada,
porque somos dois poentes
que explodem numa alvorada!
– HÉRON PATRÍCIO/SP-

..E Suas Trovas Ficaram

Se a areia que pisas tanto,
adivinhasse quem és,
vibrava toda, garanto,
beijando louca, teus pés
–ANTÍDIO AZEVEDO/RN–

Antônio Antídio de Azevedo, ou simplesmente, Antídio de Azevedo, como era mais conhecido (03.06.1887 / 05.11.1975 ), sendo filho de pais pobres e tendo vivido os primeiros anos de sua existência na zona rural do município de Jardim do Seridó, não teve absolutamente nenhuma escolaridade regular, revelando-se um autêntico autodidata.

As circunstâncias não lhe ofereceram o ensino de freqüentar qualquer escola, nem mesmo a nível de alfabetização. Aprendeu a ler com o próprio pai, numa fazenda, às vezes ajudado por um primo, estudando quase sempre à noite, à luz do candeeiro, aproveitando para isso as poucas horas que lhe sobravam da faina diária, do amanho da terra, do trato do gado.
Sem contar sequer com os estímulos culturais do meio, conseguiu ele, graças ao esforço pessoal, atingir nível intelectual de relativa expressão, destacando-se sobretudo por suas produções poéticas.

Somente na idade adulta, quando passou a residir na cidade, em Jardim do Seridó, teve os seus conhecimentos burilados nas aulas particulares de um professor diplomado. E, nesse tempo, tinha já sonetos seus publicados em conceituadas revistas do Rio de Janeiro, então capital da República, como “ O Malho” e “ Vida Doméstica”.

Antídio de Azevedo exerceu com muita proficiência os ofícios de Tabelião Público, a princípio em Jardim do Seridó e depois em Natal.

Tendo alguns livros publicados, destacando-se “Zelações” e “Pirilampos”, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, em reconhecimento aos seus méritos intelectuais, elegeu-o para ocupar uma de suas cadeiras. Antes, já pertencia à Academia Potiguar de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Antídio foi casado com sua prima legítima – Alice Cunha de Azevedo. Os irmãos Horácio Olímpio de Oliveira Azevedo, pai de Antídio, e Felinto Elísio de Oliveira Azevedo, pai de Alice, eram bisnetos do patriarca Antônio de Azevedo Maia Júnior, o fundador de Jardim do Seridó.

Uma Poesia

Saudade
– LÚCIA CONSTANTINO/PR-

Irmã da terra,
dos ventos,
das tempestades,
por onde pisam agora
teus pés de saudade?

Deixou rosas,
espinhos
e tantos trigais.
E foi ninar num travesseiro de jasmins
à sombra dos pinheirais.

Soneto do Dia

Soneto de Lembrança Antiga
IALMAR PIO SCHNEIDER/ RS

Bom dia ! pé de bugre e aroeira!
Cumprimento essas árvores nativas,
qual se fossem a ausente companheira,
de minha infância das imagens vivas…

Aquela que deixou-me, de maneira
tão bruscamente, em horas aflitivas,
hoje, surge-me à mente toda inteira,
para trazer-me flores sempre-vivas…

Busquei não recordá-la e foi em vão
meu intento sincero e imorredouro,
querendo sepultar essa ilusão…

Depois fiquei sabendo que partiu,
sem saber que pra mim era um tesouro
e nem que me deixava este vazio…

Fonte da biografia:
Amigos da Cultura de Jardim do Seridó

Fernando Sabino (O Homem Nu)

Ao acordar, disse para a mulher:

– Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.

– Explique isso ao homem- ponderou a mulher.

– Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar- amanhã eu pago.

Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.

Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:

– Maria! Abre aí, Maria. Sou eu- chamou, em voz baixa.

Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.

Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares. Desta vez, era o homem da televisão!

Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:

– Maria, por favor! Sou eu!

Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo.. . Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.

– Ah, isso é que não!- fez o homem nu, sobressaltado.

E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido… Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror.

– Isso é que não- repetiu, furioso.

Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: “Emergência: parar”. Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.

– Maria! Abre esta porta!- gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:

– Bom-dia, minha senhora- disse ele, confuso. – Imagine que eu…

A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:

– Valha-me Deus! O padeiro está nu!

E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:

– Tem um homem pelado aqui na porta!

Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:

– É um tarado!

– Olha, que horror!

– Não olha não! Já pra dentro, minha filha!

Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.

– Deve ser a polícia- disse ele, ainda ofegante, indo abrir.

Não era: era o cobrador da televisão.

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

A. A. de Assis (Estados do Brasil em Trovas) Acre

José Feldman (Devaneios Poéticos n.1)

O Ademar está em cirurgia de catarata. Mas para que o leitor não fique sem as mensagens poéticas, segue os Devaneios Poéticos, até que o Ademar esteja recuperado e em atividade. O modelo é o mesmo das Mensagens, só o título que muda, para que se o conteúdo não for condizente com as Mensagens, a culpa seja atribuída a mim.
José Feldman

Uma Trova de Ademar 

Deus vendo que não tem fim
essa fé que me conduz,
deixou cair sobre mim
uma cascata de luz!
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional

Há de vir um tempo novo,
no qual, meu bom Deus, verás
unido afinal teu povoam
no grande abraço da paz!
–A. A. DE ASSIS/PR–

Uma Trova Potiguar

Na parede em frente à cama,
teu retrato desbotado
ouve a minha alma que chama…
Mas não atende ao chamado!
– FRANCISCO MACEDO/RN -

Uma Trova Premiada

1993 – I Jogos Florais de Belmiro Braga/MG
Tema – PRAÇA – Menção Honrosa

Na velha praça, embalado
por lindo sonho vadio,
apalpo o banco ao meu lado
mas meu lado está vazio.
– AMÁLIA MAX/PR

..E Suas Trovas Ficaram

Dona Saudade, velhinha,
bordadeira paciente,
não tem agulha nem linha
mas borda os sonhos da gente.
–ONILDO DE CAMPOS/BA–

Uma Poesia

Como um Filme
– AMAURY NICOLINI/RJ -

Quer assistir a um filme
cheio de emoção,
como há muito não se vê ?
É só olhar
dentro do meu coração
e aplaudir a interpretação
magistral e singular
de toda essa saudade de você.

Soneto do Dia

Travessia
–SÔNIA MARIA DE FARIA/MG–

Se num belo sonho se envolve a vida,
Traz ele novos ares de alegria,
Uma força com meta definida
E um desejo incontido se anuncia.

Mergulha o coração no desafio…
Busca firme traçar a sintonia
Entre dias de sol, noites de frio,
Nada fere sua essência, a euforia.

Se é difícil a paz na travessia,
São os sonhos as borbulhas de magia,
A força estranha, o caminho, a certeza…

Escolher sonhar é sabedoria:
É dos que sonham o raiar do dia…
É dos que lutam sua realeza.

Carlos Drummond de Andrade (Esparadrapo)

Aquele restaurante de bairro é do tipo simpatia/classe média. Fica em rua sossegada, é pequeno, limpo, cores repousantes, comida razoável, preços idem, não tem música de triturar os ouvidos. O dono senta-se à mesa da gente, para bater um papo leve, sem intimidades.

Meu relógio parou. Pergunto-lhe quantas horas são.

– Estou sem relógio.

– Então vou perguntar ao garçom.

Ele também está sem relógio.

– E o colega dele, que serve aquela mesa?

– Ninguém está com relógio nesta casa.

– Curioso. É moda nova?

– Antes de responder, e se o senhor permite, vou lhe fazer, não propriamente um pedido, mas uma sugestão.

– Pois não.

– Não precisa trazer relógio, quando vier jantar.

– Não entendo.

– Estamos sugerindo aos nossos fregueses que façam este pequeno sacrifício.
– Mas o senhor podia explicar…

– Sem querer meter o nariz no que não é da minha conta, gostaria também que trouxesse pouco dinheiro, ou antes, nenhum.

– Agora é que não estou pegando mesmo nada.

– Coma o que quiser, depois mandamos receber em sua casa.

– Bem, eu moro ali adiante, mas e outros, os que nem se sabe onde moram, ou estão de passagem na cidade?

– Dá-se um jeito.

– Quer dizer que nem relógio nem dinheiro?

– Nem jóias. Estamos pedindo às senhoras que nao venham de jóia. É o mais difícil, mas algumas estão atendendo.

– Hum, agora já sei.

– Pois é. Isso mesmo. O amigo compreende…

– Compreendo perfeitamente. Desculpa ter custado um pouco a entrar na jogada. Sou meio obtuso quando estou com fome.

– Absolutamente. Até que o amigo compreendeu sem que eu precisasse dizer tudo. Muito bem.

– Mas me diga uma coisa. Quando foi isso?

– Quarta-feira passada.

– E como foi, pode-se saber?

– Como podia ser? Como nos outros lugares, no mesmo figurino. Só que em ponto menor.

– Lógico, sua casa é pequena. Mas levaram o quê?

– O que havia na caixa, pouquinha coisa. Eram 9 da noite, dia meio parado.

– Que mais?

– Umas coisinhas, liquidificador, relógio de pulso, meu, dos empregados e dos fregueses.

– An. (Passei a mão no pulso, instintivamente.)

– O pior foi o cofre.

– Abriram o cofre?

– Reviraram tudo, à procura do cofre. Ameaçaram, pintaram e bordaram. Foi muito desagradável.

– E afinal?

– Cansei de explicar a eles que não havia cofre, nunca houve, como é que eu podia inventar cofre naquela hora?

– Ficaram decepcionados, imagino.

– Não senhor. Disseram que tinha de haver cofre. Eram cinco, inclusive a moça de bota e revólver, querendo me convencer que tinha cofre escondido na parede, no teto, embaixo do piso, sei lá.

– E o resultado?

– Este – e baixou a cabeça, onde, no cocuruto, alvejava a estrela de esparadrapo.

– Oh! Sinto muito. Não tinha notado. Felizmente escapou, é o que vale. Dê graças a Deus por estar vivo.

– Já sei. Sabe que mais? Na polícia me perguntaram se eu tinha seguro contra roubo. E eu pensando que meu seguro fosse a polícia. Agora estou me segurando à minha maneira, deixando as coisas lá em casa e convidando os fregueses a fazer o mesmo. E vou comprar um cofre. Cofre pequeno, mas cofre.
– Para que, se não vai guardar dinheiro nele?

– Para mostrar minha boa-fé, se eles voltarem. Abro imediatamente o cofre, e verão que não estou escondendo nada. Que lhe parece?

– Que talvez o senhor precise manter um estoque de esparadrapo em seu restaurante.

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

Paulo Vinheiro (Fantasia)

Tateio nas sombras um raio de luz
Quimera que leva a nova vereda
Tão certo sigo que me levo à perda
Sem sentido uma direção deformo

Quantos gritos dentro de mim ouço?
Quantos caminhos então se abrem?
Aquelas trevas sobre mim se fecham
Tateio nas sombras um raio de luz

Junto muitas partes de coisa nenhuma
Coisas que gritam, pesam, amaldiçoam
Cada uma das portas fechadas foram
Contudo cada uma das chaves as tenho

Por que tão confuso me vejo a mim?
Por que não ouço uma única voz?
Só gritos sem esperanças na escuridão
Preciso me acrescer mais raios de luz

Aprendi concentrar minha atenção
Olhar mais vigilante cada impressão
Escolher antes os meus caminhos
Estudar melhor sem tanto errar

A minha vida ficou menos aventureira
Talvez sem graça ou desarrojada
Hoje bebo mastigando os goles
Alongo os minutos e a vida, sem pressa

Tateio nas sombras um raio de luz

Fonte:
Poesia enviada pelo autor

Rubem Braga (Recenseamento)

São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas.

O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:

– Quantos são aqui?

Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:

– Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.

E outro:

– Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota de seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor.

E outro:

– Eu? Tinha um amigo e um cachorro. O amigo se foi, levando minhas gravatas e deixando a conta da lavadeira. O cachorro está aí, chama-se Lord, tem três anos e meio e morde como um funcionário público.

E outro:

– Oh! sede bem-vindo. Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh! E outro:

– Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito! E outro:

– Aqui moro eu. Quer saber o meu nome? Procure uma senhorita loura que mora na terceira casa da segunda esquina, à direita. O meu nome está escrito na palma de sua mão. E outro:

– Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum. Volte amanhã. Hein? Ah, o sr. é do recenseamento? Uff! Quantos somos? Somos vinte, somos mil. Tenho oito filhos e cinco filhas. Total: quinze pestes. Mas todos os parentes de minha mulher se instalaram aqui. Meu nome? Ahn… João Lourenço, seu criado. Jesus Cristo João Lourenço. A minha idade? Oh! pergunte à minha filha, pergunte. É aquela jovem sirigaita que está dando murros naquele piano. Ontem quis ir não sei onde com um patife que ela chama de “meu pequeno”. Não deixei, está claro. Ela disse que eu sou da idade da pedra lascada. Escreva isso, cavalheiro, escreva. Nome: João Lourenço; profissão: idiota; idade: da pedra lascada. Está satisfeito? Não, não faça caretas, cavalheiro. Creia que eu o aprecio muito. O sr. pelo menos não é parente da mulher. Isso é uma grande qualidade, cavalheiro! É a virtude que eu mais admiro! O sr. é divino, cavalheiro, o sr. é meu amigo íntimo desde já, para a vida e para a morte!

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

J. G. de Araújo Jorge (A Cantiga Do Só) A Vida

Ó pobre vida suicida!
Teu destino é uma ironia
se o que chamamos de vida
é um morrer de cada dia!

Numa amizade perdida,
num amor que se desgraça,
a morte desconta a vida
a cada dia que passa !

Vive a vida bem vivida
e ao mais, esquece e revela,
que a gente leva da vida
a vida que a gente leva…

Fonte:
JORGE, J.G. de Araújo. Cantiga do Só. 2. ed. 1968.

Mia Couto (Velho com Jardim nas Traseiras do Tempo)

No Jardim Dona Berta há um banco. O único que resta. Os outros foram arrancados, vertidos em tábua avulsa para finalidades de lenha. Nesse restante banco mora um velho. Cada noite, os dois se encostam mutuamente, assento e homem, madeira e carne. Dizem que 0 velho já tem a pele às listas, formatadas no molde das tábuas, seu externo esqueleto. O idoso recebeu um nome: Vlademiro. Ganhou o nome da avenida que ali passa, rasando-lhe a solidão: a Vladimir Lenine.

Soube hoje que vão retirar o banco para ali instalar um edifício bancário. A noticia me desabou: o jardinzinho era o último mundo do meu amigo, seu derradeiro refúgio. Decidi visitar Vlademiro, em missão de coração.

- Triste? Quem disse?-

Espanto meu: o homem estava eufórico com a noticia. Que um banco, desses das finanças, todo estabelecimentado, era um valor maior. Já lhe haviam dito da sua dimensão, dava bem para ele dormir mais seu bicho de estimação. E mesmo quem sabe ele encontrasse emprego lá? Nem que fosse nos canteiros em volta. Afinal, ele transitava de seu banco de jardim para um jardim de banco.

- Ando de banco para Banco .

Risada triste, descolorida. Não tardaria a escurecer. Quando baixasse a noite, Vlademiro se afundaria em bebida, restos deixados em garrafas. Já bêbado ele atravessaria a noite, a modos de caranguejo. Do outro lado da avenida estão as putas. As prostiputas, como ele chama. Conhece-as a todas pelos nomes. Quando não tem clientes elas se adentram pelo jardim e sentam junto dele. Vlademiro lhes conta suas aldrabices e elas tomam a baboseira dele por cantos de embalar. Às vezes, escuta as noturnas menininhas gritar. Alguém lhes bate. O velho, impotente, se afunda entre os braços, interdito aos pedidos de socorro enquanto pede contas a Deus.

- Deus está bom de mais, já não castiga ninguém- .

Vlademiro foi ganhando familiaridades com o todo-potente. Me admira esse tu-cá-tu-lá com o divino. Vlademiro já foi um beato, todo e totalmente. Mas o velho tem explicação: à medida que envelhecemos vamos entrando em intimidades com o sagrado. É que vamos abatendo no medo. Quanto mais sabemos menos cremos? Ele não sabe, nem crê. Às vezes até se pergunta:

- Deus ficou ateu?

Será que o velho vive isento de medos? Assim, sozinho, sem morada própria. Ele me contesta, neste ponto:

- Morada própria? Alguém tem morada mais própria?-

Às vezes, doente, sente a morte rondar o jardim. Mas Vlademiro sabe de truques, troca as voltas àquela que o vem levar. Mesmo batendo o dente, febrilhante, ele canta, voz trémula, faz conta que é mulher. As mulheres, diz, demoram mais para morrer.

- A morte gosta muito de ouvir cantar. Se distrai de mim e dança.

E assim em jogo de desagarra-esconde. Até que, um dia, a morte se adiante e cante primeiro. Mas ela terá que insistir para o de aninhar. Vlademiro está bem acolchoado no banco. E clama que ainda não tem idade. Velhos são aqueles que não visitam as suas próprias variadas idades.

No enquanto, Vlademiro vai dormindo leve e pouco. Despertador dele é um sapo. Dorme com o batráquio amarrado pela perna. E adianta, sério: o bicho é amarrado apenas para impedimento de voar.

- Sapo não voa porque deixou entrar água no coração- .

Agora, tudo vai terminar. Vão demolir o jardinzinho, a cidade vai ficar mais urbana, menos humana. Esse é o motivo da minha visita ao velho. Regresso ao que ali me levou:

- Diga-me, sobre isto do banco: você está mesmo contente?-

Vlademiro demora. Está procurando a melhor das verdades. O riso desvanece no rosto.

- Tem razão. Esta minha alegria é mentira.

- Porquê, então, você faz de conta?

- Nunca eu lhe falei de minha falecida?-

Acenei que não. O velho me conta a história de sua mulher que morreu, em lentidão de sofrimento. Doença pastosa, carcomedora. Ele todo o dia se empalhaçava frente a ela, fazia graças para espantar desgraças. A mulher ria, quem sabe com pena da bondade do homem. De noite, quando ela dormia é que ele chorava, desamparado, doido-doído.

- É como agora: só choro quando o jardim já dormiu …

Meu braço fala sobre o seu ombro. É adeus. Regresso de mim para um abandono maior. Atrás, fica Vlademiro, a avenida e um jardim onde resta um banco. O último banco de jardim.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

Artur de Azevedo (Livro de Sonetos)


ETERNA DOR

Já te esqueceram todos neste mundo…
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!

ARRUFOS

Não há no mundo quem amantes visse
Que se quisessem como nos queremos;
Mas hoje uma questiúncula tivemos
Por um caprichosinho, uma tolice.

- Acabemos com isto! ela me disse,
E eu respondi-lhe assim: – Pois acabemos!
- E fiz o que se faz em tais extremos:
Peguei no meu chapéu com fanfarrice,

E, dando um gesto de desdém profundo,
Saí cantarolando. Está bem visto
Que a forma ali contradizia o fundo.

Ela escreveu. Voltei. Nem Jesus Cristo,
Nem minha Mãe, voltando agora ao mundo,
Foram capazes de acabar com isto!

DESENGANO

A pensionista pálida que gosta
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;

Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos…, pela posta;

Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo… oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!

Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.

MISERÁVEL

A Carvalho Junior.

O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n’um lençol envolto…
Entra a viuvinha, a noiva… Oh, céu, contem-me!

Ela deita-se… espera… Qual! Revolto,
O leito estala… Ela suspira… freme…,
E o miserável dorme a sono solto!…

MUSA INFELIZ

Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.

Meia noite bateu. Sai risonho…
Brilhava – oh, musa, não me comprometas! -
O mais belo de todos os planetas
N’um céu que parecia um céu de sonho.

O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!

Pobres quartetos! míseros tercetos!…
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!…

POR DECORO

Quando me esperas, palpitando amores,
E os grossos lábios úmidos me estendes,
E do teu corpo cálido desprendes
Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,
Nesta prisão de músculos te prendes,
E aos meus beijos de sátiro te rendes,
Furtando as rosas as púrpureas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,
Entrefechados, lânguidos, tranquilos,
Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,
Deveria, perdoa-me, cobri-los
Uma discreta folha de parreira.

SONETO

De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n’um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!

Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.

Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!

Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!

SORTE

Depois que se casara aquela criatura,
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.

Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta…
Painel é que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femíneo vulto ou madrugada escura.

Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro não se afoite.

- Prometes ser discreto? – Ó meu amor! prometo…
Se não fosses tão curta, ó bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, ó pálido soneto!

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/biografia.php?a=34

Carlos Drummond de Andrade (Assalto)


Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:

– Isto é um assalto!

Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?

– Um assalto! Um assalto!- a senhora continuava a exclamar, e quem não tinha escutado escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.

Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias que transportavam. Não era o instinto de propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam, tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma penca de bananas meio amassadas?

– Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!

O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um passageiro advertiu:

– No que você vai a fim de ver o assalto, eles assaltam sua caixa.

Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde a idade da pedra até a idade do módulo lunar.

Outros ônibus pararam, a rua entupiu.

– Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé.

– É uma mulher que chefia o bando!

– Já sei. A tal dondoca loura.

– A loura assalta em São Paulo. Aqui é a morena.

– Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.

– Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!

– Vai ver que está caçando é marido.

Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue escorrendo!

– Sangue nada, tomate.

Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria, as vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia jóias pelo chão, braceletes, relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.

Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de direção: quem fugia dava marcha à ré, quem queria espiar era arrastado pela massa oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pêlo e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam:

– Pega! Pega! Correu pra lá!

– Olha ela ali!

– Eles entraram na kombi ali adiante!

– É um mascarado! Não, são dois mascarados!

Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e como não havia espaço, uns caíam por cima de outros. Cessou o ruído. Voltou. Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido, confuso?

– Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor-de-barriga, pensando que era metralhadora!

Caíram em cima do garoto, que soverteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:

– É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 542)

Uma Trova de Ademar

Numa decisão exata
farei hoje a cirurgia…
Vou tirar a catarata
para enxergar mais Poesia!
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional

Com a visão embaciada
e o caminhar pouco ereto,
vejo o esplendor da alvorada
pelos olhos do meu neto.
–FRANCISCO JOSÉ PESSOA/CE–

Uma Trova Potiguar

Ao rever a sua imagem
n’alma abri minhas cortinas
e retoquei a tatuagem
feita nas minhas retinas!
–MANOEL CAVALCANTE/RN–

Uma Trova Premiada

1985 – Porto Alegre/RS
Tema – CORAGEM – 2º Lugar

Teus olhos trazem mensagem
de luz, amor e carinho…
São dois fachos de coragem
brilhando no meu caminho.
–DORALICE G. DA ROSA /RS–

…E Suas Trovas Ficaram

É pelos olhos das fontes
que a floresta, ameaçada,
chora ao ver nos horizontes
as chamas de uma queimada…
–ORLANDO BRITO/MA–

U m a P o e s i a

Seus olhos da cor de mel
para mim, não são estranhos,
alguém pintou, lá no céu
seus lindos olhos castanhos,
que numa imagem tão pura
mostra um olhar de ternura
e quando olhas para os meus;
eu me perco nos abrolhos,
pois nunca vi outros olhos
mais bonitos que os seus!
–ADEMAR MACEDO/RN–

Soneto do Dia

Revelação.
–JOSÉ ANTONIO JACOB/MG–

Nada sabeis de mim e sabeis nada
Porque venho regresso de outra lida.
Nada me perguntastes na chegada
E nada vos direi na despedida.

Se eu cheguei de uma alegre caminhada
- Ou se deixei tristeza na partida –
Pode ser que ao final dessa jornada
Nada ainda sabereis da minha vida.

Não entendeis do céu que nos assiste?
Trago nos olhos grandes o olhar triste,
Tais quais olhos da noite arregalados.

Espiai essas estrelas tão banais:
Tantos mundos distantes revelados,
Mas que aos olhos dos homens são iguais!

Eça de Queirós (O Mandarim)

Em 1880, apenas dois anos depois de O Primo Basílio, Eça de Queirós publica O Mandarim, uma novela fantástica, em cujo enredo tem participação decisiva uma figura declaradamente romântica: o Diabo.

Acusado de afastar-se da estética realista em favor da pura fantasia, Eça de Queirós e seu texto foram alvos das mais severas críticas, e até mesmo aqueles que conseguiram perceber na obra uma crítica sócio-política, esbarraram nos demais “problemas” que o texto apresentava.

O Mandarim é um texto à parte no conjunto da obra queirosiana devido ao seu caráter fantasista e cômico, e que, exatamente em decorrência dessa característica, é considerado um texto “menor”, inferior, quando comparado às demais obras do escritor português.

Numa carta ao editor da Revue Universelle, que serviu de prefácio à publicação francesa da novela, Eça se mostrava bem consciente da singularidade do livro face à tendência estética dominante: “tendes aqui, meu Senhor, uma obra bem modesta e que se afasta consideravelmente da corrente moderna da nossa literatura, que se tornou, nestes últimos anos, analista e experimental”. Isso porque O Mandarim era “um conto fantasista e fantástico, onde se vê ainda, como nos bons velhos tempos, aparecer o diabo, embora vestindo sobrecasaca, e onde há ainda fantasmas, embora com ótimas intenções psicológicas”. A percepção do escritor é claríssima: apesar da atualização do ambiente da trama, o enredo fabuloso, o gosto pronunciado do exotismo, a ausência de interesse nos vários condicionalismos que determinam a ação dos indivíduos e a intervenção do sobrenatural configuram um narrativo de molde romântico, ou neo-romântico.

Nessa mesma carta, prosseguia Eça de Queirós com uma frase que vale a pena transcrever: “entretanto, justamente porque esta obra pertence ao sonho e não à realidade, porque ela é inventada e não fruto da observação, ela caracteriza fielmente, ao que me parece, a tendência mais natural, mais espontânea do espírito português.” Pode ser que a frase se aplique também ao espírito português, mas o que realmente importa é observar que se aplica perfeitamente ao espírito do próprio Eça, que, a partir de O Mandarim, abandona progressivamente os caminhos do Naturalismo e retoma algumas características que já se encontravam nos seus primeiros textos: o gosto pelo exotismo das paisagens e civilizações e o pendor alegórico e moralizante. São essas características, centrais no texto de O Mandarim, que no final da vida de Eça de Queirós irão dar origem às impressionantes vidas de santos e histórias de mistério.

Do ponto de vista da evolução literária de Eça de Queirós, O Mandarim representa, portanto, um momento de virada: aquele em que o escritor abandona a “preocupação naturalista”, que, segundo o próprio Eça, embora tivesse servido para lhe disciplinar o espírito, também “o condenara a reprimir, muitas vezes sem vantagem, os seus ímpetos de verdadeiro romântico que no fundo era”.

O Mandarim é antes um conto que uma novela, pois sua trama se concentra à volta de uma só personagem e a ação se reduz a um único acontecimento central, que implica todos os desenvolvimentos posteriores. O registro genérico é o da farsa moralizante, e o ponto de partida é um problema moral que era conhecido, no século passado, como o “paradoxo do mandarim”. Formulado em 1802 por Chateaubriand, consistia numa pergunta: se você pudesse, com um simples desejo, matar um homem na China e herdar sua fortuna na Europa, com a convicção sobrenatural que nunca ninguém descobriria, você formularia esse desejo? Vários autores glosaram esse tema ao longo do século passado, e o texto de Eça é talvez o seu último e mais literal desenvolvimento.

Do ponto de vista da crítica moral, lendo O Mandarim percebe-se que há duas linhas independentes de desenvolvimento. A primeira é a mais simples. Mostrando-nos que todos o tratam de acordo com o dinheiro que possui, Teodoro nos vai apontar a hipocrisia que domina as relações pessoais e sociais. A segunda é a mais complexa, porque envolve a auto-representação do narrador. A idéia geral é a de que o crime não compensa, independentemente de qualquer outra consideração. Como ilustração desse princípio é que Teodoro narra aos seus leitores o seu caso exemplar: ao longo do tempo, após o crime que lhe propicia a riqueza, foi-se tornando infeliz, a tal ponto que o retorno à vida rotineira e medíocre de hóspede pobre da pensão de d. Augusta chega a parecer-lhe uma forma de conseguir alguma paz de espírito.

A novidade do texto de Eça é a viagem à China. No seu texto, a China não é apenas o lugar abstrato, incógnito e remoto, onde vive um homem desconhecido cuja vida é destruída por um ocidental. Pelo contrário, ganha concretude e responde por cerca de metade do número de páginas da história. Da mesma forma que o Médio-Oriente em A Relíquia, a China é praticamente tudo em O Mandarim. Mas a diferença é que, enquanto em A Relíquia, Eça descreve um ambiente e civilização que observara pessoalmente, em O Mandarim nos apresenta um lugar construído a partir de relatos de terceiros, de leituras e, principalmente, pela livre imaginação. Daí, justamente, o interesse da viagem de Teodoro, que nos conduz a uma China colorida, bastante bizarra, em que encontramos uma espécie de súmula da visão européia do que fosse o Extremo-Oriente.

A parte mais atraente de O Mandarim é a viagem chinesa. O resto do conto tem um sabor conhecido e um registro genérico em que o desfecho é bastante previsível. Assim, é mesmo a fantástica viagem ao Império do Meio o que constitui o núcleo do texto e o mantém vivo e interessante. É também a viagem que singulariza esse texto na literatura portuguesa do final do século, fazendo dele um delicioso capítulo na história do exotismo orientalista que percorreu toda a cultura européia da segunda metade do século passado.

Teodoro, o protagonista, é a personagem que mais propicia a crítica da sociedade portuguesa tão limitada, que facilmente se deixa levar pelas aparências.

Eça faz também, uma crítica aguçada ao egoísmo potencialmente criminoso (personificado por Teodoro) que mata o Mandarim para poder alcançar a vida luxuosa com que sempre sonhara.

Critica também a tibieza, a bulia e a inconsistência na tomada de decisões.

Teodoro, como funcionário público, é também criticado. Representa os cargos mais baixos, que vivem mediocremente sonhando com mais dinheiro, com baixos valores morais, capaz de matar o próximo para proveito seu.

A descrição, seja das características físicas dos personagens e do cenário por onde passa a história servem para analisar a psicologia dos atores da ficção. Eça entende que a maneira de ser e de pensar influi no mundo que a cerca, seja nos atos, nas coisas e nas próprias características físicas, como por exemplo, a corcova de Teodoro, na sua condição de subalterno sem status.

Foco narrativo

O Mandarim é a primeira obra relativamente extensa do autor, escrita em primeira pessoa.

Essa observação pode reforçar o argumento de que o conto representa um momento de rejeição do modelo naturalista, que propunha a narrativa em terceira pessoa, mais adequada à análise objetiva.

Personagens

É magnífica a magistral caracterização das personagens feita nesta obra. O autor manobra, de tal modo, as suas personagens que, chegamos a pensar que elas não passam de meros fantoches manobrados a capricho do seu criador.

Como em toda a obra queirosiana, a caracterização das personagens enquadra-se na filosofia de vida da sociedade portuguesa, deixando transparecer através da linguagem utilizada na descrição de ambientes, em pequenos pormenores habilmente selecionados e passando pela ação, a intenção de caricaturar numa personagem toda uma classe social.

Teodoro: Protagonista do romance, bacharel amanuense do reino, ganhava 20.000 réis por mês e vivia numa casa de hóspedes, na Travessa da Conceição, nº 106, em Lisboa. Levava uma vida pacata e monótona. Era magro e corcovado – hábito seu, pelo muito que se vergara perante os lentes da Universidade e os diretores da repartição. A sua ambição reduzia-se a desejos fúteis de bons jantares, em restaurantes caros, de conhecer viscondessas belas etc. Considera-se um “positivo”. É um descrente, mas é supersticioso, pois reza todos os dias à Nossa Senhora das Dores. Enfim, é um representante típico do burguês nacional, medíocre e frustrado de baixos valores morais.

D. Augusta: É uma personagem secundária na obra. Dona da casa de hóspedes na Travessa da Conceição, em Lisboa, onde vivia Teodoro. Era viúva do Major Marques. Em dias de missa costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro.

Ti Chin-Fu: o mandarim assassinado por Teodoro. Embora não faça nenhuma ação no conto, nenhuma fala, é de importância fundamental na obra. Representa a vítima perfeita: é distante do seu algoz (ele não conhece Teodoro, bem como vive em uma cultura antípoda à do bacharel) é enormemente rico e sua morte é extremamente vantajosa para o assassino. Malgrado tudo isso, a sua inocência perante o mal gratuito que sofreu, para o qual não contribuiu em nada, trouxe angústia e desencanto a Teodoro, deixou a vida do ex-bacharel em ruínas.

O Diabo: o Diabo veste aqui roupas da época descrita, querendo mostrar que o mal, na verdade, está bastante próximo do homem, até se confunde com ele mesmo. O Diabo é feito à imagem e semelhança do homem. O homem e o Diabo identificam-se, até mesmo para que as suas incitações tenham maior força. A obra mostra que o poder do Diabo só funciona em combinação com o lado negro do homem.

Vladimira (generala): mulher do general Camilloff, e amante de Teodoro por um breve período. Alta, magra, delicada, é uma representação de um tema caro ao realismo: o adultério, como forma de revelar ao leitor a hipocrisia e a traição humana.

General Camilloff: é representante do Império na China. Durante a ida de Teodoro à China, tornaram-se amigos. A sua lealdade para Teodoro era sincera, e até mesmo Teodoro via nele um homem de bem, embora não pudesse evitar traí-lo com um triângulo amoroso com a esposa do General, Vladimira. Representa aqui mais um falhanço moral de Teodoro ao ir para a China.

Sá-Tó: intérprete de Teodoro durante a viagem na China.

Enredo

O narrador desta novela é Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino. Mora em Lisboa, vive modestamente na pensão de D. Augusta, na Travessa da Conceição, mas não sofria privações (“A minha existência era equilibrada e suave… Ainda assim, eu não me considerava um ‘paria’. A vida humilde tem suas doçuras”). Porém, considerava sua vida “rotineira e triste”, pois seus sonhos de luxo estavam longe do seu bolso. Levando uma vida monótona e medíocre de um pobre funcionário público, suspira por uma ventura amorosa, por um bom jantar, num bom hotel.

Certa noite, em seu quarto, lendo, em um livro antigo, um capítulo intitulado “Brecha das Almas”, o personagem-narrador se depara com estas linhas:

No fundo da China existe um Mandarim mais rico de que todos os reis de que a Fábula ou a História contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste.
Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição dum avaro.
Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?”

Surpreso e perturbado diante daquela interrogação e daquele “sombrio infólio que parecia exalar magia”, a personagem começa a ter alucinações: as letras e sinais gráficos se transformam em “rabos de diabinhos” e “ganchos com que o Tentador vai fisgando as almas”. Durante o delírio, tem duas visões: na primeira, um “Mandarim decrépito” deixa a vida a um simples tilintar de campainha; na outra, ele, Teodoro, vê “uma montanha de ouro” a seus pés.

Nesse momento, o amanuense avista a campainha fatal diante de si, pousada sobre um dicionário francês, e ouve uma voz dizendo-lhe para tocá-la. Ao voltar-se para a voz, vê, sentado, um indivíduo vestido de negro. A primeira idéia, é a de que teria, diante de si, o diabo; porém, as vestes e feições de homem comum que tal personagem apresenta fazem com que esta impressão desapareça.

As duas personagens travam, então, um diálogo, e o estranho indivíduo expõe a Teodoro os motivos pelos quais este deveria tocar a campainha. Seduzido pelas palavras do inusitado visitante, que lhe acena com as possibilidades de uma vida de privilégios, o amanuense acaba por tocá-la. Concretizado o ato, a estranha personagem informa ao seu interlocutor que o Mandarim havia expirado, e, levando-se da poltrona, retira-se.

Logo em seguida, Teodoro ouve bater uma porta e, num sobressalto, sente-se como emergido de um pesadelo. Caminha até o corredor, ouve uma voz e vê a cancela da escada se fechar. Pergunta, então, à D. Augusta quem havia saído, ao que ela responde ter sido um de seus hóspedes.

Voltando ao seu quarto, Teodoro nota que tudo está tranqüilo, como se nada tivesse acontecido. Retoma o seu livro, que agora lê sem sobressaltos, como um livro qualquer, e acaba por adormecer.

Decorrido um mês após o estranho episódio, o amanuense pensa que tudo não passara de um sonho, e, aos poucos, vai esquecendo o ocorrido, até que, numa determinada manhã, recebe a notícia de que herdara os milhões do Mandarim Ti-Chin-Fú. Assim, começa a vida de milionário de Teodoro, que passa a ter tudo que sempre almejou: dinheiro, posição social, prestígio, mulheres…

Desfrutando de todos os prazeres que o dinheiro pode oferecer, o amanuense deixa seu antigo emprego na repartição, seu quarto na pensão de D. Augusta, e vai morar num luxuoso palacete, sendo admirado e respeitado pela sociedade lisboeta, que se roja a seus pés.

Porém, pouco tempo depois, começa a perceber o quão vil é o ser humano, pois compreende que toda a consideração e respeito que a sociedade lhe devota provém, única e exclusivamente, do interesse pelo dinheiro que possui. Sua indignação aumenta, e seu desprezo por essa sociedade hipócrita e bajuladora fica patente. Da plebe à burguesia, do Estado à Igreja, tudo enoja Teodoro.

Apesar de milionário, o ex-amanuense não é feliz, pois passa a ter, constantemente, visões do fantasma do Mandarim assassinado: é a sua consciência, que começa a lhe cobrar pelo ato indigno. Então, para acalmá-la e aplacar a fúria de Ti-Chin-Fú, decide partir para uma viagem à China. Sua intenção: descobrir a família do Mandarim e casar-se com uma mulher dessa família para, desse modo, “legitimar” a sua herança.

Na China, nos são apresentadas as aventuras e peripécias de Teodoro, sempre em tom cômico, irônico ou mordaz. Nesta parte, que ocupa quatro dos oito capítulos de que a obra se compõe, Eça de Queirós segue lançando a sua crítica ferina sobre problemas como a corrupção existente na esfera política de um país, o contraste entre a atual decadência de Portugal e o seu passado de glórias, o oportunismo do homem que busca tirar proveito próprio de todo tipo de situação, e toda uma sorte de mazelas humanas como a ganância, a cobiça e o adultério.

Entretanto, o protagonista não consegue o seu intento nessa sua viagem, e, então, retorna a Lisboa.

Incessantemente perseguido pela figura do fantasma do Mandarim, Teodoro resolve “livrar-se” de sua fortuna. Assim, volta a viver no seu antigo quarto, na pensão de D. Augusta, aparentando pobreza, e retoma o seu ofício de amanuense. Porém, nem dessa forma consegue afastar de si a imagem de Ti-Chin-Fú, pois, na realidade, ainda possuía os milhões do velho Mandarim em sua conta bancária. Entretanto, vendo-o pobre, toda a sociedade lisboeta, que o bajulara, volta-se contra ele, aviltando-o e insultando-o. Dessa forma, irritado, decide voltar a viver em seu palacete, como um milionário, e, novamente, Lisboa se roja a seus pés.

Atormentado e desiludido, o ex-amanuense encontra, certa noite, na rua, “o senhor diabo”: aquele mesmo ser que lhe fizera a proposta no quarto da pensão de D. Augusta. Desesperado, pede a ele que ressuscite o Mandarim e lhe devolva os milhões, e que restitua a paz de sua consciência. A tal pedido, a única resposta que obtém é que isso é impossível.

E assim continua vivendo Teodoro, até os fins dos seus dias. Quando se sente perto de morrer, faz um testamento no qual doa toda sua herança ao Diabo (pertence-lhe, ele que as reclame e que as reparta…”).

Encerrando a sua narrativa, Teodoro nos deixa, arrependido e amargurado, o seguinte ensinamento moral:

E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: “Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!”

E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéia: que do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartária até as ondas do Mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!

Fonte:
Passeiweb

Paulo Vinheiro (Certamente)

Certamente te esperava, como uma folha no rio
Como quem abraçava o vento e beijava a brisa
Imóvel como podia, te esperava

Acendia em meus olhos a calma de quem ama
Lia nas nuvens a mensagem só tua
De mãos dadas eu e tu esperávamos as estrelas…
Agora já estás aqui como se sempre estivesses

As asas de menos cores se aproximam
Mostram os rasgos do céu na noite…
Dourando os meus olhos de novo

A calma do rio
O frio da noite
O calor de tua mão
As coisas não se cabem

Dias curtos
Noites curtas
Uma palma na palma
Umas asas na alma

Assim, como que com música
A gente se vê a dançar
Vejo e fluo… assim… assim

Sem vento e sem brisa
Sem folha, sem rio
Meus olhos nas nuvens tuas
Estrelas nas mãos e asas douradas
Qual mais?

Descubro que o tempo não existe
O espaço é só um lugar impreciso
E nós tão pequeninos
Um nos fizemos

Fonte:
Texto enviado pelo autor

Autran Dourado (O Pintassilgo)


Era uma vez um pintassilgo amantíssimo, capaz de dar a vida pelos seus filhotes. Um dia, trazendo no bico uma minhoca para eles, não os encontrou. Caindo no maior desespero, saiu a procurá-los pela floresta; os ninhos que ele encontrava estavam vazios. Vendo-o tão desesperado, disse um pardal que não adiantava procurá-los, pois os vira numa gaiola na janela da casa do proprietário da floresta.

Cheio de esperança, o pintassilgo voou para lá. Viu logo, numa gaiola dourada, os seus filhotes presos. Começou a bater o peito, o bico e a cabeça na grade da gaiola. Inutilmente, porque o arame da gaiola era muito grosso. Voltou para a floresta.

No dia seguinte estava de volta, trazendo no bico uma erva. A erva era venenosa e os filhotes morreram.

Moral da história: antes morrer do que ficar preso. Foi o que disse o pintassilgo.

O pintassilgo de Leonardo da Vinci

Na fábula do pintassilgo, o artista e cientista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) constrói uma alegoria da liberdade como bem supremo da existência, impregnada, pois, dos valores renascentistas. “Antes a morte”, disse o pintassilgo, “do que perder a liberdade”, anotou o pintor da “Monalisa”. Cenários desse tipo eram improvisados por Leonardo com frequência, dependendo do local ou do público a que se destinavam.

Fonte:
FÁBULAS modernas: velhas fábulas por novos autores. Folha de S. Paulo, 2002. Caderno +.

J. G. de Araújo Jorge (A Cantiga Do Só) A Suprema Revelação

Ponho a mão, de leve, sobre o teu ventre,
tenso, em sua túmida rijeza,
e, de repente,
sou o primeiro homem
diante do desconhecido e da beleza.

(Eu orgulhoso da ciência e do saber humanos)
- sou o homem primitivo
ignorante de tudo, temeroso de tudo
- que nada explica, nada descerra -
que se deslumbra ante a mensagem dos céus,
e, trêmulo, se amedronta ante os mistérios da terra!)

Ponho a mão sobre o teu ventre
abaulado,
onde palpita uma força indefinida,
como se sentisse na própria mão,
indecifrado,
o segredo da Vida!

Parece que Deus se utiliza de teu corpo
para revelar-se
em seu poder e em sua essência
e para mostrar a distância infinita entre a pretensiosa
vaidade do saber humano,
e a sua Onisciência!

Sim. É como se Deus se comunicasse comigo
nesses estranhos sinais que sinto em minha mão…
E perturbado e incrédulo, me interrogo, sem perceber
a razão
por que haveria Ele de permitir que eu e tu
partilhássemos dos mistérios
da Criação?

Ponho a mão, de leve, sobre teu ventre,
e entre deslumbrado e atônito
perturbado e intranqüilo,
fico a pensar que Deus serviu-se de ti, para que eu
- materialista e ateu -
pudesse senti-lo,
e – poeta – pudesse “vê-lo”,
e humildemente, homem,
pudesse reconhecê-lo!

Fonte:
JORGE, J.G. de Araújo. Cantiga do Só. 2. ed. 1968.

Mia Couto (A Avezinha da Lua)


(- primeira estória para a Rita- )

Minha filha tem um adormecer custoso. Ninguém sabe os medos que o sono acorda nela. Cada noite sou chamado a pai e invento-lhe um embalo. Desse encargo me saio sempre mal. Já vou pontuando fim na história quando ela me pede mais:

- E depois?-

O que Rita quer é que o mundo inteiro seja adormecido. E ela sempre argumenta um sonho de encontro ao sono: quer ser lua. A menina quer luarejar e, os dois, faz contarmo-nos assim, eu terra, ela lua. As tradições moçambicanas ainda lhe aumentam o namoro lunar. A menina ouve, em plena verdade da rua: “- olha os cornos da lua estão para baixo: vai cair a chuva que a lua guarda na barriga- “.

Me deu, um destes dias, a ideia de lhe contar uma estorinha para fazer pousar o sonho dela. E desencorajar seus infindáveis “e depois”. Lhe inventei a estória que agora vos conto.

Era uma avezinha que sonhava em seu poleirinho. Olhava o luar e fazia subir fantasias pelo céu. Seu sonho se expandia:

- Hei-de pousar lá, na lua- .

Os outros lhe chamavam à térrea realidade. Mas o passarinho devaneava, insistente: vou subir lá, mais acima que os firmamentos. Seus colegas de galho se riram: aquilo não passava de meninice. Todos sabiam: não havia voo que bastasse para vencer aquela distancia. Mas o passarinho sonhador não se compadecia. Ele queria enluarar-se. Pelo que o tudo ficava nada.

Certa noite, de lua inteira, ele se lançou nos céus, cheio de sonho. E voou, voou, voou. Perdeu conta do tempo. Em certo momento ele não sabia se subia, se tombava. Seus sentidos se enrolaram uns nos outros. Desmaiou? Ou sonhou que sonhava? Certo é que seu corpo foi sacudido pelo embute de um outro corpo.

E pousou naquela terra da lua, imensa savana pétrea. A ave contemplou aquela extensão de luz e ficou esperando a noite para adormecer. Mas noite nenhuma chegou. Na lua não faz dia nem noite. É sempre luz. E o pássaro cansado de sua vigília quis voltar à terra. Bateu as asas mas não viu seu corpo se suspender. As asas se tinham convertido em luar. Com o bico desalisou as penas. Mas penas já nem eram: agora, simples reflexos, rebrilhos de um sol coado. O pássaro lançou seu grito, esses que deflagrava antes de se erguer nos céus. Mas sua voz ficou na intenção. A ave estava emudecida. Porque na lua o céu é quase pouco. E sem céu não existe canto.

Triste, ela chorou. Mas as lágrimas não escorreram. Ficaram pedrinhas na beirada da pálpebra, cristais de prata. A avezinha estava cativa da lua, aprisionada em seu próprio sonho. Foi então que ela escutou uma voz feita de ecos. Era a própria carne da lua falando:

- Eu sonhei que tu vinhas cantar-me.

- E porquê me sonhaste?

- Porque aqui não há voz vivente.

- Eu também sonhei que haveria de pousar em ti.

- Eu sei. Agora vais cantar em luar. Eu sonhei assim e nenhum sonho é mais forte que o meu- .

É assim que ainda hoje se vê, lá na prata da lua, a pupila estrelinhada do passarinho sonhador. E nenhuma criatura, a não ser a noite, escuta o canto da avezinha enluarada. Sobre as primeiras folhas da madrugada, tombam gotas de cacimbo. São lagriminhas do pássaro que sonhou pousar na lua.

- E depois, pai?-

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

Laé de Souza (Escolas Estaduais de Sorocaba Participam de Projeto de Leitura)

Cerca de cinco mil estudantes de 32 escolas estaduais de Sorocaba estarão a partir deste mês envolvidos em um projeto de incentivo à leitura.

O projeto “Ler é Bom, Experimente!”, desenvolvido em todo o país, teve em 2011 a participação de oito escolas de Sorocaba e com o resultado obtido, em parceria com Secretaria de Estado da Educação – Diretoria de Ensino da Região de Sorocaba, o Grupo Projetos de Leitura abriu um número maior de vagas para escolas do município.

O projeto, desenvolvido há mais de doze anos pelo Grupo Projetos de Leitura, com aprovação do Ministério da Cultura e patrocínio do GRUPO SEGURADOR BANCO DO BRASIL E MAPFRE, tem como objetivo incentivar o hábito da leitura oferecendo livros e demais materiais didáticos, gratuitamente, às escolas públicas. Dirigidos a estudantes a partir do 2º ano até o ensino médio, a mecânica do trabalho envolve a leitura de livros do escritor Laé de Souza, que neste ano será com as obras “Radar, o cãozinho” (português/inglês), “Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial” e “Acredite se quiser!” (impresso em braille), discussão dos temas propostos nas obras, criação de textos e adaptação para teatro, exercícios infantis e outras atividades. A escola participante receberá um lote de 152 livros, além de material de apoio como folhas pautadas para redação e ainda uma cartilha pedagógica para auxiliar o professor a executar as atividades dentro da sala de aula.

Após a leitura e o desenvolvimento das atividades sugeridas, monitoradas pelos professores, os alunos respondem um questionário sobre a obra e elaboram textos baseados nas crônicas ou nos personagens. Serão premiados, por classe, com outra obra de Laé de Souza, três autores dos melhores trabalhos.

Os alunos participantes concorrem também à seleção do seu texto para participar de uma coletânea intitulada “As melhores crônicas dos projetos de leitura” que será lançada na Bienal Internacional do Livro de São Paulo em agosto de 2012.

Para o coordenador do trabalho, o escritor Laé de Souza, a ideia é atrair todos os estudantes para uma participação ativa em um movimento literário na sua própria escola. “A disseminação da leitura na sala de aula, se bem orientada, poderá criar novos cidadãos apaixonados pela leitura e com vontade própria de ler. Nosso trabalho é desenvolvido para que os jovens se tornem adultos atraídos pelos encantos e aprendizado que a leitura de livros pode proporcionar. O professor é nosso parceiro e assume conosco a empreitada de fazer o aluno descobrir o prazer da leitura. Torço para termos alunos de Sorocaba na nova coletânea de textos de estudantes”, diz.

“As nossas expectativas em relação ao projeto “Ler é Bom, Experimente!” são as melhores possíveis, pois um dos principais objetivos do trabalho das escolas da rede estadual de ensino é desenvolver a competência leitora e escritora nos alunos de todos os segmentos, da alfabetização ao ensino médio, em todas as disciplinas. Sendo assim, a participação de 32 escolas da nossa Diretoria é uma grande oportunidade para trabalharmos a produção textual, debatermos os temas propostos pelos livros ou, simplesmente, estimularmos o prazer pela leitura. Estão de parabéns todos os que idealizaram e põem em prática este Projeto”, manifesta-se o Professor José Roberto Machado Júnior, Coordenador de Língua Portuguesa da Diretoria de Ensino da Região de Sorocaba.

Fonte:
E-mail enviado por Laé de Souza

VIII Concurso de Trovas da Academia Mageense de Letras (Prazo 2 de Julho)

Informações:
a) Concurso de trovas
b) Apenas uma trova, inédita, por concorrente
c) Categorias trovas líricas/filosóficas e trovas humorísticas

Premiação:
I) Diplomas aos 10 classificados em cada categoria

Prazo: 2 de Julho de 2012

Organização:
Academia Mageense de Letras – Magé/RJ

Regulamento:

A Academia Mageense de Letras, no decurso de seu XXIV Aniversário de Fundação, promoverá o presente VIII Concurso de Trovas, na forma do Regulamento a seguir:

Art. 1.º O certame, de âmbito nacional, compreenderá duas categorias, com os seguintes temas: “Morena” (Lírico/Filosófico) e “Livro” (Humorístico).

Art. 2.º Cada poeta poderá participar com apenas 01 (uma) única trova inédita, a ser enviada até 02 de julho de 2012, valendo a data da postagem.

Parágrafo único. Considera-se trova a composição em quatro versos, em redondilha maior, rimando o 1.º com o 3.º e o 2.º com o 4.º versos, com rimas perfeitas, formando sentido completo e sem título.

Art. 3.º A trova a ser enviada, pelo sistema de envelopes, deverá ser remetida para o endereço: Caixa Postal 93.717, Magé, RJ, 25.900-000. No remetente escrever Luiz Otávio, repetindo o endereço do destinatário.

Art. 4.º A premiação ocorrerá na festa de aniversário de academia, dia 26 de agosto de 2012, em local e horário a serem confirmados.

Art. 5.º Serão conferidos diplomas aos dez primeiros classificados, em cada categoria.

Art. 6.º Fica vedada a participação dos acadêmicos e de seus familiares no certame.

Art. 7.º A comissão julgadora será composta por 03 (três) acadêmicos, convidados pela organização do certame, cuja decisão será irrecorrível.

Art. 8.º Qualquer eventualidade será decidida de forma irrecorrível pela organização do Concurso.

Fonte:
Http://concursos-literarios.blogspot.com

2º Concurso de Microcontos de Humor de Piracicaba 2012 (Prazo 28 de Maio)

Informações:
a) Concurso de microcontos humorísticos (até 140 caracteres)
b) Apenas 1 microconto por concorrente
c) Inscrição por e-mail

Premiação:

I) 1º lugar – R$ 800,00; 2º lugar – R$ 500,00; e 3º lugar – R$300,00 II) Os 100 melhores trabalhos farão parte de uma publicação

Prazo: 28 de Maio de 2012

Organização:
Prefeitura do Município de Piracicaba através da Secretaria Municipal da Ação Cultural/Centro Nacional de Humor Gráfico de Piracicaba e a Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” – Telefones: (19) 3403-2620 / 3403-2623 / 3403-2624 / 3403-2615

Regulamento:

1 – Tema:

A Prefeitura do Município de Piracicaba através da Secretaria Municipal da Ação Cultural/Centro Nacional de Humor Gráfico de Piracicaba e a Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto” estabelecem as normas para a participação no 2º CONCURSO DE MICROCONTOS DE HUMOR DE PIRACICABA que fará parte da programação do 39º Salão Internacional de Humor de Piracicaba/2012. Conforme Lei Municipal nº 7064 de 06 de julho de 2011.

Os participantes deverão escrever um microconto em português, com até 140 caracteres, incluindo o título. Itens como pontuação e espaçamento também são contados como caracter. O microconto deverá ser enviado no formato: .doc (word 97/2000/2003).

Além da premiação, terá seu trabalho divulgado no:

1 – site do Salão Internacional Humor:
http://www.salaodehumor.piracicaba.sp.gov.br

2 – blog do programa radiofônico “Educativa nas letras”:
http://www.educativanas letras.blogspot.com.br

3 – blog da Biblioteca Municipal de Piracicaba:
http:// biblioteca.piracicaba.sp.gov.br

4 – Twitter:
http://www.twitter.com/microcontospira

2 – Categorias:

Todas as faixas etárias podem participar do concurso, exceto a comissão organizadora e a comissão julgadora.

3 – Participação:

3.1 – O microconto deverá ser enviado para o e-mail: microntos@piracicaba.sp.gov.br

3.2 – Cada participante poderá enviar somente um microconto;

3.3 – O microconto deve apresentar teor humorístico e o tema é livre;

3.4 – O microconto deverá ser enviado por e-mail em arquivo anexo nominado com o título do microconto, contendo também a ficha de inscrição com a identificação, constando de título, nome e endereço completos e telefone. Preencher a ficha de inscrição disponível na internet nos endereços:
• http://biblioteca.piracicaba.sp.gov.br
• http://salaodehumor.piracicaba.sp.gov.br

3.5 – Os vencedores do concurso declaram, desde já, serem de suas autorias os microcontos encaminhados ao concurso ao mesmo tempo que cedem e transferem à Biblioteca Publica Municipal, sem quaisquer ônus para esta em caráter definitivo, plena e totalmente, todos os direitos autorais sobre os referidos microcontos, para qualquer tipo de utilização, publicação ou reprodução na divulgação do resultado.

4- Prazos:

Envio dos microcontos : de 16 de abril até 28 de maio de 2012

Data do resultado: 06 de julho de 2012

Premiação: 25 de agosto de 2012 às 16 horas no Anfiteatro da Biblioteca Municipal

5 – Comissões:

O 2º Concurso de Microcontos de Humor contará com duas comissões:

1 – Comissão de Organização: contará com representantes do Centro Nacional de Humor Gráfico de Piracicaba, Presidente do 39º Salão Internacional do Humor, da Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba e a (o) Secretária (o) Municipal da Ação Cultural que tem a função de organização do Concurso, da indicação dos membros da Comissão de Seleção e Premiação e da organização da solenidade de premiação .

2 – A Comissão de Seleção e Premiação se encarregará de selecionar os 100 melhores microcontos de humor para fazer parte de uma publicação e destes 100, deverá escolher os 3 melhores trabalhos classificando-os em 1º, 2º e 3º lugar para uma premiação especial.

A decisão desta comissão será soberana e irrecorrível.

A Comissão de Seleção e Premiação será formada por 3 jurados de reconhecida capacidade , atuantes na área como: escritores, humoristas e jornalistas.

6 – Premiação:

1º lugar – R$ 800,00 (oitocentos reais); 2º lugar – R$ 500,00 (quinhentos reais) e 3º lugar – R$300,00 (trezentos reais).

7 – Disposições Finais:

7.1 – Serão automaticamente desclassificados os trabalhos encaminhados fora do prazo estipulado e/ou não estiverem dentro das normas estabelecidas neste regulamento;

7.2- Os trabalhos pornográficos serão sumariamente excluídos;

7.3 – A participação neste concurso cultural implica na aceitação irrestrita deste regulamento;

7.4 – O participante autoriza, desde já, a utilização de seu nome e imagem para fins de divulgação/promoção do concurso literário.

Fontes:
https://docs.google.com/file/d/0B1aQPxR3vjHgQmlwMTZDWXFTR2lUWE1PUTdiMmdRQQ/edit
Http://concursos-literarios.blogspot.com

Concurso Literário ‘Valeu, Professor’ 2012 (Prazo 11 de Maio)

Informações:

a) Concurso de contos, poesias e ilustrações
b) Exclusivo para os Professores e Especialistas ativos ou aposentados da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo
c) Os trabalhos estão subordinados ao tema “sem remetente.com”
d) Os trabalhos selecionados em cada categoria serão publicados

Prazo: 11 de Maio de 2012

Organização:
Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo

Regulamento:

I. DO CONCURSO

O Concurso Literário será promovido pela SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO da cidade de São Paulo (Realizador) em parceria com outras instituições.

O Concurso integra as atividades anuais do Valeu, Professor, que será realizado em setembro de 2012 e está direcionado aos Professores e Especialistas ativos ou aposentados da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

O tema escolhido em 2012 é sem remetente.com.

II. DAS CATEGORIAS

O Concurso compreende três categorias, a saber:

- Conto: narrativa curta, com número reduzido de personagens, apresentando uma ou poucas ações e que tem sua origem na cultura oral.

- Poesia: composição poética em versos.

- Ilustração: imagem ou figura de qualquer natureza que acompanha, explica, interpreta, acrescenta informação, sintetiza ou elucida o texto do livro.

III. DA PARTICIPAÇÃO

Cada educador poderá concorrer com até um trabalho em cada categoria. O texto deverá ser digitado em papel tamanho A4, num lado só, em espaço duplo, fonte arial corpo 12, sendo que:

a) O conto deverá ter no mínimo duas e no máximo cinco laudas.

b) A poesia deverá conter entre uma e duas laudas. Uma lauda corresponde a aproximadamente 20 linhas escritas de 70 toques ou 1.400 caracteres.

c) A ilustração poderá ser colorida ou PB, em papel A4, na posição vertical.

Tanto os textos como a ilustração devem ser inéditos, ou seja, nunca publicados em qualquer meio de comunicação.

IV. DAS INSCRIÇÕES

Todos os participantes interessados deverão, no período entre 16/04/2012 a 11/05/2012, fazer sua inscrição preenchendo completamente a ficha que será disponibilizada no Portal da Educação de São Paulo – http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br.

Os participantes poderão se inscrever em mais de uma categoria e, para isso, deverão preencher uma ficha de inscriçãopara cada trabalho apresentado.

V. DO ENVIO DOS TRABALHOS

Os trabalhos, assinados apenas com o pseudônimo do autor, deverão ser enviados pelo Correio por meio de carta registrada ou entregues pessoalmente na Biblioteca Pedagógica Profª Alaíde Bueno Rodrigues, sito à Rua Dr. Diogo de Faria, 1247 – sala 115, Vila Clementino, CEP 04037-004 – São Paulo/SP, de 2ª a 6ª feira, das 8h às 18h, no período de 16/04/2012 a 11/05/2012.

Os trabalhos entregues após 11/05/2012 não serão considerados para efeito do concurso, e, assim como os demais, não serão devolvidos. Para tanto, será considerada a data da postagem (Correio).

O participante deverá entregar uma cópia impressa do conto e/ou da poesia, num envelope. Dentro deste deverá conter outro envelope fechado com a ficha de inscrição preenchida e assinada. Este segundo envelope, acomodado dentro do primeiro, deve estar identificado apenas com o pseudônimo. Todas as folhas do texto deverão estar rubricadas e identificadas com o pseudônimo do autor. Para a ilustração, o original deverá ser enviado com a identificação escrita no verso, incluindo a técnica utilizada.

Somente serão aceitos os trabalhos inscritos pelos participantes que obedecerem aos pré-requisitos descritos neste Regulamento e estes serão submetidos à seleção de uma Comissão Julgadora.

VI. DA COMISSÃO JULGADORA

A SME constituirá Comissão Julgadora, composta por representantes da Secretaria Municipal de Educação, por especialistas na área técnica gráfica e editorial, indicados por instituições parceiras, para selecionar os trabalhos inscritos em cada modalidade. Os integrantes da Comissão serão apresentados mediante publicação no DOC.

Serão critérios de avaliação: a presença de aspectos próprios da categoria textual, aspectos gerais de gramática e ortografia, relação com o tema proposto e originalidade.

As ilustrações pré-selecionadas serão expostas em locais a serem definidos para a etapa final de seleção, que consiste na votação do público e que escolherá o trabalho a ser utilizado como capa da publicação.

A Comissão Julgadora será responsável pela seleção dos trabalhos, não cabendo recursos sobre sua decisão final.

VII. DA DIVULGAÇÃO DOS TRABALHOS

Ao preencher e assinar corretamente a ficha de inscrição, os autores dos trabalhos concordam em participar da divulgação e publicação das produções premiadas.

Os nomes dos participantes premiados serão anunciados no mês de junho de 2012.

VIII. DA PUBLICAÇÃO E DIVULGAÇÃO

Os trabalhos selecionados em cada categoria serão publicados pelos realizadores e o lançamento da obra ocorrerá durante o Valeu, Professor 2012.

IX. CONSIDERAÇÕES FINAIS

- O Concurso Literário e as demais apresentações no Valeu, Professor, assim como sua divulgação têm cunho exclusivamente cultural e a participação não está subordinada a qualquer modalidade de álea ou pagamento pelos concorrentes, nem vinculada à aquisição ou ao uso de qualquer bem, direito ou serviço, de acordo com o disposto no Inciso II do Artigo 3º da Lei nº 5.768/71 e o Artigo 30 do Decreto nº 70.951/72.

- Os trabalhos publicados não terão efeito para fins de promoção e/ou evolução funcional.

- Ao inscrever-se para participar do Concurso Literário, o participante estará automaticamente autorizando o Realizador a utilizar, de modo gratuito, definitivo e irrevogável, seu nome e demais dados pessoais, imagem e som de voz em qualquer veículo de imprensa, mídia ou internet para divulgação dos trabalhos no evento Valeu, Professor 2012. Cede também ao Realizador todos os direitos autorais relativos à obra, que passará a ser de propriedade do Realizador.

- O participante, neste ato, assume plena e exclusiva responsabilidade pela obra produzida, por sua titularidade e originalidade, incluindo, sem limitação, responsabilidade por eventuais violações à propriedade industrial, direito autoral e/ou a quaisquer outros bens juridicamente protegidos, eximindo a SME de qualquer responsabilidade relativamente a tais fatos, aspectos, direitos e/ou situações.

- O presente Regulamento poderá ser alterado e/ou o Concurso Literário suspenso ou cancelado, sem prévio aviso, por motivo de força maior ou por qualquer outro motivo que esteja fora do controle da SME e que comprometa a realização do Concurso de forma a impedir ou modificar substancialmente a sua condução como originalmente planejado.

- O Realizador não será responsável por problemas, falhas ou mal funcionamento técnico de qualquer tipo em redes de computadores, servidores ou provedores, equipamentos de computadores, hardware ou software, nem por erro, interrupção, defeito, atraso ou falha em operações na utilização para obtenção das fichas de inscrição, incluindo, mas não se limitando, a falha do Realizador em recebê-las, em razão de problemas técnicos, congestionamento na internet ou no site ligado ao evento, vírus, falha de programação (bugs) ou violação por terceiros (hackers).

- Quaisquer dúvidas, divergências ou situações não previstas neste Regulamento serão julgadas e decididas de forma soberana e irrecorrível pela Comissão Julgadora mencionada no item VI (seis).

- Estão impedidos de participar deste Concurso os parentes diretos dos integrantes da Comissão Julgadora e da organização e operacionalização deste concurso.

- A participação neste Concurso implica aceitação total e irrestrita de todos os itens deste Regulamento.

- As eventuais pendências existentes deverão ser encaminhadas à Comissão Julgadora, no caso de qualquer dúvida ou Omissão.

Fontes:
http://www.sinesp.org.br/canal.asp?cod=342&cod_idioma=1&cod_conteudo=3967
Http://concursos-literarios.blogspot.com

Trova Ecológica 84 – Nemésio Prata Crisóstomo (CE)

Martins Fontes / SP (Livro de Sonetos)


O soneto acima – Como é bom se bom! – é considerado o seu verso mais famoso e, antes de tudo, um lema de vida que Martins Fontes sempre cultivou, como médico tisiologista da Santa Casa de Santos (a primeira do Brasil, fundada por Brás Cubas).
—–

A ÁGUA TODA SECOU ATÉ NOS OLHOS

— Meu culto ao Ceará, Coração do Brasil.

O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.

A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.

Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.

Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.

OTELO

Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.

Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
- Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!

Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!

Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!

BEIJOS MORTOS

Amemos a mulher que não ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa, por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos ao passado.

Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei, outrora, quanto pude,
porém mais deveria ter amado.

Choro. O remorso os nervos me sacode.
e, ao relembrar o mal que então fazia,
meu desespero, inconsolado, explode.

E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado, quanto amar devia.

BEIJOS NO AR

No silêncio da noite, aslta e deserta,
inebriante, férvido sintoma,
uma fragrância feminina assoma
e tentadoramente me desperta.

Entrou-me, em ondas, a janela aberta,
como se se quebrara uma redoma,
da qual fugira o delirante aroma,
que o mistério do amor assim me oferta.

De que dama-da-noite ou jasmineiro,
de que magnólia em flor, em fevereiro,
se exala esse cálido desejo?

Ela sonha comigo: esse perfume
vem da sua saudade, que presume,
embora em sonho, ter-me dado um beijo!

CREPÚSCULO

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um languor de mística esperança
e de docúra triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança,
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando,
da recôndita paz das horas esquecidas,
vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando…

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o réquiem de amor das ilusões perdidas.

DESARMONIA

Certas estrelas coloridas,
estrelas duplas são chamadas,
parecem estarem confundidas,
mas resplandecem afastadas.

Assim, na terra, as nossas vidas,
nas horas mais apaixonadas,
dão a ilusão de estar unidas,
e estão, de fato, separadas.

O amor e as forças planetárias,
trocando as luzes e os abraços,
tentam fundi-las e prendê-las.

E eternamente solitárias,
dentro do tempo e dos espaços,
vivem as almas e as estrelas.

LONGUS

É de manhã, no outono. À luz, o orvalho
doira os mirtais de trêmulas capelas.
e, sobre o solo, recobrindo o atalho,
há milhares de folhas amarelas…

A Filetas, ao pé de amplo carvalho,
ouvem as narrações e pastorelas,
um rapaz, aindaingênuo e sem trabalho,
e a mais linda de todas as donzelas…

É a narrativa do florir dos prados,
que o mais doce dos velhos barbilongos
conta ao casal de jovens namorados…

Silêncio… Ouvi-lhe o beijo dos ditongos,
os silábicos sons, que musicados,
cantam na amável pastoral de Longus…

MAIS FORTE DO QUE A MORTE

Chego trêmul, pálido, indeciso.
Tentas fugir, se escutas meu andar.
E és atraída pelo meu sorriso,
e eu fascinado pelo teu olhar.

Louco, sem o querer, te martirizo.
Em meus braços começas a chorar.
- E unem-se as nossas bocas de improviso,
pelo poder de um fluido singular.

Amo-te. A febre da paixão te acalma.
Beijas-me. E eu sinto, em lânguido torpor,
a embriaguez do vinho da tu’alma.

E ambos vemos, felizes, sem temor,
que, abençoada e lúbrica, se espalma
a asa da morte sobre o nosso amor!

SÃO FRANCISCO E O ROUXINOL

Um rouxinol cantava. Alegremente,
quis São Francisco, no frutal sombrio,
acompanhar o pássaro contente,
e começa a cantar, ao desafio.

E cantavam os dois, junto à corrente
do Arno sonoro, do lendário rio.
Mas Sào Francisco, exausto, finalmente,
parou, tendo cantado horas a fio.

E o rouxinol lá prosseguiu cantando,
redobrando as constantes cantilenas,
os trilados festivos redobrando.

E o santo assim reflete, satisfeito,
que feito foi para escutar, apenas,
e o rouxinol para cantar foi feito.

SONETO

Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
Nossa existência um júbilo perene!
Nenhum pesar que o espírito envenene
Empanaria a luz do céu risonho!

Não haveria mais: o adeus solene,
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
E o maior mal, que a todos anteponho,
A sede, a fome da cobiça infrene!

Eu exterminaria a enfermidade,
Todas as dores da senilidade,
E os pecados mortais seriam dez…

A criação inteira alteraria,
Porém, se eu fosse Deus, te deixaria
Exatamente a mesma que tu és!

MINHA MÃE

Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer – Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/biografia.php?a=22

Martins Fontes (1884 – 1937)


José Martins Fontes, poeta brasileiro, nascido na cidade paulista de Santos, às 17 h 30 min. em 23 de junho de 1884, foi um médico e poeta brasileiro. É considerado o melhor poeta de sua geração na lusofonia, e um dos dez melhores na língua portuguesa; os outros nove são Camões, Bocage, António Nobre, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Castro Alves, Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira (o brasileiro).

José Martins Fontes, o “Zezinho Fontes”, nasceu na casa 4 da praça José Bonifácio, filho de Isabel Martins Fontes e do Dr. Silvério Martins Fontes, frequentou os principais colégios de seu tempo, entre eles o Colégio Nogueira da Gama em Jacareí. Em sua vida de estudante em Santos, teve como professor Tarquínio da Silva, ao qual prestou homenagem posteriormente. Mais tarde vai para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio Alfredo Gomes.

Aos oito anos de idade, Martins Fontes publicou seus primeiros versos num jornalzinho denominado “A Metralha” dando os primeiros sinais do grande poeta que iria ser durante sua vida, do qual foram publicados 9 números aos domingos e cujo cabeçalho em três cores era feito por seu avô, o coronel Francisco Martins dos Santos. A 1° de maio desse mesmo (1892) estreia o moço poeta, recitando um hino a Castro Alves no Centro Socialista, organização marxista-leninista criada por seu pai. Com dezesseis anos, ele lê uma ode de sua autoria na inauguração do monumento comemorativo ao quarto centenário do Descobrimento do Brasil, levantado próximo à biquinha em São Vicente.

Em 1908, defendeu tese de doutoramento na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tornando-se médico sanitarista, tendo convivido com poetas como Olavo Bilac, Coelho Neto, Emílio de Meneses e outros. Depois de formado foi médico da Comissão das Obras do Alto Acre, interno da Santa Casa do Rio de Janeiro, auxiliar de Oswaldo Cruz na profilaxia urbana, médico da Santa Casa de Misericórdia de Santos, médico da Beneficência Portuguesa de Santos, inspetor sanitário em Santos e Diretor do Serviço Sanitário.

Também foi médico da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio, da Companhia Segurança Industrial, da Companhia Brasil, da Repartição de Saneamento e da Casa de Saúde de Santos. Durante a epidemia de gripe de 1918 tornou-se um dos beneméritos da cidade, desdobrando-se para socorrer os bairros do Macuco e Campo Grande e estendendo sua ação para a localidade de Iguape. Como médico, notabilizou-se como conferencista e foi tisiologista da Santa Casa de Misericórdia de Santos e destacado humanista, lutou junto com Oswaldo Cruz em defesa sanitária da cidade de Santos. Em seu consultório particular tratava de pessoas sem poder aquisitivo, não cobrando as consultas.

Fundou com Olavo Bilac uma agência publicitária para serviços de propaganda dos produtos brasileiros na Europa e em outros países. Em 1924 tornou-se correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Quando Júlio Prestes, presidente do Estado de São Paulo e candidato à presidência da República, partiu em viagem para percorrer os países da Europa e EUA, Martins Fontes foi convidado para acompanhá-lo como médico da caravana. Devido ao seu trabalho como conferencista conheceu o Brasil de norte a sul, e ainda a Argentina, o Uruguai, os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, a Espanha, a Itália e Portugal.

Colaborou literariamente com os jornais “A Gazeta” e o “Diário Popular” em São Paulo, e para o “Diário de Santos” e o “Cidade de Santos”, além de inúmeros periódicos do Rio de Janeiro e outras cidades.

Sua obra literária é bastante volumosa, chegando actualmente a cinquenta e nove títulos publicados, em poesia e prosa. Actualmente editadas em Portugal, sob coordenação de seu biógrafo oficial, Rui Calisto.

Foi titular da Academia das Ciências de Lisboa e, ao longo de sua vida, recebeu os títulos de comendador da Ordem de São Tiago da Espada, Cavaleiro da Espanha, Par da Inglaterra entre outras distinções. É patrono da cadeira n.° 26 da Academia Paulista de Letras.

Figura notável, era venerado pelo povo (notadamente pelos mais pobres). Sua morte causou grande consternação, tendo seu funeral, conforme testemunhos da época, paralisado a cidade. Seu túmulo no Cemitério do Paquetá, em Santos/SP, é um dos mais visitados e o povo acredita que o poeta continua a espalhar bondade mesmo após a sua morte, atendendo às preces que lhe são dirigidas.

Alguns livros de sua bibliografia publicada:

Da Imitação em Síntese, 1908, 78p.
Verão., 1917, 201p.
A Dança., 1919, 112p.
Granada., 1919, 27p.
A Alegria. 1921, 46p.
Pastoral., Março de 1921, 20p.
Arlequinada., 1922, 79p.
O Mar. 1922, 48p.
Marabá. Janeiro de 1922, 33p.
Boémia Galante. 1923, 370p.
As Cidades Eternas. 1923, 138p.
À Margem das Cidades Eternas. In: Revista de Filologia Portuguesa. São Paulo, I, 4, 1 de Abril de 1924, p. 49-71. (Obra encontrada por Rui Calisto. Pertence agora ao acervo deste investigador.).
Prometheu. 1924, 27p.
Volúpia. 1925, 169p.
Decameron. 1925, 106p.
Santos Suprema Glória da Pátria! 1925, 35p.
Partida para Cythera. 1925, 79p.
Vulcão. 1926, 204p.
No Templo e Na Oficina. 1927, 185p.
A Fada Bombom. 1927,48p.
O Colar Partido. 1927, 259p.
Rosicler. 1927, 81p.
Poesias. 1928,
Poesias Completas de Martins Fontes, 425p.
Entre outros

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/biografia.php?a=22
http://pt.wikipedia.org/wiki/Martins_Fontes

Ademar Macedo (Mensagens Poéticas n. 541)


Uma Trova de Ademar

Fiz minha casa de barro
ao lado de uma favela;
Lá fora, eu sei, não tem carro,
mas tem amor dentro dela!…
–ADEMAR MACEDO/RN–

Uma Trova Nacional

Pense bem nas atitudes
antes de emitir conceitos;
quem não conhece as virtudes
não deve apontar defeitos!
–ARLINDO TADEU HAGEN/MG–

Uma Trova Potiguar

Saudade de amor… lembrança,
que dói mais que qualquer dor!
Nem na velhice descansa,
quem tem saudade de amor!
–PROF. GARCIA/RN–

Uma Trova Premiada

1979 – Niterói/RJ
Tema : RENÚNCIA – Venc.

A pedra rude, pisada,
de um degrau, reflete bem
a renúncia de ser nada
para um outro ser alguém.
–CAROLINA RAMOS/SP–

…E Suas Trovas Ficaram

Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo queixume
um lamento sem tamanho…
–WALDIR NEVES/RJ–

U m a P o e s i a

Satisfeito, carrego a minha cruz
com a estrela da fé dentro da mente.
Vou lutar pra vencer os atropelos
sem temer o que esteja pela frente.
Sei que a senha da morte não tem prazo,
mas, enquanto não chega o meu ocaso,
sigo olhando pra luz do sol nascente.
–JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN–

Soneto do Dia

Pecados
–THALMA TAVARES/SP–

Eu tenho pecados, e muitos, não nego.
Só Deus é quem sabe das culpas que expio,
dos erros, das faltas que eu triste carrego,
que o sono me roubam, por noites a fio.

Porque aos teus braços me atiro, me entrego,
minha alma anda triste qual planta no estio.
Mas Deus é culpado, se não me fez cego
à rara beleza do teu corpo esguio.

Não sei de pecados, mais doces, mais quentes
que a luz de teus olhos, teus lábios ardentes
que enchem a minha alma de sol e calor.

Mas tenho certeza que os nossos pecados
por muitos que sejam, já estão perdoados,
que não é pecado pecar por amor.

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